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domingo, 9 de abril de 2017

Dez Perguntas Para: Marcelo Donolo


No comecinho dos anos 90, o argentino Marcelo Donolo (então tecladista do duo technopop Tek Noir) e o vocalista brasileiro Filippo Crosso - vislumbrando uma hipotética carreira internacional - escolheram os nomes artísticos Mark Rhiley e Phillip Ashley, apostando num possível sucesso além fronteiras de sua recém formada banda, o Tek Noir. Ambições à parte, não foi bem isso que aconteceu. A curta carreira do Tek Noir durou dois discos, Alternative de 1990 e Destination de 1993, e depois disso, nunca mais ouvi falar da dupla Rhiley/Ashley. Felizmente, encontrei Donolo (que está morando nos Estados Unidos) uns meses atrás da única maneira possível disso acontecer: pelo Facebook. Eu estava lendo um post do Front 242 (não por acaso, uma das paixões de Marcelo) e lá estava ele, comentando a respeito. Achei muita coincidência uma pessoa fã do grupo belga com o mesmo nome do cara responsável pelos sintetizadores e programações da nossa (sem medo de errar) melhor banda synthpop. Verifiquei o perfil. O próprio. Pedido de amizade aceito, pedido de entrevista aceito e aí está, com muito orgulho, Marcelo Donolo, do Tek Noir.

1) Como você e o Filippo se conheceram?

Uma amiga minha nos apresentou. O Filippo tocava numa banda cover e fui assistir o ensaio na casa dele depois de ter visto a banda numa festa, o meu "Prom". Eu tinha uma demo muito ruim que tinha feito num sintetizador Ensoniq ESQ1, mas logo compartilhamos ideias sobre o tipo de música que ouvíamos e o tipo que queríamos compor. Uma semana depois, formamos a banda. No próximo fim de semana, fomos assistir O Exterminador do Futuro no cinema - lembra da cena em que o Terminator mata quase todos numa discoteca? A discoteca chamava-se Tech Noir.


2) De onde partiu seu interesse por música e como surgiu a ideia de montar o Tek Noir?

Minha mãe tocava piano e tínhamos um em casa. Cresci ouvindo e tocando música clássica. No começo dos anos 80, ouvi três artistas que me influenciaram muito: O Duran Duran, o Kraftwerk e Jean-Michel Jarre. Logo descobri Human League, Depeche Mode, Pet Shop Boys, Front 242 e Nine Inch Nails. As ideias musicais que formaram o som do Tek Noir vieram, em grande parte, dessas influências.


3) Como foi a produção de Alternative, o primeiro álbum, dividida entre Dino Vicente e Mark Brydon?

Queríamos explorar dois lados da música eletrônica: o lado pop (Tek) e o lado mais experimental, ou "dark" (Noir). O Brydon tomou conta do lado A ("Beat the Rhythm", "Drawings of Sorrow", etc...) e o Dino do lado B ("In the Name of the Father", "Final Fall"). Os dois foram espetaculares e tinham estilos muito diferentes. O Mark preferiu reconstruir o som do Tek de acordo com o seu entendimento do que era o mercado Europeu naquele tempo. O Dino optou por usar o próprio ponto de vista da banda para melhorar a qualidade sonora e a composição, sem influenciar o caráter do nosso trabalho. O resultado foi interessante... o lado A parece muito o estilo do Mark. O lado B, do Tek. Ao fim do dia, acho que o Dino foi muito mais fiel em preservar o som da banda. Tenho tremendo respeito pelo Dino.


4) Para os shows da época, quais equipamentos vocês dispunham? 

Dois ESQ1 da Ensoniq, um DAT da Sony, a bateria TR-505 da Roland e um computador com Cakewalk. Os dois discos do Tek Noir foram feitos no ESQ1. Adorava esse sintetizador.


5) O debut Alternative tem um status cult hoje, você tem ideia de quantas cópias o álbum vendeu e o que poderia ter sido feito para que ele tivesse realmente estourado, considerando seu potencial?

Muito legal ter esse status cult! Acho que vendeu umas 75,000 cópias. O problema da Stiletto foi que não tinham paciência nem experiência ou tampouco sabiam como promover uma banda e os canais de distribuição eram poucos e novos na época. Faltou infraestrutura. A maioria das cidades onde o Tek tocou não tinham discos nas lojas. Nossos "managers" não tinham nenhuma estratégia. Os shows eram uma maneira deles ganharem dinheiro. Não tinham nenhum interesse no futuro da banda. Realmente uma pena.

Alternative, inteiro no Youtube:



6) O que você, avaliando hoje, faria diferente sobre Alternative?

O Dino devia de ter produzido o disco inteiro. "Beat the Rhythm", "Talk of Desire", e a "Drawings of Sorrow" eram muito mais interessantes antes da produção do Mark. Eu teria incluído mais uma faixa, a "Is This Devotion", que tínhamos em demo. Adorava aquela música, para sempre perdida... não sei onde foi parar o K7.

"Falling In My Arms", do segundo (e último) álbum, Destination (1993):



7) O segundo e último álbum, Destination, tinha planos de ser lançado pela Stiletto (que já havia encerrado atividades quando o disco foi lançado, em 1993)? Como foi o processo de produção/lançamento/distribuição desse álbum pelo selo Dance Xplosion e porque o Tek Noir acabou logo em seguida?

