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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Hip-Hop No Disquete


Udeze Ukwuoma (a.k.a. Dday One) é um DJ e produtor americano, na ativa desde meados da década de 90. A onda dele é hip-hop instrumental, um subgênero que já deu ao mundo nomes muito interessantes, como DJ Krush, RJD2, J Dilla e DJ Shadow, (cujo álbum Endtroducing….., de 1996, é um marco da música eletrônica).



Dday One acabou de lançar seu novo EP, Artifact, pelo próprio selo, Content (L)abel, com seis faixas carregadas de beats engenhosos e samples variados convivendo em harmonia com instrumentos acústicos. Além da (boa) música contida no EP, um detalhe que chama atenção em Artifact é o formato em que ele foi lançado: um edição limitadíssima de apenas cem cópias... em disquete. A inusitada plataforma vem devidamente autografada e inclui um download code para o EP em versão MP3 e ainda um arquivo de texto que contém um link para uma faixa extra. Mais estranho ainda é saber que a prática pouco usual não é exclusiva de Dday. Tem um povo que também emprega essa forma de divulgação atualmente, num movimento muito bem descrito pelo jornalista Ricardo Schott em uma matéria para o seu site Pop Fantasma. Quem, porém, não quiser se aventurar pelos problemáticos floppy disks, pode ouvir Artifact e outros trabalhos de Dday no Bandcamp do artista.

Artifact EP: beats no disquete.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Vanilla Ice


 Quando "Ice Ice Baby" começou a fazer sucesso (no meio de 1990), Vanilla Ice teva a cara de pau de dizer que não chupou o baixo do Queen ("Under Pressure"). Um tempo depois, admitiu o sample. Seu rap de rimas fracas não foi além de bobagens tipo "Com meu conversível aberto pro cabelo poder esvoaçar / As garotas na espera, só acenando pra dizer olá" ou ainda "Preste atenção porque eu sou um poeta lírico" (essa foi demais).


"Ice Ice Baby" inicialmente era o lado B do single "Play That Funky Music", mas assim que ganhou execução por rádios e DJs, tornou-se imensamente popular - tanto que foi o primeiro rap a chegar no topo do Hot 100 da Billboard, e por conta desse hit, Vanilla Ice colecionou mais discos de ouro do que jamais sonhou.

Em 1990, eu - então com 15 anos - estava me lixando pra letra e nunca tinha ouvido "Under Pressure". Hoje, reconheço que o sample do baixo encaixou direitinho. Foi uma ideia que provavelmente não veio de Robert Matthew Van Winkle, um cara comprovadamente sem talento.

Não tive coragem de comprar o álbum To The Extreme (o segundo de Ice, incríveis 16 semanas no topo da Billboard e mais de 15 milhões de cópias vendidas), mas "Ice Ice Baby" foi licenciada para várias compilações, como essa aí abaixo.


"Ice Ice Baby": Johnny Bravo do rap.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Sexta Feira Bagaceira: MC Hammer


Curioso como o tempo passa e o approach muda em relação ao trabalho de um artista. A acusação que pesava sobre Stanley Kirk Burrell (a.k.a. MC Hammer) em seu hit "U Can't Touch This", de 1990, era de que o sample usado em toda base era muito óbvio, uma mera chupação que não envolvia talento, pesquisa ou criatividade. Penso nisso toda vez que ouço "Harder Better Faster Stronger", do Daft Punk, montada com um sample indecente de Edwin Birdsong e sua "Cola Bottle Baby", de 1979. O veredicto para a dupla francesa foi um só: "gênios!"

De fato, à época de "U Can't Touch This", as leis sobre direito autoral ainda não estavam bem claras (honestamente, nem sei se hoje estão), mas Hammer decidiu usar "Super Freak", de Rick James (1981), pra tagarelar seu rap chinfrim e nada modesto ("Oh meu Deus, obrigado por me abençoar com uma mente para rimar e dois pés tão rápidos / Sou conhecido como um cara muito legal de Oaktown / Você não pode fazer igual / Eu te disse cara / Você não pode ser tão bom quanto eu"). E dá-lhe repetir "you can't touch this" 23 vezes canção afora. James não quis nem saber: enquanto o single de Hammer voava alto nos paradões de todo o mundo, processou o rapper por violação de direito autoral. Hammer então apressou-se em ceder a co-autoria da faixa à James e molhou a mão do cantor (falecido em 2004).

O álbum Please Hammer, Don't Hurt 'Em foi lançado logo em seguida e já tinha Hammer na zona de conforto. Vendeu algo em torno de 18 milhões de cópias, o que deve ter garantido a aposentadoria do MC. Para o bem ou para o mal, "U Can't Touch This" é um clássico.

"U Can't Touch This": "... Stop! Hammer time!"

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Sexta Feira Bagaceira: 2 Brothers On The 4th Floor


Mal comparando, a Eurodance foi o que a perigosamente rotulada EDM representa pros dias de hoje. Vejamos: apelativa, de fórmulas repetidas e com o olhar sempre desconfiado dos puristas. Hm. A receita da maioria dos projetos do gênero vindos - em sua maioria - da Alemanha, Holanda e Bélgica, continha ganchos fortes de sintetizador, refrão repetido ad nauseum, rappers disparando estrofes na velocidade da luz e um bumbo quicando quase sempre na casa dos 120 BPM. O 2 Brothers On The 4th Floor foi mais uma dessas armações, mas, ao contrário de gente como 2 Unlimited e Culture Beat, não teve lá um desempenho realmente digno de nota nas paradas. Apesar dos poucos hits, chegou a ser bem popular em pistas e rádios. O maior sucesso do grupo é "Dreams (Will Come Alive)", de 1994, que copia algumas ideias do single anterior, "Never Alone" (minha preferida). "Never Alone" não é nenhuma obra de arte, mas é bem feitinha, há de se reconhecer. Tem os vocais berrados (e muito competentes) de Desirée Manders, que, diga-se, era gata demais (confira no vídeo abaixo) e funde - ou dilui, depende do ponto de vista - house, hip-hop, Hi-NRG e pitadas de techno numa dance track, acima de tudo, eficiente. Bonitinha, vai.

"Never Alone": sonhos molhados.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Frank Frank


Letras de sentido ambíguo ou teor satírico-pornográfico não eram propriamente uma novidade no pop brasileiro do começo dos 90. Do forró de Zenilton (cujo sucesso "O Pão da Minha Prima" foi regravado até pelo Raimundos) ao rock humorístico do Dr. Silvana & Cia. ("Serão Extra"), explorar essa verve cômica/libidinosa garantiu muitos hits (e boas risadas), até a chegada dos Mamonas Assassinas, que escancararam as portas da chinelagem alto-astral de vez.

José Francisco de Aquino (o rapper paulista Frank Frank) veio reforçar esse time, ao menos com uma música que foi hit dos bailes da época, "A Mulherada Tá Querendo Poder". A cacofonia gerada pela palavra "poder", não precisa nem explicar: "A mulherada tá querendo é poder e os homens tão querendo é..." Apesar do aparente machismo explícito no título/refrão, a letra é quase um manifesto ingênuo sobre as fêmeas oportunistas e safadinhas ("Existem minas que só querem tirar um barato / e com homens imbecis fazer gato e sapato / fazem o cara pagar tudo, deixam ele apaixonado / e ainda dizem que ele é o seu primeiro namorado / existem sete mil mulheres para cada um / mas dez mil homens para elas não valem nenhum").

O restante do álbum de estreia de Frank Frank, Raça, Axé e Poder (Zimbabwe Records, 1991) é bem abaixo da média do então embrionário rap brasileiro (Thaíde & DJ Hum e Racionais MCs já tinham discos bem consistentes nessa época), com letras pouquíssimo inspiradas e rimas fracas, mas contou com a produção do DJ Cuca, que montou bases irresistivelmente dançantes para Frank soltar seu flow esquisito. De qualquer forma, a letra de "A Mulherada Tá Querendo Poder" era berrada em uníssono quando tocava, por homens e mulheres. Com a exacerbada patrulha moral e de um politicamente correto que às vezes dá no saco, a faixa provavelmente seria condenada pelos tribunais das redes sociais hoje em dia. Por outro lado, Frank Frank parece um pregador da Pentecostal perto do que o funk carioca é capaz de produzir atualmente.

"A Mulherada Tá Querendo Poder": cacofonia.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Melhores do Ano - Músicas (#13: Digitalism)


O duo alemão Digitalism vai ser eternamente lembrado pelo seu single de estreia ("Zdarlight", de 2005) e vai ter que conviver o resto da carreira com isso - porque o debut com o pé direito passou a ser parâmetro para a própria dupla ter como meta lançar uma faixa tão memorável quanto essa. Uma ouvida em Mirage, o terceiro álbum do Digitalism, lançado ano passado e é fácil atestar que ainda não é com um disco de Electro House de arena como esse que eles vão conseguir chegar lá (onde é "lá", eu também não sei). De qualquer forma, se as 15 (!) faixas do álbum tivessem o mesmo tanto de ousadia e originalidade de "The Ism" - em que o hip-hop colide com o techno e os vocais são do motorista do ônibus da turnê da banda, Anthony Wilson - provavelmente teríamos um dos discos dance do ano. Bom, não foi bem isso que aconteceu, mas "The Ism" permanece como uma das faixas mais legais que ouvi em 2016.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

DigDigDig


Fora uma barrigada minha, isso parece ser uma música nova dos alemães do Digitalism. "THE_ISM (44 kHZ - WHAT THE F__K U EXPEKT" (a grafia é essa mesma, em caixa alta) apareceu ontem na página do Soundcloud da banda e olha, é foda demais. Entre techno e hip-hop digital, finalmente uma faixa que presta do duo de Hamburgo - que tava devendo faz tempo.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Sexta Feira Bagaceira: Will Smith


Você deve saber disso, mas Willard Carroll Smith, Jr. - musicalmente - não fez o caminho inverso, ou seja, não começou atuando e "virou" rapper. Smith era o MC do duo DJ Jazzy Jeff & The Fresh Prince, que lançou os primeiros singles lá no meio dos 80. De sucesso mediano (o maior hit foi "Summertime", de 1991), Smith enveredou pela televisão (atuou em várias séries, entre elas The Fresh Prince of Bel-air, aqui no Brasil, Um Maluco no Pedaço), até chegar ao cinema, em 1992. Já em 95, tem o primeiro gostinho do estrelato com Bad Boys e estoura a banca com o blockbuster Independence Day, de 96. Em 1997 - na carona de outro sucesso no cinema, Man In Black - Smith retorna aos vocais falados e grava seu primeiro álbum solo, Big Willie Style. Rap festeiro, dançante, galhofeiro e descompromissado, o álbum vendeu mais de 10 milhões de cópias mundo afora, rendeu ótimos singles e uma batelada de samples de disco e funk de boa cepa. Meus preferidos são "Miami" (com empréstimo de "And The Beat Goes On", do Whispers), o tema de Man In Black (chupando "Forget Me Nots", da incrível Patrice Rushen) e a irresistível "Gettin' Jiggy Wit It" (com sample de "He's The Greatest Dancer", do Sister Sledge). O rap já foi bem mais divertido.

"Miami":



"Gettin' Jiggy Wit It":

domingo, 6 de setembro de 2015

Química Previsível


A culpa é, de certa forma, do próprio Chemical Brothers. Quando Ed Simons e Tom Rowlands conceberam a obra-prima Dig Your Own Hole (1997), eles certamente não poderiam prever que nada que viesse depois iria superar esse álbum. Substituir parte das baterias cruas do big beat enérgico que estourou o som da dupla mundo afora pelo technão 4X4 que tomou metade do trabalho seguinte Surrender (1999), foi não só uma correção de rota ou busca de novos limites pra sua música, mas também uma clara (e louvável) tentativa de fugir de estereótipos, autorreferências e comparações. A atitude deixou vários órfãos entre os fãs, arrebatou tantos outros (especialmente por causa do hit "Hey Boy Hey Girl") e foi muito bem recebida tanto pelo público quanto pela imprensa especializada. A marca indelével no som do grupo, porém, ficou bem definida e o que não dá pra ignorar é que a partir daí, cada vez que se fala em disco novo do duo, a gente já consegue prever - com bom índice de acertos - o que vem a seguir. O mix de rap, funk, house, psicodelismo e rock não pega ninguém de surpresa. E é aí que está o pecado (perdoável) dos Brothers, independente dos altos e baixos na sua discografia. Em compensação, penso não decepcionar nem quem os acompanha há algum tempo, nem quem está descobrindo a química dos irmãos postiços somente agora. O que vale, claro, é deixar-se levar pelas suas criações que muitas vezes desafiam classificações possíveis, num entra-e-sai de gêneros que fundem-se entre si até gerarem coisas como o big beat - que teve no debut Exile Planet Dust (1995), seu marco zero. Em seu oitavo álbum, Born In The Echoes, lançado mês passado, não é diferente.

