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domingo, 13 de setembro de 2015

Lições De Um Remix


Imagine a cena: você é um DJ que já tem boas horas de experiência na cabine, mas ainda está dando os primeiros passos no estúdio. Então a gravadora te convida pra fazer um remix de uma faixa estourada nacionalmente. O material que ela te disponibiliza consiste em Gillette, régua e fita adesiva.

Por mais estranho que isso possa parecer hoje em dia, era esse o cenário nos anos 80. A música em questão é "Ela Não Gosta de Mim", da boy band brasileira Dominó - uma versão em português do hit "Standing In The Twilight", da dupla holandesa Maywood. Softwares de edição em computadores ainda não eram nem sonhados e a dificuldade em editar um remix de forma praticamente artesanal era enorme. O DJ e produtor Sylvio Müller, que foi incumbido da tarefa (junto com os DJs Cabello e Grego) de levar o Dominó das rádios e TVs para as pistas de dança, explica - entre um e outro "Mansss!", seu inconfundível bordão - como foi o processo.

De quem partiu o convite pro remix?

O primeiro Dance Mix (série de coletâneas de remixes de faixas do pop nacional dos anos 80, iniciada em 1985) foi um projeto da CBS (atual Sony Music), no qual o DJ Grego foi o encarregado de convidar os DJs para participar do empreendimento. Na época da Pool FM, nós já fazíamos remixes pra tocar na programação diária da rádio, mas para profissionalizar mesmo a situação dos remixes no Brasil, a CBS colocou o Grego para dirigir esse projeto e eu fui convidado pra fazer o remix do Dominó, junto com o DJ Cabello, porque era realmente um remix muito complicado. Já havia acontecido o primeiro remix que foi um sucesso nacional, "Loiras Geladas" (RPM) e o segundo também teria que ir pro mesmo caminho. Então o Grego convidou a mim e o Cabello porque nós editávamos vários gêneros de música - do rock ao pop, soul, black e dance em geral. Topamos editar o Dominó, mas com a condição de que no próximo trabalho tivéssemos o poder de escolher o remix a editar. Nesse Dance Mix nós fizemos o Dominó e uma faixa do Ritchie, "Tele Notícias", também. A faixa que escolhemos pra trabalhar na próxima edição da série foi "Olhar 43", do RPM. A curiosidade sobre o Dominó é que foi uma produção vinda da Espanha, feita por Oscar Gomez, que era um grande produtor musical e nós fizemos as novas mixagens pra música com uma master de muita qualidade (a letra em português foi feita pelo cantor, compositor, maestro e pesquisador Edgar B. Poças, pai da cantora Céu e de Diogo Poças). Na edição, deixamos a música bem pop, pra pista mesmo. Assim, conseguimos dar continuidade a esse tipo de trabalho por aqui e esse remix foi muito importante pra história do remix no Brasil.



E os sintetizadores e baterias eletrônicas adicionais, foram vocês que fizeram, também?


O master
era muito bem feito. Oscar Gomez era um ótimo produtor e nessa época ele já usava sintetizadores, sequenciadores e beats eletrônicos. Na época usávamos a bateria eletrônica LinnDrum. Nosso trabalho com o remix era de deixar a música com um formato mais adequado pra tocar na pista. Então realçávamos as baterias, o groove, deixando os elementos da parte rítmica em evidência. A partir da edição, temos a montagem, que faz com que a música adquira consistência. Esse método de edição que usávamos era do mesmo nível de um Shep Pettibone, Arthur Baker e John Jellybean Benitez, grandes produtores e remixers que nos ensinaram como deixar a música com características próprias de pista. Na edição e montagem da nova versão tínhamos que ter uma sensibilidade muito grande para saber o que cada música precisa e o Dominó foi uma música muito complicada de fazer. O resultado está aí e depois de 30 anos, dá orgulho de ouvir.


E o método disponível na época eram as masters em tape de rolo, Gillette, régua e fita adesiva, mesmo, ou já pintava alguma coisa via computador?

Não tinha computador, não, mans. Nessa época a gente pegava a fita master de duas polegadas, onde havia os canais separados. Fazíamos uma nova mixagem da música e então tirávamos todos os elementos: bateria, baixo, teclados, guitarra, voz, etc... Depois, resolvíamos tudo na edição. Não tinha computador na época. Esse era o segundo estágio. A primeira parte da nova mixagem era abrir o master e só depois ia pra edição, onde fazíamos o chamado half mix, que era pra não ficar quebrando a cabeça no estúdio e ficar gastando muita grana (porque o estúdio era caro). Então fazíamos num gravador Akai o half mix, que era uma prévia do que iríamos editar no estúdio, pra daí então entrar nas máquinas de estúdio. Vale ressaltar que a CBS nos deu suporte pra fazer o trabalho nos melhores estúdios da América Latina, que eram os estúdios da Transamérica. A gravadora nos oferecia engenheiros de som e equipamentos de alta qualidade, depois, era tudo com a gente: cortar literalmente a fita com a Gillette e colar com todos os elementos (vocais acapella, instrumentos) sendo disparados diretamente do tape de rolo. Não tinha nada de software.


O remix chegou a sair numa versão 12" pro mercado ou foi incluída exclusivamente nessa compilação?

Todas as versões que foram incluídas na série Dance Mix, saíram também como promos, mas não foram colocadas à venda. Existe o 12" em vinil e a versão que saiu na compilação era o remix oficial mesmo, idêntica ao promo.

Tu tinhas a informação da lista de equipamentos usados na gravação original da música? Qual sintetizador, drum machine?

Sim. Quando abrimos a master onde estão os canais separados da faixa, a produção do estúdio coloca a lista de equipamentos utilizados, para que possa ser aberto em outros estúdios. Na época era o começo do Yamaha DX-7, dos sintetizadores polifônicos. Eram recursos analógicos que já tinham como ser colocados no sistema de sincronismo que chamamos de SMPTE, que sincronizam as máquinas onde você pode ajustar o tempo de uma bateria eletrônica com um gravador de rolo. Obviamente que nós, como DJs, já sabíamos a diferença entre os sons de um MiniMoog, Hammond, Fender Rhodes... os timbres, tanto de teclados como de outros instrumentos e principalmente de baterias eletrônicas, já estávamos bem informados. Sincronizar, colocar tudo funcionando foi uma etapa de engenharia de áudio, que nós passamos a aprender. Fomos as cobaias desse processo.

 Esse foi, de fato, um dos primeiros remixes feitos no Brasil. Qual foi a repercussão entre DJs, produtores, jornalistas? A faixa chegou a fazer o crossover das pistas pro rádio, chegou a popularizar essa versão nas FMs?
Olha, mans... esse remix foi realmente uma zica (risos). Essa música era muito complicada. Nenhum DJ queria pôr a mão e muito menos tocar. Esse remix fez com que ela entrasse nas pistas e fosse depois, naturalmente, pro rádio. Deixar ela com uma cara de pista de dança é que foi um trabalho de dedicação que tivemos, porque não havíamos feito algo assim anteriormente. Não tínhamos referência, esse foi o primeiro, mesmo. Pegar um grupo super pop e deixar ele adequado pras danceterias foi um laboratório e tanto, onde nós fomos as cobaias e o Dominó, nosso produto (risos).