Três anos depois de um álbum mediano (Born in the Echoes, 2015) e de um single muito abaixo da média da própria produção da dupla ("C-h-e-m-i-c-a-l", 2016), Tom Rowlands e Ed Simons - os Chemical Brothers - voltam com a animadora "Free Yourself", lançada no finalzinho de Setembro. Com arpejos psicodélicos, um bassline retrô que vai fazer os alto-falantes trabalharem com vontade e uma letra despejada como palavras de ordem ("Free yourself, free yourself / Free yourself, free me, dance / Free yourself, help to free me, free us / Free yourself, dance"), a música deve ganhar fácil as pistas de dança, mas estou curioso pra ver a performance nos paradões. Primeiro pra sentir se a popularidade do duo chega perto do que era na segunda metade dos 90 e também porque o último single que beliscou o Top 10 na Inglaterra foi "Galvanize" (do álbum Push the Button), número 3 na UK Singles Chart em Novembro de 2004.
Em 1992, o New Order queria (e precisava) se reinventar, mais uma vez. Da nova ordem proposta após o fim trágico do Joy Division, até então, o grupo já tinha cinco álbuns gravados e havia se consolidado como a banda independente mais importante dos anos 80. Somente no debut Movement (1981), um produtor direcionou o trabalho (o genial Martin Hannett, também responsável pelo pós-punk apocalíptico registrado nos dois álbuns lançados pelo Joy Division). A postura autônoma também em relação ao som e a progressiva aproximação do quarteto com a dance music (que tem no divisor de águas "Blue Monday", de 1983, sua mais clara evidência), definiu o New Order como um grupo que adotava uma postura parecida com a que Andrew Fletcher usou para explicar o modus operandi do seu Depeche Mode, em 1989: "Fazemos música para o quarto, para a sala de estar. Se for tocada nas discotecas, ótimo. Mas nunca chegamos a entender isso." Embora o New Order nunca tenha direcionado seus discos exclusivamente para os quadris dos fãs, cada novo single lançado ganhava fácil as pistas do mundo e a participação esporádica de gente ligada ao electro e hip-hop como John Robie e Arthur Baker foram parte importante do processo. Em Republic (1993), os integrantes - depois de quatro anos afastados e com vários projetos paralelos em andamento - sentem que precisam de alguém para organizar tantas ideias e opiniões diferentes e voltam a trabalhar com um produtor na mesa de som. Tentam com Pascal Gabriel (que havia ganhado prestígio com os primeiros singles de S'Express e Bomb the Bass, na explosão da acid house britânica, alguns anos antes), mas o resultado (segundo o que a tecladista Gillian Gilbert relatou na época), aproxima o New Order do techno hardcore, o que desagrada a banda e a parceria é abortada. O experiente Stephen Hague (OMD, Erasure, Pet Shop Boys) é chamado e seu inconfundível verniz eletrônico borrifado no indie dance do grupo faz de Republic um ótimo álbum dançante, sem perder o costumeiro espírito sombrio que permeia a obra da banda.
Em 2015, a história parece se repetir. Depois de atravessar um longo período com álbuns apenas medianos e poucos singles dignos de nota - mesmo trabalhando com vários produtores diferentes - o cenário agora traz como principal obstáculo a ausência do baixista original (Peter Hook) e o New Order necessita renovação. A adição do substituto Tom Chapman e sua convincente performance no disco novo, esvaziaram minha desconfiança desde o anúncio do lançamento de Music Complete (lançado pela nova gravadora, Mute Records), que dizia respeito ao desfalque de Hook. Só o bassline da linda abertura "Restless" já foi suficiente pra me deixar otimista. No resto do álbum, me rendo ao talento. Mesmo com o fantasma do Capitão Hookie rondando as palhetadas nas quatro cordas de "Nothing But A Fool", o impressionante groove propulsor de "People On The High Line" (uma das duas faixas em que La Roux aparece nos vocais) é todo baseado no baixode Chapman e seu minuto final, absolutamente sublime (o mesmo acontece na levada italo-disco de "Tutti Frutti"). O baixista mantém a pegada de post-punk dançante na inspiradíssima "Academic" e ainda acompanha com precisão os hi-hats na velocidade da luz de Stephen Morris, em "Singularity".
