domingo, 11 de abril de 2010

Nada Esconde Essa Minha Timidez



A forte onda synthpop revival que varre a música eletrônica atual continua gerando casos curiosos. Olha o duo nova-iorquino Shy Child, por exemplo. Imagine que seu recém-lançado "Liquid Love" fosse pras prateleiras no longínquo 1990 ao invés de 2010. Eu duvido muito que o pop eletrônico de forte sotaque oitentista perpetrado por Pete Cafarella (vocais, sintetizadores) e Nate Smith (bateria) fosse bem recebido naquela época - ainda mais usando esse bizarro teclado com braço semelhante ao de uma guitarra nas apresentações ao vivo - e ele provavelmente receberia um carimbo de "datado" na capa. Muito diferente das quatro estrelas (de cinco possíveis) que o The Guardian deu pro disco. A conclusão é um clichê surrado sem dó: não há nada mais antigo que o passado recente. Pode ser que para a nova geração de (muitos) sintetizadores nas mãos e (algumas) idéias na cabeça, o synthpop tenha surgido como alternativa viável de produzir música sintética acessível e que pode pegar tanto entre os fãs saudosistas do A Flock Of Seagulls quanto do The Presets. De vez em quando essas investidas resultam em espasmos pop de ótimos resultados, como algumas faixas deste "Liquid Love". Embora a dupla tenha escolhido a chiclete "Disconnected" para ser lançada como single, o oásis aqui é sem dúvida "Take Us Apart", com seus vocais dobrados à Supertramp e instrumental impecável - das slapadas do baixo à perfumaria de mil aromas dos teclados. A faixa-título também é OK: dançável, vocais em falsete, bom refrão. Pena que o disco não vai muito além disso, e a impressão que fica é de que o Shy Child realmente se intimidou diante da possibilidade de arriscar algo mais ousado do que cometer uma balada ("Dark Destiny") que deixaria os remanescentes do Mr. Mister orgulhosos, ou nomear uma faixa com o título de "Strange Emotion". Isso sim é cafona.  

"Take Us Apart", Shy Child

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Planeta dos Macacos

"Humbug", terceiro álbum de estúdio do Arctic Monkeys (lançado em Agosto do ano passado) rendeu mais um single (o terceiro): "My Propeller" saiu dia 22 de Março em tentadoras versões vinil 7" e 10". O single simples traz a faixa-título, obviamente, mais "Joining The Dots" como B-side. Já o dez polegadas vem com mais duas faixas inéditas: "The Afternoon's Hat" e "Don't Forget Whose Legs You're On". Alex Turner está cantando esplendidamente e o senso melódico da banda é invejável. Não sei se o crescente apuro musical do quarteto de Sheffield é inversamente proporcional à popularidade de seus singles, já que "My Propeller" chegou apenas em nonagésimo lugar na parada britânica (apesar de "Humbug" ter atingido o topo), mas a banda provou que já passou do estágio de curiosidade passageira. Fato estranho: quando ouvi "Joining The Dots" pela primeira vez, instantâneamente lembrei de "M", uma canção do The Cure do álbum "Seventeen Seconds" de 1980. As guitarras são idênticas. A pergunta é: foi uma citação ou chupação? Em tempo: "Join The Dots" é o nome de uma caixa do Cure lançada em 2004 e composta por 4 CDs com B-sides e raridades da banda de Robert Smith. Hmmmm...

