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quarta-feira, 2 de maio de 2018

Tio Aldo


O nome Aldo, The Band já tinha aparecido em algum momento na tela do meu note, mas se eu ouvi o grupo paulistano de 2013 (quando lançaram o primeiro disco, Is Love) pra cá, devo ter escolhido a(s) faixa(s) errada(s), porque passou batido. Pensei que deveria ter, entretanto, um bom motivo pro Radiohead em pessoa (haha) escolher o Aldo pra abrir seus shows recentemente aqui no Brasil (junto com Junun e Flying Lotus) e isso acabou reativando meu interesse/curiosidade. Pesquisa aqui, baixa ali e o saldo é positivo. As faixas detestáveis ("Hold Me Back, Insane") estão em número menor, comparando com as adoráveis, como "Unbreakable", "Liquid Metal" e essa "Trembling Eyelids" - single lançado dia 20 de Abril que fará parte do terceiro álbum do grupo. Com slapadas de baixo, synths trôpegos, vocais sonolentos (no bom sentido) e batida hipnótica, "Trembling Eyelids" é uma ótima canção. E o Aldo, pode ficar tranquilamente na mesma prateleira de CDs (ou na mesma pasta de arquivos) de Holy Ghost!, The Rapture e Jagwar Ma, sem nenhum complexo de inferioridade. Muito pelo contrário.

"Trembling Eyelids": consolidação ou promessa? 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Sexta Feira Bagaceira: Gottsha


Se a sexta é bagaceira, esqueçamos os pudores. Sandra Maria Braga Gottlieb - Gottsha - carioca, cantora e atriz. Seu debut é o álbum No One To Answer, de 1995: dance canarinho padrão Jovem Pan fartamente inspirada na eurohouse vigente. O disco - todo em inglês - rendeu alguns singles de relativo sucesso nas FMs brasileiras. Além da faixa-título, "Break Out" e "Do You Wanna Love Me?" experimentaram uma certa popularidade por aqui. "Do You Wanna Love Me?" é minha preferida: com uma chupada na cara dura da batida de "The Sign" (um inesquecível reggaezinho sintético dos suecos do Ace Of Base, produzido pelo saudoso Denniz Pop), uma letra de duas estrofes e um refrão repetido ad infinitum, a faixa parecia ter sido feita na medida pra emplacar nas pistas suarentas da América do Sul (até um 12" promocional foi prensado), mas acho que não ultrapassou a categoria de semi-hit. O que é inegável é que - apesar das composições fracas - Gottsha canta muito. Intencionalmente ou não, a música contida em No One To Answer é dance exageradamente pop e sua ótima voz foi subaproveitada. Poderia ter virado nossa diva house dos 90.

"Do You Wanna Love Me?": semi-hit.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Frank Frank


Letras de sentido ambíguo ou teor satírico-pornográfico não eram propriamente uma novidade no pop brasileiro do começo dos 90. Do forró de Zenilton (cujo sucesso "O Pão da Minha Prima" foi regravado até pelo Raimundos) ao rock humorístico do Dr. Silvana & Cia. ("Serão Extra"), explorar essa verve cômica/libidinosa garantiu muitos hits (e boas risadas), até a chegada dos Mamonas Assassinas, que escancararam as portas da chinelagem alto-astral de vez.

José Francisco de Aquino (o rapper paulista Frank Frank) veio reforçar esse time, ao menos com uma música que foi hit dos bailes da época, "A Mulherada Tá Querendo Poder". A cacofonia gerada pela palavra "poder", não precisa nem explicar: "A mulherada tá querendo é poder e os homens tão querendo é..." Apesar do aparente machismo explícito no título/refrão, a letra é quase um manifesto ingênuo sobre as fêmeas oportunistas e safadinhas ("Existem minas que só querem tirar um barato / e com homens imbecis fazer gato e sapato / fazem o cara pagar tudo, deixam ele apaixonado / e ainda dizem que ele é o seu primeiro namorado / existem sete mil mulheres para cada um / mas dez mil homens para elas não valem nenhum").

O restante do álbum de estreia de Frank Frank, Raça, Axé e Poder (Zimbabwe Records, 1991) é bem abaixo da média do então embrionário rap brasileiro (Thaíde & DJ Hum e Racionais MCs já tinham discos bem consistentes nessa época), com letras pouquíssimo inspiradas e rimas fracas, mas contou com a produção do DJ Cuca, que montou bases irresistivelmente dançantes para Frank soltar seu flow esquisito. De qualquer forma, a letra de "A Mulherada Tá Querendo Poder" era berrada em uníssono quando tocava, por homens e mulheres. Com a exacerbada patrulha moral e de um politicamente correto que às vezes dá no saco, a faixa provavelmente seria condenada pelos tribunais das redes sociais hoje em dia. Por outro lado, Frank Frank parece um pregador da Pentecostal perto do que o funk carioca é capaz de produzir atualmente.

"A Mulherada Tá Querendo Poder": cacofonia.

domingo, 9 de abril de 2017

Dez Perguntas Para: Marcelo Donolo


No comecinho dos anos 90, o argentino Marcelo Donolo (então tecladista do duo technopop Tek Noir) e o vocalista brasileiro Filippo Crosso - vislumbrando uma hipotética carreira internacional - escolheram os nomes artísticos Mark Rhiley e Phillip Ashley, apostando num possível sucesso além fronteiras de sua recém formada banda, o Tek Noir. Ambições à parte, não foi bem isso que aconteceu. A curta carreira do Tek Noir durou dois discos, Alternative de 1990 e Destination de 1993, e depois disso, nunca mais ouvi falar da dupla Rhiley/Ashley. Felizmente, encontrei Donolo (que está morando nos Estados Unidos) uns meses atrás da única maneira possível disso acontecer: pelo Facebook. Eu estava lendo um post do Front 242 (não por acaso, uma das paixões de Marcelo) e lá estava ele, comentando a respeito. Achei muita coincidência uma pessoa fã do grupo belga com o mesmo nome do cara responsável pelos sintetizadores e programações da nossa (sem medo de errar) melhor banda synthpop. Verifiquei o perfil. O próprio. Pedido de amizade aceito, pedido de entrevista aceito e aí está, com muito orgulho, Marcelo Donolo, do Tek Noir.

1) Como você e o Filippo se conheceram?

Uma amiga minha nos apresentou. O Filippo tocava numa banda cover e fui assistir o ensaio na casa dele depois de ter visto a banda numa festa, o meu "Prom". Eu tinha uma demo muito ruim que tinha feito num sintetizador Ensoniq ESQ1, mas logo compartilhamos ideias sobre o tipo de música que ouvíamos e o tipo que queríamos compor. Uma semana depois, formamos a banda. No próximo fim de semana, fomos assistir O Exterminador do Futuro no cinema - lembra da cena em que o Terminator mata quase todos numa discoteca? A discoteca chamava-se Tech Noir.


2) De onde partiu seu interesse por música e como surgiu a ideia de montar o Tek Noir?

