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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Sexta Feira Bagaceira: Jive Bunny and The Mastermixers


A ideia do grupo de produtores ingleses que se autointitulou The Mastermixers não era nova. Mixar hits numa mesma batida em medleys caça-níqueis foi a sacada do Ritchie Family em 1976 e mais especificamente dos holandeses do Stars On 45, no começo dos 80. A diferença é que os 45 usavam cantores pra recriar em estúdio canções do principal alvo do projeto: os Beatles. Já o Jive Bunny sampleava na cara dura, mesmo. De Glenn Miller à Bill Haley, do tema de Hawaii 5-O aos Everly Brothers. Como eles fizeram pra licenciar os samples? Ótima pergunta. Mas os autores estão nos créditos da contra-capa do disco e é um bocado de gente (e sei que em alguns lugares, os samples não foram autorizados). O álbum foi, obviamente, execrado pelos puristas (esses chatos) e pela crítica. A saudosa revista Bizz chegou a chamar de "a mais repugnante armação dançável dos últimos tempos". Exagero. Claro que o objetivo era entupir os cofres do pequeno selo Telstar Records - e eles conseguiram: foram três singles em primeiro lugar e o álbum em segundo, na Inglaterra - mas o lance é que era divertidíssimo. Quem imaginaria na virada dos 80 pros 90, com todo aquele papo de verão do amor, nova década e boas vibrações, esse proto-Gorillaz conceitual virar febre de pista com pot-pourris de sucessos de décadas passadas?

"Swing the Mood", o single de estreia de 1989, já foi um estouro de cara: oito samples engavetados num beat contínuo ("In the Mood", de Glenn Miller e "Rock Around the Clock", de Bill Haley, entre eles) fazendo o coelho doidão pular pro primeiro lugar nas charts de onze países e contabilizar vendas com número de cópias acima dos seis dígitos.



Minha preferida é "Rock and Roll Party Mix", uma alucinante colagem de Little Richard, Chuck Berry, Chubby Checker e Ernie Maresca ("Shout! Shout! [Knock Yourself Out])". É um coringa ordinário: não tem festa retrô que eu não toque isso aí. E sempre funciona.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Sexta Feira Bagaceira: Michael Sembello


As cenas são, vá lá, clássicas: Jennifer Beals voando de um lado pro outro em piruetas improváveis, Jennifer Beals suarenta acelerando estática no chão da sala, Jennifer Beals dançando pra geral num inferninho. Ficou pra sempre na minha retina e é a única coisa que lembro com clareza do blockbuster Flashdance (1983), um filme que deve ter passado dezoito vezes na Sessão da Tarde. O som que movimenta a ofegante atriz durante a performance é "Maniac", single de estreia de Michael Sembello, um ex-músico de estúdio que emprestou seus dotes com as seis cordas pra gente como Michael Jackson, Diana Ross, Chaka Khan, George Benson e Donna Summer, até apostar na carreira solo e emplacar um número 1 no Hot 100 da Billboard, logo de cara. Estrutura de synthpop com pegada de Hi-NRG, "Maniac" é uma boa canção pop que acabou alavancada por um filme despretensioso mas que comercialmente, deu muito certo e levou Sembello pra galeria dos one hit wonders oitentistas.



Também vale o confere na atualizada que os italianos do Bloody Beetroots deram na faixa, em 2007:

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Sexta Feira Bagaceira: Dead Or Alive


O sucesso de lá nem sempre é o sucesso daqui. Conheci o Dead Or Alive na virada dos 80 pros 90, porque "Come Home With Me Baby" martelava direto nas FMs. Um tempo depois fui descobrir que o grande hit do grupo britânico era "You Spin Me Round (Like a Record)" (1984), primeiro (de vários) número um na parada inglesa produzido pelo trio Stock, Aitken & Waterman. Não que o som do Dead Or Alive tivesse algo a ver com o pop pasteurizado do pessoal que estava sob as asas dos produtores: com a postura extravagante do bom vocalista Pete Burns na linha de frente, o grupo livrou-se das origens pós-punk/góticas (Wayne Hussey, do The Mission, fez parte da formação inicial da banda) e juntou Hi-NRG com synthpop mais a androginia provocante de Burns - algo entre Alice Cooper e Boy George - pra produzir hits de pista explosivos como essa "Come Home With Me Baby", confortavelmente inserida em sets de freestyle e house. Burns empilhou plásticas e polêmicas até falecer em Outubro de 2016, vítima de um ataque cardíaco.

