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terça-feira, 24 de abril de 2018

04:20


Mais surpreendente do que saber que Shaggy e Sting gravaram um álbum juntos é ouvir o primeiro single, "Don't Make Me Wait" e acreditar que a supostamente inusitada parceria já valeu a pena, só por esse lindo pedaço de reggae pop, cujo vídeo saiu em Fevereiro. O reggae - junto com o punk e o jazz - foi uma das bases para o rock econômico e preciso do Police de Sting e o jamaicano Shaggy formou-se nos sound systems e estourou seu dancehall no mundo inteiro em 2000, com o multiplatinado álbum Hot Shot. O disco da dupla, 44/876 (título relativo aos códigos telefônicos do Reino Unido e da Jamaica) acabou de sair (a referência não poderia ser mais esperta: foi lançado dia 20/04, ou, na gringa, 04:20) e agora é descobrir se tem mais alguma coisa tão boa quanto "Don't Make Me Wait".

"Don't Make Me Wait": já é.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Jah É


Eis que reapareceu em Janeiro o álbum Mek It Bun, do rasta jamaicano Horace Andy, lançado originalmente em 2002 pela BMG francesa. O relançamento inclui 14 faixas a mais, todas versões dub do original, com 13 canções. Andy - colaborador frequente do Massive Attack - traz em Mek It Bun alguns covers de praxe: uma fraca revisão de "Horse With No Name" (original do America, 1971), uma versão um tanto sem fôlego do clássico "Night Nurse" (Gregory Isaacs, 1982) e outra que perde feio pra matriz ("Satta Massagana", roots reggae de belíssimas harmonias vocais do Abyssinians, 1976). Horace, no entanto, mantém o disco aceso com seu timbre particularíssimo e colaborações que incluem os onipresentes (e geniais) Sly & Robbie e o guitarrista Earl "Chinna" Smith. Com baixos de tirar pica-pau do oco, lindas melodias ("Johnny Awful", "Empress Lady"), metaleira soprando firme ("Babylon You Lose", "We Nah Run") e total equilíbrio entre o roots tradicional e o dancehall bom de pista, Mek It Bun é daqueles discos atemporais em que a data da gravação não faz diferença nenhuma. E ficou ainda melhor com os extra dubs. Não perca.


"Mek It Bun": Jah é.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Dr. Alban


"Hip-hop reggae inna dance hall style". Pronto, numa frase extraída de um dos maiores hits daquele fantástico 1991, o nigeriano Alban Uzoma Nwapa definia seu som. 

Na verdade, "No Coke" foi lançada em Novembro de 1990, mas na era pré-Internet, as coisas aconteciam no seu tempo. Na pista que eu frequentava, ela tocou durante o ano inteiro e, lembro bem, era uma comoção aos primeiros acordes do baixo. Foi bem nas paradas europeias, especialmente no país que Alban adotou aos 23 anos para estudar Odontologia (daí o Dr., sacou?), a Suécia (primeiro lugar). O som não era exatamente novidade, mas a pegada pop de "No Coke" facilitou as coisas pra quem não era chegado no raggamuffin' cru e seco de Cutty Ranks, por exemplo, e talvez sem querer, Dr. Alban (junto com Shabba Ranks) estava ajudando a popularizar um gênero que vinha borbulhando desde o meio dos anos 80, quando os estúdios jamaicanos descobriram o sampler e por consequência, timbres impensáveis até então para o contra-baixo. E o que salta aos ouvidos em "No Coke" - além do óbvio manifesto anti-drogas da letra ("Cocain will blow your brain / And ecstasy / Will mash your life"), é a frequência subterrânea de sua linha de baixo, lapidada ao extremo pelo genial e saudoso Denniz Pop (que pouco depois produziu Ace of Base, Backstreet Boys, Britney Spears, N'Sync e Rick Astley, entre outros). Alguém anotou a placa?