 Como sempre, o disco traz cantores convidados e aqui a bola da vez é Annie Clark (St. Vincent). É fato que Rowlands e Simons tem essa certa predileção por artistas cool, mas não vi nada que fizesse diferença em sua participação tímida na gravação de "Under Neon Lights" - ao contrário de gente que já esteve nos créditos de seus álbuns, como Hope Sandoval e seus vocais particularíssimos, por exemplo - fora a impressão de que o fator "queridinha do momento" da musa indie ganha em relevância no que tange ao respeitável fole vocal de uma Beth Orton, outra colaboradora frequente da dupla.

Ali Love também se sai mal. O cantor britânico, que já tem uma faixa (a razoável "Do It Again", de 2009) com os Brothers no currículo, aparece messiânico e irreconhecível no techno "EML Ritual", o que tanto pode ser uma prova de versatilidade do vocalista quanto uma simples adequação à temática proposta (eles sabem o que estão fazendo, mas abrir mão do falsete agradável de Ali é subaproveitar seu potencial).

Já Q-Tip (do A Tribe Called Quest) casou muito bem sua excepcional qualidade de parecer rapear com um prendedor de roupas no nariz com a levada empolgante de "Go!", talvez a melhor música do disco (ele também se saiu magistralmente em outra colaboração com o duo, "Galvanize", de 2005), a despeito do vídeo tenebroso:

Uma das faixas mais legais é a que menos soa Chemical Brothers. A melancolia reluzente e a simplicidade eletrônica de "Wide Open" (com vocais de Beck) lembram um hipotético Hot Chip com um vocalista decente.


O que me dá um certo receio é perceber que eles precisam, eles fazem questão, de destruir boas ideias com alguma minúcia que pareça pretensamente artística. Tome o funk hipnótico de "Let Us Build a City" (incluída como uma das bonus tracks da Deluxe Edition), como exemplo. Precisava mesmo aqueles sintetizadores tocados com os cotovelos? Não sei se é uma estupidez jogar fora uma linha de baixo preciosa como essa com umas bobagens atonais com jeitão de improviso ou se é isso que faz seu som tão particular.


A esquisitice da simplesmente intragável "Taste Of Honey", é uma ode à chatice, mesmo. Trôpega e incômoda, dá pra clicar no botão skip sem a menor culpa. O mesmo vale para "I'll See You There", mais uma faixa inspirada em "Tomorrow Never Knows" (Beatles), assim como "Setting Sun" e "Let Forever Be". "Born in the Echoes" é um bom pedaço de rocktrônica do álbum e a psicodelia de "Radiate", cumpre a função habitual de desacelerar por instantes o andamento quase frenético dos seus discos.  

A remissão de Rowlands e Simons é um clichê surrado, mas válido: a falsa expectativa por material inédito produzido pela dupla é encoberta pela certeza de que os Brothers nunca embarcaram - mesmo - em nenhuma febre de pista qualquer pra se manter "atualizados" e não seria depois de sete discos que isso iria acontecer. Por outro lado, é covardia comparar Born In The Echoes com trabalhos anteriores. Mas é, também, inevitável. Enquanto produto dance/eletrônico, o álbum mantém-se corpos à frente da manada vigente. Tratando-se de um disco da dupla, o resultado desta vez é apenas mediano.

"Sometimes I Feel So Deserted": bleeps techno à exaustão.

domingo, 19 de outubro de 2014

Mysterious Ways


Fennec é uma incógnita. As pistas sobre quem é esse produtor são poucas e, acho, falsas. Na sua página no Bandcamp, a foto é essa aí acima e a localização, Saara Ocidental (um território não-autônomo disputado pelo Marrocos e pelo movimento independentista Frente Polisário). No seu site oficial, uma série interminável de fotos; de paisagens de tirar o fôlego até a beleza fria do concreto nos centros urbanos. Com seu nome artístico extraído de uma espécie de raposa nativa dos desertos do Norte da África e da Arábia, saber quem é ou de onde Fennec vem, não influencia em nada o prazer que é ouvir o seu primeiro disco, lançado no começo do ano.