Outro ponto importante, finalmente, em Music Complete, é a banda assumir novamente o controle no estúdio. Das 11 faixas, somente duas tem produção do Chemical Brother Tom Rowlands e uma conta com uma polida adicional de Stuart Price. Uma das respostas para o que faz o disco soar tão diverso pode estar nas diversas participações contidas nele. Desde a ficha técnica com gente como Richard X, Steve Dub (engenheiro de som e parte fundamental do sucesso por trás do Chemical Brothers) e Daniel Miller (boss da Mute) incluída, até as colaborações efetivas de La Roux, Iggy Pop e um contido (ainda bem) Brandon Flowers, em "Superheated". A faixa (com Stuart Price regendo o trabalho), coincidentemente, é uma das poucas que não me empolgou em Music Complete. Já Iggy Pop, é um caso a parte. Sua participação em "Stray Dog" celebra um longo ciclo de admiração mútua iniciado em 1977, quando os membros do Joy Division participaram de um show do vocalista do Stooges em Manchester, até a retribuição de Iggy numa aparição do New Order no 24th Tibet House Benefit, no Carnegie Hall, em Nova Iorque, ano passado. Vale dizer também que o álbum The Idiot, de Iggy (1976), foi o último que Ian Curtis ouviu antes de cometer suicídio e na década de 1980, o New Order costumava tocar o clássico "The Passenger", durante as passagens de som. Um dos pontos altos do disco, a música traz Pop narrando um poema escrito por Barney Sumner, sobre uma base reaproveitada a partir de uma faixa instrumental do Other Two (projeto paralelo do baterista Stephen Morris e da tecladista Gillian Gilbert).
Há de ser comemorada, também, a volta de Gillian Gilbert, depois de um período de dez anos afastada das gravações com o New Order (de 2001 à 2011). Suas intervenções aparecem em Music Complete ora criando a atmosfera propícia para as luzes frenéticas de uma pista de dança (como no segundo single do disco, "Plastic"), ora entrelaçadas à brilhante participação do conjunto de câmara britânico Manchester Camerata, notadamente na colisão dos efeitos dos sintetizadores com o belo arranjo de cordas em "The Game". "Plastic", aliás, usa como referência os arpejos clássicos de "I Feel Love", de Donna Summer (produzida por Giorgio Moroder e Pete Bellotte) e reverencia mais uma vez a eurodisco, numa história iniciada com "Blue Monday" e suas inconfundíveis socadas de bumbo da programação de bateria, inspirada em "Our Love", também da trinca Summer/Moroder/Bellotte.
O saldo final é altamente positivo. O New Order conseguiu se recriar, mesmo não oferecendo nada de realmente novo. O que vale aqui é a qualidade das composições, o teor pop em potencial e o instrumental inspirado que sustenta as canções. Se parte dos LPs lançados pela banda nos 80 indicavam claramente uma faceta mais roqueira e outra mais dançante (literalmente divididas entre Lado A e Lado B), a saudável mistura que a banda oferece neste disco (post-punk, italo, house, disco, synthpop) garante diversidade sem que isso afete uma das principais características de sua música: o definitivo e pioneiro cruzamento entre rock e dance music. O (agora) quinteto gravou um disco excepcional e todas
as menções à Music Complete que o indicam como "o melhor álbum do grupo em
décadas", não são exagero.