Tire você mesmo suas conclusões. "Joining The Dots", por Arctic Monkeys:



"M", The Cure:

domingo, 28 de março de 2010

Piece Of Cake

Craig David é um cara esperto. E corajoso. Com pouco mais de dez anos de carreira, de gravadora nova desde outubro do ano passado e a fim de manter o alto número de cópias vendidas (foram mais de treze milhões até agora, contando quatro álbuns, uma coletânea e dezenove singles), o cantor inglês de R&B optou pelo caminho mais fácil: mergulhou no inesgotável catálogo da Motown e escolheu só o pão quente pra gravar um álbum de covers e versões de alguns dos maiores clássicos da gravadora de Berry Gordy. As covers incluem gemas como "Papa Was A Rolling Stone" (Temptations), "I Heard It Through The Grapevine" e "Mercy Mercy Me" (Marvin Gaye) e "Signed, Sealed, Delivered (I'm Yours)" de Stevie Wonder, que dá título ao disco com lançamento marcado pra 29 de Março no Reino Unido. David deve enfrentar uma onda de cara feia por parte dos puristas do gênero e é batata que vai ser chamado de aproveitador. Mas olha, ele canta bem. Tem um timbre de voz muito bom, tem suingue, e teve a manha de reconstruir "Stop, Look, Listen (To Your Heart)", originalmente uma  canção do Stylistics de 1971, regravada por Marvin Gaye e Diana Ross em 1974. Em sua "All Alone Tonight (Stop, Look, Listen)", Craig emprestou apenas o refrão da versão original e grooveou a faixa com um sacolejo de entortar o cangote. E, narizes torcidos à parte, essa é a melhor faixa de "Signed Sealed Delivered".

No semi-playback  de "All Alone Tonight" na performance abaixo, Craig David prova que não tem bom gosto somente na escolha do repertório. Com uma banda assim, quem liga se elas sabem tocar ou não?   



Versão original do Stylistics:



Por Marvin Gaye e Diana Ross:

sábado, 27 de março de 2010

Perdidas no Planeta

Alguns artistas deveriam pensar com carinho se vale mesmo a pena lançar um álbum ou se seria melhor concentrar as boas idéias nos singles. Caso do Disco Biscuits, banda de rock com tiquezinhos eletrônicos da Filadélfia. Não é que "Planet Anthem", o disco que eles acabaram de soltar no mercado, seja tão ruim. Ele tem bons momentos. Dois, pra ser mais exato. A faixa de abertura "Loose Change", com seu riff preguiçoso de guitarra e seus vocais chapados no melhor jeito Shaun Ryder de ser, é um deles. O mix de guitarras com batucada dance da faixa funciona tão bem que depois de ouvir algumas vezes bate até uma saudade do The Farm. A outra canção digna de nota é a viciante "On Time". Aqui a levada de baixo vai serpenteando junto com a genial  programação de bateria e os teclados vão subindo devagarinho na ponte pra um dos refrãos mais ganchudos que ouvi nos últimos tempos. E era isso. Se você ainda quiser pescar algo interessante, talvez encontre na climática (sem trocadilhos) "Rain Song" e no funk étnico de "Uber Glue", perdidas no meio das outras treze faixas. O que estraga o álbum são as tentativas disco-punk mal-sucedidas da trinca "You And I", "Sweatbox" e "Save Your Soul" e faixas completamente sem sal como "Fish Out Of Water" e "Big Wrecking Ball", rockzinhos sem a menor inspiração. As duas melhores faixas desse álbum já saíram no EP "On Time" do ano passado. É nele que se resume o que há de realmente bom em "Planet Anthem".



"On Time", The Disco Biscuits

terça-feira, 23 de março de 2010

Clichês Inéditos

Se você procura motivos para acreditar que o bom pop triunfará um dia, o Paper Aeroplanes certamente vai reforçar seus argumentos. Depois de um mini-álbum e dois EPs sob o nome Halflight, a dupla galesa Sarah Howells (vocais) e Richard Llewellyn (guitarras) decidiu mudar de nome em Março do ano passado e debuta com "The Day We Ran Into The Sea". São 12 canções para órfãos de bandas como The Sundays, pop de levada acústica, lindas melodias e com os vocais que realmente fazem a diferença de Sarah Howells, uma dessas cantoras que aparece a cada 20 anos nas Ilhas. A canção candidata a hit aqui é a faixa de abertura do disco, a bela "Cliché"; um elo perdido entre "There She Goes" do The La's e Sixpence None The Richer.






Vídeo oficial de "Cliché":



Voz e violão: