As cenas são, vá lá, clássicas: Jennifer Beals voando de um lado pro outro em piruetas improváveis, Jennifer Beals suarenta acelerando estática no chão da sala, Jennifer Beals dançando pra geral num inferninho. Ficou pra sempre na minha retina e é a única coisa que lembro com clareza do blockbuster Flashdance (1983), um filme que deve ter passado dezoito vezes na Sessão da Tarde. O som que movimenta a ofegante atriz durante a performance é "Maniac", single de estreia de Michael Sembello, um ex-músico de estúdio que emprestou seus dotes com as seis cordas pra gente como Michael Jackson, Diana Ross, Chaka Khan, George Benson e Donna Summer, até apostar na carreira solo e emplacar um número 1 no Hot 100 da Billboard, logo de cara. Estrutura de synthpop com pegada de Hi-NRG, "Maniac" é uma boa canção pop que acabou alavancada por um filme despretensioso mas que comercialmente, deu muito certo e levou Sembello pra galeria dos one hit wonders oitentistas.
Também vale o confere na atualizada que os italianos do Bloody Beetroots deram na faixa, em 2007:
O sucesso de lá nem sempre é o sucesso daqui. Conheci o Dead Or Alive na
virada dos 80 pros 90, porque "Come Home With Me Baby" martelava direto
nas FMs. Um tempo depois fui descobrir que o grande hit do grupo
britânico era "You Spin Me Round (Like a Record)"
(1984), primeiro (de vários) número um na parada inglesa produzido pelo
trio Stock, Aitken & Waterman. Não que o som do Dead Or Alive
tivesse algo a ver com o pop pasteurizado do pessoal que estava sob as
asas dos produtores: com a postura extravagante do bom vocalista Pete
Burns na linha de frente, o grupo livrou-se das origens pós-punk/góticas
(Wayne Hussey, do The Mission, fez parte da formação inicial da banda) e
juntou Hi-NRG com synthpop mais a androginia provocante de Burns - algo
entre Alice Cooper e Boy George - pra produzir hits de pista explosivos
como essa "Come Home With Me Baby", confortavelmente inserida em sets
de freestyle e house. Burns empilhou plásticas e polêmicas até falecer
em Outubro de 2016, vítima de um ataque cardíaco.
Só fui conhecer a cantora, atriz e modelo neozelandesa Kimbra em 2012 por causa do multi platinado single "Somebody That I Used to Know", que ela gravou com o belga esquisitão Gotye - um ano antes ela havia debutado com o elogiado Vows. Passei batido. Assim como também nem fiquei sabendo do segundo disco, The Golden Echo, de 2014. Nesse meio tempo, se ouvi alguma coisa da guria, entrou aqui e saiu aqui (aponta os indicadores para as orelhas). Bom, ela acabou de lançar "Like They Do On The TV", o quinto (!) single do seu novo álbum, Primal Heart, que sai no final de Abril. Esse disco não pretendo perder, porque "Like They Do On The TV" me pegou já nos primeiros 30 segundos (fora o que ela é gata).
"Like They Do On The TV": finalmente ela acertou no corte de cabelo.
Chris Glover, a.k.a. Penguin Prison, DJ e produtor americano, vai pra dez anos de carreira e nesse (pouco) tempo enfileirou dois álbuns, vários singles e EPs e uma batelada de remixes (já levou pra mesa de cirurgia gente como Jamiroquai, Ellie Goulding, Goldfrapp, Faithless e Lana Del Rey). Inegavelmente, tem talento. Porque ainda não "aconteceu"? Não sei, coisas do pop. Seu debut autointitulado de 2011 é muito bom (duvido que alguém lembre de alguma coisa desse disco). Bom, ele continua tentando, como mostra seu novo EP Turn It Up. Altos e baixos no mini-disco (que saiu exclusivamente em formato digital). A faixa título é o electropop habitual do artista: bem feitinho, dançável, refrão ganchudo. Tudo parece estar no lugar certo... mas tem uma coisa que não me deixou ouvir mais do que duas ou três vezes a faixa: enjoa fácil. O mesmo vale pra "Keep Coming Alive", a segunda do EP. Já "Do Me Like That" exagera na vibe Grease enquanto bobinha e açucarada. A única música que realmente chama atenção aqui é a Nu-Disco "On Your Side", com uma mão nos vocais da musa-cult-indie-pop Soren Bryce. Espacial e dançável, pop onírico e com o nível de sacarose na medida certa. Aí sim.
