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sexta-feira, 9 de março de 2018

Sexta Feira Bagaceira: Tina Charles


Dia desses fui parar numa página do Youtube que trazia a primeira canção gravada por Björk, pirralhinha ainda, em algum lugar dos 70. Uma fofura. A música era "I Love To Love", de Tina Charles.

O single da cantora inglesa saiu em 1976, e com a disco a pleno vapor, foi hit fácil no mundo inteiro. Produzida por um dos top produtores da época, o indiano-britânico Appaiah Biddu, "I Love To Love (But My Baby Loves To Dance)" tem um arranjo adocicado de cordas e os agudos impressionantes de Tina Charles (então com tenros 22 aninhos), prontos pra espatifar as vidraças mais próximas.

"I Love To Love": disco britânica infiltrando-se nas paradas.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Londonbeat


Mezzo inglês mezzo americano, o quarteto Londonbeat parecia estar em todos os lugares em 1991. "I've Been Thinking About You" é uma espécie de Fine Young Cannibals houseificado e foi um hit devastador: chegou ao topo de mercados complicados como a Alemanha e Estados Unidos e a número dois na Inglaterra. Produzido por Martyn Phillips (The Beloved, Erasure), "I've Been Thinking About You" tem vocais soul num falsete afinadíssimo, piano sintético saltitante, guitarrinhas country & western e uma programação de bateria primorosa (repare na tenacidade de tapeceiro persa de Phillips ao encaixar os beats). São ingredientes que garantiram fácil o crossover rádios/pistas naquele inesquecível 1991, um ano especialmente foda para a dance music/eletrônica. Aqui no Brasil a febre durou mais uma temporada, quando a faixa foi incluída na trilha da novela O Dono do Mundo (exibida entre Maio de 1991 e Janeiro de 1992).

Computação gráfica paleontológica e muita cara de pau no vídeo do Londonbeat:

segunda-feira, 24 de março de 2014

Segunda Class: Dubstar


O Dubstar - como o nome parece sugerir - não é uma banda de dub reggae. As investidas do trio de Newcastle consistem num synth bem pop, sonhador e melancólico. Prova disso foi seu maior hit, o single "Stars", lançado em 1995. Pra deixar bem clara a incômoda pecha de one hit wonder, uma compilação dos hits do grupo, de 2004, foi convenientemente chamada de Stars: The Best of Dubstar.


Em meados de 2002, a vocalista do grupo, Sarah Blackwood, abandonou o Dubstar pra montar junto com Kate Holmes o projeto Client. A dupla já lançou quatro álbuns e, acaba de soltar o quinto (Authority). O som do Client é mais ou menos o que se transformou o Ladytron dos últimos discos: pop eletrônico tecnicamente correto, bem produzido; mas sem brilho, sem boas canções pra fazer a diferença.

O Dubstar continua na ativa, e segundo Blackwood, vem disco novo por aí. Se conseguirem reeditar qualquer coisa parecida com o diamante "Stars", tá valendo. Produzida por um dos caras que ajudou a definir o technopop inglês dos 80 (o americano Stephen Hague), a faixa estourou numa época em que o mundo ainda estava se refazendo do susto causado por Dummy, do Portishead, e qualquer coisa com andamento lento, beats de rap e um clima dolorosamente bonito como o dessa música, levava o carimbo de trip-hop na hora. Um momento e tanto.

"Stars": dream pop.

quinta-feira, 13 de março de 2014

TRNSTNS


Deve pintar esse ano disco novo do SBTRKT, sucessor da boa estreia homônima de 2011.

Por enquanto, Aaron Jerome começa a disponibilizar em vinil e digital uma série de EPs com material que não vai entrar no álbum, gravado de 2011 pra cá. O primeiro chama-se Transitions, e dá pra ouvir inteiro no site do mascarado.

Transitions tem seis faixas instrumentais e nenhuma relação com pista de dança (muito menos com bass drops de dubstep ordinário). A criatividade de Jerome salta aos ouvidos quando ouvem-se coisas como "Hold The Line" e "Resolute", onde batidas fraturadas colidem com arpejos de sintetizador, formando uma cascata multicolorida de sons - imagem fictícia bem representada pela capa do EP, acima. "Gamalena" sugere algum tipo de trilha ritualesca que vai ao encontro da imagem adotada por Jerome para aparições em público. "Kyoto" continua a exploração do darkismo proposta pelo produtor desde o primeiro disco, enquanto as baterias desorientadoras de "Stifle" projetam SBTRKT para o seu próprio futuro (que eu prefiro nem chamar de pós-dubstep). 