"No Coke": pra testar a qualidade dos alto-falantes.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Light My Cover


Tecnicamente, qualquer canção pode virar um reggae. É só dar uma checada na discografia do UB40 e constatar que a banda britânica construiu sua exitosa carreira apoiada, basicamente, em covers. Parece uma fórmula não muito honesta quando isso ocorre com clássicos como "Can't Help Falling In Love" (Elvis), que deu ao UB40 seu terceiro single número um no paradão inglês em 1993. Por outro lado, pode, também, trazer à tona e dar uma segunda chance a faixas semi obscuras como "Red Red Wine" (Neil Diamond, 1967) e transformá-las em hits mundiais (a versão do UB40, de 1983, chegou ao topo nos dois lados do Atlântico).

  Seguindo essa cartilha, o outrora onipresente Inner Circle acaba de gravar sua "Light My Fire" (Doors) - coisa que o UB40 já havia feito em 2000. Com o auxílio dos cantores Konshens e J Boog, os jamaicanos cometeram uma versão bem comportadinha, talvez tentando reviver a década em que a banda dominava o dial (eles empilharam sucessos nos anos 90).

Se o cover não foi lá muito animador, a boa notícia é que, na sequência, o Inner Circle pretende lançar novas músicas com gente bacana como Maxi Priest e Mykal Rose e, ano que vem, comemorar 50 anos de estrada com - quem sabe - um disco novo, que espero, seja de inéditas.

"Light My Fire": fogueirinha.

domingo, 16 de julho de 2017

Good Good Mix


Ótima pedida o recém lançado quadragésimo sexto volume da Late Night Tales, série de coletâneas realizadas desde 2001 pelo selo independente britânico Night Time Stories Ltd. e que traz sempre alguém bacana na curadoria (artistas como Groove Armada, Nightmares on Wax, Sly & Robbie, Jamiroquai, Belle & Sebastian, Air e Fatboy Slim, já mixaram suas preferidas do fim de noite para a série). 


Desta vez a seleção ficou aos cuidados dos canadenses do BadBadNotGood e traz uma mistura bem eclética, mas que conversa muito bem entre si, como deve ser um bom set. Tem soul divino ("Don't Let Your Love Fade Away" de Gene Williams [1970], "Home Is Where the Hatred Is" de Esther Philips [1972] e "Oh Honey" do Delegation [1978]); reggae paleolítico ("People Make The World Go Round" de Errol Brown And The Chosen Few [1972]); o jazz-funk cabeçudo de Thundercat ("For Love I Come", de 2011); rock lisérgico ("Baby", dos ilustres desconhecidos - pra mim - Donnie & Joe Emerson [1979]); representantes de Gana, Etiópia e Camarões (Kiki Gyan, Admas e Francis Bebey, respectivamente); eletrônica experimental e retrô (Boards of Canada e Stereolab) e, para minha total surpresa, o groove sensacional de Erasmo Carlos em "Vida Antiga".

Conforme indica o próprio pessoal do BadBadNotGood, "...este mix vai te deixar em boa companhia numa noite tranquila, sozinho ou com amigos. Você pode ouvi-lo no avião, no ônibus, em uma longa caminhada ou em qualquer situação em que você queira uma trilha sonora para reflexão e meditação." Altamente recomendável.


Uma amostra do Late Night Tales do BadBadNotGood: numa nice, numa relax.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Artilharia Dub


O reggae, em suas mais variadas formas (dub, dancehall, ragga), sempre esteve presente na maioria dos álbuns do Thievery Corporation. Desde o debut Sounds From The Thievery Hi-Fi (1996), fortemente influenciado pelo dub, passando por referências mais (The Richest Man in Babylon, 2002) ou menos (Saudade, 2014) explícitas, o duo de Washington, D.C. formado por Rob Garza e Eric Hilton explora com maestria e propriedade o legado musical da ilha caribenha.

Então, o que a competente dupla oferece no seu mais recente lançamento The Temple of I & I (saiu em Fevereiro, pelo selo Eighteenth Street Lounge Music, de propriedade do Thievery) não causa nenhuma surpresa a quem já acompanha o grupo há algum tempo. A diferença é que desta vez temos um disco quase que inteiramente dedicado ao reggae. As duas únicas exceções entre as quinze faixas são "Love Has No Heart" (com um belíssimo arranjo de cordas) e um certo ar nostálgico encharcado de ecos e dos vocais melancólicos de Elin Melgarejo na trip enfumaçada de "Lose to Find". O restante do álbum traz desde a pegada mais roots ("Strike the Root", "Weapons of Distraction", "Drop Your Guns ", "Babylon Falling", com ótimos naipes de metais), passando por reggaes digitais ("Time + Space", "Thief Rockers"), fusões com rap ("Letter to The Editor", "Ghetto Matrix", "Fight to Survive") e faixas que parecem já ter nascidas como clássicos do gênero ("True Sons of Zion", "Road Block"), tudo feito com o esmero característico das produções de Garza e Hilton. The Temple of I & I conta com oito vocalistas convidados, que fornecem uma diversidade estilística às canções equalizada finamente pelo Thievery, garantindo ao trabalho a homogeneidade necessária para que nada soe fora do lugar, mesmo que o downtempo classudo e refinado da dupla reúna tantos elementos diferentes. Fora que é bem provável que eu deva estar completamente por fora do que anda acontecendo ao reggae ultimamente, porque este é, sem dúvida, o melhor disco do gênero que ouço em (muitos) anos.


"True Sons of Zion":

sexta-feira, 31 de março de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Dr. Alban


Injustiça jogar Dr. Alban na vala comum do Eurodance. O dentista Alban Uzoma Nwapa tinha alguma coisa diferente, que o afastava de outros artistas como Captain Hollywood ou Haddaway. Algo a ver com o forte acento afro em sua música? Certamente. Sorte do nigeriano foi topar com um produtor que soube fundir magistralmente essas raízes com ritmos como house, hip-hop e reggae: o saudoso Denniz Pop, que faleceu em 1998 aos 35 anos, mas deixou um legado pop genial com hits do próprio Alban, além de Ace of Base, e - sim - Backstreet Boys, N'Sync, Robyn, 5ive e Leila K, entre outros. Além da música poderosa, um Alban engajado aparecia ocasionalmente em faixas que estouraram, como "No Coke" ("A cocaína vai te matar e o ecstasy vai esmagar a sua vida!"), "Roll Down Di Rubber Man" (sobre o perigo da AIDS) e o último single bacana do cantor, "Born In Africa" (1996), que versa sobre o orgulho que ele sente do continente, ao mesmo tempo em que vê o quanto esse potencial é desperdiçado. Outro hit do cantor, "One Love" (segundo single do segundo álbum de Alban, também chamado One Love, de 1992) é mais uma faixa memorável, um caldeirão que funde rap, reggae e pop com um suntuoso arranjo de cordas sintetizadas e um refrão reconhecível à distância. Alban - subestimado, mas não esquecido - segue na ativa, mesmo que não tenha conseguido encaixar mais nenhum sucesso desde o meio dos 90 (seu mais recente single, "Hurricane", de 2015, nem beliscou as paradas). 