Minha mãe tocava piano e tínhamos um em casa. Cresci ouvindo e tocando música clássica. No começo dos anos 80, ouvi três artistas que me influenciaram muito: O Duran Duran, o Kraftwerk e Jean-Michel Jarre. Logo descobri Human League, Depeche Mode, Pet Shop Boys, Front 242 e Nine Inch Nails. As ideias musicais que formaram o som do Tek Noir vieram, em grande parte, dessas influências.


3) Como foi a produção de Alternative, o primeiro álbum, dividida entre Dino Vicente e Mark Brydon?

Queríamos explorar dois lados da música eletrônica: o lado pop (Tek) e o lado mais experimental, ou "dark" (Noir). O Brydon tomou conta do lado A ("Beat the Rhythm", "Drawings of Sorrow", etc...) e o Dino do lado B ("In the Name of the Father", "Final Fall"). Os dois foram espetaculares e tinham estilos muito diferentes. O Mark preferiu reconstruir o som do Tek de acordo com o seu entendimento do que era o mercado Europeu naquele tempo. O Dino optou por usar o próprio ponto de vista da banda para melhorar a qualidade sonora e a composição, sem influenciar o caráter do nosso trabalho. O resultado foi interessante... o lado A parece muito o estilo do Mark. O lado B, do Tek. Ao fim do dia, acho que o Dino foi muito mais fiel em preservar o som da banda. Tenho tremendo respeito pelo Dino.


4) Para os shows da época, quais equipamentos vocês dispunham? 

Dois ESQ1 da Ensoniq, um DAT da Sony, a bateria TR-505 da Roland e um computador com Cakewalk. Os dois discos do Tek Noir foram feitos no ESQ1. Adorava esse sintetizador.


5) O debut Alternative tem um status cult hoje, você tem ideia de quantas cópias o álbum vendeu e o que poderia ter sido feito para que ele tivesse realmente estourado, considerando seu potencial?

Muito legal ter esse status cult! Acho que vendeu umas 75,000 cópias. O problema da Stiletto foi que não tinham paciência nem experiência ou tampouco sabiam como promover uma banda e os canais de distribuição eram poucos e novos na época. Faltou infraestrutura. A maioria das cidades onde o Tek tocou não tinham discos nas lojas. Nossos "managers" não tinham nenhuma estratégia. Os shows eram uma maneira deles ganharem dinheiro. Não tinham nenhum interesse no futuro da banda. Realmente uma pena.

Alternative, inteiro no Youtube:



6) O que você, avaliando hoje, faria diferente sobre Alternative?

O Dino devia de ter produzido o disco inteiro. "Beat the Rhythm", "Talk of Desire", e a "Drawings of Sorrow" eram muito mais interessantes antes da produção do Mark. Eu teria incluído mais uma faixa, a "Is This Devotion", que tínhamos em demo. Adorava aquela música, para sempre perdida... não sei onde foi parar o K7.

"Falling In My Arms", do segundo (e último) álbum, Destination (1993):



7) O segundo e último álbum, Destination, tinha planos de ser lançado pela Stiletto (que já havia encerrado atividades quando o disco foi lançado, em 1993)? Como foi o processo de produção/lançamento/distribuição desse álbum pelo selo Dance Xplosion e porque o Tek Noir acabou logo em seguida?

Eu já estava cansado das dificuldades de trabalhar com a gravadora e comecei a trabalhar numa empresa. Casei pouco depois de terminar o Destination e decidimos terminar o Tek. O Filippo conseguiu produzir o Destination pela Dance Xplosion, mas eu já estava nos EUA quando começaram uma pequena tour com outro tecladista amigo nosso.

"The Whole Of The World":


8) Tu tens ideia de como repercutiu o trabalho do Tek Noir fora do país? Teve notícia de algum hit em alguma rádio ou parada estrangeira? Quais países vocês se apresentaram na época?

Tocamos numa rádio em New York e a banda tocou no rádio na Argentina e no Peru. Não fizemos nenhum show fora do país.

9) Existe alguma possibilidade do Tek Noir voltar, para algo como uma série de shows comemorativos, reedição de seus dois álbuns, alguma coisa do tipo?

Eu faria um terceiro disco e uma mini tour, com certeza. Numa época, tentei convencer o Filippo de compor algo juntos, mas não deu certo. Fiz vários projetos solo depois de um tempo... o Khommand 45 e o ALTERSTÆT, que está no iTunes, Amazon, etc... Hoje em dia seria super fácil produzir um disco e distribuí-lo. Que tal a gente convence-lo?

"Serenity", do projeto solo de Marcelo, ALTERSTÆT:


10) O que tu tens ouvido e o que não sai do seu fone de ouvido nunca? Quais são suas músicas preferidas, eternas e atuais?

Legal essa pergunta! 

Eternas:
 
1. "Enjoy the Silence" e "World in My Eyes" - Depeche Mode
2. "Don't Crash" e "Headhunter" - Front 242
3. "Blue Monday" e "1963" - New Order
4. "It's a Sin"e "West End Girls" - Pet Shop Boys
5. "Seventh Stranger" e "Save a Prayer" - Duran Duran
6. "The Man Machine" e "Radioactivity" - Kraftwerk
7. "Oxygen" e "Zoolook" - Jean-Michel Jarre
8. "Coolesville" - Laurie Anderson
9. "Falling in My Arms"e "Twixt Land and Sea" - Tek Noir ;)
10. "Frozen" e "Bedtime Story" - Madonna
11. "Lack of Sense" - Tribantura  

Atualmente: 

1. "The Dictator Decides" - Pet Shop Boys
2. "Serenity" - ALTERSTÆT :)
3. "Where's The Revolution?" - Depeche Mode
4. "Oxygen 3"- Jean-Michel Jarre
5. "Kill Your Darlings" - Mesh
6. "Judge of My Domain" - Covenant
7. "Amor Fati" - Washed Out
8. "All is Full of Love" - Björk

Links:

Soundcloud
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segunda-feira, 3 de abril de 2017

EDeMocracia


Formado pelos produtores Lenon Scarpa e Américo Simões, o SoFly lançou dois singles bem distintos este ano: "Somebody Like You" e "Stay With Me". "Somebody" tem uma guitarrinha sinuosa duelando com o baixo pesado e um bom refrão pop, com cheiro de praia e Warung lotada. Já "Stay" adultera os vocais com um filtro irritante e tem um drop horroroso aos três minutos e meio - a despeito do resto do instrumental ter lá suas boas ideias (eu sempre caio no truque dos violões e palmas na caixa). Agora, se você abomina EDM (mesmo que o duo jure que o que faz tem "elementos do Deep House"), fuja.