"Hold The Line": complexidade rítmica.

terça-feira, 4 de março de 2014

Shakin' That Bass


Sei não, mas periga passar meio batido o EP novo do Groove Armada.


Pork Soda traz três faixas de house com recortes vocais, baixos engessados e pouca variação melódica. Uns adereços a mais em "Hyde & Freak" (guitarra, sax) e o pianinho Chicago em "Jack in Black" devem garantir que o EP fique restrito às pistas, sem o airplay significativo dos tempos de "I See You Baby" e "My Friend".

"Jack in Black": back to the 90's?

segunda-feira, 3 de março de 2014

Segunda Class: Daley


Falei sobre Daley em Julho do ano passado, e agora sai o debut do cantor e compositor de Manchester, Days + Nights. Com um batalhão de produtores por trás da empreitada (são 12 - entre eles Pharrell Williams e Bernard Butler, ex-Suede), o álbum valeu o tempo gasto: Daley vem montando o disco desde 2012. Days + Nights é R&B quebradinho ("Broken"), soul ("Time Travel"), cordas ("Blame the World"), beats e texturas muitíssimo bem estruturadas. Um passo a frente pro R&B britânico, ante a estática da matriz norte-americana.

"Blame The World": arranjo luxuoso.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Pega Fogo, Cabaré


EP novo de Marc Almond, Tasmanian Tiger traz quatro faixas e uma sombra pálida do que foi o cantor no comecinho dos 80. Das tags que ajudavam a entender seu essencial Soft Cell (perversão, dor de cotovelo, kitsch, decadência, solidão, technopop), só sobrou a palavra "cabaré" pra definir a carreira solo de Almond (especialmente em seus lançamentos mais recentes). Sua voz continua intacta, cristalina, mas cantar bem até João Neto & Frederico cantam. O problema com Tasmanian Tiger é a falta de boas canções pra aproveitar o fole vocal respeitável de Almond. Experimente a fossa nova suntuosa à Angela Maria que se arrasta em "Love Is Not On Trial", ou tente encontrar algo animador nas duas faixas que parecem ter sido feitas sob encomenda pra um show exótico do Lido, "Tasmanian Tiger" e "Death of a Dandy" - ambas com arranjos de cordas de Tony Visconti (David Bowie, Morrissey). Meia estrelinha pro electro-soul "Worship Me Now" (escrita por Jarvis Cocker). E só.

"Worship Me Now": no limite do razoável.


sábado, 22 de fevereiro de 2014

A Flash In The Pan


Animadoras as duas faixas que o Klaxons soltou recentemente. Ainda é tempo de provar que a banda não é fogo de palha. O debut Myths of the Near Future (2007) foi um ótimo aperitivo, mas o pavoroso Surfing the Void (2010), deixou muita gente coçando a cabeça.

"Children Of The Sun" tem produção encorpada do irmão químico Tom Rowlands: batidão cheio de sintetizadores derretendo de um lado pro outro do fone de ouvido.



Curti mesmo foi "There Is No Other Time" (produzida pela novíssima dupla Gorgon City), mais a ver com o Klaxons de sete anos atrás. Vocais contidos, bom refrão, boa pra pista, pop. Gostinho de Cut Copy aí.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Baixaria


Citizen é o jovem produtor britânico Laurence Blake. A house de Blake - no recém lançado EP Climax - espalha vocais recortados (carregados de eco e reverb), bumbo pesadíssimo e timbres de orgão do sintetizador Korg M1, em três faixas.


No som do Citizen, o bicho pega mesmo é com o baixo. Ó a pressão desse subgrave em "U Don't Know", a melhor faixa do EP:

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Poison Heart


Ó que simpático o texto de apresentação do single novo do Simian Mobile Disco, Cobra Wine Bile: "É uma bebida alcoólica apreciada na China e no Vietnã, onde se acredita que o veneno e a bile da vesícula biliar melhoram a virilidade masculina, entre outros benefícios. Consumir o veneno faz de você um homem, ao que parece... cobras são mergulhadas no vinho, ou a bile é espremida diretamente em um copo." Urgh.