Eu já estava cansado das dificuldades de trabalhar com a gravadora e comecei a trabalhar numa empresa. Casei pouco depois de terminar o Destination e decidimos terminar o Tek. O Filippo conseguiu produzir o Destination pela Dance Xplosion, mas eu já estava nos EUA quando começaram uma pequena tour com outro tecladista amigo nosso.

"The Whole Of The World":


8) Tu tens ideia de como repercutiu o trabalho do Tek Noir fora do país? Teve notícia de algum hit em alguma rádio ou parada estrangeira? Quais países vocês se apresentaram na época?

Tocamos numa rádio em New York e a banda tocou no rádio na Argentina e no Peru. Não fizemos nenhum show fora do país.

9) Existe alguma possibilidade do Tek Noir voltar, para algo como uma série de shows comemorativos, reedição de seus dois álbuns, alguma coisa do tipo?

Eu faria um terceiro disco e uma mini tour, com certeza. Numa época, tentei convencer o Filippo de compor algo juntos, mas não deu certo. Fiz vários projetos solo depois de um tempo... o Khommand 45 e o ALTERSTÆT, que está no iTunes, Amazon, etc... Hoje em dia seria super fácil produzir um disco e distribuí-lo. Que tal a gente convence-lo?

"Serenity", do projeto solo de Marcelo, ALTERSTÆT:


10) O que tu tens ouvido e o que não sai do seu fone de ouvido nunca? Quais são suas músicas preferidas, eternas e atuais?

Legal essa pergunta! 

Eternas:
 
1. "Enjoy the Silence" e "World in My Eyes" - Depeche Mode
2. "Don't Crash" e "Headhunter" - Front 242
3. "Blue Monday" e "1963" - New Order
4. "It's a Sin"e "West End Girls" - Pet Shop Boys
5. "Seventh Stranger" e "Save a Prayer" - Duran Duran
6. "The Man Machine" e "Radioactivity" - Kraftwerk
7. "Oxygen" e "Zoolook" - Jean-Michel Jarre
8. "Coolesville" - Laurie Anderson
9. "Falling in My Arms"e "Twixt Land and Sea" - Tek Noir ;)
10. "Frozen" e "Bedtime Story" - Madonna
11. "Lack of Sense" - Tribantura  

Atualmente: 

1. "The Dictator Decides" - Pet Shop Boys
2. "Serenity" - ALTERSTÆT :)
3. "Where's The Revolution?" - Depeche Mode
4. "Oxygen 3"- Jean-Michel Jarre
5. "Kill Your Darlings" - Mesh
6. "Judge of My Domain" - Covenant
7. "Amor Fati" - Washed Out
8. "All is Full of Love" - Björk

Links:

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domingo, 25 de setembro de 2016

Dez Perguntas Para: Simbolo


Pioneiro e maior nome da Electronic Body Music brasileira, Martin Neto fundou o Simbolo em 1988, tem cinco álbuns lançados (dois de forma independente e três pelo selo Cri Du Chat), um EP (Music From The Masses, lançado na Alemanha pelo selo Subtronic Records, em 1993) e várias faixas espalhadas em coletâneas, no Brasil e exterior. O projeto segue firme e recentemente disponibilizou sua obra em sites de streaming e venda digital, como Bandcamp, Google Play e Spotify (links no final da matéria). O músico e produtor Martin Neto concedeu gentilmente esta entrevista via email:

1) A arte gráfica da tua obra deixa claro que tens forte influência do construtivismo do russo El Lissitzky. Até que ponto isso reflete na tua música? 
Sou obcecado pela arte da vanguarda russa, fiz a faculdade de Belas Artes de São Paulo e estudei muito não só o trabalho de El Lissitzky, mas também de Rodchenko e Malevich. Eu mesmo crio e finalizo o design gráfico do Simbolo. Na música isso se reflete de forma natural porque faço uma programação midi geométrica, repetitiva, organizada em blocos e meticulosamente quantizada. Depois que a faixa está pronta, faço uma “limpeza”. Corto as partes desnecessárias para chegar na síntese da ideia. O melhor design é o mais simples. El Lissitzky escreveu que “quanto mais simples a forma, mais necessária é a qualidade e precisão da sua execução.”


2)
Já pintou algum convite para algum trabalho em algum projeto mais comercial, voltado ao pop? Já chegaste a pensar em fazer algo do tipo? 

Nunca pensei em fazer algo fora do Simbolo. Uma exceção foi o Depeche Mode Cover em 1991, mas durou pouco porque neste ano eu estava gravando o meu primeiro álbum (Le Sacré Du Printemps) e fiquei sem tempo disponível. Sou inclinado a fazer coisas num contexto mais cultural. Toquei com o VJ Spetto no Centro Cultural Itaú e foi muito bom. Pretendo fazer mais coisas assim.

3) Qual a tua relação com o sampler e quais os teus critérios para o uso do instrumento? Já usaste algum trecho gravado de outro artista em alguma composição?