"Somebody Like You":



"Stay With Me":

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Melhores de 2016 - Discos (#03: Mahmundi)


Quando o primeiro EP do Mahmundi (Efeito das Cores, 2012) pipocou na rede, ouvi uma e outra faixa e achei que não era aquilo que ia fazer com que eu voltasse a ter fé no combalido pop brasileiro atual. Pro meu gosto à época, tinha um cheiro forte de hipsterismo chillwave vindo das seis faixas: oitentista demais, teclados demais, despretensioso demais, Toro Y Moi demais. Decidi que eu não precisava de um outro Silva em potencial - já que nem ele tinha me convencido ainda que seus discos dariam em alguma coisa. Corta pra 2016: numa navegação aleatória (em Novembro), vi que o primeiro disco do projeto veio à tona. Como o que eu conhecia do som tinha uma base eletrônica forte (o que me agrada), resolvi arriscar. Baixei, ouvi. Não acreditei. Ouvi de novo. E de novo. Passei pelos 43 minutos de Mahmundi (Stereomono/Skol Music) umas quatro vezes na colada, naquele dia. E fiquei pensando na minha falta de paciência com Efeito das Cores. Bem feito pra mim: Mahmundi saiu em Maio e eu cheguei cinco meses atrasado. O que a carioca Marcela Vale oferece em seu debut foi feito na medida pra quem, como eu, sonha que algum dia a boa música pop triunfará de novo por aqui. Compositora, produtora, multi-instrumentista, esperta, estudiosa, e muito, mas muito talentosa, Marcela soltou um disco inteiro (são dez faixas) com canções acessíveis, cantaroláveis, redondinhas, recheadas de uma eletrônica contida, mas exuberante na escolha dos timbres e precisa na execução e sem deixar de lado as boas letras já percebidas nos dois primeiros EPs. Metade das músicas foi pinçada dos EPs e remasterizada, o que garantiu que a fantástica "Desaguar", por exemplo, ganhasse uma polida no instrumental, fazendo com que o timbre de guitarra do riff principal soe com o dobro da potência original e os vocais, entoados com todo tesão que essa faixa merece: é disparado o melhor refrão que ouvi no pop nacional nos últimos anos. A ótima "Calor do Amor" (outra de Efeito das Cores) também foi envernizada deixando a linha de baixo mais elástica e os sintetizadores e baterias eletrônicas mais limpos - mas sem qualquer resquício de pasteurização que pudesse tirar a força dos ataques. Das novas faixas, "Hit" sugere justamente o que o título diz em outro riff brilhante de sintetizador, dinâmica de reggae, uma letra com duas estrofes e - pasme - sem refrão. Há ainda o R&B estilizado de "Wild", programações espertas de bateria ("Meu Amor"), momentos mais contemplativos (e não menos apaixonados, sem resvalar na pieguice) como "Sentimento" e "Quase Sempre" e - surpresa - no meio de todo aparato eletrônico, Marcela despe-se até sobrarem somente as guitarras da linda "Leve". O melhor disco pop nacional em anos.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Melhores do Ano - Músicas (#01: Mahmundi)


"Desaguar" foi originalmente incluída no debut de Mahmundi, o EP Efeito das Cores, lançado de forma independente em 2012. Em 2016 ela reapareceu no primeiro álbum de fato da artista, o fantástico Mahmundi. A canção foi envernizada através de um processo de masterização para que houvesse uniformidade com as faixas inéditas gravadas para o disco. O procedimento fez com que "Desaguar" ganhasse uma notável polida no instrumental e os resultados são facilmente perceptíveis no timbre de guitarra do riff principal (que soa com o dobro da potência original) e nos vocais, que ecoam com todo tesão que essa faixa merece: é disparado o melhor refrão que ouvi no pop nacional nos últimos anos. E é, também, a música do ano, pra mim.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Goth Obsession


Rock não é lá muito a do blog, mas quando coisas como essa aparecem são dignas de registro. E negócio é que o post-punk usualmente tem seus sintetizadores lúgubres permeando as produções, o que não o deixa tão distante assim do synthpop e tem um pezinho na eletrônica, sim.

O Escarlatina Obsessiva é uma banda da pequena São Thomé das Letras, Minas Gerais. Gravam desde 2007 e já tem seis álbuns lançados (o mais recente, Drusba saiu entre 2015 e 2016 e dá pra ouvir na íntegra aqui).

Grata surpresa pra mim, que nunca tinha ouvido falar da dupla (Karolina e Zaf). Produzindo incessantemente (ou obsessivamente, pra justificar o nome), o duo acaba de jogar no Youtube um vídeo para "Primal Beast", uma das melhores faixas de Drusba. A música, em si, me traz boas referências do gênero (X-Mal Deutschland, Siouxsie & The Banshees) e hoje em dia pode andar tranquilamente de mãos dadas com gente como Lebanon Hanover. Fora que é dançável, e, a despeito do climão soturno típico, vejo com potencial comercial, também (autossustentabilidade é bacana e todo mundo fica feliz).

"Primal Beast": perfeita pra dançar com o nariz colado na parede do Crepúsculo de Cubatão.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Sexta Feira Bagaceira: RPM


Você que hoje tem um software pra editar seus próprios remixes talvez não imagine que lá no meio dos 80 se fazia isso com régua, fita adesiva e uma paciência do tamanho do sobretudo que o Paulo Ricardo usava nessa época. Saca o mestre Iraí Campos nesse processo artesanal aqui no vídeo e me diz: era moleza ou não?
Bom, foi com o método acima que os DJs Grego, Sylvio Müller e Cabello fizeram este que é um dos primeiros remixes que ouvi na vida, o synthpop "Olhar 43", do RPM. Loops na comodidade do clique do mouse? Nada. Edita, corta, cola, edita, corta, cola... O grupo paulista havia acabado de lançar seu debut Revoluções Por Minuto (em Maio de 1985), hits começavam a pipocar (oito, das onze faixas do disco, foram massacradas pelas rádios) e o remix veio no momento em que a banda começava a trocar as danceterias onde se apresentavam pelos ginásios e estádios na bem sucedida megaprodução Rádio Pirata Ao Vivo, pra logo em seguida, encerrar atividades. E depois voltar. E acabar. E voltar. E acabar. E voltar. E...

"Olhar 43": aquele assim, meio de lado...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Melhores do Ano - Músicas (#12: Mahmundi)


Uma das grandes sacadas de Marcela Vale em seu disco de estreia (Mahmundi, lançado em Maio de 2016) foi ter colocado logo na abertura uma pop song irrepreensível com um título que veio a calhar ("Hit") e, incrível, sem refrão. As duas estrofes certeiras, a dinâmica de reggae e o riff absolutamente pegajoso de sintetizador se encarregam do resto - o que significa dizer "grudar no seu cérebro pelo resto do dia". Se o Globo de Ouro ainda existisse, ela estaria lá com esse hit.

domingo, 13 de novembro de 2016

O Calor Do Amor


Quando o primeiro EP do Mahmundi (Efeito das Cores, 2012) pipocou na rede, ouvi uma e outra faixa e achei que não era aquilo que ia fazer com que eu voltasse a ter fé no combalido pop brasileiro atual. Pro meu gosto à época, tinha um cheiro forte de hipsterismo chillwave vindo das seis faixas: oitentista demais, teclados demais, despretensioso demais, Toro Y Moi demais. Decidi que eu não precisava de um outro Silva em potencial - já que nem ele tinha me convencido ainda que seus discos dariam em alguma coisa.

