Mayer Hawthorne tinha tudo pra se transformar no Calvin Harris versão ianque. Os primeiros passos foram semelhantes: estreia promissora, revisionismo, respeito da crítica, atenção do público e a consequente e inevitável aproximação do mainstream. Harris converteu-se num artista dance ordinário, grava com figurões do establishment da música, ganha milhões e coleciona McLarens. Hawthorne continuou destilando seu soul de boa cepa em pequenos selos (à exceção de seu segundo álbum, How Do You Do, que saiu pela Universal) e quase caiu em tentação quando aproximou-se perigosamente do rapper de ladainha fraca Pitbull, em 2013 ("Do It"). Felizmente, ao que parece, Andrew Mayer Cohen optou pelo que realmente importa nessa história toda: fazer boa música. Ele possivelmente perdeu público com a escolha, mas acertou pela preferência, porque esse hipotético consumidor de pop rasteiro que coleciona hits no celular tem uma volatilidade totalmente dispensável pra um artista que pensa em seguir carreira fazendo algo relevante. Seu álbum mais recente, Man About Town (2016, Vagrant Records) é mais uma coleção irrepreensível de soul pop sem bolor, sem o ranço "neo-alguma-coisa", excepcionalmente bem produzido (o produtor e DJ belga Vito de Luca - do projeto Aeroplane - e o ótimo Benny Sings estão entre os nomes por trás da mesa de som do estúdio) e, mais importante, é delicioso de ouvir. São 10 faixas em pouco mais de meia hora; nada descartável, nada fora do lugar. Longe de ser um disco saudosista, Man About Town aponta para várias direções, entre R'n'Bs sedutores com instrumental cuidadoso e backings maravilhosos ("Cosmic Love", "Book of Broken Hearts"), sacolejos estilosos ("Lingerie & Candlewax", "Love Like That"), blue eyed soul à Hall & Oates ("The Valley"), disco/boogie ("Out of Pocket"), baladas soul viscerais ("Breakfast in Bed", "Get You Back") e até um reggae respeitável ("Fancy Clothes"). Com esse álbum, Mayer Hawthorne merecia bem mais que o modesto nonagésimo lugar que alcançou no paradão da Billboard. Questão é que imagino que ele esteja feliz, mesmo assim. Senão pelos resultados comerciais, pela satisfação pessoal de não se dobrar pra indústria em troca de uns tostões, por garantir assim longevidade artística e por continuar fazendo música que coloca um sorriso no rosto de quem se interessa pelo seu incrível trabalho (e não é pouca gente). São trinta minutos de prazer garantido no disco mais equilibrado da carreira de Hawthorne.
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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
Melhores de 2016 - Discos (#02: Mayer Hawthorne)
Mayer Hawthorne tinha tudo pra se transformar no Calvin Harris versão ianque. Os primeiros passos foram semelhantes: estreia promissora, revisionismo, respeito da crítica, atenção do público e a consequente e inevitável aproximação do mainstream. Harris converteu-se num artista dance ordinário, grava com figurões do establishment da música, ganha milhões e coleciona McLarens. Hawthorne continuou destilando seu soul de boa cepa em pequenos selos (à exceção de seu segundo álbum, How Do You Do, que saiu pela Universal) e quase caiu em tentação quando aproximou-se perigosamente do rapper de ladainha fraca Pitbull, em 2013 ("Do It"). Felizmente, ao que parece, Andrew Mayer Cohen optou pelo que realmente importa nessa história toda: fazer boa música. Ele possivelmente perdeu público com a escolha, mas acertou pela preferência, porque esse hipotético consumidor de pop rasteiro que coleciona hits no celular tem uma volatilidade totalmente dispensável pra um artista que pensa em seguir carreira fazendo algo relevante. Seu álbum mais recente, Man About Town (2016, Vagrant Records) é mais uma coleção irrepreensível de soul pop sem bolor, sem o ranço "neo-alguma-coisa", excepcionalmente bem produzido (o produtor e DJ belga Vito de Luca - do projeto Aeroplane - e o ótimo Benny Sings estão entre os nomes por trás da mesa de som do estúdio) e, mais importante, é delicioso de ouvir. São 10 faixas em pouco mais de meia hora; nada descartável, nada fora do lugar. Longe de ser um disco saudosista, Man About Town aponta para várias direções, entre R'n'Bs sedutores com instrumental cuidadoso e backings maravilhosos ("Cosmic Love", "Book of Broken Hearts"), sacolejos estilosos ("Lingerie & Candlewax", "Love Like That"), blue eyed soul à Hall & Oates ("The Valley"), disco/boogie ("Out of Pocket"), baladas soul viscerais ("Breakfast in Bed", "Get You Back") e até um reggae respeitável ("Fancy Clothes"). Com esse álbum, Mayer Hawthorne merecia bem mais que o modesto nonagésimo lugar que alcançou no paradão da Billboard. Questão é que imagino que ele esteja feliz, mesmo assim. Senão pelos resultados comerciais, pela satisfação pessoal de não se dobrar pra indústria em troca de uns tostões, por garantir assim longevidade artística e por continuar fazendo música que coloca um sorriso no rosto de quem se interessa pelo seu incrível trabalho (e não é pouca gente). São trinta minutos de prazer garantido no disco mais equilibrado da carreira de Hawthorne.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
Melhores do Ano - Músicas (#14: Mayer Hawthorne)
Muito difícil escolher uma música preferida num álbum tão coeso e homogêneo quanto Man About Town (o mais recente de Mayer Hawthorne), mas talvez "The Valley" tenha sido a faixa que mais ouvi desse disco. Produzida pelo requisitado Dave Tozer (John Legend, Kanye West, Jay-Z, Justin Timberlake, Bruno Mars e mais uma pá de gente), "The Valley" usa Doobie Brothers e Hall & Oates como referências óbvias, isto é, blue-eyed soul sublime.
domingo, 11 de dezembro de 2016
Escolha Certa
Mayer Hawthorne tinha tudo pra se transformar no Calvin Harris versão ianque. Os primeiros passos foram semelhantes: estreia promissora, revisionismo, respeito da crítica, atenção do público e a consequente e inevitável aproximação do mainstream. Harris converteu-se num artista dance ordinário, grava com figurões do establishment da música, ganha milhões e coleciona McLarens. Hawthorne continuou destilando seu soul de boa cepa em pequenos selos (à exceção de seu segundo álbum, How Do You Do, que saiu pela Universal) e quase caiu em tentação quando aproximou-se perigosamente do rapper de ladainha fraca Pitbull em 2013 ("Do It").
Felizmente, ao que parece, Andrew Mayer Cohen optou pelo que realmente importa nessa história toda: fazer boa música. Ele possivelmente perdeu público com a escolha, mas acertou pela preferência, porque esse hipotético consumidor de pop rasteiro que coleciona hits no celular tem uma volatilidade totalmente dispensável pra um artista que pensa em seguir carreira fazendo algo relevante. Seu álbum mais recente, Man About Town (2016, Vagrant Records) é mais uma coleção irrepreensível de soul pop sem bolor, sem o ranço "neo-alguma-coisa", excepcionalmente bem produzido (o produtor e DJ belga Vito de Luca - do projeto Aeroplane - e o ótimo Benny Sings estão entre os nomes por trás da mesa de som do estúdio) e, mais importante, delicioso de ouvir. São 10 faixas em pouco mais de meia hora; nada descartável, nada fora do lugar. Longe de ser um disco saudosista, Man About Town aponta para várias direções, entre R'n'Bs sedutores com instrumental cuidadoso e backings maravilhosos ("Cosmic Love", "Book of Broken Hearts"), sacolejos estilosos ("Lingerie & Candlewax", "Love Like That"), blue eyed soul à Hall & Oates ("The Valley"), disco/boogie ("Out of Pocket"), baladas soul viscerais ("Breakfast in Bed", "Get You Back") e até um reggae respeitável ("Fancy Clothes").