A lista de agradecimentos de Let Your Heart Break dá uma ideia de como esse álbum soa: Aphex Twin, Zomby, Flying Lotus, Jay-Z, DJ Koze, Four Tet, Jai Paul, Araabmuzik, Trentemøller, Röyksopp, John Talabot, The KLF, Pantha du Prince, Art of Noise... Em suas 15 faixas, ambient convive em paz com techno, hip-hop funde-se à house, IDM e downtempo são uma coisa só. São samples de vozes indecifráveis (só na sexta faixa, "Woke Up Feeling Disconnected", é que reconheci uma amostra de alguém que lembra Roland Orzabal, do Tears For Fears) e uma fluidez notável: as músicas vem unidas umas às outras e mesmo tratando-se de composições totalmente independentes, Fennec desenvolveu e distribuiu tão bem seu conceito de eletrônica emocional a partir de trechos previamente gravados unidos à timbres e texturas originais, que garantiu uma homogeneidade raríssima pra um disco que oferece tantos aspectos e ideias diferentes.

"Hemlock Groove" é um bom exemplo da técnica criativa de sampleamento e edição de Fennec. A tentativa aparentemente improvável é de encaixar um discurso raivoso e ininteligível de rap numa base house dançante pontuada por um loop bizarro. E o produtor acertou.

 


A brilhante "Polygonal Range" expõe um riff techno como chamariz enquanto várias camadas de sintetizadores se sobrepõe no segundo plano: 

"Blurred Lights" transforma um sample vocal num mantra, com teclados noturnos e alta dançabilidade:


Com Let Your Heart Break, coloco Fennec tranquilamente ao lado da maioria dos artistas que ele citou em sua lista. Samplear com criatividade e usar esses trechos nos lugares certos, com bases instrumentais sólidas e bem pensadas, nos dias de hoje, é um dom cada vez mais raro. Fennec apareceu do nada e de cara, debuta com um trabalho excelente, em total conexão com uma linha nobre de álbuns como Since I Left You (The Avalanches) e Entroducing (DJ Shadow). Descubra já.

Let Your Heart Break: um dos melhores discos de eletrônica do ano. 

terça-feira, 24 de junho de 2014

Yo! Deutsch Rap!


Não se assuste com a cruz invertida tatuada nessa máscara-panda. O alemão Carlo Waibel é inofensivo. Tanto quanto o rap que ele grava sob o apelido Cro. Discursando sobre trivialidades numa embalagem bem pop, Cro consegue ser divertido e dançante, com um punhado de refrões bem grudentos na manga.


Seu novo álbum Melodie, saiu no começo de Junho e o fato de Cro mandar suas rimas na língua materna soa curioso por si só, mas não faz a menor diferença. O que vale é a capacidade do artista de encaixar na métrica apertada do rap suas historietas juvenis, e fazer isso soar bem no ouvido. A bola da vez no disco é "Traum", mas "Erinnerung", "Bad Chick" e "Hey Girl" agradam do mesmo jeito. Desde o Falco que rap em alemão não dava tão certo.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Sexta Feira Bagaceira: The Afros


Se o mundo pop fosse um lugar justo, em 1990 o single "Feel It" dos maluquetes The Afros tinha vendido um milhão de cópias nos Estados Unidos, e não "Ice Ice Baby", de Vanilla Ice. Divertida e altamente dançante, a faixa era George Clinton com vocais de rap na medida para as pistas.

Apesar do primeiro e único álbum, Kickin' Afrolistics, ter vendido relativamente bem (numa época em que a onipresença do Public Enemy reduzia as chances de qualquer outro grupo de rap se dar bem num nível semelhante) e o trio ter ganhado certa popularidade com o vídeo da festa sem noção em "Feel It", o debut não chegou nem a disco de ouro e os Afros não tiveram fôlego pra continuar a contar suas histórias por vezes impublicáveis (Kickin' Afrolistics ganhou o carimbo moralista Parental Advisory na capa). Talvez por culpa do próprio grupo, que adotou uma postura de "palhaços que às vezes falam sério", o que pode ter deixado o público confuso. Ou fui eu que não entendi a piada.

"Feel It": Flavor Flav faz uma pontinha.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Segunda Class: DJ Day


Day é o californiano Damien Beebe. DJ, produtor e multi-instrumentista, Beebe começou a discotecar em 1995, mas seu álbum de estreia só saiu agora, em 2013 (sem contar uma coletânea de singles, faixas inéditas e remixes lançado em 2008).