A culpa é, de certa forma, do próprio Chemical Brothers. Quando Ed Simons e Tom Rowlands conceberam a obra-prima Dig Your Own Hole (1997), eles certamente não poderiam prever que nada que viesse depois iria superar esse álbum. Substituir parte das baterias cruas do big beat enérgico que estourou o som da dupla mundo afora pelo technão 4X4 que tomou metade do trabalho seguinte Surrender (1999), foi não só uma correção de rota ou busca de novos limites pra sua música, mas também uma clara (e louvável) tentativa de fugir de estereótipos, autorreferências e comparações. A atitude deixou vários órfãos entre os fãs, arrebatou tantos outros (especialmente por causa do hit "Hey Boy Hey Girl") e foi muito bem recebida tanto pelo público quanto pela imprensa especializada. A marca indelével no som do grupo, porém, ficou bem definida e o que não dá pra ignorar é que a partir daí, cada vez que se fala em disco novo do duo, a gente já consegue prever - com bom índice de acertos - o que vem a seguir. O mix de rap, funk, house, psicodelismo e rock não pega ninguém de surpresa. E é aí que está o pecado (perdoável) dos Brothers, independente dos altos e baixos na sua discografia. Em compensação, penso não decepcionar nem quem os acompanha há algum
tempo, nem quem está descobrindo a química dos irmãos postiços somente
agora. O que vale, claro, é deixar-se levar pelas suas criações que muitas vezes desafiam classificações possíveis, num entra-e-sai de gêneros que fundem-se entre si até gerarem coisas como o big beat - que teve no debut Exile Planet Dust (1995), seu marco zero. Em seu oitavo álbum, Born In The Echoes, lançado mês passado, não é diferente.
Como sempre, o disco traz cantores convidados e aqui a bola da vez é Annie Clark (St. Vincent). É fato que Rowlands e Simons tem essa certa predileção por artistas cool, mas não vi nada que fizesse diferença em sua participação tímida na gravação de "Under Neon Lights" - ao contrário de gente que já esteve nos créditos de seus álbuns, como Hope Sandoval e seus vocais particularíssimos, por exemplo - fora a
impressão de que o fator "queridinha do momento" da musa indie ganha em relevância no que tange ao respeitável fole vocal de uma Beth Orton, outra colaboradora frequente da dupla.
Ali Love também se sai mal. O cantor britânico, que já tem uma faixa (a razoável "Do It Again", de 2009) com os Brothers no currículo, aparece messiânico e irreconhecível no techno "EML Ritual", o que tanto pode ser uma prova de versatilidade do vocalista quanto uma simples adequação à temática proposta (eles sabem o que estão fazendo, mas abrir mão do falsete agradável de Ali é subaproveitar seu potencial).
Já Q-Tip (do A Tribe Called Quest) casou muito bem sua excepcional qualidade de parecer rapear com um prendedor de roupas no nariz com a levada empolgante de "Go!", talvez a melhor música do disco (ele também se saiu magistralmente em outra colaboração com o duo, "Galvanize", de 2005), a despeito do vídeo tenebroso:
Uma das faixas mais legais é a que menos soa Chemical Brothers. A melancolia reluzente e a simplicidade eletrônica de "Wide Open" (com vocais de Beck) lembram um hipotético Hot Chip com um vocalista decente.
O que me dá um certo receio é perceber que eles precisam, eles fazem questão, de destruir boas ideias com alguma minúcia que pareça pretensamente artística. Tome o funk hipnótico de "Let Us Build a City" (incluída como uma das bonus tracks da Deluxe Edition), como exemplo. Precisava mesmo aqueles sintetizadores tocados com os cotovelos? Não sei se é uma estupidez jogar fora uma linha de baixo preciosa como essa com umas bobagens atonais com jeitão de improviso ou se é isso que faz seu som tão particular.
A esquisitice da simplesmente intragável "Taste Of Honey", é uma ode à chatice, mesmo. Trôpega e incômoda, dá pra clicar no botão skip sem a menor culpa. O mesmo vale para "I'll See You There", mais uma faixa inspirada em "Tomorrow Never Knows" (Beatles), assim como "Setting Sun" e "Let Forever Be". "Born in the Echoes" é um bom pedaço de rocktrônica do álbum e a psicodelia de "Radiate", cumpre a função habitual de desacelerar por instantes o andamento quase frenético dos seus discos.