"Come Home With Me Baby": exuberância.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Sexta Feira Bagaceira: Tina Charles


Dia desses fui parar numa página do Youtube que trazia a primeira canção gravada por Björk, pirralhinha ainda, em algum lugar dos 70. Uma fofura. A música era "I Love To Love", de Tina Charles.

O single da cantora inglesa saiu em 1976, e com a disco a pleno vapor, foi hit fácil no mundo inteiro. Produzida por um dos top produtores da época, o indiano-britânico Appaiah Biddu, "I Love To Love (But My Baby Loves To Dance)" tem um arranjo adocicado de cordas e os agudos impressionantes de Tina Charles (então com tenros 22 aninhos), prontos pra espatifar as vidraças mais próximas.

"I Love To Love": disco britânica infiltrando-se nas paradas.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Sexta Feira Bagaceira: Double You


Em 1992, o projeto dos italianos Franco Amato e Andrea de Antoni mais o vocalista britânico William Naraine finalmente sentiu o gosto do sucesso. Formado em 1985, o Double You conheceu em 1991 o produtor Roberto Zanetti (hitmaker experiente, com hits do Savage nos anos 80 e Pianonegro nos 90). Gravaram então, no final desse ano, uma versão dance de "Please Don't Go" - clássico mela-cueca de 1979 do KC and The Sunshine Band. O resultado: hit mundial, uma enxurrada de covers dançáveis para coisas não-dançáveis que começaram a pipocar a partir de então e mais de três milhões de cópias vendidas até o final do ano seguinte. 



Já "Run To Me" é um single de 1994, inclusa no segundo disco, Blue Album. O sample de "Don't Go" do Yazoo, o rap na velocidade da luz de ICE MC, o refrão extremamente ganchudo e a performance vocal convincente de Naraine fizeram o Double You estender as tours às Americas do Norte e do Sul, com a força desse hit. "Run To Me" foi mais uma dance track do trio à fazer o crossover rádios/pistas, num tempo em que não havia essa segmentação absurda da dance music de hoje e as rádios ainda apresentavam as novidades em primeira mão aos ouvintes.

"Run To Me": Yazoo revisitado.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Sexta Feira Bagaceira: Banda Beijo


Longe de mim querer te convencer que isso é legal. Nem quero mostrar que sou eclético bragarái, que numa mesma semana cito Chromeo e... Banda Beijo. É só porquê algumas faixas desse disco estão ligadas a algum tipo de memória afetiva, sei lá. A pista que eu frequentava na época em que o grupo estourou tocava, então esse negócio ficou engavetado em algum canto menos visitado do meu cérebro. Tenho o vinil Axé Music: Aconteceu (1992), ouço de vez em nunca. Me chama atenção o mix dos sintetizadores com os tambores, batucada que seduziu de Paul Simon (The Rhythm Of The Saints, 1990) a Pet Shop Boys (Bilingual, 1996). O álbum tem ainda um cover muito honesto de "Sandra", originalmente de Gilberto Gil (preste atenção nos backing vocals maravilhosos da versão da Banda Beijo), outro sucesso ("A Vida é Festa"), letras politizadas ("Barracos [Escombros]", uma espécie de "Alagados" do axé), direção artística do mesmo cara que produziu seis álbuns do Legião Urbana (Mayrton Bahia) e Netinho, que saiu em carreira solo no ano seguinte, emplacou quatro hits de cara e continuou falando sobre dígitos acima de seis zeros.

"Estrela Primeira (Amor Eu Fico)": axé dono do campinho no começo dos 90.   

