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terça-feira, 24 de abril de 2018

04:20


Mais surpreendente do que saber que Shaggy e Sting gravaram um álbum juntos é ouvir o primeiro single, "Don't Make Me Wait" e acreditar que a supostamente inusitada parceria já valeu a pena, só por esse lindo pedaço de reggae pop, cujo vídeo saiu em Fevereiro. O reggae - junto com o punk e o jazz - foi uma das bases para o rock econômico e preciso do Police de Sting e o jamaicano Shaggy formou-se nos sound systems e estourou seu dancehall no mundo inteiro em 2000, com o multiplatinado álbum Hot Shot. O disco da dupla, 44/876 (título relativo aos códigos telefônicos do Reino Unido e da Jamaica) acabou de sair (a referência não poderia ser mais esperta: foi lançado dia 20/04, ou, na gringa, 04:20) e agora é descobrir se tem mais alguma coisa tão boa quanto "Don't Make Me Wait".

"Don't Make Me Wait": já é.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Jah É


Eis que reapareceu em Janeiro o álbum Mek It Bun, do rasta jamaicano Horace Andy, lançado originalmente em 2002 pela BMG francesa. O relançamento inclui 14 faixas a mais, todas versões dub do original, com 13 canções. Andy - colaborador frequente do Massive Attack - traz em Mek It Bun alguns covers de praxe: uma fraca revisão de "Horse With No Name" (original do America, 1971), uma versão um tanto sem fôlego do clássico "Night Nurse" (Gregory Isaacs, 1982) e outra que perde feio pra matriz ("Satta Massagana", roots reggae de belíssimas harmonias vocais do Abyssinians, 1976). Horace, no entanto, mantém o disco aceso com seu timbre particularíssimo e colaborações que incluem os onipresentes (e geniais) Sly & Robbie e o guitarrista Earl "Chinna" Smith. Com baixos de tirar pica-pau do oco, lindas melodias ("Johnny Awful", "Empress Lady"), metaleira soprando firme ("Babylon You Lose", "We Nah Run") e total equilíbrio entre o roots tradicional e o dancehall bom de pista, Mek It Bun é daqueles discos atemporais em que a data da gravação não faz diferença nenhuma. E ficou ainda melhor com os extra dubs. Não perca.


"Mek It Bun": Jah é.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Dr. Alban


"Hip-hop reggae inna dance hall style". Pronto, numa frase extraída de um dos maiores hits daquele fantástico 1991, o nigeriano Alban Uzoma Nwapa definia seu som. 

Na verdade, "No Coke" foi lançada em Novembro de 1990, mas na era pré-Internet, as coisas aconteciam no seu tempo. Na pista que eu frequentava, ela tocou durante o ano inteiro e, lembro bem, era uma comoção aos primeiros acordes do baixo. Foi bem nas paradas europeias, especialmente no país que Alban adotou aos 23 anos para estudar Odontologia (daí o Dr., sacou?), a Suécia (primeiro lugar). O som não era exatamente novidade, mas a pegada pop de "No Coke" facilitou as coisas pra quem não era chegado no raggamuffin' cru e seco de Cutty Ranks, por exemplo, e talvez sem querer, Dr. Alban (junto com Shabba Ranks) estava ajudando a popularizar um gênero que vinha borbulhando desde o meio dos anos 80, quando os estúdios jamaicanos descobriram o sampler e por consequência, timbres impensáveis até então para o contra-baixo. E o que salta aos ouvidos em "No Coke" - além do óbvio manifesto anti-drogas da letra ("Cocain will blow your brain / And ecstasy / Will mash your life"), é a frequência subterrânea de sua linha de baixo, lapidada ao extremo pelo genial e saudoso Denniz Pop (que pouco depois produziu Ace of Base, Backstreet Boys, Britney Spears, N'Sync e Rick Astley, entre outros). Alguém anotou a placa?

"No Coke": pra testar a qualidade dos alto-falantes.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Light My Cover


Tecnicamente, qualquer canção pode virar um reggae. É só dar uma checada na discografia do UB40 e constatar que a banda britânica construiu sua exitosa carreira apoiada, basicamente, em covers. Parece uma fórmula não muito honesta quando isso ocorre com clássicos como "Can't Help Falling In Love" (Elvis), que deu ao UB40 seu terceiro single número um no paradão inglês em 1993. Por outro lado, pode, também, trazer à tona e dar uma segunda chance a faixas semi obscuras como "Red Red Wine" (Neil Diamond, 1967) e transformá-las em hits mundiais (a versão do UB40, de 1983, chegou ao topo nos dois lados do Atlântico).