Corta pra 2016: umas semanas atrás, numa navegação aleatória, vi que o primeiro disco do projeto veio à tona. Como o que eu conhecia do som tinha uma base eletrônica forte (o que me agrada), resolvi arriscar. Baixei, ouvi. Não acreditei. Ouvi de novo. E de novo. Passei pelos 43 minutos de Mahmundi (Stereomono/Skol Music) umas quatro vezes na colada, naquele dia. E fiquei pensando na minha falta de paciência com Efeito das Cores. Bem feito pra mim: Mahmundi saiu em Maio e eu cheguei cinco meses atrasado.

O que a carioca Marcela Vale oferece em seu debut é tudo que falta pra quem, como eu, sonha que algum dia a boa música pop triunfará de novo por aqui. Compositora, produtora, multi-instrumentista, esperta, estudiosa, e muito, mas muito talentosa, Marcela soltou um disco inteiro (são dez faixas) com canções acessíveis, cantaroláveis, redondinhas, recheadas de uma eletrônica contida, mas exuberante na escolha dos timbres e precisa na execução e sem deixar de lado as boas letras já percebidas nos dois primeiros EPs (Setembro, de 2013, eu perdi - num misto de preconceito e burrice. Erro já corrigido). Metade das músicas foi pinçada dos EPs e rearranjadas, o que garantiu que a fantástica "Desaguar", por exemplo, ganhasse uma polida no instrumental, fazendo com que o timbre de guitarra do riff principal soe com o dobro da potência original e também fossem providenciados novos vocais, entoados com todo tesão que essa faixa merece: é disparado o melhor refrão que ouvi no pop nacional nos últimos anos.



A ótima "Calor do Amor" (outra de Efeito das Cores) também foi retrabalhada com uma linha de baixo mais elástica, vocal 5% mais rouco e quente, sintetizadores e baterias eletrônicas mais limpos - mas sem qualquer resquício de pasteurização que pudesse tirar a força dos ataques.

Das novas faixas, "Hit" sugere justamente o que o título diz. Injustiça seria essa música não se transformar num dos maiores sucessos de 2016: outro riff brilhante de sintetizador, dinâmica de reggae e uma letra com duas estrofes pra você, eu e todo mundo cantar junto.


Há ainda o R&B estilizado de "Wild", programações espertas de bateria ("Meu Amor"), momentos mais contemplativos (e não menos apaixonados, sem resvalar na pieguice) como "Sentimento" e "Quase Sempre" e - surpresa - no meio de todo aparato eletrônico, Marcela despe-se até sobrarem somente as guitarras da linda "Leve".


Todo sucesso pra ti, Marcela. Esse é o disco do ano, fácil.

domingo, 25 de setembro de 2016

Dez Perguntas Para: Simbolo


Pioneiro e maior nome da Electronic Body Music brasileira, Martin Neto fundou o Simbolo em 1988, tem cinco álbuns lançados (dois de forma independente e três pelo selo Cri Du Chat), um EP (Music From The Masses, lançado na Alemanha pelo selo Subtronic Records, em 1993) e várias faixas espalhadas em coletâneas, no Brasil e exterior. O projeto segue firme e recentemente disponibilizou sua obra em sites de streaming e venda digital, como Bandcamp, Google Play e Spotify (links no final da matéria). O músico e produtor Martin Neto concedeu gentilmente esta entrevista via email:

1) A arte gráfica da tua obra deixa claro que tens forte influência do construtivismo do russo El Lissitzky. Até que ponto isso reflete na tua música? 
Sou obcecado pela arte da vanguarda russa, fiz a faculdade de Belas Artes de São Paulo e estudei muito não só o trabalho de El Lissitzky, mas também de Rodchenko e Malevich. Eu mesmo crio e finalizo o design gráfico do Simbolo. Na música isso se reflete de forma natural porque faço uma programação midi geométrica, repetitiva, organizada em blocos e meticulosamente quantizada. Depois que a faixa está pronta, faço uma “limpeza”. Corto as partes desnecessárias para chegar na síntese da ideia. O melhor design é o mais simples. El Lissitzky escreveu que “quanto mais simples a forma, mais necessária é a qualidade e precisão da sua execução.”


2)
Já pintou algum convite para algum trabalho em algum projeto mais comercial, voltado ao pop? Já chegaste a pensar em fazer algo do tipo? 

Nunca pensei em fazer algo fora do Simbolo. Uma exceção foi o Depeche Mode Cover em 1991, mas durou pouco porque neste ano eu estava gravando o meu primeiro álbum (Le Sacré Du Printemps) e fiquei sem tempo disponível. Sou inclinado a fazer coisas num contexto mais cultural. Toquei com o VJ Spetto no Centro Cultural Itaú e foi muito bom. Pretendo fazer mais coisas assim.

3) Qual a tua relação com o sampler e quais os teus critérios para o uso do instrumento? Já usaste algum trecho gravado de outro artista em alguma composição?


Nunca usei sampler. Só o EXS24 do Logic Pro X, mas como um sintetizador normal. Entre 2002 e 2004 usei um pedaço da introdução de "Carmina Burana", de Carl Orff, para abrir os shows. E na faixa "Fabrika", do álbum Originate, tem um trecho de um coral russo em reverso. Prefiro ter tudo em MIDI.


4) Em 1998, por ocasião do lançamento da compilação Electroad na qual havia duas faixas do Simbolo inclusas, a revista Bizz definiu que teu som “realmente dispensa letras” (no sentido da excelência do instrumental). Com uma temática que trata, especialmente, sobre violência, qual a importância das letras na tua música e porque a escolha do inglês como meio de expressão? 

Fiquei sabendo disso agora, não conhecia essa coletânea. Quanto à temática das letras vale deixar claro que não faço apologia à violência. Um exemplo é a faixa "Cease Fire", que contêm mensagem pacifista. Mas gosto desse tema porque é atemporal. Letras na minha música têm dupla função. A primeira é a presença vocal. A voz como instrumento. Muitas faixas não precisam deste ingrediente, mas outras precisam, senão ficam incompletas e sem foco. A segunda função é que a letra traz a narrativa de forma a contar uma história. Com frases soltas, dentro do mesmo tema, cria um panorama visual imaginário, como um filme. Quanto a usar letras em inglês, essa pergunta abre espaço para uma explicação maior. Desde o começo eu imaginava o Simbolo como um projeto com características globais. Tanto é que adotei o nome Simbolo (sem o acento no i) porque é como se escreve em Esperanto. Pois bem, em 1988, sem internet, atingir este objetivo era um caminho muitíssimo mais longo, e cantar em inglês seria o primeiro passo. Hoje não. O caminho quase não existe. Mas as músicas atuais têm letras em outros idiomas, além do português.