E que disco. Land of 1000 Chances pode ser colocado sem hesitação na mesma prateleira (ou na mesma pasta de arquivos) do que melhor DJ Shadow e RJD2 fizeram em suas carreiras. A síntese é a mesma: beats de hip-hop e andamentos de jazz sustentando enxertos de funk, soul e eletrônica. A diferença de DJ Day é que sua trip é de músico - ele se apoia fundamentalmente em instrumentos, não em samples. Ocasionalmente, amostras de diálogos e vocais são inseridos ("Mama Shelter"), mas são apenas coadjuvantes frente a quantidade de Mellotron, Clavinet, piano elétrico, baixo, guitarra e percussão usados nas faixas. Em "Boots in the Pool" e "Hopefully", belíssimos arranjos de cordas ornamentam músicas que transbordam bom gosto, calor e emotividade.

Land of 1000 Chances
tem 15 faixas instrumentais sem altos e baixos: o nível das composições é tão plano e homogêneo, que funciona incrivelmente bem se ouvido do início ao fim, sem interrupções. E pode ter certeza, você não vai querer pular nenhuma.

"Land of 1000 Chances": só uma das 15 pérolas do álbum.

sábado, 21 de setembro de 2013

Caras Novas: Kaytranada


Kaytranada é o novo pseudônimo de Kaytradamus. Nomes desconhecidos pra você? Sem problemas, o canadense é novíssimo na cena. Ele monta beats envenenados a partir do hip-hop e funde magistralmente com disco, house e soul. 


"At All" é seu novo single. Desconheço a fonte do sample vocal, mas seja o que for, Kaytradamus subverteu a ponto de criar uma nova maneira de cantar.

domingo, 15 de setembro de 2013

Summer Funk


Vale a pena conhecer o som da dupla Paradizzle. Gaúcho de Porto Alegre, o projeto formado pelo DJ Feijão e pelo músico e produtor Di-Gestivo, acaba de soltar o primeiro single.

"Out Run" é um funk sintético "com um clima de praia e verão", conforme anuncia o duo em sua página no Soundcloud. Instrumental e preguiçoso (no bom sentido), tem um groove suculento e que pode dividir a mixagem tanto com artistas como Chromeo quanto Mantronix, sem sentimento de inferioridade. Estreia com o pé direito.

"Out Run": prontinha pra roda de break.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Segunda Class: Mayer Hawthorne


Esqueça aquele Mayer Hawthorne do primeiro disco, o sublime A Strange Arrangement (2009). Aquela postura tímida de vocais pequenininhos e falsetes afinados, que captava brilhantemente o soul sessentista da Motown de boa cepa, ficou pra trás. Agora, no seu terceiro álbum (Where Does This Door Go, saiu mês passado), Hawthorne justintimberlakequizou seu som e aparentemente tenta posicionar-se no mercado ao lado do ex-'N Sync e Robin Thicke. 

 
 É R&B de beats moderninhos (tem Pharrell Williams no time de produtores), salpicado de extravagâncias reggae ("Allie Jones") e hip-hop ("Crime", com Kendrick Lamar). Não sei se vai pegar, mas Where Does This Door Go é uma beleza de disco.

"Her Favorite Song": eu não nasci de óculos, eu não era assim.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Segunda Class: Snoop Lion

 

"Eu sinto que sempre fui rastafari, eu só não tinha o meu terceiro olho aberto". Ah tá. Essa foi a justificativa do rapper Snoop Dogg para sua recente transformação em um servo de Jah.


 Praia, mulheres e maconha: as preferências continuam as mesmas, só mudaram nome (para Snoop Lion) e local (da California pra Jamaica). E olha que uma pá de gente abraçou a ideia. Reincarnated tem doze (!) produtores dividindo a mesa de som (e o beck). Nem por isso saiu um álbum acima de razoável. Diplo meteu a mão em quase todas as faixas, o que sempre é um mau sinal. De admissível, temos o nheco-nheco preguiçoso da abertura "Rebel Way" (com participação de Drake e uma linha de baixo convincente), o bom refrão de "So Long", o dancehall bacana de "Smoke The Weed" (com outro notório apreciador da erva, Collie Budz) e o ritmo totalmente justificado pelo título "Tired Of Running" (com o picareta Akon). E, bom, era isso. O resto chega bem perto de insuportável, especialmente na descontrolada "Get Away", nos teclados irritantes de "Fruit Juice" e no reggae fofinho mirando as paradas de "Ashtrays And Heartbreaks" (Miley Cyrus aparece nessa). Não por acaso, essas três faixas tem produção da dupla Major Lazer / Diplo, ou seja, não tinha a menor chance de dar certo.