Nunca usei sampler. Só o EXS24 do Logic Pro X, mas como um sintetizador normal. Entre 2002 e 2004 usei um pedaço da introdução de "Carmina Burana", de Carl Orff, para abrir os shows. E na faixa "Fabrika", do álbum Originate, tem um trecho de um coral russo em reverso. Prefiro ter tudo em MIDI.


4) Em 1998, por ocasião do lançamento da compilação Electroad na qual havia duas faixas do Simbolo inclusas, a revista Bizz definiu que teu som “realmente dispensa letras” (no sentido da excelência do instrumental). Com uma temática que trata, especialmente, sobre violência, qual a importância das letras na tua música e porque a escolha do inglês como meio de expressão? 

Fiquei sabendo disso agora, não conhecia essa coletânea. Quanto à temática das letras vale deixar claro que não faço apologia à violência. Um exemplo é a faixa "Cease Fire", que contêm mensagem pacifista. Mas gosto desse tema porque é atemporal. Letras na minha música têm dupla função. A primeira é a presença vocal. A voz como instrumento. Muitas faixas não precisam deste ingrediente, mas outras precisam, senão ficam incompletas e sem foco. A segunda função é que a letra traz a narrativa de forma a contar uma história. Com frases soltas, dentro do mesmo tema, cria um panorama visual imaginário, como um filme. Quanto a usar letras em inglês, essa pergunta abre espaço para uma explicação maior. Desde o começo eu imaginava o Simbolo como um projeto com características globais. Tanto é que adotei o nome Simbolo (sem o acento no i) porque é como se escreve em Esperanto. Pois bem, em 1988, sem internet, atingir este objetivo era um caminho muitíssimo mais longo, e cantar em inglês seria o primeiro passo. Hoje não. O caminho quase não existe. Mas as músicas atuais têm letras em outros idiomas, além do português.

"That's Possession", do álbum  Le Sacré Du Printemps, lançado em 1992:



5) A EBM sempre teve uma boa relação com as pistas de dança – especialmente no final dos 80 e começo dos 90. Tu já fizeste alguma faixa intencionalmente voltada para a pista? 

Até pouco tempo tudo o que eu fazia era para funcionar ao vivo porque era a via que eu tinha para divulgar o trabalho. Atualmente estou reprogramando tudo, ou a grande maioria, para funcionar também na pista.

"Train Forest", do álbum In The Danger Zone, de 1995.



6) Qual é a formação atual do Simbolo e qual o equipamento tu levas pro palco atualmente? Quantos por cento do material é pré-gravado?


A formação atual sou só eu, porque não vejo mais o Simbolo como uma banda. Também parei de tocar ao vivo, pelo menos por enquanto. Mas no passado usava um sintetizador Roland Alpha Juno 1, o sequenciador de baixo Roland TB-303 e a bateria eletrônica Roland TR-707. Depois fui somando com vários módulos E-mu como o Proteus 1 e o Vintage Keys. E ao longo dos anos entraram muitos outros instrumentos, como a bateria eletrônica Alesis SR-16 e os sintetizadores Korg Prophecy, Alesis Ion, Yamaha DX-7 e Yamaha CS6X, entre vários outros.  Não uso material pré-gravado, mas tudo é pré-programado. Ao vivo só o vocal e alguma melodia adicional no sintetizador. Uma coisa interessante de se fazer eletronicamente ao vivo é interagir com os sons usando modulações de filtro ou pitch bender, por exemplo. A audiência percebe que tem algo realmente acontecendo e que aquilo não é gravado.



7) O mercado de venda de música eletrônica alternativa é mais ou menos interessante hoje com os sites de streaming e downloads pagos em relação à quando tu começaste, quando os CDs ainda eram a única forma de mídia disponível?


Hoje é muito mais interessante, sem dúvida. Não só pelo alcance global dos sites de música mas por outro aspecto muito importante: não tem atravessador. A internet mudou o destino do artista alternativo, que por ser independente, já começava com um pé no fracasso. Hoje não. Pelo menos em termos de oportunidade, todos são iguais perante a tecnologia.

"We Are The Music":



8) Já tiveste na carreira algum hit cult (em pistas ou rádio) que te surpreendeu? Tens ideia do alcance da tua música fora do Brasil? 

Muita coisa me surpreendeu, mas não por causa de um hit específico. Talvez as músicas "K.A.O.S." e "Enforced" tenham causado um impacto maior, mas eu acho que a força do Simbolo está no conjunto da obra, quando o todo é maior do que a soma das partes. E o alcance fora do Brasil é total. Tive até uma oferta para remix de um DJ, na China, só para ficar num exemplo.

"Enforced":



9) Para onde vai a EBM (ou, num contexto mais amplo, a música eletrônica), num cenário pulverizado por milhares de bandas/projetos do gênero? Como é possível soar original e inovador nessa situação? 

A EBM é eterna porque seu formato original é simples e elementar: voz, baixo e bateria. A originalidade e inovação virá da forma como se lida com estes três elementos e adicionar outros. Tendo isso em mente, é só não fazer igual aos outros. Parece fácil mas não é. Quanto ao cenário, que hoje pode ser confuso e desfavorável, a solução é trabalhar com objetivos de longo prazo, porque o cenário muda. Noventa por cento do que existia quando o Simbolo começou – gravadoras, lojas de discos, casas noturnas, fanzines, programas de rádio, etc... –  já não existe mais, mas estou aí fazendo e muito satisfeito com o atual momento.