"That's Possession", do álbum  Le Sacré Du Printemps, lançado em 1992:



5) A EBM sempre teve uma boa relação com as pistas de dança – especialmente no final dos 80 e começo dos 90. Tu já fizeste alguma faixa intencionalmente voltada para a pista? 

Até pouco tempo tudo o que eu fazia era para funcionar ao vivo porque era a via que eu tinha para divulgar o trabalho. Atualmente estou reprogramando tudo, ou a grande maioria, para funcionar também na pista.

"Train Forest", do álbum In The Danger Zone, de 1995.



6) Qual é a formação atual do Simbolo e qual o equipamento tu levas pro palco atualmente? Quantos por cento do material é pré-gravado?


A formação atual sou só eu, porque não vejo mais o Simbolo como uma banda. Também parei de tocar ao vivo, pelo menos por enquanto. Mas no passado usava um sintetizador Roland Alpha Juno 1, o sequenciador de baixo Roland TB-303 e a bateria eletrônica Roland TR-707. Depois fui somando com vários módulos E-mu como o Proteus 1 e o Vintage Keys. E ao longo dos anos entraram muitos outros instrumentos, como a bateria eletrônica Alesis SR-16 e os sintetizadores Korg Prophecy, Alesis Ion, Yamaha DX-7 e Yamaha CS6X, entre vários outros.  Não uso material pré-gravado, mas tudo é pré-programado. Ao vivo só o vocal e alguma melodia adicional no sintetizador. Uma coisa interessante de se fazer eletronicamente ao vivo é interagir com os sons usando modulações de filtro ou pitch bender, por exemplo. A audiência percebe que tem algo realmente acontecendo e que aquilo não é gravado.



7) O mercado de venda de música eletrônica alternativa é mais ou menos interessante hoje com os sites de streaming e downloads pagos em relação à quando tu começaste, quando os CDs ainda eram a única forma de mídia disponível?


Hoje é muito mais interessante, sem dúvida. Não só pelo alcance global dos sites de música mas por outro aspecto muito importante: não tem atravessador. A internet mudou o destino do artista alternativo, que por ser independente, já começava com um pé no fracasso. Hoje não. Pelo menos em termos de oportunidade, todos são iguais perante a tecnologia.

"We Are The Music":



8) Já tiveste na carreira algum hit cult (em pistas ou rádio) que te surpreendeu? Tens ideia do alcance da tua música fora do Brasil? 

Muita coisa me surpreendeu, mas não por causa de um hit específico. Talvez as músicas "K.A.O.S." e "Enforced" tenham causado um impacto maior, mas eu acho que a força do Simbolo está no conjunto da obra, quando o todo é maior do que a soma das partes. E o alcance fora do Brasil é total. Tive até uma oferta para remix de um DJ, na China, só para ficar num exemplo.

"Enforced":



9) Para onde vai a EBM (ou, num contexto mais amplo, a música eletrônica), num cenário pulverizado por milhares de bandas/projetos do gênero? Como é possível soar original e inovador nessa situação? 

A EBM é eterna porque seu formato original é simples e elementar: voz, baixo e bateria. A originalidade e inovação virá da forma como se lida com estes três elementos e adicionar outros. Tendo isso em mente, é só não fazer igual aos outros. Parece fácil mas não é. Quanto ao cenário, que hoje pode ser confuso e desfavorável, a solução é trabalhar com objetivos de longo prazo, porque o cenário muda. Noventa por cento do que existia quando o Simbolo começou – gravadoras, lojas de discos, casas noturnas, fanzines, programas de rádio, etc... –  já não existe mais, mas estou aí fazendo e muito satisfeito com o atual momento.

10) Top 5: cinco músicas eternas e cinco atuais:

Eternas:


1) "Computer Love", Kraftwerk.



2) "Carmina Burana", Carl Orff.



3) "Sonata No.14: Moonlight”, Beethoven.



4) "Chase", Giorgio Morder.



5) "Oxygene Pt.4", Jean-Michel Jarre.



Atuais:

1) "Expo 2000", Kraftwerk.



2) "Opus Dei", Laibach.



3) "Russians", Sting.



4) "Why This, Why That and Why", Jean-Michel Jarre.



5) "I’m A Man", Black Strobe.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Sexta Feira Bagaceira: Kelly Key


Não se engane. Por trás dessa voz infantojuvenil e da temática aparentemente pueril, Kelly de Almeida Afonso Freitas realizou em 2001 um single pioneiro. Seu debut "Escondido" fundiu pop e R&B de um jeito que o Brasil ainda não tinha ouvido. Produzida, arranjada e executada pelo experiente DJ Cuca, a faixa tem vários elementos que a emparelham com gente grande da gringa da época (Christina Aguilera, Britney Spears), muito bem distribuídos em seus três minutos e meio: do Auto-Tune usado com moderação à guitarrinha funkeada no segundo plano, dos scratches (do próprio Cuca) à ótima programação de bateria, da citação do grupo TLC no loop de violões ao rap deliciosamente desengonçado de Kelly. E não foi só isso. A letra foi na contramão do caminho romântico-fantasioso trilhado pela angelical e soporífera Sandy, falando abertamente sobre sexo e independência pra uma manada de adolescentes que espelhavam exatamente o que o vocal doce e de notas suaves de Kelly relatava. Recém contratada da Warner, "Escondido" ganhou alguns narizes torcidos assim que foi lançada (um excessivo e hipócrita sentimento de pudor pela maneira clara com que o tema foi tratado) e só foi estourar de fato depois que o segundo single de Key, "Baba", tornou-se um dos maiores hits de 2001. Meio sem querer, Kelly Key acabou abrindo caminho pra uma geração que inclui Ludmilla, Anitta e Perlla - mesmo que elas (ou seus respectivos produtores) tenham optado pelo funk carioca como linguagem. Hitaço.

"Escondido": "A inveja mata os impuros de coração..."

domingo, 13 de setembro de 2015

Lições De Um Remix


Imagine a cena: você é um DJ que já tem boas horas de experiência na cabine, mas ainda está dando os primeiros passos no estúdio. Então a gravadora te convida pra fazer um remix de uma faixa estourada nacionalmente. O material que ela te disponibiliza consiste em Gillette, régua e fita adesiva.

Por mais estranho que isso possa parecer hoje em dia, era esse o cenário nos anos 80. A música em questão é "Ela Não Gosta de Mim", da boy band brasileira Dominó - uma versão em português do hit "Standing In The Twilight", da dupla holandesa Maywood. Softwares de edição em computadores ainda não eram nem sonhados e a dificuldade em editar um remix de forma praticamente artesanal era enorme. O DJ e produtor Sylvio Müller, que foi incumbido da tarefa (junto com os DJs Cabello e Grego) de levar o Dominó das rádios e TVs para as pistas de dança, explica - entre um e outro "Mansss!", seu inconfundível bordão - como foi o processo.