  Seguindo essa cartilha, o outrora onipresente Inner Circle acaba de gravar sua "Light My Fire" (Doors) - coisa que o UB40 já havia feito em 2000. Com o auxílio dos cantores Konshens e J Boog, os jamaicanos cometeram uma versão bem comportadinha, talvez tentando reviver a década em que a banda dominava o dial (eles empilharam sucessos nos anos 90).

Se o cover não foi lá muito animador, a boa notícia é que, na sequência, o Inner Circle pretende lançar novas músicas com gente bacana como Maxi Priest e Mykal Rose e, ano que vem, comemorar 50 anos de estrada com - quem sabe - um disco novo, que espero, seja de inéditas.

"Light My Fire": fogueirinha.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Melhores do Ano - Músicas (#17: AlunaGeorge)


Começo a desconfiar que a arte do duo britânico AlunaGeorge é destinada pro single. Álbuns já foram dois, o segundo saiu agora em Setembro e ainda dá um certo cansaço ouvir inteiro. Já singles como esse "I'm In Control" destoam do conjunto. Aqui a dupla arrisca uma doce fusão pop/dancehall, com vocais adicionais do jamaicano Popcaan e acerta em cheio na dosagem da mistura.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Dancehall In Control


Depois do promissor álbum de estreia Body Music (2013), a dupla inglesa AlunaGeorge lançou três singles (o último, "Automatic", em conjunto com o produtor Zhu, é do ano passado e também uma das melhores faixas de 2015). Uma prévia do disco novo que sai ainda este ano é "I'm In Control", single lançado hoje, com participação do cantor jamaicano Popcaan. A faixa prova a incrível regularidade do duo e o talento pra continuar jogando no mercado bom material. É um dancehall que, espero, faça muito mais gente prestar atenção no gênero, que há tempos anda sumido dos holofotes.

"I'm In Control": Londres encontra Kingston.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Sexta Feira Bagaceira: Papa Winnie


Daqueles caras que a ala xiita do reggae ama odiar. Talvez não por acaso, Winston Carlisle Peters (natural da pequena ilha caribenha de São Vicente e Granadinas) fazia um reggae pop bem rasteiro, mesmo. Escorou-se em meia dúzia de covers e chupadas na cara dura pra ganhar alguma popularidade em alguns cantos do globo no começo dos 90 - Brasil incluso. Seu primeiro hit, "Rootsie & Boopsie" usou como música incidental a tradicional canção americana "You Are My Sunshine". Depois vieram "Sorry" (nada mais do que uma versão para "Baby Can I Hold You", de Tracy Chapman) e "I Can't Stop Loving You" (famosa na voz de Ray Charles). Guardadas as devidas proporções, foi mais ou menos o truque que o UB40 usou pra ganhar fama mundial. De Papa Winnie, gosto de pouca coisa. Entre elas, a boa "Roots And Culture" (do álbum You Are My Sunshine, de 1989), que o refrão quase pôs tudo a perder. Não sei o que ele faz atualmente (seu último disco é de 2005), mas de seus shows mais recentes que fiquei sabendo, Winnie foi vendido como "...um dos grandes nomes do reggae mundial". Menos, gente.

 
"Roots And Culture": picaretagem rasta.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

The Best Of The Rest


Com duas vocalistas mais lindas que a realidade e vestidos nesses Versace impecáveis da cabeça aos pés, o Ace Of Base teve seu momento. O debut do quarteto sueco, Happy Nation (1993, relançado pro mercado americano como The Sign, com tracklist diferente) é uma das estreias mais bem sucedidas comercialmente de todos os tempos, com mais de 25 milhões de cópias vendidas. Bom, hein? E o que dizer sobre o álbum seguinte, The Bridge, de 1995? Mais maduro e introspectivo (clichês inevitáveis, me perdoe) e com participação efetiva dos quatro membros no processo de gravação e produção, amargou menos de um terço das vendas de seu antecessor. Mas peraí, quem é que vende 7 milhões de cópias hoje em dia? Pra você ver como o mercado mudou.