A faixa em si, tem um certo amargor indelével do techno: 4x4 ininterrupto e marcação sombria de orquestra sintética por toda a extensão. Desce mais uma, Simian.

"Snake Bile Wine": veneno para as pistas.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Péssima Viagem

 
Começamos mal 2014. Conselho de brother: não ouça o disco novo da Sophie Ellis-Bextor, Wanderlust. Já sofri por você. Olha, pra ser bem polido e amável, vou me conter e dizer que é só um lixo. Para os sadomasoquistas que não seguirem meu conselho, peço que não se impressionem com os arabescos ameaçadores da abertura "Birth Of An Empire", isso é só cafona e suntuoso mesmo. E coros barrocos vêm acompanhados de rufos de tambores... nossa. Agora, pega o pior do ABBA (pensa em "Chiquitita" ou "Fernando") e veja como a delicinha Sophie concentrou isso numa papa açucarada nas tenebrosas "Young Blood" (primeiro single do álbum) e "Interlude" (dá pra aproveitar que elas vem juntinhas no meio do disco e lavar a louça antes de partir pra outra metade). Dá medo, sério. Pra ter ideia de como o negócio flui eclético (ou musicalmente perdido, você decide), até valsa tem! Acontece em "Love Is A Camera", um improvável cruzamento entre André Rieu e Bucks Fizz. Wanderlust encerra melancólico com uma canção voz e guitarra numa vibe assim meio Mágico de Oz, sabe? ("When The Storm Has Blown Over").

Pena, viu. Ela é admiravelmente bonita, canta direitinho, mas cada vez mais penso na carreira dela como vocalista convidada. Trabalho autoral, esquece.

"Young Blood"; prepara a caixinha de Kleenex.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Sexta Feira Bagaceira: Classix Nouveaux


"Guilty" foi a canção mais conhecida da curta carreira dos ingleses do Classix Nouveaux. Lançada em 1981 - no período mais glamouroso do efervescente new romantic - o single teve desempenho modesto no paradão inglês, nem entrou no Top 40. Mas experimentou uma certa dose de popularidade com um technopop chiclete impulsionado por um baixo disco excepcionalmente bem executado e também pela figura esquisitíssima (e carismática) do vocalista Sal Solo, uma espécie de Nosferatu da new wave britânica. Não sinta-se culpado por gostar dela.

"Guilty": festa estranha, gente esquisita.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Segunda Class: Pink Floyd


"Em Violator, tentamos unir a eletrônica ao feeling do blues".

Assim Dave Gahan, vocalista do Depeche Mode, definiu o melhor disco de sua banda, em 1990. Não que ele reivindicasse a autoria do experimento, mas dezessete anos antes, o Pink Floyd já havia conseguido a inédita fusão. Aperte o cinto.

The Dark Side Of The Moon: pra viajar no cosmos, não precisa gasolina.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Sexta Feira Bagaceira: Queen


No começo dos 90, consegui com um amigo o vinil de A Night At The Opera (1975), do Queen, pra ouvir. Pura curiosidade, já que não era fã da banda. Até curtia as experiências technopop do grupo inglês (a saber, "Radio Gaga" e, especialmente, "I Want To Break Free", single de 1984 que sempre rolava na pista que eu frequentava), mas fora isso, aquilo me parecia exibicionista demais, rock de arena. Pra mim, grande apreciador da elegância, eficiência e discrição silenciosa de tecladistas como Chris Lowe (Pet Shop Boys), Dave Ball (Soft Cell) e Vince Clarke (Erasure), passava da conta aquela exuberância toda.

Enquanto ouvia os trinados de Freddie Mercury em "Bohemian Rhapsody", peguei o encarte pra ler. Ali, o choque estampado em caixa alta: NO SYNTHESIZERS! Ah, é? Além de espalhafatosos, preconceituosos? Subi o braço do toca discos na hora. E desisti do Queen.

Um tempo depois, o álbum The Game (1980) veio parar na minha mão (desta vez, não lembro como). A agulha pousou na faixa de abertura, "Play The Game", e eu achando péssimo. Solos de guitarra não iriam, definitivamente, me conquistar. Nem os vocais quadruplicados.