De quem partiu o convite pro remix?

O primeiro Dance Mix (série de coletâneas de remixes de faixas do pop nacional dos anos 80, iniciada em 1985) foi um projeto da CBS (atual Sony Music), no qual o DJ Grego foi o encarregado de convidar os DJs para participar do empreendimento. Na época da Pool FM, nós já fazíamos remixes pra tocar na programação diária da rádio, mas para profissionalizar mesmo a situação dos remixes no Brasil, a CBS colocou o Grego para dirigir esse projeto e eu fui convidado pra fazer o remix do Dominó, junto com o DJ Cabello, porque era realmente um remix muito complicado. Já havia acontecido o primeiro remix que foi um sucesso nacional, "Loiras Geladas" (RPM) e o segundo também teria que ir pro mesmo caminho. Então o Grego convidou a mim e o Cabello porque nós editávamos vários gêneros de música - do rock ao pop, soul, black e dance em geral. Topamos editar o Dominó, mas com a condição de que no próximo trabalho tivéssemos o poder de escolher o remix a editar. Nesse Dance Mix nós fizemos o Dominó e uma faixa do Ritchie, "Tele Notícias", também. A faixa que escolhemos pra trabalhar na próxima edição da série foi "Olhar 43", do RPM. A curiosidade sobre o Dominó é que foi uma produção vinda da Espanha, feita por Oscar Gomez, que era um grande produtor musical e nós fizemos as novas mixagens pra música com uma master de muita qualidade (a letra em português foi feita pelo cantor, compositor, maestro e pesquisador Edgar B. Poças, pai da cantora Céu e de Diogo Poças). Na edição, deixamos a música bem pop, pra pista mesmo. Assim, conseguimos dar continuidade a esse tipo de trabalho por aqui e esse remix foi muito importante pra história do remix no Brasil.



E os sintetizadores e baterias eletrônicas adicionais, foram vocês que fizeram, também?


O master
era muito bem feito. Oscar Gomez era um ótimo produtor e nessa época ele já usava sintetizadores, sequenciadores e beats eletrônicos. Na época usávamos a bateria eletrônica LinnDrum. Nosso trabalho com o remix era de deixar a música com um formato mais adequado pra tocar na pista. Então realçávamos as baterias, o groove, deixando os elementos da parte rítmica em evidência. A partir da edição, temos a montagem, que faz com que a música adquira consistência. Esse método de edição que usávamos era do mesmo nível de um Shep Pettibone, Arthur Baker e John Jellybean Benitez, grandes produtores e remixers que nos ensinaram como deixar a música com características próprias de pista. Na edição e montagem da nova versão tínhamos que ter uma sensibilidade muito grande para saber o que cada música precisa e o Dominó foi uma música muito complicada de fazer. O resultado está aí e depois de 30 anos, dá orgulho de ouvir.


E o método disponível na época eram as masters em tape de rolo, Gillette, régua e fita adesiva, mesmo, ou já pintava alguma coisa via computador?

Não tinha computador, não, mans. Nessa época a gente pegava a fita master de duas polegadas, onde havia os canais separados. Fazíamos uma nova mixagem da música e então tirávamos todos os elementos: bateria, baixo, teclados, guitarra, voz, etc... Depois, resolvíamos tudo na edição. Não tinha computador na época. Esse era o segundo estágio. A primeira parte da nova mixagem era abrir o master e só depois ia pra edição, onde fazíamos o chamado half mix, que era pra não ficar quebrando a cabeça no estúdio e ficar gastando muita grana (porque o estúdio era caro). Então fazíamos num gravador Akai o half mix, que era uma prévia do que iríamos editar no estúdio, pra daí então entrar nas máquinas de estúdio. Vale ressaltar que a CBS nos deu suporte pra fazer o trabalho nos melhores estúdios da América Latina, que eram os estúdios da Transamérica. A gravadora nos oferecia engenheiros de som e equipamentos de alta qualidade, depois, era tudo com a gente: cortar literalmente a fita com a Gillette e colar com todos os elementos (vocais acapella, instrumentos) sendo disparados diretamente do tape de rolo. Não tinha nada de software.


O remix chegou a sair numa versão 12" pro mercado ou foi incluída exclusivamente nessa compilação?

Todas as versões que foram incluídas na série Dance Mix, saíram também como promos, mas não foram colocadas à venda. Existe o 12" em vinil e a versão que saiu na compilação era o remix oficial mesmo, idêntica ao promo.

Tu tinhas a informação da lista de equipamentos usados na gravação original da música? Qual sintetizador, drum machine?

Sim. Quando abrimos a master onde estão os canais separados da faixa, a produção do estúdio coloca a lista de equipamentos utilizados, para que possa ser aberto em outros estúdios. Na época era o começo do Yamaha DX-7, dos sintetizadores polifônicos. Eram recursos analógicos que já tinham como ser colocados no sistema de sincronismo que chamamos de SMPTE, que sincronizam as máquinas onde você pode ajustar o tempo de uma bateria eletrônica com um gravador de rolo. Obviamente que nós, como DJs, já sabíamos a diferença entre os sons de um MiniMoog, Hammond, Fender Rhodes... os timbres, tanto de teclados como de outros instrumentos e principalmente de baterias eletrônicas, já estávamos bem informados. Sincronizar, colocar tudo funcionando foi uma etapa de engenharia de áudio, que nós passamos a aprender. Fomos as cobaias desse processo.

 Esse foi, de fato, um dos primeiros remixes feitos no Brasil. Qual foi a repercussão entre DJs, produtores, jornalistas? A faixa chegou a fazer o crossover das pistas pro rádio, chegou a popularizar essa versão nas FMs?
Olha, mans... esse remix foi realmente uma zica (risos). Essa música era muito complicada. Nenhum DJ queria pôr a mão e muito menos tocar. Esse remix fez com que ela entrasse nas pistas e fosse depois, naturalmente, pro rádio. Deixar ela com uma cara de pista de dança é que foi um trabalho de dedicação que tivemos, porque não havíamos feito algo assim anteriormente. Não tínhamos referência, esse foi o primeiro, mesmo. Pegar um grupo super pop e deixar ele adequado pras danceterias foi um laboratório e tanto, onde nós fomos as cobaias e o Dominó, nosso produto (risos).

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

De Olhos Bem Abertos


O single mais recente do Vintage Culture (projeto do jovem DJ e produtor Lukas Ruiz) deixa bem claro que a dance brasileira já saiu da incubadora há tempos. "Eyes" saiu em Maio e mostra uma house com baixo potente, vocais sussurrados que explodem num refrão pop e enxertos de sintetizadores synthpop de boa cepa. Elementos bem amarrados que resultaram numa das faixas de dance music mais legais que ouvi sair deste país nos últimos tempos. Surpreendente.

