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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

It’s Very Electronic


Não me impressionou muito a nova do bom Editors, "Magazine". O single precede o próximo álbum do grupo, Violence, programado pra Março. Ouvindo "Magazine", lembrei de "Where's the Revolution", recente canção do Depeche Mode - mas mais pela temática (política, corrupção, poder) do que pelo som. Tom Smith, vocalista, letrista, tecladista e guitarrista do Editors, andou dizendo que Violence trará um equilíbrio muito bem dosado de rock e eletrônica ("... when it’s electronic, it’s very electronic..."), como jamais a banda conseguiu. A perspectiva de um novo trabalho (do ponto de vista do artista) é sempre a de que o melhor álbum é o próximo, então descartemos a perigosa expectativa gerada por Smith baseados pela simples audição de "Magazine", uma música apenas OK, mas que pode até render um versão bacana pra pista - todo mundo lembra do remix espetacular do grupo inglês Cicada para "Munich", faixa do Editors de 2005.


"Magazine": regular.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

David Byrne Is Playing At My House


O genial David Byrne está de volta com single novo (“Everybody’s Coming To My House”, saiu ontem) e álbum (American Utopia, agendado pra 9 de Março). O disco é o primeiro do artista desde Grown Backwards, de 2004, sem contar as colaborações de Byrne em projetos com St. Vincent, Norman Cook (Fatboy Slim) e Brian Eno. Com os vocais meio esganiçados de sempre, baixo todo picotado e uma saudável e ligeiramente caótica percussão, “Everybody’s Coming To My House” é dançável por si só, mas bem que poderia ganhar um remix de um certo James Murphy (LCD Soundsystem), que deve muito musicalmente a Byrne - notadamente no álbum mais recente do LCD (Americam Dream, do ano passado).


"Everybody's Coming To My House": o Byrne instigante de sempre.

domingo, 7 de junho de 2015

Caras Novas: Joywave


Entendi o que o termo indie dance significa em 2015 depois de ouvir o debut do Joywave, How Do You Feel Now?, lançado no final de Abril. Mas o que tem de indie um álbum que saiu pela mesma gravadora (Hollywood Records) de Selena Gomez e Demi Lovato? Bom, dá uma olhada no que o Beatport considera indie dance e você vai sacar que o Joywave tem muito mais a ver com aquela cena britânica do começo dos 90 (Madchester) do que o site de venda de música online imagina. A diferença é que em How Do You Feel Now? não há resquício de fusões de rock sessentista com house ou batidinhas funky drummer. O que o quinteto nova-iorquino faz é muito mais enérgico, cheio de riffs poderosos de guitarra ("Now", "Somebody New") e sintetizador ("Parade"). É um Phoenix adrenalizado, um Hot Chip com punch.

Entre as muitas coisas que chamam pra pista no som do Joywave, está sua doce (culpa dos vocais do bigodudo Daniel Armbruster) incursão pela house music, como em "In Clover", que emula aquele timbre de órgão que tornou Robin S famosa no começo dos 90:



"Carry Me" é outra faixa com bom potencial para as danceterias, uma mistura exata de rock e eletrônica com refrão pop e baixo totalmente New Order, que poderia ter saído tanto do catálogo da DFA quanto da Factory:

Algumas escorregadas não comprometem o disco como um todo, como quando a banda grava pop rock genérico ("Nice House") ou excede o uso de ingredientes, resultando em coisas indefiníveis como "Destruction" ou "Tongues":



How Do You Feel Now? encerra com um trip-hop apocalíptico ("Bad Dreams") e deixa a impressão que o Joywave é pop e diversificado o suficiente pra não ficar preso à um rótulo limitador como o indie dance. Dá pra sonhar em voar mais alto.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Too Much Love



Brandon Flowers é um cara do bem. Demais. Família. Polido, educado, certinho. Seu bom mocismo chega a ser irritante. Até aí, nada demais. Mas, cacete, se o cara é um junkie suicida e esquisitão, incomoda. Se é um indivíduo de boa, normal e tranquilão (nem sei definir isso de ser normal exatamente, mas digamos que é um cidadão que não rasga nota de 100 dólares), incomoda também? Ah, dá um tempo. Deixa o Flores. Certo, e o que isso tem a ver com a música? Eis o ponto: tudo. As chances de suas composições refletirem essa falta de atitude toda (ia escrever bundamolice, mas achei meio pesado) são altas. Não para minha surpresa, é exatamente isso que acontece em The Desired Effect, seu recém lançado segundo álbum. Insosso, piegas e, pra ficar numa expressão super na moda (não vai faltar gente pra dizer), é "muito amor" (argh).

Ah, OK. Ele é um artista pop. Não precisa expressar sua indignação com a crise migratória do Mediterrâneo e o consequente êxodo africano em direção à Europa em condições sub-humanas, que tem tomado os noticiários recentemente. Até porque, poderia soar falso e oportunista, hm? Quem precisa de outro Bono Vox? Então, a temática do Flores é mais leve, positiva, sonhadora e, verdade seja dita, utópica. Artisticamente, ele rivaliza hoje com o picolé de chuchu em que se transformou Chris Martin, do Coldplay. Assim como Martin, Flowers reveste sua música com pinceladas de rock alternativo, synthpop e new wave, o que deixa tudo com uma cara moderna e certa aura de credibilidade. Conversa. Brandon teve a manha de surrupiar o clássico technopop "Smalltown Boy" do Bronski Beat pra servir de base pra sua "I Can Change" (a alardeada participação de Neil Tennant nessa faixa restringiu-se a uma frase) e mesmo com gente como Bruce Hornsby e Carlos Alomar nos créditos, o máximo da ousadia limitou-se à levada electro-caribenha do single "Still Want You". De resto, auto tune emotivo tipo Owl City na cafona "Lonely Town", rockabilly eletrônico com cheiro de picaretagem à Jeff Lynne em "Diggin' Up The Heart", instrumentais inofensivos, coros fofinhos, metais suntuosos, arranjos melosos...  

A impressão que tenho é que Flowers gravou esse disco no meio de uma plantação de girassóis, sempre ao nascer do sol, olhando pro horizonte e estufando o peito enquanto despejava as palavras de ordem que formam este pequeno manual de autoajuda de 40 minutos: "follow your dreams", "it's gonna be alright", "dreams come true", etc... É só um disco pop, eu sei, mas tem aquele sorrisinho desconectado do mundo real que insiste em aparecer nas dez faixas. Não tem audácia, é musicalmente datado e as letras - entre banais e indiferentes - não ajudam em nada. Lair Ribeiro deve estar orgulhoso.

"I Can Change": roubar não é pecado.