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Sexta Feira Bagaceira: Information Society

Um dia eu ainda vou entender porque o Information Society foi tão imensamente popular no Brasil. Conterrâneos de Prince (a banda vem de Minneapolis, EUA), o trio debutou pra valer em 1988 com um álbum autointitulado - antes disso há o The InSoc EP de 1983 e um lançamento independente de 1984 (Creatures Of Influence). Estourado nos Estados Unidos (mais de um milhão de cópias vendidas), Information Society, o disco, virou por aqui uma espécie de hit singles pack. Nada menos que seis - das dez faixas - tocaram insistentemente nas rádios brasileiras por dois anos a fio, até o lançamento de Hack, em 1990. A chamada "crítica especializada" nunca engoliu o grupo. Chamado erroneamente de "Depeche Mode de segunda", os jornalistas detestavam o Information pelos motivos errados, porque as comparações com o synthpop europeu da época eram, no mínimo, falta de informação (sem trocadilhos). Chegou-se a escrever que "What's On Your Mind (Pure Energy)", era "a melhor música que o Duran Duran não havia gravado". Mas a única coisa que o InSoc tinha em comum com Depeche e Duran eram os sintetizadores. A base da banda americana era outra, muito mais ligada ao electrofunk de Afrika Bambaataa do que à eurodisco européia.   


"Running" é uma das faixas de Information Society. A canção já tinha aparecido em Creatures Of Influence, mas no álbum de 1988, ela ressurge polida por reverbs nos vocais e efeitos de delay. O fato curioso aqui é que a voz ouvida não é a do vocalista Kurt Harland, e sim de Murat Konar, integrante que deixou o grupo em 1985. "Running" é um épico de oito minutos que funde technopop, freestyle e electro, com os vocais dramáticos de Konar. Hit eterno.

"Running": com Kurt, só nos shows.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Sexta Feira Bagaceira: Kajagoogoo


"Too Shy" foi o único hit digno de nota do Kajagoogoo. Nem sei se foi sucesso no Brasil (em 1983 eu tinha oito anos e música pop não pegava nem Top 20 na minha lista de preferências), mas provavelmente as FMs devem ter vendido o grupo britânico como o novo Duran Duran. Não por acaso. O single foi produzido por Nick Rhodes (tecladista duranie) e Colin Thurston (produtor dos dois primeiros álbuns do grupo preferido da falecida Lady Diana), bateu em primeiro no paradão inglês e não fez feio do outro lado do oceano (#5 na Billboard). O álbum de estreia White Feathers veio em seguida e nem me arrisco a recomendar: é ruim demais. "Too Shy", no entanto, tem seu charme. A linha de baixo é um trabalho competente do baixista Nick Beggs e o refrão, reconheço, é difícil esquecer. A banda tentou mostrar o resultado do seu processo de maturação no disco seguinte, Islands (1984), com enxertos de soul e jazz, mas já não tinha muita gente interessada - ainda mais sem a presença, hããã, "carismática" do vocalista Limahl, que emplacou um hit solo nesse mesmo ano (a baba "NeverEnding Story", produzida por Giorgio Moroder e música tema do filme de mesmo nome).

"Too Shy": pra passar vergonha na pista de dança.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Sexta Feira Bagaceira: Gottsha


Se a sexta é bagaceira, esqueçamos os pudores. Sandra Maria Braga Gottlieb - Gottsha - carioca, cantora e atriz. Seu debut é o álbum No One To Answer, de 1995: dance canarinho padrão Jovem Pan fartamente inspirada na eurohouse vigente. O disco - todo em inglês - rendeu alguns singles de relativo sucesso nas FMs brasileiras. Além da faixa-título, "Break Out" e "Do You Wanna Love Me?" experimentaram uma certa popularidade por aqui. "Do You Wanna Love Me?" é minha preferida: com uma chupada na cara dura da batida de "The Sign" (um inesquecível reggaezinho sintético dos suecos do Ace Of Base, produzido pelo saudoso Denniz Pop), uma letra de duas estrofes e um refrão repetido ad infinitum, a faixa parecia ter sido feita na medida pra emplacar nas pistas suarentas da América do Sul (até um 12" promocional foi prensado), mas acho que não ultrapassou a categoria de semi-hit. O que é inegável é que - apesar das composições fracas - Gottsha canta muito. Intencionalmente ou não, a música contida em No One To Answer é dance exageradamente pop e sua ótima voz foi subaproveitada. Poderia ter virado nossa diva house dos 90.

