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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Dr. Alban


"Hip-hop reggae inna dance hall style". Pronto, numa frase extraída de um dos maiores hits daquele fantástico 1991, o nigeriano Alban Uzoma Nwapa definia seu som. 

Na verdade, "No Coke" foi lançada em Novembro de 1990, mas na era pré-Internet, as coisas aconteciam no seu tempo. Na pista que eu frequentava, ela tocou durante o ano inteiro e, lembro bem, era uma comoção aos primeiros acordes do baixo. Foi bem nas paradas europeias, especialmente no país que Alban adotou aos 23 anos para estudar Odontologia (daí o Dr., sacou?), a Suécia (primeiro lugar). O som não era exatamente novidade, mas a pegada pop de "No Coke" facilitou as coisas pra quem não era chegado no raggamuffin' cru e seco de Cutty Ranks, por exemplo, e talvez sem querer, Dr. Alban (junto com Shabba Ranks) estava ajudando a popularizar um gênero que vinha borbulhando desde o meio dos anos 80, quando os estúdios jamaicanos descobriram o sampler e por consequência, timbres impensáveis até então para o contra-baixo. E o que salta aos ouvidos em "No Coke" - além do óbvio manifesto anti-drogas da letra ("Cocain will blow your brain / And ecstasy / Will mash your life"), é a frequência subterrânea de sua linha de baixo, lapidada ao extremo pelo genial e saudoso Denniz Pop (que pouco depois produziu Ace of Base, Backstreet Boys, Britney Spears, N'Sync e Rick Astley, entre outros). Alguém anotou a placa?

"No Coke": pra testar a qualidade dos alto-falantes.

domingo, 21 de abril de 2013

Reggae Na Velocidade do Som


É bom rever esse conceito que diz que o único reggae capaz de rivalizar com a matriz jamaicana é o inglês. O duo francês Raggasonic vem prestando bons serviços ao gênero desde meados dos 90. Formado por Big Red (Stéphane Joaquim) e Daddy Mory (Mory Samaké), a dupla já lançou três álbuns explorando todas as possibilidades da tecnologia pra turbinar seu reggae, competente o bastante pra ficar em pé de igualdade com qualquer exemplar da ilha. O terceiro disco - Raggasonic 3 - saiu em Outubro do ano passado e é dele esse single que a dupla lança agora, Mon Sound.


Uma tijolada. O raggamufin "Mon Sound" tem vocais rapeados na velocidade do som, teclados nervosos e aquele baixo de tirar pica-pau do oco. É uma vibe urgente, frenética, excessiva, compulsivamente dançante. As faixas extras trazem um remix de "Mon Sound" com bumbo reto e ênfase nas baixas frequências por Lord Zeljko & Manudigital, mais a versão original de "Monkey Star" (que não saiu em Raggasonic 3). Ainda não sei em que posição, mas já está no meu Top 25 do ano.

"Mon Sound": raggamuffin à francesa.

domingo, 2 de setembro de 2012

Dance Hall Days


Quando os estúdios jamaicanos descobriram o sampler lá no meio dos anos 80, o baixo e a bateria ganharam um novo sentido no reggae. Foi nessa época que surgiu o movimento dancehall - espécie de subdivisão do reggae com farto uso de batidas digitais, sintetizadores e linhas de baixo nunca imaginadas até então. 


Mark Anthony Myrie - o Buju Banton - começou a gravar nesse período, e estabeleceu-se como um dos principais artistas do gênero. Saiu agorinha uma coletânea que cobre parte desse período (The Early Years Vol. 2 - The Reality Of Life). É a segunda compilação que vasculha o extenso catálogo de Banton e serve pra apresentar o trabalho do jamaicano à novas audiências e também aos fãs que não devem ter disco novo dele tão cedo: Buju foi condenado pela justiça americana à dez anos de prisão (que ele cumpre até 2019), acusado de tráfico de drogas e posse de arma de fogo. Bom, tretas à parte, o cara é bom de microfone, inegavelmente, e aqui você encontra várias daquelas linhas de baixo gravíssimas que caracterizam seus principais hits. Sei, ele também tem uma postura homofóbica condenável, mas nesse caso, o que sai das caixas e o poder dessa música em induzir ao movimento é o que vale. É um argumento bobo, mas não é porque eu gosto de, por exemplo, Rage Against the Machine, que vou sair tacando fogo em tudo.

"Want It": Twiggi acalma a fera. 
 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Ligue Jah

 
Não é o reggae que sumiu, é você que não anda procurando direito. Deixe um pouco de lado essa trip enfumaçada do Bob Marley e (re)descubra dois artistas com álbuns fresquinhos que fazem jus à tradição do melhor do gênero dessa ilha estranha.
 
 
Jimmy Cliff, veteranaço (64 anos), um dos responsáveis pela popularização do reggae (bem antes de Marley). Em Rebirth, Cliff canta como um guri no auge da forma, voz intacta, um dos melhores canários que já apareceram na Jamaica. Seu álbum é de reggae vintage, mas não naquela linha roots/arrastado, cheio de lamentações de volta à Africa e pregações vazias tipo "vamo tacar fogo na Babilônia". Nááá, aqui o lance é emanar boas vibrações, louvar o amor e vislumbrar o futuro com os pés no chão, sem messianismos hipócritas. E lembre-se que Rebirth é um discão de um dos últimos moicanos na ativa: Tosh e Marley já se foram.

"Ship Is Sailing": Cliff bico doce.




 
Cutty Ranks também já não cozinha na primeira fervura. Aos 47 anos e na ativa desde os anos 80, começou a chamar atenção mesmo no começo dos 90 com seu raggamuffin' cru e de linhas de baixo com impacto semelhante ao de um chute no estômago desferido pelo Anderson Silva. Não tem ninguém no mundo que cante como esse negão. Ele despeja o verbo com uma urgência apocalíptica, com aquele sotaque rude boy carregadíssimo. Só que no seu recente Full Blast, Ranks amacia o discurso e manera nos ataques sonoros, de modo que temos mais dancehall e menos raggamuffin' rolando. O que não desqualifica o trabalho, de modo algum. É um disco que funciona tanto na pista de dança quanto no headphone; tem melodias lindas, momentos apaixonados com um Cutty meio sem jeito ("In My Place"), dedo na ferida ("Murderers And Thief"), beats R&B ("My Girl"), participações de luxo (a voz abençoada de Beres Hammond em "Way To Go") e a tradicional metralhadora giratória vocal de Ranks ("Blood Stain"). Absolutamente indispensável.

"In My Place": Cutty Ranks + Hyh Volume