10) Top 5: cinco músicas eternas e cinco atuais:

Eternas:


1) "Computer Love", Kraftwerk.



2) "Carmina Burana", Carl Orff.



3) "Sonata No.14: Moonlight”, Beethoven.



4) "Chase", Giorgio Morder.



5) "Oxygene Pt.4", Jean-Michel Jarre.



Atuais:

1) "Expo 2000", Kraftwerk.



2) "Opus Dei", Laibach.



3) "Russians", Sting.



4) "Why This, Why That and Why", Jean-Michel Jarre.



5) "I’m A Man", Black Strobe.

domingo, 13 de setembro de 2015

Lições De Um Remix


Imagine a cena: você é um DJ que já tem boas horas de experiência na cabine, mas ainda está dando os primeiros passos no estúdio. Então a gravadora te convida pra fazer um remix de uma faixa estourada nacionalmente. O material que ela te disponibiliza consiste em Gillette, régua e fita adesiva.

Por mais estranho que isso possa parecer hoje em dia, era esse o cenário nos anos 80. A música em questão é "Ela Não Gosta de Mim", da boy band brasileira Dominó - uma versão em português do hit "Standing In The Twilight", da dupla holandesa Maywood. Softwares de edição em computadores ainda não eram nem sonhados e a dificuldade em editar um remix de forma praticamente artesanal era enorme. O DJ e produtor Sylvio Müller, que foi incumbido da tarefa (junto com os DJs Cabello e Grego) de levar o Dominó das rádios e TVs para as pistas de dança, explica - entre um e outro "Mansss!", seu inconfundível bordão - como foi o processo.

De quem partiu o convite pro remix?

O primeiro Dance Mix (série de coletâneas de remixes de faixas do pop nacional dos anos 80, iniciada em 1985) foi um projeto da CBS (atual Sony Music), no qual o DJ Grego foi o encarregado de convidar os DJs para participar do empreendimento. Na época da Pool FM, nós já fazíamos remixes pra tocar na programação diária da rádio, mas para profissionalizar mesmo a situação dos remixes no Brasil, a CBS colocou o Grego para dirigir esse projeto e eu fui convidado pra fazer o remix do Dominó, junto com o DJ Cabello, porque era realmente um remix muito complicado. Já havia acontecido o primeiro remix que foi um sucesso nacional, "Loiras Geladas" (RPM) e o segundo também teria que ir pro mesmo caminho. Então o Grego convidou a mim e o Cabello porque nós editávamos vários gêneros de música - do rock ao pop, soul, black e dance em geral. Topamos editar o Dominó, mas com a condição de que no próximo trabalho tivéssemos o poder de escolher o remix a editar. Nesse Dance Mix nós fizemos o Dominó e uma faixa do Ritchie, "Tele Notícias", também. A faixa que escolhemos pra trabalhar na próxima edição da série foi "Olhar 43", do RPM. A curiosidade sobre o Dominó é que foi uma produção vinda da Espanha, feita por Oscar Gomez, que era um grande produtor musical e nós fizemos as novas mixagens pra música com uma master de muita qualidade (a letra em português foi feita pelo cantor, compositor, maestro e pesquisador Edgar B. Poças, pai da cantora Céu e de Diogo Poças). Na edição, deixamos a música bem pop, pra pista mesmo. Assim, conseguimos dar continuidade a esse tipo de trabalho por aqui e esse remix foi muito importante pra história do remix no Brasil.



E os sintetizadores e baterias eletrônicas adicionais, foram vocês que fizeram, também?


O master
era muito bem feito. Oscar Gomez era um ótimo produtor e nessa época ele já usava sintetizadores, sequenciadores e beats eletrônicos. Na época usávamos a bateria eletrônica LinnDrum. Nosso trabalho com o remix era de deixar a música com um formato mais adequado pra tocar na pista. Então realçávamos as baterias, o groove, deixando os elementos da parte rítmica em evidência. A partir da edição, temos a montagem, que faz com que a música adquira consistência. Esse método de edição que usávamos era do mesmo nível de um Shep Pettibone, Arthur Baker e John Jellybean Benitez, grandes produtores e remixers que nos ensinaram como deixar a música com características próprias de pista. Na edição e montagem da nova versão tínhamos que ter uma sensibilidade muito grande para saber o que cada música precisa e o Dominó foi uma música muito complicada de fazer. O resultado está aí e depois de 30 anos, dá orgulho de ouvir.


E o método disponível na época eram as masters em tape de rolo, Gillette, régua e fita adesiva, mesmo, ou já pintava alguma coisa via computador?