"Do You Wanna Love Me?": semi-hit.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Sexta Feira Bagaceira: Ace Of Base


Imagina o tamanho do pepino pros suecos do Ace Of Base: como gravar um disco depois do sucesso absurdo do debut Happy Nation (1993, mais de 20 milhões de cópias vendidas)? O caminho mais fácil seria manter a pegada reggatta de blanc que tornou singles como "All That She Wants" e "The Sign" imensamente populares mundo afora. Mas não foi isso que aconteceu. O segundo álbum, The Bridge (lançado em 1995), veio - em boa parte das faixas - introspectivo, emocional e por vezes, melancólico. Com a produção um passo a frente - mais sofisticada e experimental - The Bridge ainda assim vendeu um terço de seu antecessor, o que não é exatamente um fracasso.

Desse álbum, saiu o single "Beautiful Life": pop altamente dançante, com backing gospel, riff de piano eufórico e harmonia vocal na melhor tradição escandinava de ABBA e Roxette. Artistas como Lady Gaga, Katy Perry e Robyn citam o Ace Of Base como influência e se o grupo não deixou (até agora) nenhum álbum realmente memorável, basta lembrar da penca de singles incríveis que o quarteto enfileirou. Sai de baixo.

"Beautiful Life": Michael Jackson, em pessoa, aplaude o playback.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Dr. Alban


"Hip-hop reggae inna dance hall style". Pronto, numa frase extraída de um dos maiores hits daquele fantástico 1991, o nigeriano Alban Uzoma Nwapa definia seu som. 

Na verdade, "No Coke" foi lançada em Novembro de 1990, mas na era pré-Internet, as coisas aconteciam no seu tempo. Na pista que eu frequentava, ela tocou durante o ano inteiro e, lembro bem, era uma comoção aos primeiros acordes do baixo. Foi bem nas paradas europeias, especialmente no país que Alban adotou aos 23 anos para estudar Odontologia (daí o Dr., sacou?), a Suécia (primeiro lugar). O som não era exatamente novidade, mas a pegada pop de "No Coke" facilitou as coisas pra quem não era chegado no raggamuffin' cru e seco de Cutty Ranks, por exemplo, e talvez sem querer, Dr. Alban (junto com Shabba Ranks) estava ajudando a popularizar um gênero que vinha borbulhando desde o meio dos anos 80, quando os estúdios jamaicanos descobriram o sampler e por consequência, timbres impensáveis até então para o contra-baixo. E o que salta aos ouvidos em "No Coke" - além do óbvio manifesto anti-drogas da letra ("Cocain will blow your brain / And ecstasy / Will mash your life"), é a frequência subterrânea de sua linha de baixo, lapidada ao extremo pelo genial e saudoso Denniz Pop (que pouco depois produziu Ace of Base, Backstreet Boys, Britney Spears, N'Sync e Rick Astley, entre outros). Alguém anotou a placa?

"No Coke": pra testar a qualidade dos alto-falantes.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Guru Josh



"Fiquei realmente surpreso quando o Guru Josh chegou na Espanha primeiro e se manteve 17 semanas no primeiro lugar. 'Pacific State' deveria ter feito isso." 

O espanto do tecladista Martin Price, do 808 State, não escondia uma certa frustração por seu single "Pacific State" não ter alcançado o mesmo sucesso que "Infinity", faixa lançada quase simultaneamente pelo britânico Paul Walden, o Guru Josh, em 1989. A ideia, a grosso modo, era a mesma: ambient house tranquilona, com uma cama macia de teclados e, coincidentemente, solo de saxofone em ambas. "Pacific", sem dúvida, tinha uma produção mais refinada. Sons ambientais e um baixo elástico fundindo-se à melodia eterna do sax de Graham Massey, enquanto "Infinity" vinha numa embalagem new age meio canastrona (a frase "nineteen ninety... time for the guru" repetida incessantemente), com o próprio Josh se achando uma espécie de Messias da nova geração da dance music. Fato é que o riff de "Infinity" também foi digno de ficar na memória, para o bem ou para o mal. Tanto que a faixa ganhou uma recauchutagem em 2008 e foi hit tão forte quanto a primeira versão, se não maior.