Com o novo single "My Name Is Mars", os synthpoppers californianos do Capital Cities vão se candidatando fortemente a um lugar no Hall da Fama dos One Hit Wonders (só que a música em questão não é essa e sim a boa "Safe and Sound", de 2011). "My Name Is Mars" vem sem os onipresentes trompetinhos já ouvidos em outras faixas da dupla. Também vem sem um bom refrão, sem um instrumental que faça a diferença, sem inspiração, sem sal e sem graça. Ano passado saiu o promissor EP Swimming Pool Summer, mas isso aqui é decepcionante. Pra uma banda mais pop do que synth, é grave.
Mais uma faixa especialmente bem feita dos australianos
do Flight Facilities, o novo single "Need You" (com vocais da neozelandesa NÏKA), não deve ir muito além dos pendrives de DJs de
clubes alternativos minúsculos. Entenda: deveria ir longe. É um pop
dançável tão bem acabado que merecia chegar num público realmente
grande. Não me pergunte como. Mas que a música é muito, muito legal, é.
O hilário vídeo de "Need You": Schwarzenegger em algum lugar dos 70, procurando sua cara-metade.
The National eu acho chato pra cacete, mas até que o vocalista da banda, Matt
Berninger, não conseguiu estragar a bela "My Enemy", nova do Chvrches.
Pop de sintetizador com aquela carga de dramaticidade de plástico que
poderia estar na trilha de qualquer filme do John Hughes. "My Enemy" é uma canção bem melhor que "Get Out", lançada mês passado, e é outra faixa que estará em Love Is Dead, próximo álbum do trio escocês cuja data de lançamento foi revelada semana passada: 25 de Maio.
"My Enemy": o bom synthpop nos trilhos, novamente.
Bem consistente esse Through The Walls, novo disco do trio dinamarquês WhoMadeWho (2018, saiu pela prestigiada gravadora alemã Gomma Records). Já ouvi outros álbuns da confusa discografia da banda (iniciada em 2005), mas nada que merecesse ficar armazenado em alguma gaveta menos acessada do meu cérebro.
Mesmo com alguns (poucos) momentos de experimentalismo estéril como a chatíssima "I
Don't Know" ou a indecisa "Surfing on a Stone" (uma pretensiosamente
delicada balada bem ao gosto dos fãs do - argh - Coldplay), Through The Walls está
quase lá (mesmo que eu nem saiba exatamente onde é "lá"). Músicas
totalmente dançáveis como "Dynasty" e "Funeral Show" (a despeito do
título) e seus basslines à Peter Hook,
puxam a média pra cima. Há ainda incursões pelo synthpop (na belíssima
"Goodbye to All I Know" e sua variada paleta de timbres), farta
distribuição de criatividade nos sintetizadores ("Keep On", "If This Is
Your Love") e transito livre entre o indie rock e a eletrônica. Vale
conhecer.
"Dynasty": um dos (muitos) bons momentos deThrough The Walls.
É aquela história do "gostei mas não amei". "Get Out" foi pro ar ontem e é o mais novo single dos synthpopers escoceses do Chvrches. É também a primeira faixa de trabalho de Love Is Dead, terceiro disco do trio, que sai ainda este ano. É uma canção bem construída, com (obviamente) sintetizadores por todos os lados: do emulador de baixo até o entra-e-sai de efeitos e timbres forrando a estrutura. O problema aqui (pra mim) é que fiquei com a impressão que o refrão é caça-likes, algo que a Kylie Minogue gravaria com um pé nas costas, se é que você me entende. Com uma melodia facinha, mais pop do que synth, "Get Out" deve subir alto no paradão inglês (e acho que só lá), mas nem toda a estranha beleza e o carisma espontâneo da vocalista Lauren Mayberry me tiram da cabeça que de candidatos a Kylie Minogue o pop tá assim ó.
Um cara que nasceu em Chicago e foi criado em Detroit só podia ter house e techno na cabeça. Esse é Felix Stallings Jr. - a.k.a. Felix Da Housecat - e é exatamente isso que o DJ e produtor mostra em Founders of Filth Volume Four, seu mais recente EP, lançado pelo seu próprio selo, Founders of Filth. A série, iniciada ano passado e que já contou com a colaboração de gente do calibre de Jamie Principle, traz Felix usando alguns de seus diversos aliases (Aphrohead, Thee Madkatt Courtship) para três faixas bem distintas entre si neste quarto volume: dos enxertos de synthpop em "Neon Flyy" (com participação do produtor Clarian North e Blakk Hazel), o clima sexy e percussivo de "Quicksand" e "Death Toll Cinema", uma música com vocoder e uma levada de baixo que poderia estar em qualquer disco do AIR. Maravilha.