Bom, a carreira do Ace Of Base vem ladeira abaixo desde então, com hits esporádicos, covers duvidosos e a debandada de Linn e Jenny Berggren (irmãs do chefão Jonas "Joker" Berggren, o da esquerda na foto acima). Aí, calhou do que restou do grupo catar 15 faixas não lançados oficialmente mais alguns lados B da fase boa do projeto (1991/2005) - não por coincidência, o período que tem as irmãs Berggren nos microfones - e chamar isso pretensiosamente de Hidden Gems. O disco tem faixas onde a química do dancehall asséptico de megahits como "All That She Wants" e "The Sign" funciona muito bem, é só ouvir "No Good Lover" (B-side do single "Life is a Flower" e tão boa quanto) ou "Giving It Up" (sobra de gravação inédita de The Sign). Porque era isso que todo mundo esperava: uma nova "Happy Nation", uma outra "Wheel of Fortune" saindo da cartola e, bom, não foi exatamente isso que aconteceu. Claro que Hidden Gems tem músicas que realmente nem deveriam ter visto a luz do dia, caso das pavorosas "Make My Day" (que de tão ruim, ganha um constrangedor fade out antes dos três minutos) e "Come to Me" (uma pálida imitação de, nossa, Vengaboys). Mesmo assim, dá pra pescar coisas bacanas aqui, como aquele riff esquisito de teclado característico do grupo (em "Prime Time") ou as lindas harmonias vocais das gurias na bela pop song "Into the Night of Blue" e em "Mercy Mercy".

Uma ouvida em Hidden Gems e dá pra desenvolver a inovadora tese de que uma coletânea de sobras do Ace Of Base é melhor que 90% dos discos pop lançados hoje em dia.

"No Good Lover": como nos velhos tempos.

domingo, 6 de julho de 2014

Fácil, Extremamente Fácil


Acaba de sair Easy To Love, o novo álbum de Maxi Priest. Nenhuma revolução, mas é bem bom. Aliás, a força da carreira do britânico Max Alfred Elliott é impulsionada por seus singles, então, tudo em ordem. Além do mais, falar sobre as mazelas de Trenchtown ou coisas tipo "Babilônia em chamas" e essa clichezada toda nunca foi a onda de Maxi, graças à Jah. O disco tem participação da melhor cozinha da história do reggae, Sly Dunbar e Robbie Shakespeare (na faixa título e em "Every Little Thing"), além do guitarrista Earl ‘Chinna’ Smith e o cantor Beres Hammond (em "Without A Woman"). O romantismo das boas "Loving You Is Easy", "If I Gave My Heart To You" e "Holiday" confirmam a fama de bico doce de Maxi Priest e fazem de Easy To Love um disco altamente apreciável.

Primeiro single do disco, o lovers rock "Easy To Love" é a melhor faixa aqui, boa o suficiente pra figurar daqui a cinco anos num próximo Greatest Hits do cantor inglês.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Segunda Class: Snoop Lion

 

"Eu sinto que sempre fui rastafari, eu só não tinha o meu terceiro olho aberto". Ah tá. Essa foi a justificativa do rapper Snoop Dogg para sua recente transformação em um servo de Jah.


 Praia, mulheres e maconha: as preferências continuam as mesmas, só mudaram nome (para Snoop Lion) e local (da California pra Jamaica). E olha que uma pá de gente abraçou a ideia. Reincarnated tem doze (!) produtores dividindo a mesa de som (e o beck). Nem por isso saiu um álbum acima de razoável. Diplo meteu a mão em quase todas as faixas, o que sempre é um mau sinal. De admissível, temos o nheco-nheco preguiçoso da abertura "Rebel Way" (com participação de Drake e uma linha de baixo convincente), o bom refrão de "So Long", o dancehall bacana de "Smoke The Weed" (com outro notório apreciador da erva, Collie Budz) e o ritmo totalmente justificado pelo título "Tired Of Running" (com o picareta Akon). E, bom, era isso. O resto chega bem perto de insuportável, especialmente na descontrolada "Get Away", nos teclados irritantes de "Fruit Juice" e no reggae fofinho mirando as paradas de "Ashtrays And Heartbreaks" (Miley Cyrus aparece nessa). Não por acaso, essas três faixas tem produção da dupla Major Lazer / Diplo, ou seja, não tinha a menor chance de dar certo.

Próximo passo: voar pro Rio e cair no funk carioca. Fica até a sugestão pro novo alter ego: MC Cachorrão. Que tal, Snoop?

"Ashtrays And Heartbreaks": o leão e a gatinha.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Sexta Feira Bagaceira: Laid Back


Reggatta de Blanc, o segundo disco do The Police (de 1979), já dava a pista: reggae de branco. A pseudo-tradução francesa de Sting era perfeita pra sintetizar aquele momento em que o ritmo jamaicano era fundido com rock e pós-punk por moleques ingleses, resultando em discos memoráveis do próprio Police, de bandas do movimento 2 Tone ou do Clash.