"Eyes": de Maringá para o mundo.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Chanel Nº 2


Não é propriamente a volta de um dos grupos precursores da cena dance brasileira - o Que Fim Levou Robin? - já que o DJ Mauro Borges creditou para si a atualização que fez para "Aqui Não Tem Chanel", faixa extraída do debut de mesmo nome, lançado em 1991. A (já) clássica track, com algumas mudanças na letra, virou "Aqui Vende Chanel", com vídeo já rodando no Youtube e um pacote com 10 (!) remixes (feitos por gente como Ramilson Maia e DJ Mau Mau) disponíveis pra audição no Soundcloud. Segundo o texto de apresentação, uma segunda leva de remixes deve aparecer em seguida, com novas versões produzidas por Renato Lopes, Marky e outros. A versão original e a nova, estão abaixo. E se alguém puder me dizer quem é a menina que faz a Madonna no segundo vídeo, eu agradeço.

"Aqui Não Tem Chanel":



"Aqui Vende Chanel":

terça-feira, 29 de abril de 2014

10 Perguntas Para... Paradizzle

Di-Gestivo (de barba) e Feijão (de óculos): Magnum feelings.
Buenas. Comecei a prestar atenção no Paradizzle em Setembro do ano passado, quando ouvi sua faixa "Out Run", um funk eletrônico baseado em samples de fino trato e de alto poder rebolativo. De lá pra cá, DJ Feijão e Di-Gestivo lançaram "Out Run" no Beatport, alcançando o segundo lugar na parada Funk/R&B do site, além de permanecer mais de um mês no Top 100. Mais: a música "Class" entrou na coletânea Roller Disco do selo Royal Soul e a dupla ainda estreou seu live no meio de Janeiro, em Porto Alegre. Entre ensaios, festas e várias idas à Arena do Grêmio, sobrou tempo pra responder às 10 Perguntas aqui do blog.

1) Porque o Brasil ainda não emplacou um artista de dance/eletrônica em um nível Chemical Brothers da cena?

Acreditamos que o Brasil tem um delay histórico em relação a cena gringa. Mesmo com a informação altamente globalizada dos tempos atuais, as pessoas ficam meio dependentes do próximo passo que os gringos vão dar. Temos muitos DJs e produtores bons, mas que na nossa visão não estão tão empenhados em produzir algo inovador, estão mais interessados em simplesmente discotecar e seguir as tendências do mercado.

2) Lançamentos de dance enchem uma lista telefônica diariamente. Como esses artistas podem tornar a atividade rentável sem fazer shows e com o download ilegal irrefreável?

Sem fazer shows, sem estar em contato direto com o público fica difícil. A principal renda dos artistas sempre foi vender shows. A venda de artigos como camisetas, adesivos e outros também pode ajudar, bem como a venda do CD físico (que já estamos fazendo uma tiragem inicial). Assinamos com a Label francesa Springbok Records e a brasileira Royal Soul Records, e nesse sentido temos tido bons resultados, pois DJs mundo afora compram musicas via sites como Beatport, Juno, iTunes ou Bandcamp, além da visibilidade que essas labels tem nos proporcionado para divulgar nossa música.

"Class":


3) Isaac Hayes falou certa vez que estava preocupado com o uso do sampler pela geração de músicos da virada dos 90 pros 2000, questionando algo como “se continuar assim, quem eles vão samplear daqui vinte anos? Os samples dos samples?" Como fazer do sampler um instrumento criativo hoje em dia?
Somos muito fãs de "Mr. Ike" e o consideremos uma figura referencial na música, mas neste ponto discordamos dele. Na nossa opinião, os samples são tão intermináveis quanto o seu uso, pois cada um dá a sua interpretação, incluindo timbres, velocidade, levada, etc... às vezes a ponto de deixar o sample praticamente irreconhecível. Nós, na verdade, não temos a mínima noção da quantidade de música produzida ao longo das últimas décadas no mundo e pra quem gosta, a pesquisa é prazerosa e se torna parte do processo. No Paradizzle, procuramos aliar o sample à outros elementos para alcançar um resultado original.
4) Com sua música baseada em samples, qual a dificuldade em liberar os trechos? Encontrar a quem pagar ou buscar a liberação de samples de artistas semi-obscuros? 


Como citado anteriormente, o sample pode se tornar irreconhecível, o que já ajuda bastante. Muitas vezes a maior dificuldade é justamente encontrar esses artistas obscuros para liberar, levando em conta que muitos nem sequer estão vivos. A legislação sobre o uso de samples é confusa e deixa brechas, muitas pessoas não entendem ou até criticam o seu uso, mesmo sem se dar conta que tiveram conhecimento do original através do sampleado. Acreditamos que na maior parte das vezes os tais artistas querem mais é serem sampleados e lembrados, eles veem isto como uma forma de homenagem, já que não fizeram sucesso algum em sua época de atividade. Encaramos dessa forma também, como uma forma de reverenciar e resgatar a música destes artistas. Mas, às vezes, músicas produzidas com samples viram hit e a coisa pode tomar contornos mundiais. Nesse sentido, acho justo que o artista apareça e queira tomar sua parte.    

5) O funk carioca ajuda ou atrapalha a cena eletrônica no Brasil? 


O funk carioca está forte atualmente, e é algo legítimo dos guetos, é natural que as pessoas tenham curiosidade, a batida é envolvente mesmo, pessoalmente gostar ou não já é outra historia. Os gringos piram no pancadão e nos atabaques, pois é a imagem que tem de nós e se formos pensar bem, é a cara do brasileiro. Ao mesmo tempo que ajuda DJs que gostam de funk carioca, e influencia uma parte da cena mundial, como o Diplo, ele rouba o espaço não só da música eletrônica como também do rap e outros estilos. 

6) Quem faz boa música de pista no Brasil hoje?

Difícil responder isso. Há boas produções espalhadas pela web, que muitas vezes aguardam um olhar mais atento como o do seu blog, que é especializado nessa área. Pessoalmente, salvo raras exceções, entendemos que não só no Brasil, como mundialmente, a música pop atravessa uma fase que não nos agrada, vide os estilos que surgiram nos últimos anos como dubstep e trap. O próprio rap caminhou por um lado onde o groove foi deixado de lado em detrimento de um estilo mais duro, pesado e, digamos, "cinza". O funk carioca, e também o sertanejo universitário, são músicas de pista no Brasil hoje, mas se é bom ou não é uma questão pessoal. O Paradizzle foi criado como uma alternativa a esse cenário, uma volta aos funks e aos grooves.

"Bounce":


7) Independente do gênero, qual é o disco mais bem produzido da história?

Thriller, do Michael Jackson. A união de esforços de Quincy Jones com o Michael Jackson mais amadurecido tornou esse disco imbatível em termos de musica pop, não é a toa que é o disco mais vendido da história. Tudo é tecnicamente perfeito e foi composto, executado e arranjado de maneira brilhante, além de contar com compositores talentosos como Rod Temperton (Heatwave), Paul McCartney, e ainda possuir um apelo visual irretocável.

8) Há planos para um álbum ou o projeto vai se concentrar em singles?