Minha relação com o Queen começou a mudar com a segunda faixa, "Dragon Attack". Peraí, tinha um balanço ali. A bateria tinha uma pegada diferente, a guitarra corria juntinho com o baixo num riff chicletaço (apesar de mais um solo que pra mim, à época, parecia desnecessário). E então, depois que minhas orelhas ficaram em pé com "Dragon Attack", veio "Another One Bites the Dust". Com um baixo totalmente inspirado em "Good Times", do Chic, uma guitarrinha funky e uma batida dançante, ali estava o Queen que eu aprendi a admirar: um grupo de músicos incrivelmente competentes, ecléticos e com um frontman impressionante.

E enquanto dava uma geral no encarte, novamente uma inscrição me chamou atenção:
"This album includes the first appearance of a synthesizer (an Oberheim OBX) on a Queen album."

Levou cinco anos pra banda ligar o "foda-se, é tudo música".


"Another One Bites the Dust": baixo pra tirar pica-pau do oco.  

domingo, 29 de dezembro de 2013

Disco Drum'n'Bass do Ano: Rudimental


A foto acima diz muito sobre o meu disco preferido de drum'n'bass em 2013. Tem um pouco de cada gênero dessas prateleiras reviradas em algum sebo pelo quarteto inglês Rudimental em seu debut Home, que saiu em Abril.


E que estreia. Seis singles foram extraídos do disco - que também chegou ao número um na parada inglesa, números que endossam a aceitação do som criado pelo grupo. A mágica aqui consiste na fusão de ritmos e texturas eletrônicas não pasteurizadas com uma vibração de forte apelo emocional - providenciada pelos órgãos Hammond, metais, cordas e, principalmente, por um senhor time de vocalistas convidados. É soul music moderna, embasada no difícil equilíbrio entre instrumentos acústicos (e não em samplers) e programações.

O drum'n'bass aparece em suas várias ramificações, do jungle enlouquecido de "Give You Up" até os beats atmosféricos de "Powerless" (esta com uma magistral sessão de cordas e vocais impressionantes da britânica Becky Hill):



Liquid funk acessível e radiofônico, "Waiting All Night" foi um dos singles número um de Home, no Reino Unido. Mais uma grata surpresa ao microfone, a cantora e compositora Ella Eyre tem apenas 19 anos, mas cantou com o desembaraço de uma Adele num hit com alto potencial de pista e um explosivo arranjo de metais:



A ótima Emeli Sandé canta em duas faixas, no soul pop "Free" e na dramática "More Than Anything", com backing vocals de elevação quase espiritual:



Outro single número um na Inglaterra, a popíssima "Feel The Love" aparece em duas versões na Deluxe Edition de Home: o bom soulful house do mix "Rudimental VIP" e o liquid funk original - que quase se perde entre um riff ordinário de sintetizador e uma batida que lembra um Pendulum genérico. Felizmente, a boa linha de baixo (de quatro cordas, mesmo) e o solo de trompete aliviam um pouco o apelo excessivo da faixa:



Pra quebrar o ritmo incessante das baterias, o Rudimental ainda investe em outras frentes, com resultados convincentes: downtempo regueiro que se transforma em house caribenha na deliciosa "Hide", soul encharcado de órgão Hammond em "Home", o R&B de "Hell Could Freeze", o dub de baixíssimas frequências de "Solo" e a house music elegante de "Baby" e "Spoons".

O Rudimental consegue com seu álbum de estreia um feito perseguido à exaustão: ser muito bem sucedido artística e comercialmente, focado num gênero que não é pop por excelência, como o drum'n'bass.

Com uma produção esmerada, arranjos brilhantes e vocais de tirar o fôlego, Home não é só o melhor disco de drum'n'bass de 2013, é um dos melhores discos lançados nesse ano.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Ordinary Party


Kele Okereke periga chamar mais atenção com seu novo EP Heartbreaker porque ele é o vocalista do Bloc Party que abraçou de vez a dance music e não exatamente por causa das três faixas do disquinho.


O conteúdo é uma deep house competente e, vá lá, eficiente, mas que não ultrapassa a temperatura do corpo. E tem gente do Azerbaijão ao Zimbábue fazendo esse som aí. O que faria Kele afastar-se da manada com essa dance genérica?