"One Love":

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Melhores do Ano - Músicas (#05: Dub FX)


Quem diria que da Austrália viria um reggae tão potente quanto esse em 2016? Artista de rua, cantor, compositor e produtor, Benjamin Stanford vem desde 2004 experimentando com fusões entre rap, reggae e drum'n'bass - mistura que fica bem evidente em "So Are You", faixa de seu álbum lançado ano passado, Thinking Clear, produzido e mixado por ele. No disco os resultados ainda são um tanto desiguais, mas enquanto vai azeitando a fórmula, Stanford aparece com pepitas como essa.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Ritmo da Chuva



Tinha tudo pra ser só mais um remix bagaceira, mas a versão reggae de Junior Blender pro hit "It Will Rain", de Bruno Mars, ficou demais. Metais reluzentes e uma melodia que parece ter nascido pra casar com o ritmo caribenho. Blender, aliás, tem uma batelada de boas versões enfumaçadas pra hits fáceis de gente como Adele ("Rolling In The Deep"), Cee Lo Green ("Fuck You") e até Commodores ("Sail On"). Vale o confere na página do cara.

"It Will Rain": ritmo da chuva.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Lo-Fi Dub


Chiptune é um negócio meio limitado musicalmente e enche a paciência rapidinho. A minha, ao menos. Dei uma segunda chance pro gênero (?) depois de ouvir No Broken Hearts On This Factory Floor, debut do DJ britânico Jackson James Bailey. O fato de Bailey discotecar com fitas cassete já é esquisito por si só, imagina gravar um álbum inteiro de dub reggae em versão 8 bit. É algo como se Lee "Scratch" Perry tivesse comprado um Nintendo do começo dos 80 e resolvesse tirar um som com o bichinho. A faixa de abertura "Helix Dub", com ruídos e ecos tipicamente Perry, deixa isso bem claro:



Basicamente instrumental, No Broken Hearts traz 16 faixas - seis inéditas e dez lançadas anteriormente em singles (Bailey está nessa desde 2009), remasterizadas especialmente para o disco. Única com vocais (de Vernon Maytone), "Old Pan Sound" não fica nada a dever à matriz jamaicana:


A ideia me parece muito original (nunca ouvi falar em chiptune dub, pelo menos) e o melhor, funciona muito bem. Tem melodias lindas e baixos rechonchudos providenciados por tecnologia fora de linha ou, vá lá, por softwares que recriam com precisão esses timbres datados. No Broken Hearts On This Factory Floor é divertido e altamente apreciável, um disco com faixas que raramente chegam aos três minutos - tempo mais do que suficiente pra Bailey abusar da criatividade com os parcos recursos que dispõe. Por enquanto, é meu disco preferido de reggae de 2015.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Sexta Feira Bagaceira: Papa Winnie


Daqueles caras que a ala xiita do reggae ama odiar. Talvez não por acaso, Winston Carlisle Peters (natural da pequena ilha caribenha de São Vicente e Granadinas) fazia um reggae pop bem rasteiro, mesmo. Escorou-se em meia dúzia de covers e chupadas na cara dura pra ganhar alguma popularidade em alguns cantos do globo no começo dos 90 - Brasil incluso. Seu primeiro hit, "Rootsie & Boopsie" usou como música incidental a tradicional canção americana "You Are My Sunshine". Depois vieram "Sorry" (nada mais do que uma versão para "Baby Can I Hold You", de Tracy Chapman) e "I Can't Stop Loving You" (famosa na voz de Ray Charles). Guardadas as devidas proporções, foi mais ou menos o truque que o UB40 usou pra ganhar fama mundial. De Papa Winnie, gosto de pouca coisa. Entre elas, a boa "Roots And Culture" (do álbum You Are My Sunshine, de 1989), que o refrão quase pôs tudo a perder. Não sei o que ele faz atualmente (seu último disco é de 2005), mas de seus shows mais recentes que fiquei sabendo, Winnie foi vendido como "...um dos grandes nomes do reggae mundial". Menos, gente.

 
"Roots And Culture": picaretagem rasta.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Sexta Feira Bagaceira: Skuba


Sim, o Brasil já teve boas bandas de ska. E não falo das tentativas oitentistas de Paralamas do Sucesso e Engenheiros do Hawaii (o do primeiro disco). Me refiro aos anos 90, quando a onda bateu forte num movimento que gerou nomes bacanas como Skamoondongos e os curitibanos do Skuba. Esta última, lar da mente irrequieta de Sérgio Soffiatti - que vinha do projeto anterior Sr. Banana, conhecido pelo hit "Ritmo da Chuva" (1995), um cover em ritmo de reggae do cantor Demétrius (1964), que por sua vez era uma versão de "Rhythm Of the Rain", do Cascades (1962). O Skuba chegou a ter hits em alta rotação nas rádios e MTV: "Drugs" (do segundo álbum, À Moda Antiga, de 1999) e "Não Existe Mulher Feia", do bom debut Churraskada (1997). Com a letra de apelo popular forte e uma empolgante levada de metais, "Não Existe Mulher Feia" foi, talvez, o maior hit desse (curto) período em que o ska balançava as tranças da molecada Brasil afora. Irresistível.

domingo, 6 de julho de 2014

Fácil, Extremamente Fácil


Acaba de sair Easy To Love, o novo álbum de Maxi Priest. Nenhuma revolução, mas é bem bom. Aliás, a força da carreira do britânico Max Alfred Elliott é impulsionada por seus singles, então, tudo em ordem. Além do mais, falar sobre as mazelas de Trenchtown ou coisas tipo "Babilônia em chamas" e essa clichezada toda nunca foi a onda de Maxi, graças à Jah. O disco tem participação da melhor cozinha da história do reggae, Sly Dunbar e Robbie Shakespeare (na faixa título e em "Every Little Thing"), além do guitarrista Earl ‘Chinna’ Smith e o cantor Beres Hammond (em "Without A Woman"). O romantismo das boas "Loving You Is Easy", "If I Gave My Heart To You" e "Holiday" confirmam a fama de bico doce de Maxi Priest e fazem de Easy To Love um disco altamente apreciável.

Primeiro single do disco, o lovers rock "Easy To Love" é a melhor faixa aqui, boa o suficiente pra figurar daqui a cinco anos num próximo Greatest Hits do cantor inglês.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Dez Perguntas Para: Tonho Crocco


Tonho Crocco não para. Cantor, compositor e músico, estreou em disco como vocalista do De Falla (no álbum Top Hits, de 1996), participou de álbuns e DVDs de Nando Reis, Papas da Língua e Marcelinho da Lua (o cover de "Ela Partiu", de Tim Maia, já é um clássico do drum'n'bass nacional). Junto com seu principal projeto, a banda Ultramen, foram cinco discos lançados, vários hits e inúmeros shows Brasil afora. Durante a parada de cinco anos com o grupo, lançou um disco solo em 2010, retornou com uma série de shows ano passado com a Ultramen e já tem álbum novo previsto para o ano que vem. Seguindo à risca a estrofe da faixa "Esse é o Meu Compromisso", Crocco "bebe, fuma, cheira e injeta poesia". Rimar é um vício. A caravana não para. 
1) Tu achas que o pop nacional ainda tem chance de voltar a cair no gosto popular ou a tendência daqui pra frente é uma cena alternativa pulverizada em artistas underground, vendendo uma quantia insignificante de discos e tocando para cada vez menos público?
Uau! Que visão apocalíptica! Bom, acho que o alternativo sempre vai vender menos que o mainstream. É justamente isso que ele representa, como cultura e alternativa à musica de grandes massas. A quantidade de publico é geralmente proporcional a boçalidade de quem paga pra ouvir lixo. E não só no Brasil. Um show de jazz nos EUA ou aqui vai ter menos ouvintes/pagantes que o show da cantora da Disney. Sempre foi assim. Acho que o público alternativo está melhorando sim. E isso é mais nobre que aumentar. 
2) A facilidade em gravar e distribuir música na Internet gera terabytes de lançamentos diários. Essa superexposição do público à artistas de qualidade duvidosa pode estar criando uma geração para a qual a música não tem mais importância?
Bobagem. Agora qualquer um pode gravar e lançar. A peneira da qualidade é o ouvinte que faz. E além do download, o streaming também é remunerado. Nem comercialmente nem culturalmente a musica vai acabar. Repito: a quantidade não tem nada a ver com qualidade. 
3) Quem faz boa música, comercialmente viável, hoje no Brasil?
Nação Zumbi, B Negão, Racionais; pra citar os grandes. Emicida e Criolo, dos novos.




4) Em relação a quando tu começaste, montar uma banda e viver de música em 2014 é mais fácil ou mais difícil?


Mais fácil. A informação e as ferramentas pra materializar a criação nunca antes estiveram tão acessíveis como agora.
5) O teu trabalho com a Ultramen foi fortemente marcado pela fusão de rap e rock com a música regional gaúcha. Esse ainda é um filão a ser explorado?
Talvez. O leque de referências da Ultramen sempre foi grande. O samba, reggae e ragga por exemplo. Estamos compondo novamente e até agora não saiu nenhum rap gaudério. Vamos surpreender as pessoas com esse novo trabalho, tenho certeza. (Nota: previsão de lançamento para 2015).

6) Qual é o status atual da Ultramen? A reunião que aconteceu ano passado foi parcial (a banda fez dois shows no Opinião, em Porto Alegre) ou há planos para um novo álbum?
Temos feito show desde a volta em março de 2013. Compondo um novo disco de inéditas e finalizando o DVD gravado em 2008.
7) Como lidar com as diferenças dentro de uma banda com tantas influências e gostos diferentes na hora de compor e gravar? Como acontece o processo de escolha do que vai pro disco?
Usamos a democracia pra decidir tudo. 
8) O teu álbum solo (O Lado Brilhante da Lua, lançado em 2010) tem predominância de funk e samba-rock, gêneros sempre presentes no trabalho da Ultramen. O que tu sentiste que deveria ser diferente musicalmente nesse projeto?
Pow, tem afrobeat também. Coisa que a Ultramen nunca fez. Ao mesmo tempo o rap, reggae e rock não fizeram parte do meu primeiro registro. Quem sabe no próximo... Acho que fiz um disco bacana e verdadeiro. Não me arrependo de nada. 

9) Certa vez num programa de uma rádio local (Atlântida FM, de Porto Alegre), tu disseste que costumava chamar a faixa "A Estrada Perdida" de "reggaezinho trouxa". Porquê? Tu te arrependes de alguma música que tenhas escrito ou gravado?

A banda toda falava isso.
É uma brincadeira; beirando uma piada interna. Sempre tiramos onda da nossa própria cara. Talvez a parte "o coração do planeta ainda chora" motivou isso. Hehehe. No mais, não mudaria uma vírgula.


10) Quais os discos/artistas que mais te influenciaram?

Tim Maia, Stevie Wonder, Luis Vagner, Beastie Boys, Pau Brasil, Cartola, Defalla... vixi, a lista é grande.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Segunda Class: Kanka


A culpa é do Fabio Bridges. Ele que me apresentou esse artista francês chamado Kanka. Agora já era: viciei.


E é assim mesmo. Basta dar uma rapidinha em Watch Your Step, seu sexto e recém lançado álbum e pronto. E eu que pensava que o único reggae capaz de rivalizar com a matriz jamaicana era o da Inglaterra. Quem imaginaria um dub tão potente vindo da França? Eu, jamais. Azar dos meus alto-falantes, com essas frequências de subgrave abaixo de 60 Hertz. É pra tremer a porta da estante. Legal e quase uma constante no som de Kanka, são seus timbres de sintetizador ameaçadores, tipo trombetas anunciando a abertura da Porta de Ishtar, na Babilônia. O restante da cartilha dub é cumprida à risca por Kanka, como se fosse um escravo Wardum fiel ao Código de Hamurabi: ecos em profusão, fluxo de efeitos entrando e saindo da música, toasters dando o recado, baixos de outro planeta. Sensacional.

Um aperitivo de Watch Your Step:

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Segunda Class: Phonique


Kissing Strangers, álbum de 2010 do alemão Michael Vater (Phonique), é ruim que dói. Mas no meio de tanta dance xinfrin, tem uma pérola que não merece estar nesse disco. A terceira faixa, "Amy's Heart", é sensacional. Vocais em falsete por um tal Ruben Scheffler, a música é um reggaezinho totalmente eletrônico, com uma percussão fragmentada que parece gravitar em torno dos sintetizadores de timbres agradáveis e fluidos. Maracujá sonoro.

"Amy's Heart": para ascender.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Segunda Class: King Tubby


Segunda complicada? Ressaquinha? Dub é um santo remédio.  


King Tubby foi um gênio. Possuía uma oficina de reparos de rádios e TVs em Kingston, começou a trabalhar com amplificadores, até construir modelos modelos mais resistentes e potentes dos usados habitualmente na Jamaica e montar seu próprio sound system - o King Tubby's Hometown Hi-Fi - que rapidamente tornou-se o mais popular da Ilha no final dos anos 50. Com seu conhecimento de eletrônica, trabalhou numa das primeiras gravadoras independentes local, a Treasure Isle Studios. No estúdio, Tubby empenhou-se na produção de lados B de singles de artistas jamaicanos (que continham a versão instrumental da faixa principal), e descobriu que era possível não só remover os vocais, mas também acrescentar efeitos como eco, reverb, distorções, além de acentuar baixo e bateria, até tornar a música quase irreconhecível. Nascia o dub, e por extensão, o remix.

Tubby foi baleado e morto em frente à sua casa, em 1989.

Hometown Hi-Fi Dubplate Specials 1975-1979 sai agora em 2013, e compila parte dos dubs tocados com exclusividade pelo sound system de King Tubby. São 18 faixas carregadas de efeitos e apenas ecoando referências e amostras do que eram os vocais originais, pra perda dos sentidos ser apenas parcial.

Essencial.

Dá pra ouvir trechos da coletânea no Soundcloud:

sábado, 24 de agosto de 2013

Bob Moderninho


Em sinal de desconfiança, meus olhos se espremeram involuntariamente quando fiquei sabendo desse álbum de remixes do padrinho do reggae. 


A compilação Legend (1984) é o disco de reggae mais bem sucedido comercialmente de todos os tempos. O álbum reaparece agora em versões atualizadas para 2013, então seria natural esperar que os clássicos de Marley fossem transformados em dubsteps fuleiros, ou - pior ainda - house bagaceira. Não foi bem isso que aconteceu, mas o resultado também não é pra acender um pra Jah.

Legend Remixed é bastante irregular. Stephen Marley é a prova viva de que o talento não está no sangue. Ele fuçou em quatro faixas e só não conseguiu estragar "Three Little Birds", porque não alterou muito a estrutura da música. Agora, acelerar os vocais de "No Woman, No Cry" pra encaixá-los numa batidinha xinfrim (que vira um vira um negócio meio Skrillex, logo depois), não tem perdão.

Os melhores resultados são os mais previsíveis na lista de remixadores: "Get Up, Stand Up" foi maravilhosamente envenenada pela dupla Thievery Corporation (muito chegada no som da Ilha), "I Shot The Sheriff" parece ter sido feita na medida pro drum'n'bass nervoso de Roni Size, Photek leva "One Love / People Get Ready" pra uma outra dimensão, e a dance orgânica do RAC (Remix Artist Collective) para "Could You Be Loved" acerta pela economia e eficiência.

Já o Pretty Lights experimentou (e errou) demais com "Exodus", a "Is This Love" de Jason Bentley (chupando a batida de "Plastic Dreams", de Jaydee) peca pela falta de inventividade e a quebradeira esquisofrênica do Beats Antique pra "Satisfy My Soul" talvez seja a pior coisa do disco.

Ziggy Marley escreveu nos créditos que "Nada nunca vai ser melhor do que os originais". Uma obviedade tão desnecessária quanto seu remix sem graça para "Stir It Up".

"Get Up, Stand Up (Thievery Corporation Remix)": requer um ajuste nos graves do seu player.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Segunda Class: Snoop Lion

 

"Eu sinto que sempre fui rastafari, eu só não tinha o meu terceiro olho aberto". Ah tá. Essa foi a justificativa do rapper Snoop Dogg para sua recente transformação em um servo de Jah.


 Praia, mulheres e maconha: as preferências continuam as mesmas, só mudaram nome (para Snoop Lion) e local (da California pra Jamaica). E olha que uma pá de gente abraçou a ideia. Reincarnated tem doze (!) produtores dividindo a mesa de som (e o beck). Nem por isso saiu um álbum acima de razoável. Diplo meteu a mão em quase todas as faixas, o que sempre é um mau sinal. De admissível, temos o nheco-nheco preguiçoso da abertura "Rebel Way" (com participação de Drake e uma linha de baixo convincente), o bom refrão de "So Long", o dancehall bacana de "Smoke The Weed" (com outro notório apreciador da erva, Collie Budz) e o ritmo totalmente justificado pelo título "Tired Of Running" (com o picareta Akon). E, bom, era isso. O resto chega bem perto de insuportável, especialmente na descontrolada "Get Away", nos teclados irritantes de "Fruit Juice" e no reggae fofinho mirando as paradas de "Ashtrays And Heartbreaks" (Miley Cyrus aparece nessa). Não por acaso, essas três faixas tem produção da dupla Major Lazer / Diplo, ou seja, não tinha a menor chance de dar certo.

Próximo passo: voar pro Rio e cair no funk carioca. Fica até a sugestão pro novo alter ego: MC Cachorrão. Que tal, Snoop?

"Ashtrays And Heartbreaks": o leão e a gatinha.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Sexta Feira Bagaceira: Laid Back


Reggatta de Blanc, o segundo disco do The Police (de 1979), já dava a pista: reggae de branco. A pseudo-tradução francesa de Sting era perfeita pra sintetizar aquele momento em que o ritmo jamaicano era fundido com rock e pós-punk por moleques ingleses, resultando em discos memoráveis do próprio Police, de bandas do movimento 2 Tone ou do Clash.


Não que o Laid Back tenha algo a ver com isso. A dupla dinamarquesa começou a experimentar com eletrônica no meio dos 70 até chegar ao primeiro disco em 1981, sucesso em sua terra natal. O estouro mesmo veio em 1983, com o single "Sunshine Reggae": número um em mais de vinte países. Totalmente descompromissado das mazelas do mundo, letra simplória e positivista ("o brilho do sol, reggae do brilho do sol / deixe as boas energias vibrarem!") e instrumental pendendo pro dancehall - baseado em baterias eletrônicas e sintetizadores - o Laid Back provou que dois branquelos de Copenhagen podiam sim fazer reggae sem necessariamente ter raízes na ilha. Curiosamente, nos Estados Unidos foi o lado B de "Sunshine Reggae" que tornou-se o maior hit do duo: o funk sintético "White Horse" invadiu as pistas de dança com toda sua ambiguidade lírica ("white horse" é uma gíria para heroína). Hit inesperado, a canção foi lançada logo em seguida como single, chegando ao número 26 do Hot 100 da Billboard, além de figurar nas paradas Dance e Black. Alvo de samples e inspiração para vários artistas (Bernard Sumner do New Order homenageia a forma meio cantada meio falada do estilo vocal do Laid Back em "Fine Time"), o grupo continua na ativa. Seu álbum mais recente é Cosyland, do ano passado.

"Sunshine Reggae": por que se preocupar?