Não tinha computador, não, mans. Nessa época a gente pegava a fita master de duas polegadas, onde havia os canais separados. Fazíamos uma nova mixagem da música e então tirávamos todos os elementos: bateria, baixo, teclados, guitarra, voz, etc... Depois, resolvíamos tudo na edição. Não tinha computador na época. Esse era o segundo estágio. A primeira parte da nova mixagem era abrir o master e só depois ia pra edição, onde fazíamos o chamado half mix, que era pra não ficar quebrando a cabeça no estúdio e ficar gastando muita grana (porque o estúdio era caro). Então fazíamos num gravador Akai o half mix, que era uma prévia do que iríamos editar no estúdio, pra daí então entrar nas máquinas de estúdio. Vale ressaltar que a CBS nos deu suporte pra fazer o trabalho nos melhores estúdios da América Latina, que eram os estúdios da Transamérica. A gravadora nos oferecia engenheiros de som e equipamentos de alta qualidade, depois, era tudo com a gente: cortar literalmente a fita com a Gillette e colar com todos os elementos (vocais acapella, instrumentos) sendo disparados diretamente do tape de rolo. Não tinha nada de software.


O remix chegou a sair numa versão 12" pro mercado ou foi incluída exclusivamente nessa compilação?

Todas as versões que foram incluídas na série Dance Mix, saíram também como promos, mas não foram colocadas à venda. Existe o 12" em vinil e a versão que saiu na compilação era o remix oficial mesmo, idêntica ao promo.

Tu tinhas a informação da lista de equipamentos usados na gravação original da música? Qual sintetizador, drum machine?

Sim. Quando abrimos a master onde estão os canais separados da faixa, a produção do estúdio coloca a lista de equipamentos utilizados, para que possa ser aberto em outros estúdios. Na época era o começo do Yamaha DX-7, dos sintetizadores polifônicos. Eram recursos analógicos que já tinham como ser colocados no sistema de sincronismo que chamamos de SMPTE, que sincronizam as máquinas onde você pode ajustar o tempo de uma bateria eletrônica com um gravador de rolo. Obviamente que nós, como DJs, já sabíamos a diferença entre os sons de um MiniMoog, Hammond, Fender Rhodes... os timbres, tanto de teclados como de outros instrumentos e principalmente de baterias eletrônicas, já estávamos bem informados. Sincronizar, colocar tudo funcionando foi uma etapa de engenharia de áudio, que nós passamos a aprender. Fomos as cobaias desse processo.

 Esse foi, de fato, um dos primeiros remixes feitos no Brasil. Qual foi a repercussão entre DJs, produtores, jornalistas? A faixa chegou a fazer o crossover das pistas pro rádio, chegou a popularizar essa versão nas FMs?
Olha, mans... esse remix foi realmente uma zica (risos). Essa música era muito complicada. Nenhum DJ queria pôr a mão e muito menos tocar. Esse remix fez com que ela entrasse nas pistas e fosse depois, naturalmente, pro rádio. Deixar ela com uma cara de pista de dança é que foi um trabalho de dedicação que tivemos, porque não havíamos feito algo assim anteriormente. Não tínhamos referência, esse foi o primeiro, mesmo. Pegar um grupo super pop e deixar ele adequado pras danceterias foi um laboratório e tanto, onde nós fomos as cobaias e o Dominó, nosso produto (risos).

sábado, 12 de julho de 2014

Dez Perguntas Para: DJ Memê



Os números impressionam. O carioca Marcelo Mansur tem uma carreira superlativa, construída desde que começou a discotecar, aos 11 anos de idade. São cerca de 150 remixes, 25 produções de singles, 23 produções de álbuns, 23 discos de ouro, 15 discos de platina e 3 discos de diamante. Vale a visita ao site de Memê, o djmeme.com.br, onde você pode ver a lista completa. Memê é um dos DJs mais conhecidos e respeitados do mundo, já trabalhou com nomes do quilate de Mariah Carey, Dido, Justin Timberlake, Lulu Santos, David Morales e Shakira. Gentilmente aceitou responder às 10 Perguntas do blog e o resultado é uma lição de produção, remixagem, discotecagem, bom humor e, principalmente, amor à música. Eis!  

1) O que tu consideras como tua assinatura pessoal, aquilo que as pessoas ouvem e dizem:
"é o Memê na produção!"?

Hmmmm... temo errar na resposta, porque isso não é algo que o artista percebe em si mesmo, mas normalmente parte dos outros que dizem "QUANDO OUÇO ISTO OU AQUILO, JÁ SEI QUE É VOCÊ". Eu apenas coleciono opiniões, e aqui vão algumas repetidas: além de alguns acordes específicos que gosto de usar com 7a Menor, o som dos mixes que eu mesmo tiro em estúdio já anda reconhecido pela parte mais antenada e sensível dos fãs. Como sou eu mesmo que mixo tudo desde 1993, é natural que haja uma assinatura em tal mixagem. Tem gente que só de ouvir os primeiros beats, já me descobre ali.

Em um segundo estágio, percebo que o meu uso específico de pianos numa região específica que escolho para tocar dentro do arranjo, também já não passa mais despercebido. E para terminar, a estrutura dos meus tracks (intro, verso, drops, etc...) também pode ser identificada pelos bons ouvidos. O engraçado é que outro dia fiz um track completamente diferente do meu usual e mudei o nome, mas... muita gente ficou confusa, porque JURAVAM que era eu, e olhavam para o disco vendo um nome diferente. Não sei se assinatura forte é bom ou não, mas tem funcionado há um tempo.