O EP está disponível pra audição no Spotify e está à venda no Beatport.
"Too Shy" foi o único hit digno de nota do Kajagoogoo. Nem sei se foi
sucesso no Brasil (em 1983 eu tinha oito anos e música pop não pegava
nem Top 20 na minha lista de preferências), mas provavelmente as FMs
devem ter vendido o grupo britânico como o novo Duran Duran. Não por
acaso. O single foi produzido por Nick Rhodes (tecladista duranie) e
Colin Thurston (produtor dos dois primeiros álbuns do grupo preferido da
falecida Lady Diana), bateu em primeiro no paradão inglês e não fez
feio do outro lado do oceano (#5 na Billboard). O álbum de estreia White Feathers
veio em seguida e nem me arrisco a recomendar: é ruim demais. "Too
Shy", no entanto, tem seu charme. A linha de baixo é um trabalho
competente do baixista Nick Beggs e o refrão, reconheço, é difícil
esquecer. A banda tentou mostrar o resultado do seu processo de
maturação no disco seguinte, Islands (1984), com enxertos
de soul e jazz, mas já não tinha muita gente interessada - ainda mais
sem a presença, hããã, "carismática" do vocalista Limahl, que emplacou um
hit solo nesse mesmo ano (a baba "NeverEnding Story", produzida por Giorgio Moroder e música tema do filme de mesmo nome).
Novinha do duo norueguês Atella, "Alive" precede o EP Beacon One, que sai em Fevereiro pela sempre atenta gravadora belga Eskimo Recordings. Beats limpos e sintetizadores cirurgicamente colocados entre os vocais, o Atella mostra talento e apelo pop e lembra alguns dos melhores projetos sintéticos vindos da Escandinávia (Röyksopp, os primórdios do The Knife e a disco cósmica de Lindstrøm, Prins Thomas e Todd Terje). Deve ser alguma coisa na água (gelada) do Mar do Norte.
Minha lista de músicas preferidas de 2017 é composta por dez faixas bem distintas entre si. O ponto aqui não é se uma música é melhor que a outra; a ordem da listagem diz respeito somente ao que eu mais gostei, simples assim. Os títulos que estão em vermelho levam pro post da canção. Tem pop, drum'n'bass, R&B, synthpop, funk, indie... mas todas com pelo menos um dos três ingredientes em sua receita: são dançáveis, tem groove ou tem algum elemento forte de eletrônica. Exatamente do que o blog trata. Eis:
O MGMT sempre foi meio esquisitinho, psicodélico e chapado em sua eletrônica revisionista de, até agora, três álbuns: a boa estréia Oracular Spectacular (de 2007, que gerou os ótimos singles "Kids", "Electric Feel" e "Time To Pretend"), o fraquíssimo Congratulations (2010) e o autointitulado MGMT (2013), que passou totalmente batido (ao menos pra mim). Eis que a dupla americana formada pelos cantores e multi-instrumentistas Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser retorna agora com um single ("Little Dark Age") e um álbum de mesmo nome, programado pro início do ano que vem. Vídeo e música mantém o padrão imposto especialmente no primeiro álbum - dosando pop e experimentação -, mas nesse single o MGMT aponta seus sintetizadores mais em direção à 1982 do que 1968. É um synthpop de sobretons neogóticos e belos arpejos em progressão no refrão. Gostei bastante.
Tem tudo pra ganhar sua antipatia: uma canção que se chama "Oh Susie" e uma banda chamada Secret Service.
"Oh Susie" é o primeiro single do grupo sueco, lançado em 1979. Ficou 14
semanas em primeiro lugar na parada local, depois virou hit mundo
afora. Aqui no Brasil saiu nessa versão sete polegadas acima. A faixa
pega carona em alguns bondes da época: o emergente technopop, uma
levadinha disco, soft rock, new wave. Gosto muito dos
sintetizadores e o refrão dá pra decorar na primeira audição.
Estranhamente constrangedora, datada. Na pista, a reação quase sempre é
um misto de incredulidade e contentamento. O ex-vocalista da banda, Ola
Håkansson, fundou a Stockholm Records em 1992, lançando nomes como The Cardigans. O que o redime, um pouco, dos pecados cometidos durante o período de atividades de sua banda.