Com esse álbum, Mayer Hawthorne merecia bem mais que o modesto nonagésimo lugar que alcançou no paradão da Billboard. Questão é que imagino que ele esteja feliz, mesmo assim. Senão pelos resultados comerciais, pela satisfação pessoal de não se dobrar pra indústria em troca de uns tostões e por continuar fazendo música que coloca um sorriso no rosto de quem se interessa pelo seu incrível trabalho (e não é pouca gente). São trinta minutos de prazer garantido. Não perca.
"Lingerie & Candlewax": uma das faixas de mais um discaço de Mayer Hawthorne.
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Segunda Class: Mayer Hawthorne
Esqueça aquele Mayer Hawthorne do primeiro disco, o sublime A Strange Arrangement (2009).
Aquela postura tímida de vocais pequenininhos e falsetes afinados, que
captava brilhantemente o soul sessentista da Motown de boa cepa, ficou pra trás.
Agora, no seu terceiro álbum (Where Does This Door Go, saiu mês passado), Hawthorne justintimberlakequizou seu som e aparentemente tenta posicionar-se no mercado ao lado do ex-'N Sync e Robin Thicke.
É R&B de beats moderninhos (tem Pharrell Williams no time de produtores), salpicado de extravagâncias reggae ("Allie Jones") e hip-hop ("Crime", com Kendrick Lamar). Não sei se vai pegar, mas Where Does This Door Go é uma beleza de disco.
"Her Favorite Song": eu não nasci de óculos, eu não era assim.
"Her Favorite Song": eu não nasci de óculos, eu não era assim.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
De volta para o futuro
Mayer Hawthorne (nome verdadeiro: Andrew Mayer Cohen) é um cara estranho. É alvíssimo e tem só 29 anos, mas canta como se fosse um soulman negro veterano. E não é só. Esse americano do estado de Michigan também é produtor, arranjador, compositor, engenheiro de som, DJ, rapper e multi-instrumentista. E ainda não sei ao certo, mas tudo isso provavelmente fez com que o nome dele esteja em todos os lugares nos créditos de seu recém lançado “A Strange Arrangement”. Aliás, o disco é sensacional. Em pouco mais de meia hora, Mayer desfila uma coleção de 11 canções (descontando os 25 segundos da introdução da faixa 1, chamada “Prelude”) que não merecem estar no balaio de gatos chamado neo-soul. Porque o caso aqui não é simplesmente uma atualização moderna com os surrados clichês do gênero: Mayer gravou um disco como se fosse parte do cast da Motown em 1966. E pra isso, ele se vale de seu falsete afinadíssimo (repare no magnífico trabalho vocal de “Just Ain't Gonna Work Out”), de arranjos de metais matadores (“Maybe So, Maybe No”, “Your Easy Lovin' Ain't Pleasin' Nothin'“, “The Ills”), de baladas ao piano arrepiantes (“A Strange Arrangement”, “Shiny And New”) e fartas doses de suingue e ritmo, com cada instrumento cirurgicamente colocado (“Let Me Know”, “Make Her Mine”, “One Track Mind”). Mayer Hawthorne assimilou suas influências de Smokey Robinson e Curtis Mayfield e não fez um pastiche de seus ídolos: ele pegou o bastão onde os mestres largaram, ou seja, em algum lugar no começo dos anos 70. Meu voto de Revelação do Ano já vai pra ele.
Aí o vídeo com o single de estréia de Mayer Hawthorne, "Just Ain't Gonna Work Out/When I Said Goodbye". Detalhe, o single é esse mesmo que ele carrega pra cima e pra baixo, em forma de coração. Maravilha.
Aí o vídeo com o single de estréia de Mayer Hawthorne, "Just Ain't Gonna Work Out/When I Said Goodbye". Detalhe, o single é esse mesmo que ele carrega pra cima e pra baixo, em forma de coração. Maravilha.
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