2) Tu já tiveste interesse em produzir um álbum em que o foco não fosse a pista de dança ou a música pop e sim, experimental? 

Sim, e penso em fazê-lo agora, mas a ideia é tão real que não posso contá-la ainda ;-)

3) Até que ponto o gosto pessoal pode interferir na discotecagem? O feeling de pista basta pra saber se uma música nova vai funcionar ou não?

Essa é bem complexa. Vamos lá:

Eu acredito que existam diversos tipos de DJs e cada um tem uma missão. Não há "verdadeiros" ou "falsos" DJs. Nem melhores e nem piores, mas tais como um pintor, há pintores de parede e pintores de quadros. Ambos são chamados PINTORES, mas com acentuadas diferenças: 

1 - O pintor de parede ouve do cliente: "_ Olha, eu gostaria de pintar essa parede de vermelho e o teto de verde." E assim será feito. Pinta, recebe e vai embora.

2 - O pintor de quadros chega e diz: "_ Senta aí. Quando eu acabar de pintar, você vê". E é exatamente para isso que ele está sendo contratado, para dar a sua visão das coisas.

Eu sou um pintor de quadros, pois parto SEMPRE da minha escolha pessoal, selecionando músicas o ano inteiro para carregar meus pendrives com o que pretendo mostrar ao público... como uma aquarela. Monto minha seleção de cores/músicas e procuro dentro da vibe daquela noite, excitar a pista com a mistura certa entre elas para atingir o sentimento que quero passar. 

O DJ precisa ter feeling, claro. Nenhuma noite é prevista, por mais comercial que seja o club. Sempre haverá uma mistura nova ou um elemento novo a cada noite, então se você não tem tal feeling, não saberá como usar uma música nova que acaba de chegar, e provavelmente tocará um playlist de 2 horas, passando a bola para o próximo depois.

Música transmite sensações, e é essa a minha onda: surpreender o público, causando sensações inesperadas, e não parecidas com a da noite passada. Claro que ás vezes o club não está exatamente como você espera, mas em cada caso é preciso saber reequilibrar os "temperos' de forma diferente, como se você estivesse misturando cores para resultar em algo propício para aquele quadro.

Em minha visão pessoal, acho que se você não surpreender o público... qual é a graça? Botar um hit atrás do outro, não faz você ser lembrado no futuro, e nem fará de você um DJ diferenciado, mas... tem seu lugar.

A escolha de qual DJ você quer ser, é 100% sua.

4) Para o DJ, hoje, ecletismo é a palavra-chave, ou com a ramificação absurda de gêneros, é melhor se especializar num determinado gênero?

Sou reconhecidamente um DJ de House, mas meu gênero preferido é, e sempre foi, um só: MÚSICA BOA! Aqui no nosso país, 90% diz que toca DEEP HOUSE ou EDM. Tirando os 10% de exceções, não existe mais nada na boca desse povo, mas... pombas, quem disse que o público só quer escutar isso? No meu caso, posso ir da House ao Tech, do Unreleased ao Clássico, do mais cabeçudo ao mais comercial, mas o importante ao final das contas é gerar a tal surpresa numa viagem musical que soe completa, com começo meio e fim, mas jamais um Frankenstein, em que os pedaços não fundem-se muito bem.

5) Tu compartilhas de um certo tipo de "romantismo saudosista" em lembrar que discotecar há duas décadas era mais difícil do ponto de vista técnico, mas com menos DJs aventureiros pra dividir o mixer na noite, ou vale o conceito "todo mundo é DJ" e tem espaço pra todos?

Pra começar, não sou saudosista. Nunca fui. Se fosse, minha carreira já estaria moribunda. Gosto do meu passado e orgulho-me de ter estado lá, mas sempre andei olhando para o que há de novo no outro lado do muro. Isso é o que me mantém vivo. 

Na resposta nº 3 acima eu deixei claro que todos os gêneros de DJ são válidos, e se tem respaldo do público, não há sequer como contestar tal argumento. Gostar ou não de um ou outro, já é íntimo e pessoal a cada um, mas... CLARO que é preciso talento. 

Pense assim: nem todo mundo saberá cozinhar. Nem todo mundo saberá jogar bola. Nem todo motorista é piloto. Com DJ é a mesma coisa. Há um mito subliminar de que com a chegada dessa tecnologia que facilita tudo, todo mundo pode ser DJ. Poder pode, mas mesmo que você tenha dinheiro para comprar uma Ferrari, lembre-se que tê-la como seu primeiro carro e com sua pouca experiência, essa "tiração de onda" poderá resultar num belo desastre físico e financeiro. Não acho que ninguém deveria querer e nem procurar algo parecido com um desastre. 

A verdade é uma só: ninguém pode fazer tudo ou qualquer coisa. 

6) Qual foi o último disco de dance/eletrônica que realmente te deixou de queixo caído?

Eu ando gostando muito de um "cabra" sueco chamado CLAES ROSEN. Descobri há um tempo no Soundcloud e fui atrás de outras coisas dele. Ele tem uma pegada Techno, mas seu coração bate em harmonias e melodias da House. É um sueco do bem... rs. OOoops !