Os australianos do Cut Copy acabaram de divulgar o segundo single do novo álbum Haiku From Zero, "Standing in the Middle of the Field". Pra você (como eu) que ficou mal acostumado com o alto nível
do (synth)pop urdido pelo quarteto na boa estreia Bright Like Neon Love (2004) e, especialmente, no ótimo In Ghost Colours
(2008) e viu a coisa desandar nos três álbuns seguintes, tenho que dizer
que a nova música não lembra - nem de longe - aquele Cut Copy do começo da década passada. Percussiva e preguiçosa, "Standing in the Middle of the Field" arrasta-se por cinco minutos e meio de vocais sonolentos e instrumental sem inspiração. Decepcionante.
O single anterior, "Airborne", deu alguma esperança de que Haiku From Zero pudessetirar o Cut Copy do estado de letargia em que a banda se encontra nos últimos anos: com sua guitarrinha funkeada, uma linha de baixo toda trabalhada no talento e vocais
indie-verãozinho bem apreciáveis, ao
menos é melhor que qualquer coisa que eles lançaram de 2011 pra cá.
O vocalista, tecladista e guitarrista Dan Whitford explicou em comunicado a imprensa que "...é a primeira vez que criamos um álbum com cada membro da banda em diferentes cidades em todo o mundo e durante seis semanas nos reunimos novamente no estúdio em Atlanta para fazer essas gravações. Para mim, provavelmente é a melhor destilação do que nossa banda representa, combinando nossa sensibilidade de produção de estúdio com a energia de nossas performances ao vivo. Eu não poderia estar mais feliz com a forma como acabou e estou realmente animado para os fãs ouvirem o próximo capítulo do Cut Copy." Quando li isso, lembrei na hora do que Martin Gore, do Depeche Mode, falou simultaneamente ao lançamento do clássico álbum Violator, de 1990: "Você tem de se lembrar de que nenhuma banda tem qualquer perspectiva sobre o disco que ela acabou de finalizar. Então podem muito bem sair dizendo que é o melhor que eles já fizeram." Sábias palavras.
Haiku From Zero tem nove faixas e o lançamento está programado para 22 de Setembro, pela gravadora nova-iorquina Astralwerks.
Disco novo do Hercules and Love Affair à vista: Omnion é o quarto do grupo, criado e liderado pelo DJ e produtor americano Andy Butler. Com uma discografia irregular até agora, o projeto talvez tenha sofrido um pouco com o fato de ter feito uma estreia empolgante - o debut homônimo, de 2008. Contando com vocalistas convidados (Antony Hegarty entre eles), o álbum foi produzido pelo próprio Butler e pelo DJ e produtor inglês Tim Goldsworthy (U.N.K.L.E., LCD Soundsystem, Cut Copy e Rapture no currículo) e traz Antony Hegarty cantando em cinco das dez faixas, entre elas o soul sintético "Time Will", a percussiva e sussurrada "Easy", "Raise Me Up" (em que os vocais foram soterrados na mixagem em favor do baixo galopante e da bateria disco) e o hit "Blind", cheia de gemidos, trompetes e euforia. Outras canções de destaque são "You Belong" (uma house de refrão grudento em que a levada de piano lembra uma "Understand This Groove" dos suecos do Sound Factory em slow motion), "Iris" (algo Andrea True Connection) e ainda o baixo formidável de "Athene", os metais de "This Is My Love" e as totalmente setentistas "Hercules Theme" (instrumental) e "True False/Fake Real". Num dos melhores discos de 2008, pouca gente veio com uma coisa tão divertida naquele ano.
"Blind":
Apesar de dançante, o melancólico álbum seguinte (como evidencia o título) Blue Songs, de 2010, continua a saga de Butler através dos beats e synths oitentistas ligados diretamente ao technopop e a house music, mas sem o brilho pop do disco anterior e sem a participação de Antony Hegarty. Ainda assim, é um trabalho apreciável, com bons singles como "My House", "Painted Eyes" e a participação de Kele Okereke, do Bloc Party, em "Step Up".
"Painted Eyes":
The Feast Of The Broken Heart, o terceiro álbum (2014), traz de novo vários vocalistas convidados, que, segundo Butler disse à época, formaram "...o melhor conjunto de cantores que já tive". Com produção impecável e grandes canções como "I Try To Talk To You" (com a voz reconhecível à quilômetros de John Grant), "Do You Feel The Same?" (vocais do belga Gustaph e um bassline agressivo com timbres de TB-303) e a Chicago house clássica de "My Offence". Ao contrário dos dois discos anteriores, The Feast Of The Broken Hear não usou instrumentos "orgânicos", como metais e cordas, deixando um pouco de lado a porção disco de seu som.