"Heartbreaker": 37 graus Celsius.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Disco Synthpop do Ano: Mesh


Mesmo cambaleante e repetitivo nos últimos tempos, o synthpop sempre vai ter cadeira cativa aqui no blog. Comecei a me interessar por música ouvindo passivamente o A-ha no meio dos 80, que me levou a conhecer Orchestral Manoeuvres in the Dark, depois Erasure, Pet Shop Boys, New Order e Depeche Mode.

Foram poucos álbuns bacanas do gênero em 2013, praticamente nada de bandas novas com discos relevantes. Os melhores lançamentos foram dos medalhões acima. O blues sintético do Depeche Mode em Delta Machine, a agradável visita do OMD ao seu próprio catálogo em English Electric e o retorno dos Pet Shop Boys à música de pista em Electric.

E teve o Mesh.


O Mesh parece ter nascido pra ser coadjuvante. Desde sua fundação (1991, em Bristol, Inglaterra), nunca teve um hit memorável ou um disco inesquecível. Mas tem dois bons motivos pra merecer sua atenção: primeiro, eles não imitam o Depeche Mode - coisa que 90% dos grupos emergentes da cena alemã, por exemplo, fazem. Segundo, o Mesh não é retrô. Não soa como um cópia caricata de artistas new romantic do começo dos 80 (penso em La Roux enquanto escrevo isso).

Automation Baby é o sétimo álbum do Mesh. Saiu no começo do ano, e é mais uma coleção de faixas a ser ignorada pelas paradas (exceto na Alemanha, onde concentra-se o maior público do grupo). Afora o sucesso comercial (de importância questionável), o disco firma-se como o melhor e mais equilibrado de sua carreira; é a consolidação da fórmula technopop em 14 faixas, desde a inflexibilidade da dupla no uso do sintetizador como instrumento principal até as composições que resumem o estilo: tudo aqui é pop e eletrônico.

 Mark Hockings (vocais, guitarras, teclados e programações) e Richard Silverthorn (teclados e programações) são muito bons de melodia. Não há uma faixa que não tenha um bom gancho, seja um refrão, seja um riff. O single mais recente, "Adjust Your Set", é uma boa amostra. Sustentando as estrofes com uma batida robusta, ela vai crescendo devagar com timbres sombrios, até culminar no ótimo refrão de tons mais otimistas:



Faixas cativantes e dançáveis como a abertura "Just Leave Us Alone" (esta com guitarras quase escondidas no arranjo) passam longe de meros arremedos saudosistas. Aqui o Mesh celebra o presente (note como casou bem com a faixa a inserção de um bass drop típico de dubstep, há exatos 03:18 da canção), sem deixar de lado a raiz electropop e sem se deixar seduzir de forma gratuita por sons que estão pegando atualmente, a dupla não perde o foco no futurismo da sua música:



Em andamentos mais lentos e pesados, o Mesh também se sai bem, especialmente valorizados pelos vocais enérgicos de Mark Hockings e pelas construções eletrônicas épicas - mas não pomposas ou grandiosas - da dupla. Mesmo em composições de estrutura mais complexa como "This Is The Time" (com toques de industrial), a base é contida, os elementos combinam-se entre si sem os exageros que sintetizadores mal pilotados poderiam causar:



"Flawless" é outra composição dedicada exclusivamente aos sintetizadores e à batida pesada e dançante - synthpop clássico - que explode num excelente refrão pop (e ele é exatamente como o nome da faixa: sem defeito):



 "The Way I Feel" é a única música em que um instrumento acústico (o violão, no caso) se sobressai, rivalizando com uma bela sessão sintética de cordas e dramáticos coros celestiais, numa balada honesta e harmoniosa: 



Automation Baby ainda tem outras boas faixas ("Taken For Granted", "Born To Lie", "You Want What's Owed To You"), que, sem cabecices, politizações vazias ou pretensão, suprem perfeitamente o fã carente de pop eletrônico redondinho, bem produzido e com vários refrões bons na manga, como esse oferecido pelo Mesh.

Synthpop puro, cabeça erguida e olhando pra frente, nesse ano ninguém fez melhor.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Segunda Class: Glass Animals


Glass Animals é um quarteto de Oxford, Inglaterra. Seu som é um blend relax de delicados vocais soul salpicados com teclados e beats de R&B. Tem um aspecto indie, mas sua música vai bem além. É inteligente, com arranjos bem estruturados, mas não deixa de ser de fácil acesso. O destaque do bom EP epônimo (com o perdão do cacófato) que a banda lançou agorinha (saiu pelo novo selo do multi premiado produtor Paul Epworth, o Wolf Tone) é a faixa "Black Mambo", pontuada por cordas, forrada com uma bela linha de baixo e backings apaixonados. Sei não, hein. Me cheira a sucesso em 2014.

"Black Mambo": "Slow down, it's a science..."

domingo, 15 de dezembro de 2013

Muito Bom Pra Ser Verdade


Finalmente caiu a ficha. O Rapture nunca passou de uma bandinha mediana - alguém resolveu carimbar disco-punk na testa deles - e vá lá que eles tenham no portfólio faixas interessantes como "House Of Jealous Lovers" (2002), mas levanta a mão quem acha que Luke Jenner canta bem. Com seu timbre anasalado - algo entre Pato Donald/Bart Simpson - Jenner era a pedra no sapato, a batata quente na boca, a... bom, você entendeu. Com ele, curtir o Rapture era tarefa ingrata. Pois bem, no seu novo álbum, 2000Hz, alguém teve a abençoada ideia de sugerir que ele se afastasse do microfone. Foi o que aconteceu. E uma nova banda surgiu. Mais eletrônica, diversificada, suingada, viajandona, e muito, mas muito mais dançante.


Bom, isso seria bom demais pra ser verdade. O Rapture, aquela banda nova-iorquina, não mudou nada, não que eu saiba. Luke Jenner deve estar armando outro álbum, sucessor do tenebroso In the Grace of Your Love, de 2011.

O The Rapture em questão é o inglês Stuart Lynch. Seu quarto álbum, 2000Hz, saiu no meio do ano e é o resultado da dedicação solitária deste tecladista, engenheiro de gravação e produtor, no estúdio. E apesar de trabalhar sozinho, o disco soa como uma coleção de faixas de quem anda interagindo muito com pessoas de gostos bem diferentes. É um grande barato que andava meio esquecido: gravar faixas de gêneros que são como óleo e água, mas fazem todo sentido num mesmo disco de eletrônica.

Nessa babel estilística, há desde o trance nível Tiësto - você decide se isso é bom ou ruim - em "Feel What You Feel" e "The Never Man", até o jungle mais casca-grossa (na definitivamente enlouquecida "2000hz"). No meio disso, bleeps de techno retrô ("Cobwebs & Clowns"), texturas ambient ("Listen", "Smoke & Mirrors") e breakbeat/industrial sujinho ("Theme From Silicon Dust"). Ocasionais guitarras, percussão ("The Maybe Man") e baixo ("In My Sight") temperam o molho sintético de Lynch.

2000Hz não é nada original, mas diz aí, qual foi o último disco de eletrônica realmente inovador que você ouviu? Sem forçar muito a barra, é um rolê interessante por ritmos e timbres desiguais, mas que aparecem bem amarrados nas onze faixas. O mais curioso dessa história é que Stuart Lynch cometeu um álbum de eletrônica em 2013 que não soa atual, e a dúvida que fica é se isso foi intencional ou não. Pode ser um atrativo a mais pra ouvir o disco.

2000Hz, o álbum: só o gostinho.

Por Pouco


Sou fã do Stuart Price (responsável direto pelo melhor disco de pista da Madonna, Confessions on a Dance Floor, de 2005), mas seu projeto synthpop Zoot Woman, ainda não me convenceu.


E não vai ser com "The Stars Are Bright" - novo single do trio - que vou me deixar persuadir. Seus sintetizadores agressivos fazem um bom contraponto aos vocais adocicados (que são apenas OK, lembrando o xaroposo Owl City), mas faltou alguma coisa. Um refrão a altura, sei lá. Primeira faixa que aparece do próximo álbum do Zoot Woman (Star Climbing), "The Stars Are Bright" é o tipo de música pra se gostar de imediato, mas não vai ficar na sua memória por muito tempo. Quiçá no seu HD.

"The Stars Are Bright": o eterno synthpop revival.