7) Dá pra escolher um filho preferido? Qual é o teu melhor remix?

Hahaha... um só, não dá, mas ando preparando essa resposta há algum tempo. Aqui vai a minha seleção, mas não necessariamente na ordem abaixo:

Depeche Mode – “Behind The Wheel 2014”

Shakira – “Estoy Aqui”

Davidson Ospina – “I Want It”

Fish Go Deep – “The Cure and The Cause”

Frankie Knuckles & Shapeshifters – “The Ones You Love”

Kid Abelha – “Fixação”
8) Com quem e porque tu gostarias de trabalhar e por algum motivo, ainda não o fez?

Cara, tive a sorte de ir para estúdio com uma gama tão diferente de artistas como Mariah Carey e Shakira; Lulu Santos e Roberto Carlos; Frankie Knuckles e Vincent Montana Jr.; Volkoder e Gabe. Entre todos que trabalhei, faltaram dois que eu gostaria MUITO por razões ÓBVIAS, mas que não vai rolar mais: TIM MAIA e MICHAEL JACKSON. Imagina a aula que eu teria????  

Aprendi que o melhor que se tira desses encontros é mesmo a honesta e saudável troca de expêriencia. Isso... nem Mastercard compra, e acho que esse é o meu diferencial no mercado.

9) É preciso produzir, ou um DJ pode chamar atenção hoje em dia apenas tocando?

Olha, até pouco tempo atrás eu espalhava para quem quisesse ouvir que "DJ é o cara que faz dançar. Quem produz chama-se PRODUTOR", mas... o mercado mudou mesmo, e se você não tiver um trabalho autoral, não será reconhecido dentro da categoria 'ARTISTA/DJ'. 

Contra fatos não há argumentos. DJ que não produz terá seu lugar sempre, mas numa escala menor. Se você não se importa com isso, porque sabe que produzir não é pra você, seja feliz e faça o povo dançar. Esta também é uma causa nobre.

10) Duas músicas: uma eterna (que não sai do case) e uma produção atual:

Vou pedir "licença poética" para aumentar para duas de cada gênero:

Eternas:

Soul Central – “The Strings of Life”



Junior Jack – “Thrill Me”

Atuais:

Bazzo Ruthel – “Milagro”


Volkoder – “Alternavel”
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Soundcloud: soundcloud.com/dj-meme

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Dez Perguntas Para... Regis Tadeu


Regis Tadeu é crítico musical, produtor, apresentador de programas de rádio, jurado do Programa Raul Gil (também já atuou como crítico no programa Superpop), mantém um blog no site Yahoo! e ainda tem uma vasta coleção de LPs (aproximadamente 14.000) e CDs (cerca de 23.000). Regis entrou para o jornalismo musical a convite da revista Cover Guitarra, em 1994 e já foi diretor de redação das revistas Cover Baixo, Batera, Teclado & Áudio e Mosh. Um currículo pra lá de respeitável e um crítico que não pensa duas vezes antes de soltar o verbo. Seja pra quem for.

1) Com o pop nacional dominado por artistas dignos de vergonha alheia, podemos jogar a toalha ou há esperança de dias melhores?
Sempre há a esperança de melhoras, mas antes é preciso mudar a mentalidade do público. Aí é que a coisa se torna bem difícil...

2) O Regis Tadeu de programas de auditório como o de Raul Gil é o mesmo que apresenta o Rock Brazuca (pela Rádio USP FM), ou na TV é preciso exagerar em alguns aspectos pra criar o estereótipo do crítico ranzinza, odiado pela plateia?

Sim. É o mesmo. Não faço “personagens”. Sou o que sou.

3) A crítica musical de hoje no Brasil é confiável, ou a prática da brodagem e f
avoritismo ainda é comum?

Infelizmente, ainda há muita “brodagem” e interesses excusos por trás de certas críticas.

4) Quais novos artistas, artística e comercialmente, estão prontos pra estourar atualmente no Brasil?
Para “estourar”? Ninguém.

5) Como foi tua experiência editorial com a extinta revista Mosh?
Foi maravilhosa. A revista era como uma filha para mim. Durou pouco por conta de exigências do mercado publicitário, que exigia que triplicássemos a tiragem para conseguir manter os anunciantes de marcas famosas das primeiras edições. A editora não tinha cacife financeiro para isto e a publicação morreu.

6) Porque revistas de música no Brasil não costumam ter vida longa?
Porque elas são dependentes das vontades do mercado publicitário. Nenhuma revista se sustenta apenas com as vendas em bancas.

7) Quando tu escreves uma crítica, o que tu levas mais em consideração: gosto pessoal ou conhecimento da obra do artista?
Ambos.

8) Tu chegaste a repensar tua maneira de escrever ou se comportar depois do episódio Manowar (vídeo abaixo)?



Claro que não! Pelo contrário! Mostrou que eu estou no caminho certo.

9) Qual foi tua reação quando a Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados aprovou ano passado (por unanimidade), o parecer do deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) pela aprovação do Projeto de Lei de autoria do deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), que reconhece o funk carioca como manifestação cultural e determina que o poder público garanta as condições para a democratização da sua produção e veiculação musical?