A remissão de Rowlands e Simons é um clichê surrado, mas válido: a falsa expectativa por material inédito produzido pela dupla é encoberta pela certeza de que os Brothers nunca embarcaram - mesmo - em nenhuma febre de pista qualquer pra se manter "atualizados" e não seria depois de sete discos que isso iria acontecer. Por outro lado, é covardia comparar Born In The Echoes com trabalhos anteriores. Mas é, também, inevitável. Enquanto produto dance/eletrônico, o álbum mantém-se corpos à frente da manada vigente. Tratando-se de um disco da dupla, o resultado desta vez é apenas mediano.
"Sometimes I Feel So Deserted": bleeps techno à exaustão.
No final do ano passado a metade do Chemical Brothers, Ed Simons (o da esquerda, na foto), anunciou que iria dar um tempo nas apresentações ao vivo com sua banda por conta de "compromissos acadêmicos". Sem nenhum sentimento de culpa, ainda brincou: "Estou verdadeiramente ansioso para ver como se parece o novo espetáculo e, vejamos o lado positivo, um dia poderei ver um show do Chemical Brothers da perspetiva da audiência". Ao que parece, no estúdio as coisas continuam OK, porque hoje o grupo liberou a faixa "Sometimes I Feel So Deserted" para audição no Youtube. Deve ser o primeiro single do novo álbum Born In The Echoes (programado para 17 de Julho) - o primeiro desde Further, de 2010. É um techno que poderia estar em Surrender (1999), com todos aqueles espasmos sintéticos ritmicamente ordenados característicos do som da dupla. Nos meus monitores soou bem, mas imagino que isso aí com os P.A.s certos deve bater no meio do peito com muito mais vontade.
Não se sinta culpado por não ter achado Further nada de mais. O novo álbum do Chemical Brothers, lançado mês passado, é mais do mesmo. Soa irremediavelmente como auto-paródia, uma repetição das fórmulas vencedoras de seus seis discos anteriores. Pode ouvir, está tudo lá: o tecnão 4x4 recheado de vocoders, samples bizarros (embora me pareça meio óbvio que uma faixa chamada "Horse Power" contenha relinchos de cavalo) e as rajadas de teclados nervosos que deram as cartas em Surrender aparecem em "Escape Velocity" e "Horse Power". O rock reprocessado do fantástico Dig Your Own Hole está bem nítido nas baterias explosivas e guitarras sujas de "Dissolve" e "K+D+B". Timbres alienígenas e vocais indie/preguiçosos também sempre estiveram presentes no trabalho de Ed Simons e Tom Rowlands, e em Further a faixa "Another World" cumpre esse papel - com vocais da cantora e compositora americana Stephanie Dosen. Aliás, eis uma novidade no trabalho do Chemical Brothers: este é o primeiro disco da dupla que não traz vocalistas convidados, à exceção de Stephanie que colabora em algumas faixas. Os vocais (onde há vocais) estão todos a cargo de Tom Rowlands. A melhor faixa do disco e primeiro single oficial, "Swoon", tem um riff de sintetizador que lembra muito a linha melódica de "Lush 3-1" do Orbital, o que não deixa de ser uma ótima referência. O álbum encerra com "Wonders Of The Deep", aquela mesma viagem lisérgica/progressiva que encerra os discos do Chemical Brothers. Further não é, de maneira nenhuma, um disco ruim. Ele mantém o alto padrão de qualidade das produções da dupla inglesa, mesmo que não apresente nenhum caminho diferente do que estamos acostumados quando ouvimos um álbum dos Brothers. Além do mais, surpreendente mesmo seria esses caras aparecerem com um disco de jazz ou rumba, o que definitivamente não deve acontecer.