"I Try To Talk To You":
O próximo trabalho do Hercules, Omnion, traz onze canções e trata de tolerância e fé, conforme comunicado. Algumas amostras já saíram: o ótimo dance pop de "Controller", a contemplativa faixa título, "Rejoice" (um tiquinho mais techno) e "Fools Wear Crowns" (com lindos strings). O que parece certo é que, mais ou menos dançante e baseado no material que já foi divulgado, é pouco provável que Andy Butler decepcione.
Imagino que o maior mérito do When In Rome foi um dia ter sido confundido com o Depeche Mode por conta de seu single "The Promise", de 1988. Mas, convenhamos, um ouvido minimamente treinado não cometeria tal heresia. Martin Gore, principal compositor do Depeche, não redigiria uma rima constrangedora como "If you need a friend / Don't look to a stranger / You know in the end / I'll always be there", nem nos tempos de ginásio. E os esforços dramáticos de Clive Farrington ao microfone nem de longe lembram a extensão vocal de barítono de Dave Gahan. Porque a confusão, então? Mania do ouvinte médio de colocar tudo que soa relativamente parecido no mesmo balaio de gatos. E olha, o When In Rome é fraquíssimo, pra ser generoso. Seu autointitulado debut (e até hoje, único álbum) é horroroso, um sub-Alphaville de composições com o dobro da cafonice da banda alemã e instrumental uns cinco anos defasado em relação ao reluzente technopop praticado pela concorrência do primeiro escalão na época (o próprio Depeche, Erasure e Pet Shop Boys). Salva-se a melodia ensolarada de "Heaven Knows" e "The Promise", que tem, vá lá, um baixo interessante.
Olha, em 1985 eu tinha 10 anos. Não escutava Kraftwerk e George Clinton. Eu curtia o que o rádio oferecia. O que tava na trilha da novela. O que aparecia no Cassino do Chacrinha. Isso incluía a alemã Sandra Ann Lauer, tenros 22 aninhos na época do lançamento de "(I'll Never Be) Maria Magdalena". Foi o terceiro single da carreira da moça, mas o primeiro hit de fato. Hitaço, aliás. Li em algum lugar que passou de cinco milhões de cópias vendidas. Aqui no Brasil, foi trilha do remake da novela Selva de Pedra, em 1986 - o que causou o airplay exaustivo por um bom tempo.
Produzida pelo romeno Michael Cretu (que casou-se com Sandra três anos depois e emplacou o Enigma no começo dos 90), "Maria Magdalena" é um synthpop épico. Riff poderoso de orquestra sintetizada, refrão memorável, beat lento mas altamente dançável.
O duo synthpop Monarchy deu azar de ter começado a chamar atenção por volta de 2010,
justo numa época em que todo mundo estava maravilhado com o Hurts. Com uma bem cuidada e misteriosa imagem e uma sequência empolgante de singles ("Gold in the Fire", "The Phoenix Alive") e até um lado B que causou frisson na blogosfera ("Black, The Colour Of My Heart"), o duo formado por Andrew Armstrong e Ra Black viu seu álbum de estreia (autointitulado) ser abortado pela gravadora Mercury Records, que rompeu o contrato com a dupla meses depois de tê-lo assinado. O bom debut só sairia no ano seguinte, com novo nome (Around the Sun) pelo selo 100% Records, quando o interesse pela sua música parecia ter diminuído. A dupla chegou a encerrar atividades um mês após o lançamento do segundo disco (o razoável Abnocto, de 2015), mas reconciliou-se pouco tempo depois, continuando a gravar (lançaram o fraco EP de covers Re|Vision, ainda em 2015) e fazendo shows. Armstrong e Black retornam em 2017 com um novo single, "Hula Hoop 8000", agora lançado pela Warner Music espanhola. A canção é um technopop límpido e de fácil audição, que assimila elementos de flamenco e que tem nos vocais em falsete de Ra Black um diferencial decisivo
- fugir do modelo barítono/atormentado de Dave Gahan (Depeche Mode) é
altamente positivo num campo minado de imitadores - além de, musicalmente, o
Monarchy ganhar em sofisticação em relação à seus coirmãos do segundo escalão (especialmente o futurepop urdido por boa parte das bandas germano-escandinavas). Eles continuam bons compositores de pop sintético, num sentido Vince Clarke da afirmação e embora "Hula Hoop 8000" ainda esteja longe das encantadoras canções da primeira leva do Monarchy, não é de se descartar que seu apelo pop faça-os voltar à ordem do dia.