Não que o Laid Back tenha algo a ver com isso. A dupla dinamarquesa começou a experimentar com eletrônica no meio dos 70 até chegar ao primeiro disco em 1981, sucesso em sua terra natal. O estouro mesmo veio em 1983, com o single "Sunshine Reggae": número um em mais de vinte países. Totalmente descompromissado das mazelas do mundo, letra simplória e positivista ("o brilho do sol, reggae do brilho do sol / deixe as boas energias vibrarem!") e instrumental pendendo pro dancehall - baseado em baterias eletrônicas e sintetizadores - o Laid Back provou que dois branquelos de Copenhagen podiam sim fazer reggae sem necessariamente ter raízes na ilha. Curiosamente, nos Estados Unidos foi o lado B de "Sunshine Reggae" que tornou-se o maior hit do duo: o funk sintético "White Horse" invadiu as pistas de dança com toda sua ambiguidade lírica ("white horse" é uma gíria para heroína). Hit inesperado, a canção foi lançada logo em seguida como single, chegando ao número 26 do Hot 100 da Billboard, além de figurar nas paradas Dance e Black. Alvo de samples e inspiração para vários artistas (Bernard Sumner do New Order homenageia a forma meio cantada meio falada do estilo vocal do Laid Back em "Fine Time"), o grupo continua na ativa. Seu álbum mais recente é Cosyland, do ano passado.

"Sunshine Reggae": por que se preocupar?

domingo, 21 de abril de 2013

Reggae Na Velocidade do Som


É bom rever esse conceito que diz que o único reggae capaz de rivalizar com a matriz jamaicana é o inglês. O duo francês Raggasonic vem prestando bons serviços ao gênero desde meados dos 90. Formado por Big Red (Stéphane Joaquim) e Daddy Mory (Mory Samaké), a dupla já lançou três álbuns explorando todas as possibilidades da tecnologia pra turbinar seu reggae, competente o bastante pra ficar em pé de igualdade com qualquer exemplar da ilha. O terceiro disco - Raggasonic 3 - saiu em Outubro do ano passado e é dele esse single que a dupla lança agora, Mon Sound.


Uma tijolada. O raggamufin "Mon Sound" tem vocais rapeados na velocidade do som, teclados nervosos e aquele baixo de tirar pica-pau do oco. É uma vibe urgente, frenética, excessiva, compulsivamente dançante. As faixas extras trazem um remix de "Mon Sound" com bumbo reto e ênfase nas baixas frequências por Lord Zeljko & Manudigital, mais a versão original de "Monkey Star" (que não saiu em Raggasonic 3). Ainda não sei em que posição, mas já está no meu Top 25 do ano.

"Mon Sound": raggamuffin à francesa.

domingo, 2 de setembro de 2012

Dance Hall Days


Quando os estúdios jamaicanos descobriram o sampler lá no meio dos anos 80, o baixo e a bateria ganharam um novo sentido no reggae. Foi nessa época que surgiu o movimento dancehall - espécie de subdivisão do reggae com farto uso de batidas digitais, sintetizadores e linhas de baixo nunca imaginadas até então. 


Mark Anthony Myrie - o Buju Banton - começou a gravar nesse período, e estabeleceu-se como um dos principais artistas do gênero. Saiu agorinha uma coletânea que cobre parte desse período (The Early Years Vol. 2 - The Reality Of Life). É a segunda compilação que vasculha o extenso catálogo de Banton e serve pra apresentar o trabalho do jamaicano à novas audiências e também aos fãs que não devem ter disco novo dele tão cedo: Buju foi condenado pela justiça americana à dez anos de prisão (que ele cumpre até 2019), acusado de tráfico de drogas e posse de arma de fogo. Bom, tretas à parte, o cara é bom de microfone, inegavelmente, e aqui você encontra várias daquelas linhas de baixo gravíssimas que caracterizam seus principais hits. Sei, ele também tem uma postura homofóbica condenável, mas nesse caso, o que sai das caixas e o poder dessa música em induzir ao movimento é o que vale. É um argumento bobo, mas não é porque eu gosto de, por exemplo, Rage Against the Machine, que vou sair tacando fogo em tudo.

"Want It": Twiggi acalma a fera. 
 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Ligue Jah

 
Não é o reggae que sumiu, é você que não anda procurando direito. Deixe um pouco de lado essa trip enfumaçada do Bob Marley e (re)descubra dois artistas com álbuns fresquinhos que fazem jus à tradição do melhor do gênero dessa ilha estranha.
 