Josh faleceu em Dezembro de 2015 e sua morte foi apontada como suicídio.

No único álbum lançado por Guru Josh (também Infinity, de 1990, capa acima), tem minha música preferida do tecladista. E não é a faixa-título, é "Lift Up Your Arms".

"Lift Up Your Arms": 



Mas o hitaço de Josh é mesmo "Infinity (1990's... Time for the Guru)":

domingo, 8 de outubro de 2017

Sofrência


Bem-vindo ao mundo VIP do Chainsmokers: narcisismo, ostentação, hedonismo, famosidades, caras, bocas, poses, tapetes vermelhos... e música ruim. É o vazio existencial traduzido em beats de EDM fuleiro que a dupla americana Andrew Taggart e Alex Pall devolve em forma de canções como "#Selfie", o primeiro hit, de 2014: "Vocês podem me ajudar a escolher um filtro? / Eu não sei se eu deveria escolher o Xxpro ou Valencia / Eu quero parecer bronzeada / O que devo colocar na descrição? / Eu quero que seja algo inteligente / Que tal 'vivendo com minhas vadias, #viver' / Eu só consegui dez likes nos últimos cinco minutos / Você acha que eu deveria apagar? / Deixa eu tirar outra selfie". De uma composição pueril com a nítida intenção de tirar proveito de um termo em voga, o Chainsmokers foi ao encontro de uma geração prontinha pra abraçar, por simples identificação, uma dance track fadada ao sucesso: o single vendeu mais de um milhão de cópias só nos Estados Unidos e o vídeo tem mais de 500 milhões de visualizações no Youtube.


Depois de mais alguns singles e EPs de sucesso e amparada por dígitos acima de seis zeros, a dupla chegou a 2017 com material suficiente para o primeiro álbum, Memories...Do Not Open (saiu em Abril, pela Columbia). Não foi surpresa, portanto, que o disco chegasse no topo do paradão da Billboard. É uma coleção homogênea de dance music de linha de montagem, provavelmente manufaturada com softwares comuns a produtores da mesma estirpe (como Calvin Harris, Avicii e nossa estrela canarinho Alok), porque soa exatamente igual a esse pessoal. Fácil constatar que Memories... atingiu em cheio seu público-alvo, de obcecados por som automotivo (porquê os graves aqui são surreais) até quem acha que a Tomorrowland é, realmente, a Terra dos Sonhos da música para dançar de todo o Universo. O álbum tem metade das faixas narrada (porque "cantar" não é exatamente o verbo aqui) de forma monocórdica e semi rouca por Andrew Taggart e o restante traz gente tão ruim quanto: da insossa Emily Warren (ligada ao selo do picareta Dr. Luke) até o arroz de festa do Coldplay, Chris Martin (na sofrível "Something Just Like This").

Não tem nada, mas nada, minimamente aceitável nesse Memories...Do Not Open e a única boa notícia é que "Honest", single mais recente do duo, alcançou apenas um modesto número 77 no paradão de singles da Billboard, o que diz muito sobre a descartabilidade e a volatilidade do pop de hoje quando a ameaçadora sentença bate à porta: não vendeu, babau. Quem sabe eles somem tão rápido quanto apareceram?

"Something Just Like This": Chris Martin beijando a lona.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Carl Douglas


Bruce Lee fez a cabeça da molecada americana nos anos 70. Filmes como A Fúria do Dragão, O Voo do Dragão e O Dragão Ataca, se pecavam pela falta de variedade temática, elevaram Lee à condição de ícone cultural e popularizaram definitivamente películas dedicadas às artes marciais, deixando um legado absorvido por artistas tão díspares quanto Wu-Tang Clan e Quentin Tarantino.

Foi nessa onda que embarcou o jamaicano Carlton George Douglas. "Kung Fu Fighting" deveria, originalmente, apenas preencher o lado B do single "I Want to Give You My Everything", mas após ter sido gravada (em menos de uma hora e apenas dois takes), um executivo da gravadora insistiu para que a faixa fosse prensada no lado A. Sábia decisão: lançado em 1974, o single vendeu mais de onze milhões de cópias. Produzida pelo subestimado indiano Biddu (Tina Charles, The Flirtations), "Kung Fu Fighting" tem um riff de flauta oriental clássico, entre vários "huh! hah!", representando foneticamente os movimentos da luta. Carl Douglas cantava bem demais, mas lustrava a cara de pau e mandava ver na performance metido nesse ifu (roupa para a prática do kung fu) do vídeo abaixo. Foi um hit só, mas lá em 1974, everybody was kung fu fighting.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Stevie B


O Rei do Freestyle chegou ao topo do paradão da Billboard em 1990 com a baba "Because I Love You (The Postman Song)", mas sua música mais conhecida é "Spring Love", lançada dois anos antes - ao menos no Brasil, onde foi megahit de pistas e rádios. Pode colocar boa parcela da culpa em Stevie B pelo fenômeno do funk melody ter se propagado por aqui (ele tem um single que batizou esse subgênero do funk carioca, inclusive), de onde saiu gente um tanto duvidosa, como Latino e Copacabana Beat e também um povo comprovadamente talentoso (Claudinho & Buchecha). "Spring Love" é a canção freestyle por excelência: percussão latina, gancho forte de sintetizador, vocais dramáticos e linha de baixo adiposa correndo juntinho com o bumbo. Acha melosa? Bobagem. Stevie B é um ótimo cantor de R&B e os arranjos de voz dessa faixa (especialmente quando entram os backing vocals), são irrepreensíveis. Pra saudar a chegada da Primavera, uma óbvia (e ótima) pedida.

"Spring Love (Come Back to Me)": o cabelo está bem melhor agora.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Secret Service


Tem tudo pra ganhar sua antipatia: uma canção que se chama "Oh Susie" e uma banda chamada Secret Service.


"Oh Susie" é o primeiro single do grupo sueco, lançado em 1979. Ficou 14 semanas em primeiro lugar na parada local, depois virou hit mundo afora. Aqui no Brasil saiu nessa versão sete polegadas acima. A faixa pega carona em alguns bondes da época: o emergente technopop, uma levadinha disco, soft rock, new wave. Gosto muito dos sintetizadores e o refrão dá pra decorar na primeira audição. Estranhamente constrangedora, datada. Na pista, a reação quase sempre é um misto de incredulidade e contentamento. O ex-vocalista da banda, Ola Håkansson, fundou a Stockholm Records em 1992, lançando nomes como The Cardigans. O que o redime, um pouco, dos pecados cometidos durante o período de atividades de sua banda.

"Oh Susie": "... we were much too young..."

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Noel


Pedra fundamental do freestyle: "Let the Music Play", faixa de 1983 da cantora Shannon. Um marco da dance music. Claro, inspirado pelos alemães duros de cintura do Kraftwerk ("Numbers"), Afrika Bambaataa já havia experimentado com esses beats de funk sintético em 1982 ("Planet Rock"), mas o single de Shannon injetou aquele tempero latino característico do gênero e um apelo pop que fez a canção chegar aos primeiros lugares das paradas americanas.
O nova-iorquino Noel Pagan seguiu direitinho a cartilha do freestyle no seu debut autointitulado - que tinha no time de produtores gente como Paul Robb (Information Society), John "Jellybean" Benitez e "Little" Louie Vega - e conseguiu emplacar alguns hits. "Silent Morning" é sua canção mais conhecida. Incluída na trilha da novela Vale Tudo, em 1988, estourou Noel por aqui e trouxe consigo uma avalanche de artistas de freestyle que ganharam projeção e popularidade em rádios e pistas brasileiras: TKA, Stevie B, The Cover Girls, Will to Power, Tony Garcia... a lista é grande.

Noel bem que tentou se desvencilhar do freestyle em sua tentativa pop rock Hearts on Fire, álbum de 1993, mas o resultado foi decepcionante e, mesmo sem gravar discos há um bom tempo, o cantor permanece na ativa fazendo shows.

"Silent Morning": expressão facial notável.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Captain Hollywood Project


O nome de guerra não era à toa: Tony Dawson Harrison, o Captain Hollywood, era realmente capitão do exército americano. Tio Sam perdeu um militar mas o mundo pop ganhou um, hããã... bom dançarino. Certamente Harrison não vai ser lembrado por sua voz rouca e sombria, rapeando no meio de divas flamejantes com pulmões e gargantas muito mais privilegiados.
Seu single de estreia, "More And More" (1992), é uma típica obra eurodance: techno diluído, pop enérgico, riffs ganchudos de sintetizador, refrãos repetidos à exaustão. Fez tanto sucesso que gerou uma "Parte 2", disfarçada sob o nome "Only With You" - que, descontando o rap sem graça de Hollywood - acho superior à "More And More". Simpatizo com ambas, no entanto.



O álbum, intitulado com a pérola de sabedoria Love Is Not Sex, vendeu bem, manteve o projeto em evidência durante 1993 e gerou mais dois singles (a boa "All I Want" e "Impossible"). Captain Hollywood mantém-se na ativa até hoje, provavelmente esperando um revival eurodance acontecer.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Vanilla Ice


 Quando "Ice Ice Baby" começou a fazer sucesso (no meio de 1990), Vanilla Ice teva a cara de pau de dizer que não chupou o baixo do Queen ("Under Pressure"). Um tempo depois, admitiu o sample. Seu rap de rimas fracas não foi além de bobagens tipo "Com meu conversível aberto pro cabelo poder esvoaçar / As garotas na espera, só acenando pra dizer olá" ou ainda "Preste atenção porque eu sou um poeta lírico" (essa foi demais).


"Ice Ice Baby" inicialmente era o lado B do single "Play That Funky Music", mas assim que ganhou execução por rádios e DJs, tornou-se imensamente popular - tanto que foi o primeiro rap a chegar no topo do Hot 100 da Billboard, e por conta desse hit, Vanilla Ice colecionou mais discos de ouro do que jamais sonhou.

Em 1990, eu - então com 15 anos - estava me lixando pra letra e nunca tinha ouvido "Under Pressure". Hoje, reconheço que o sample do baixo encaixou direitinho. Foi uma ideia que provavelmente não veio de Robert Matthew Van Winkle, um cara comprovadamente sem talento.

Não tive coragem de comprar o álbum To The Extreme (o segundo de Ice, incríveis 16 semanas no topo da Billboard e mais de 15 milhões de cópias vendidas), mas "Ice Ice Baby" foi licenciada para várias compilações, como essa aí abaixo.


"Ice Ice Baby": Johnny Bravo do rap.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Sexta Feira Bagaceira: When In Rome


Imagino que o maior mérito do When In Rome foi um dia ter sido confundido com o Depeche Mode por conta de seu single "The Promise", de 1988. Mas, convenhamos, um ouvido minimamente treinado não cometeria tal heresia. Martin Gore, principal compositor do Depeche, não redigiria uma rima constrangedora como "If you need a friend / Don't look to a stranger / You know in the end / I'll always be there", nem nos tempos de ginásio. E os esforços dramáticos de Clive Farrington ao microfone nem de longe lembram a extensão vocal de barítono de Dave Gahan. Porque a confusão, então? Mania do ouvinte médio de colocar tudo que soa relativamente parecido no mesmo balaio de gatos. E olha, o When In Rome é fraquíssimo, pra ser generoso. Seu autointitulado debut (e até hoje, único álbum) é horroroso, um sub-Alphaville de composições com o dobro da cafonice da banda alemã e instrumental uns cinco anos defasado em relação ao reluzente technopop praticado pela concorrência do primeiro escalão na época (o próprio Depeche, Erasure e Pet Shop Boys). Salva-se a melodia ensolarada de "Heaven Knows" e "The Promise", que tem, vá lá, um baixo interessante.