Próximo passo: voar pro Rio e cair no funk carioca. Fica até a sugestão pro novo alter ego: MC Cachorrão. Que tal, Snoop?

"Ashtrays And Heartbreaks": o leão e a gatinha.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Sexta Feira Bagaceira: Kris Kross


Coisas do pop: da noite pro dia o single "Jump" da dupla infanto-juvenil Kris Kross foi como um míssil pro primeiro lugar do Billboard Hot 100 em Fevereiro de 1992, ficando lá por oito semanas e resultando em mais de quatro milhões de cópias vendidas. A faixa foi montada com samples de três clássicos da black music: a batida de "Impeach the President" do Honey Drippers, um synth de "Funky Worm" do Ohio Players e um recorte do baixo de "I Want You Back" do Jackson 5, habilmente manipulados por Jermaine Dupri - multiplatinado produtor que trabalhou com quase todo mundo que importa no R&B americano dos anos 90 e 2000. "Jump" foi um mega-hit de rádio, pistas e MTV, onde o duo Chris "Mac Daddy" Kelly e Chris "Daddy Mac" Smith criou a peculiar identidade visual das roupas largas e soltas e das calças usadas de trás pra frente. A nota triste fica por conta do rapper Chris Kelly, que agora vai rimar com Tupac Shakur e Notorious B.I.G., num outro plano: ele foi encontrado na última quarta feira inconsciente em sua casa em Atlanta, e veio a falecer logo após ser encaminhado ao hospital. Suspeita de overdose de drogas. Coisas do pop.

"Jump": irresistível.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Tyler, The Inconvenient

Wolf, terceiro e recém lançado álbum do bajulado Tyler, The Creator faz algum sentido pra um ouvinte médio como eu? Não. Musicalmente tem lá alguns momentos jazzy de pianinhos e cordas doces sustentando um rapper sem nenhum pudor verbal, mas no geral é arrastado, chapado, com beats sujos e samples bem discretinhos: "Pigs" desacelera a inesgotável "Amen, Brother" do Winstons (1969), enquanto "PartyIsntOver/ Campfire/ Bimmer" empresta alguns elementos do jazz relaxado "Invintation", de Cal Tjader (1971). A única boa surpresa aqui é a base de "Lone", toda sampleada de "Jornada", composta por Roberto Menescal e executada pelo mestre da bateria Wilson das Neves em 1969. As letras são um caso à parte. O boca suja Tyler começa e termina Wolf distribuindo gratuitamente um sem número de "fuck", em todas as variações possíveis: fuckin' isso, fuck off aquilo, fucked up, motherfucker... que ele descarregue toda sua raiva e frustração nesse disco, tudo bem - melhor do que descontar em coisas que a polícia não iria gostar - o problema é que eu nem saco de inglês o suficiente pra ver pra onde Tyler aponta sua metralhadora verborrágica, ou se as rimas são convincentes. Bom, aí obviamente é problema meu. Mas isso só prova que a música de Tyler não é pra mim, então não espere eu pagar de malaco das quebrada e dizer que é um puta álbum de rap. O que eu não entendo é a babação de ovo em cima de um cara que não traz absolutamente nada de novo pra um gênero tão maltratado ultimamente. Fora que essa capa é uma das piores que eu vi nos últimos anos. Se bem que pra geração MP3, tanto faz.
"Lone": espero que Menescal e Das Neves tenham recebido por isso.


domingo, 17 de março de 2013

Ret Aceso


Lançado ano passado, o single "Neurótico de Guerra" do carioca Filipe Ret só foi parar no meu player umas semanas atrás - culpa do canal de TV BrZ, que de vez em quando acerta uma. Leitor de Nietzsche e Clarice Lispector, Ret é formado em jornalismo e "Neurótico de Guerra" tem um punhado de "socos no estômago", como ele mesmo se refere às frases que formam sua linha de rap. Sem esconder sua predileção por aquela erva estranha ("Acende um fino, entre hi hats e pratos / Corre daqui com seu papinho reto e chato"), Ret também filosofa entre uma tragada e outra: "A fé não vale de nada pra mente preguiçosa / Eles querem o bem, eu quero a verdade /
Vivem pra deixar bens, eu pra deixar saudade" é uma das boas sequências rapeadas por Filipe sob uma base sossegada e uma guitarra sinuosa. Seu álbum Vivaz saiu no final do ano passado.

"Neurótico de Guerra": "... pra ser bom é preciso sentir raiva da mediocridade..."