 
Jimmy Cliff, veteranaço (64 anos), um dos responsáveis pela popularização do reggae (bem antes de Marley). Em Rebirth, Cliff canta como um guri no auge da forma, voz intacta, um dos melhores canários que já apareceram na Jamaica. Seu álbum é de reggae vintage, mas não naquela linha roots/arrastado, cheio de lamentações de volta à Africa e pregações vazias tipo "vamo tacar fogo na Babilônia". Nááá, aqui o lance é emanar boas vibrações, louvar o amor e vislumbrar o futuro com os pés no chão, sem messianismos hipócritas. E lembre-se que Rebirth é um discão de um dos últimos moicanos na ativa: Tosh e Marley já se foram.

"Ship Is Sailing": Cliff bico doce.




 
Cutty Ranks também já não cozinha na primeira fervura. Aos 47 anos e na ativa desde os anos 80, começou a chamar atenção mesmo no começo dos 90 com seu raggamuffin' cru e de linhas de baixo com impacto semelhante ao de um chute no estômago desferido pelo Anderson Silva. Não tem ninguém no mundo que cante como esse negão. Ele despeja o verbo com uma urgência apocalíptica, com aquele sotaque rude boy carregadíssimo. Só que no seu recente Full Blast, Ranks amacia o discurso e manera nos ataques sonoros, de modo que temos mais dancehall e menos raggamuffin' rolando. O que não desqualifica o trabalho, de modo algum. É um disco que funciona tanto na pista de dança quanto no headphone; tem melodias lindas, momentos apaixonados com um Cutty meio sem jeito ("In My Place"), dedo na ferida ("Murderers And Thief"), beats R&B ("My Girl"), participações de luxo (a voz abençoada de Beres Hammond em "Way To Go") e a tradicional metralhadora giratória vocal de Ranks ("Blood Stain"). Absolutamente indispensável.

"In My Place": Cutty Ranks + Hyh Volume
 

quinta-feira, 15 de março de 2012

Contrariando as Expectativas


"Reggae é a música mais racista que existe. É uma glorificação total da supremacia negra".

"Sempre adorei reggae. Em 1984, eu disse, brincando, a um jornal musical britânico que 'o reggae é nojento'. Eles me levaram a sério, e essa afirmação está por aí até hoje."

As duas frases acima são de um tal de Stephen Patrick Morrissey, que esteve a pouco no Brasil para uma mini-tour de três shows. A segunda eu li numa entrevista concedida pelo "maior inglês vivo" ao jornal O Globo e a primeira eu juro que foi em alguma revista (provavelmente a Bizz) no final dos 80 ou começo dos 90, não lembro. Bom, não que Morrissey tenha algo a ver com esse disco aí abaixo, mas achei o link interessante, já que vou falar de um ótimo lançamento do gênero.


 Acontece que quando a gente acha que não dá mais, surge um cara como Konshens e recoloca o dancehall nos trilhos. E olha que o jamaicano Garfield Spence começou ontem: grava desde 2005 e Mental Maintenance já é seu terceiro álbum. Aqui há todos os elementos que fazem desse estilo cibernetizado de reggae ser tão legal de ouvir. São os quase onipresentes violões de levadas preguiçosas conduzindo o discurso ("World Citizen", "Represent"), são refrãos feitos na medida para as radiolas de São Luis ("Last Drink", "The Realest" - com participação do veterano Bounty Killer), são linhas de baixo que honram a tradição shakespeareana do gênero ("Homewrecker", "No More Tears") e Jah seja louvado, tem lindas levadas tradicionais com metais ("Only Jah"), guitarras e teclados fundindo-se ao dub ("Leave Your Side") e hits em potencial que - num mundo musicalmente descente - nasceram para estourar, como "Simple Song". Eu não ouvia nada tão bacana no estilo desde Collie Buddz - e lá se vai mais de um ano. Salve, Konshens.

"Simple Song": vídeo tão bom quanto a música.
   

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Branco no Preto


Nascido nos Estados Unidos e criado nas Bermudas, Collie Buddz tem a manha. Rapeia com a voz e a ginga de um toaster jamaicano embalado por uma base rítmica vigorosa de baixos gordos e beats produzidos com uma só intenção: entortar sua coluna. Resenha completa no rraurl, acesse.

"Hustle", uma das pedradas de Collie Buddz: