sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Sexta Feira Bagaceira: Lasgo

Sem essa de guilty pleasure. Não tenho o menor pudor em admitir que curto o single debut dos belgas do Lasgo, "Something". Ah sim, a letra tem rimas tipo poeminha da quarta série ("Hold me in your arms / And never let me go / Hold me in your arms / Cause I need you so"), é um trance pop ordinário, uma armação programada pra estourar... mas e daí? Foi bem feitinho e funcionou. Lançado na terra natal do grupo no começo de 2001, a faixa foi subindo nas paradas europeias até cair a ficha da Positiva e o selo (subsidiário da EMI) jogar no mercado inglês quase um ano depois (chegou ao quarto lugar na ilha). Outros singles - obviamente com a mesma fórmula - vieram ("Surrender", "Alone"), mas a popularidade do projeto foi diminuindo gradativamente. Em "Something", me agradam os timbres dos sintetizadores, gosto do fato de uma faixa dance absolutamente descompromissada como essa ter sido tão popular e gosto, especialmente, da vocalista Evi Goffin. Nem tanto pela sua voz.

"Something": first train to Trancentral.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Réquiem


"We feel like this is a goodbye to the traditional album format…"
Conforme comunicado do Röyksopp em seu site oficial, o próximo álbum da dupla, sintomaticamente chamado The Inevitable End, vai ser o último. A má notícia vem seguida da alentadora frase postada no perfil do Facebook do duo norueguês: "We're not going to stop making music, but the album format as such, this is the last thing from us…" Então tá tudo certo. Aproveitando a deixa, o Röyksopp postou um trecho do novo single "Skulls", com um vocoder sinistro e manipulação espantosa da tranqueira cibernética.  

"Skulls": despedida sombria.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Idiossincrasia Coletiva


A mais recente compilação da série Late Night Tales saiu no meio de Setembro e traz a curadoria dos escoceses do Franz Ferdinand. O ecletismo da seleção era esperado - já que inclui faixas sugeridas pelos quatro membros da banda - mas o negócio ficou tão diversificado que tem indie, funk, krautrock, northern soul, reggae, ambient e outros rótulos que só dificultam a nossa vida. A despeito da disparidade, o disco é sensacional.

Vários nomes que gostei, mas nunca tinha ouvido falar: o folk lindo de R. Stevie Moore ("I'm Only Sleeping"), a psicodelia easy listening do The West Coast Pop Art Experimental Band ("Eighteen Is Over The Hill"), o indie de vocais falados da obscuridade Life Without Buildings ("New Town") e a melhor do pacote: o impressionante soul de Carrie Cleveland, "Love Will Set You Free".



Aí, dos medalhões temos o kraut do Can, estranhamente digerível em "Connection", o groove cabeçudo de Ian Dury ("Reasons To Be Cheerful Part 3"), o funk eletrônico do Zapp ("More Bounce To The Ounce"), o reggae envenenado "Disco Devil" (do bruxo Lee "Scratch" Perry), o manifesto anti-drogas (brilhantemente musicado) "King Heroin", de James Brown e a desolação futurista do Boards Of Canada, na gélida "Reach For The Dead". Rola até Paul McCartney e Serge Gainsbourg. Não dá pra se queixar de falta de diversidade. As escolhas do Franz Ferdinand formam o melhor volume do Late Night Tales, de todos que ouvi até agora: abrangente, de bom gosto e altamente didático.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Caleidoscópio Sonoro


Dando uma olhada no cast do novo selo de dance da praça, Kaleidosphere, simpatizei com a dupla escocesa Sharfla. Seu Bitter Pill EP acabou de sair: são quatro faixas divididas entre drum'n'bass, deep house e pitadas de electro, com um verniz pop cobrindo as composições. A faixa título e "Hold This" não são lá muito animadoras - house music um tiquinho melancólicas - mas a outra metade, conduzida por beats mais versáteis ("Curious Me" e "It's The Weekend"), me faz crer que a dupla Roncey Horton (vocais) e Paul Worth pode ser um dos nomes do Kaleidosphere a emergir do oceano genérico da EDM. Dá pra dar uma geral no Beatport, vale o confere.


domingo, 28 de setembro de 2014

Read and Translate


Sem as facilidades de uma então inimaginável internet, nos 80 era complicado descobrir quem eram os alvos do discurso revoltadinho dos Sex Pistols ou se "Lucy In The Sky With Diamonds" fazia, realmente, alguma menção ao LSD. A não ser que você tivesse tido a manha de ter feito intercâmbio ou, sabe-se lá como, sacasse o suficiente de inglês pra entender o que seu artista favorito esbravejava. Pois aproveitando o momento econômico favorável (Plano Cruzado, 1986), a editora Abril achou um nicho no mercado pra uma revista com fotos e... Letras Traduzidas. Não sei exatamente até que ano ela durou - provavelmente, início dos 90 - mas tive várias edições. Curiosamente, artistas nacionais que cantavam em inglês também apareceram em suas páginas. Foi o caso da dupla technopop Tek Noir, com duas faixas de seu debut, Alternative (lançado em 1990): "Beat The Rhythm" e "Drawings Of Sorrow". Sobre as letras, nada de mais. Mas as músicas me fazem reiterar o que penso desde que ouvi o Tek Noir pela primeira vez: é, disparado, o melhor projeto synthpop que este país já viu.