Que mais uma vez os nossos políticos se preocupam mais em “jogar para a galera” em busca de votos e não dão a menor bola para os reais problemas deste País.

10) O que é mais difícil: fazer um tratamento de canal (Regis é formado em Odontologia) ou escutar o Top 10 da Billboard Brasil?


É infinitamente mais difícil ouvir o Top 10 de qualquer “parada de sucessos” no Brasil.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Dez Perguntas Para: Tonho Crocco


Tonho Crocco não para. Cantor, compositor e músico, estreou em disco como vocalista do De Falla (no álbum Top Hits, de 1996), participou de álbuns e DVDs de Nando Reis, Papas da Língua e Marcelinho da Lua (o cover de "Ela Partiu", de Tim Maia, já é um clássico do drum'n'bass nacional). Junto com seu principal projeto, a banda Ultramen, foram cinco discos lançados, vários hits e inúmeros shows Brasil afora. Durante a parada de cinco anos com o grupo, lançou um disco solo em 2010, retornou com uma série de shows ano passado com a Ultramen e já tem álbum novo previsto para o ano que vem. Seguindo à risca a estrofe da faixa "Esse é o Meu Compromisso", Crocco "bebe, fuma, cheira e injeta poesia". Rimar é um vício. A caravana não para. 
1) Tu achas que o pop nacional ainda tem chance de voltar a cair no gosto popular ou a tendência daqui pra frente é uma cena alternativa pulverizada em artistas underground, vendendo uma quantia insignificante de discos e tocando para cada vez menos público?
Uau! Que visão apocalíptica! Bom, acho que o alternativo sempre vai vender menos que o mainstream. É justamente isso que ele representa, como cultura e alternativa à musica de grandes massas. A quantidade de publico é geralmente proporcional a boçalidade de quem paga pra ouvir lixo. E não só no Brasil. Um show de jazz nos EUA ou aqui vai ter menos ouvintes/pagantes que o show da cantora da Disney. Sempre foi assim. Acho que o público alternativo está melhorando sim. E isso é mais nobre que aumentar. 
2) A facilidade em gravar e distribuir música na Internet gera terabytes de lançamentos diários. Essa superexposição do público à artistas de qualidade duvidosa pode estar criando uma geração para a qual a música não tem mais importância?
Bobagem. Agora qualquer um pode gravar e lançar. A peneira da qualidade é o ouvinte que faz. E além do download, o streaming também é remunerado. Nem comercialmente nem culturalmente a musica vai acabar. Repito: a quantidade não tem nada a ver com qualidade. 
3) Quem faz boa música, comercialmente viável, hoje no Brasil?
Nação Zumbi, B Negão, Racionais; pra citar os grandes. Emicida e Criolo, dos novos.




4) Em relação a quando tu começaste, montar uma banda e viver de música em 2014 é mais fácil ou mais difícil?


Mais fácil. A informação e as ferramentas pra materializar a criação nunca antes estiveram tão acessíveis como agora.
5) O teu trabalho com a Ultramen foi fortemente marcado pela fusão de rap e rock com a música regional gaúcha. Esse ainda é um filão a ser explorado?
Talvez. O leque de referências da Ultramen sempre foi grande. O samba, reggae e ragga por exemplo. Estamos compondo novamente e até agora não saiu nenhum rap gaudério. Vamos surpreender as pessoas com esse novo trabalho, tenho certeza. (Nota: previsão de lançamento para 2015).

6) Qual é o status atual da Ultramen? A reunião que aconteceu ano passado foi parcial (a banda fez dois shows no Opinião, em Porto Alegre) ou há planos para um novo álbum?
Temos feito show desde a volta em março de 2013. Compondo um novo disco de inéditas e finalizando o DVD gravado em 2008.
7) Como lidar com as diferenças dentro de uma banda com tantas influências e gostos diferentes na hora de compor e gravar? Como acontece o processo de escolha do que vai pro disco?
Usamos a democracia pra decidir tudo. 
8) O teu álbum solo (O Lado Brilhante da Lua, lançado em 2010) tem predominância de funk e samba-rock, gêneros sempre presentes no trabalho da Ultramen. O que tu sentiste que deveria ser diferente musicalmente nesse projeto?
Pow, tem afrobeat também. Coisa que a Ultramen nunca fez. Ao mesmo tempo o rap, reggae e rock não fizeram parte do meu primeiro registro. Quem sabe no próximo... Acho que fiz um disco bacana e verdadeiro. Não me arrependo de nada. 

9) Certa vez num programa de uma rádio local (Atlântida FM, de Porto Alegre), tu disseste que costumava chamar a faixa "A Estrada Perdida" de "reggaezinho trouxa". Porquê? Tu te arrependes de alguma música que tenhas escrito ou gravado?

A banda toda falava isso.
É uma brincadeira; beirando uma piada interna. Sempre tiramos onda da nossa própria cara. Talvez a parte "o coração do planeta ainda chora" motivou isso. Hehehe. No mais, não mudaria uma vírgula.


10) Quais os discos/artistas que mais te influenciaram?

Tim Maia, Stevie Wonder, Luis Vagner, Beastie Boys, Pau Brasil, Cartola, Defalla... vixi, a lista é grande.