Por enquanto estamos trabalhando na divulgação do EP Summer Funk, mas já temos bastante material produzido, e há planos para o lançamento de um próximo EP de músicas próprias, como também um EP de remixes, sendo também bastante provável que haja o lançamento de singles no meio deste processo. Queremos também produzir um videoclipe, mas isto depende basicamente da verba que podemos conseguir para tanto. 

9) Como funciona o live do Paradizzle? Já existe uma tour programada pra sair Brasil afora, ou algo assim?

Em nosso live procuramos adicionar elementos que possam enriquecer e interagir com as músicas, sejam partes de contra-baixo ou guitarra, que são tocados pelo Di-Gestivo, enquanto DJ Feijão toca as bases com os toca-discos, fazendo scratches, intervenções e adicionando colagens. Nas últimas apresentações houveram participações de Big MC Tchê, conhecido rapper gaúcho que estará presente em uma nova faixa que estamos trabalhando, e também o B-Boy Ted da Companhia Hackers Crew, que é uma das pioneiras em Breakdance no Rio Grande do Sul. Já houveram contatos de países da Europa e dos Estados Unidos e estamos em tratativas para em breve tocar no exterior.

10) Pra onde vai a música eletrônica?

Pensamos que ela vai para onde as pessoas levarem, com toda a liberdade e criatividade que possa ter, sem barreira nenhuma. Se depender do Paradizzle, ela vai se misturar cada vez mais ao funk e à black music, que é a nossa praia.

Muito obrigado pela oportunidade, Carlinhos! Um salve a quem leu essa entrevista!

"Out Run":

terça-feira, 22 de abril de 2014

10 Perguntas Para... Fabrício Peçanha


O clichê "dispensa apresentações" bem que poderia ser aplicado à Fabrício Peçanha. DJ e produtor, Fabrício toca profissionalmente desde o começo dos 90, já discotecou em vários países, apresentou-se em todas as edições do maior festival de música eletrônica que o Brasil já viu (Skol Beats), foi eleito melhor DJ do Brasil por publicações como Cool Magazine e House Mag e também já figurou na lista dos melhores DJs do mundo da revista inglesa DJ Mag.

Com uma faixa recém lançada ("I Want You"), Fabrício inaugura a mais nova seção do And Now Blog: "10 Perguntas Para...". Sem periodicidade regular, "10 Perguntas" deve repetir questões direcionadas à artistas diferentes, esperando, claro, que as respostas não venham em uníssono. Eis:

1) Porque o Brasil ainda não emplacou um artista de dance/eletrônica em um nível Chemical Brothers da cena?

Embora alguns artistas brasileiros tenham flertado no exterior e apesar da cena brasileira estar em ascensão, ainda não se compara com a realidade européia ou até americana. A música eletrônica por lá ainda é muito mais forte, por vários fatores: os gringos tem uma cena muito mais antiga e bem mais madura que aqui e além disso, os DJs e produtores ainda pagam o pato por estarem em um país de terceiro mundo, equipamentos são caríssimos por aqui e quando encontramos, há impostos, falta de apoio e patrocínios, falta de cursos especializados e por aí vai. Apesar de termos alguns desses itens, ainda falta muito para nos compararmos com os países de primeiro mundo.

2) Lançamentos de dance enchem uma lista telefônica diariamente. Como esses artistas podem tornar a atividade rentável sem fazer shows e com o download ilegal irrefreável?

Estamos passando por uma fase de transição, onde um CD custava R$ 40,00 e agora custa metade do preço. O mercado mudou e hoje, muitas vezes, é mais fácil comprar uma música que piratear. As gravadores e lojas entenderam que precisamos baixar os preços dos produtos para que o povo compre. Mesmo assim, viver da venda de músicas é para poucos, a maioria dos artistas acabam ganhando com as apresentações ao vivo em festas e shows.

3) Fora da pista, o que tu ouves em casa?

Ouço de tudo, depende do ambiente que estou. Em casa escuto lounge, chill out, etc... No carro, escuto bastante rock e por aí, é claro, existem estilos que não passam perto de mim. Sertanejo, pagode, axé, funk, babas comerciais e estilos bizarros desse tipo não fazem parte da minha vida.

4) Tua faixa mais recente, "I Want You", tem um sample vocal de Pharrell Williams. Qual a dificuldade em liberar o trecho? 

Existe uma burocracia para que sejam liberados samples, mas vejo que cada vez mais os direitos autorais vem perdendo espaço. A partir do momento que algo cai na net, provavelmente ela vai ser usada por alguém. Vejo todos os dias milhares de remixes de clássicos e sons antigos usados nas tracks de hoje.

5) O funk carioca ajuda ou atrapalha a cena eletrônica no Brasil?

O movimento social do funk é interessante, afinal, são pessoas com poucas chances na sociedade despontando como artistas e criando seu espaço, talvez sem a música eles não teriam a chance. Mas o funk está tão distante do eletrônico que não tenho muito entendimento do assunto. O pouco que ouvi me pareceu de uma musicalidade horrível, com letras piores ainda.

6) Quem faz boa música de pista no Brasil hoje?

Existem tantos artistas bons no Brasil, que tenho medo de esquecer alguém. O Brasil nunca produziu tanta música eletrônica boa como hoje em dia.

7) Independente do gênero, qual é o disco mais bem produzido da história?

Existem vários excelentes, mas o último disco do Daft Punk está perto da perfeição.

8) Há planos para um novo álbum (o debut, Silver Lining, é do ano passado) ou tu vais te concentrar em singles e EPs?

Por enquanto estou me dedicando mais a EPs e singles, mas quem sabe venha mais um álbum pela frente.

9) Há um tempo atrás, vi uma entrevista tua em que tu dizias que não curtia tocar com notebook porque a impressão que passava era de que o DJ estava lendo e-mail no meio da festa. Hoje é inevitável tocar sem notebooks? Em que momento da tua carreira aconteceu essa mudança?

Eu comecei com vinil, depois CD, flertei no laptop, com o Traktor... porque muitos clubs que eu ia, não tinham o equipamento 100% como eu precisava, mas não curtia muito ficar olhando pra tela, realmente parece que o DJ tá vendo e-mails. Agora tenho tocado com pendrive, pela facilidade. Sempre fui muito amigo da tecnologia e não tenho medo de mudanças, o que vale mesmo é o som que o DJ toca.

10) Top 5: um eterno e um atual.

Eterno:

1. Depeche Mode - "Enjoy The Silence"

2. Kraftwerk - "The Robots"

3. Alter Ego - "Rocker"

4. Jay Dee - "Plastic Dreams"

5. Donna Summer - "I Feel Love"


Atual:
1. Tim Paris feat. Forrest - "Backseat Reflexion" (Original Mix)


2. Tom Flynn - "Hoochie" (Original Mix)


3. Croatia Squad - "Pop Your Pu**y" (Original Mix)


4. StarRockers - "Back To Cali" (Original Mix)


5. Fabricio Peçanha - "Jack is Back"