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segunda-feira, 9 de julho de 2018

Set Mix Dark Techno House by Carlinhos


Techno subterrâneo, house lúgubre, sintetizadores ameaçadores, samples esquisitos, vozes etéreas... tudo isso mixado por este que vos tecla num set de uma hora em que o darkismo cruza com a dance music e gera um filhote que transita com desenvoltura tanto pela pista de dança quanto pela sala de estar. Clicaê!

Tracklist:

1) Aftermath (Robags Berchem Duff NB) by Hundreds (Krakatau Records)
2) Volta Cobby by Robag Wruhme (Pampa Records)
3) It's Only (DJ Koze Mix) by Herbert (Pampa Records)
4) XTC by DJ Koze (Pampa Records)
5) First Fires (Maya Jane Coles Remix) by Bonobo feat. Grey Reverend (Ninja Tune)
6) Bad Kingdom (DJ Koze Remix) by Moderat (Monkeytown Records)
7) Moth by Burial & Four Tet (Text Records)
8) Open Eye Signal by Jon Hopkins (Domino)
9) Your Darkness by Benoit & Sergio (Visionquest)
10) Believe by Traumprinz (Giegling)
11) When Radio Was Boss by Soulphiction (Pampa Records)

terça-feira, 29 de maio de 2018

Back To Orbit


Alex Paterson e seu fiel escudeiro, o suíço Thomas Fehlmann, preparam-se para jogar mais um álbum no mercado (o décimo quinto): No Sounds Are Out of Bounds está programado pro dia 22 de Junho, disco que marca a volta da parceria com a gravadora independente inglesa Cooking Vinyl (sai a alemã Kompakt, que lançou Moonbuilding 2703 AD, de 2015 e COW / Chill Out, World!, de 2016). Nomes de peso participaram das gravações, como o frequente colaborador (e exímio baixista) Youth (Killing Joke) e Roger Eno (irmão de Brian Eno). Saíram duas faixas como aperitivo, "Doughnuts Forever", mês passado e "Rush Hill Road", agora em Maio.

"Doughnuts Forever" é uma música que tem mais a ver - embora o instrumental soe mais "orgânico" - com o inacreditável álbum de estreia The Orb's Adventures Beyond the Ultraworld, de 1991, com samples de orquestra, uma belíssima levada de baixo, corinho angelical e trechos de vozes extraídas sabe-se lá de onde.  




Já na houseada "Rush Hill Road", a linha de baixo passa por cima de tudo como um trator, mas deixa espaço pros excelentes vocais de Hollie Cook (cantora e tecladista, filha do ex-baterista do Sex Pistols, Paul Cook) e misteriosos sons orientalizantes. Totalmente acessível mas não pasteurizada, "Rush Hill Road" está na mesma vibe de pista de "Toxygene" (1997, 4º lugar no paradão inglês de singles).



segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Mais e Melhores Synths


Os islandeses do GusGus começaram como um octeto, que reduziu-se a um trio, depois uma dupla. Era de se esperar que a banda perdesse em diversidade (como a encontrável no impressionante Polydistortion, um dos melhores álbuns de eletrônica dos anos 90) ou que caísse na mesmice sintética por conta da falta de gente como as talentosas cantoras Emilíana Torrini ou Hafdís Huld, não? Não. A cada ano, o duo remanescente, Daniel Ágúst Haraldsson (produção e vocais) e Birgir Þórarinsson (a.k.a. Biggi Veira, sintetizadores, produção) volta melhor e cheio de novidades, oferecendo uma coleção de canções que ainda justifica plenamente o lançamento de um álbum, como esse incrível Lies Are More Flexible, o décimo da banda, lançado dia 23 de Fevereiro pelo selo do grupo, Oroom.

Com os vocais cristalinos de Ágúst desfilando elegantemente em meio a timbres de teclado grandiosos, algo celestiais; brigando por espaço com os ruídos cirurgicamente incorporados a estrutura da lindíssima progressive "Fireworks" ou duelando com os basslines violentos que ditam o ritmo em quase todo o disco, o GusGus continua muito acima da média no quesito manipulação de sons, vide a sugestão de climas e imagens cinematográficas com os sintetizadores que planam ameaçadoramente sobre as paisagens gélidas da Islândia em faixas instrumentais como a downtempo "No Manual" e a ambient techno épica "Fuel".

A fantástica progressão de acordes e arpejos na disco sintética "Lies Are More Flexible" (Giorgio Moroder certamente vai se orgulhar quando e se ouvir), os geniais movimentos repentinos de cordas combinados com arranhões de som cortados e ritmados com o BPM baixo de "Don't Know How to Love", a puramente dançante "Lifetime" (com todas as variações possíveis em cima do mesmo riff de teclado) e a arrepiante abertura "Featherlight" completam um disco em que nada está fora do lugar, inclusive o breve interlúdio de 48 segundos "Towards a Storm", que faz a passagem entre "No Manual" e "Fuel", já no final do álbum. Oito faixas em quarenta minutos absolutamente indispensáveis.

Em tempos de emburrecimento, apatia e redundância na cena dance/eletrônica, o GusGus é um milagre da tecnologia. 

"Featherlight": um dos oito acertos do GusGus no novo álbum.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Retrovisor


Vira e mexe, leio sobre o Meat Beat Manifesto, ouço alguma coisa ou um vídeo vai parar aleatoriamente em algum playlist do Youtube. Ativo desde 1987 e apesar da banda ser considerada uma relevante influência para a cena eletrônica britânica (especialmente o drum'n'bass) do começo dos 90, o som nunca me chamou atenção - ao contrário de pares como Squarepusher, Aphex Twin e μ-Ziq. Com todo respeito, provavelmente porque não mereceu.

Aparentemente, Jack Dangers (cofundador e único membro original remanescente) é quem está tocando sozinho o projeto e em Janeiro, teve disco novo. Impossible Star (capa acima) é o primeiro álbum do MBM em oito anos (saiu pela Flexidisc, uma subdivisão do selo Tino Corp., do próprio Jack) e, estranhamente, parece um passo atrás para uma banda eletrônica que, teoricamente, deveria estar olhando pra frente. São treze faixas que passeiam pelo jungle torto ("Bass Playa"), big beat caótico ("Unique Boutique"), techno sombrio ("The Darkness", "Lurkers", "Synthesizer Teste") e experimentalismo árido ("Liquidators", "Rejector"). Tinha tudo pra ser um trabalho interessantíssimo - se tivesse sido lançado em 1992.

Impossible Star: nenhuma novidade no front.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Mais Um Pulo do Gato


Um cara que nasceu em Chicago e foi criado em Detroit só podia ter house e techno na cabeça. Esse é Felix Stallings Jr. - a.k.a. Felix Da Housecat - e é exatamente isso que o DJ e produtor mostra em Founders of Filth Volume Four, seu mais recente EP, lançado pelo seu próprio selo, Founders of Filth. A série, iniciada ano passado e que já contou com a colaboração de gente do calibre de Jamie Principle, traz Felix usando alguns de seus diversos aliases (Aphrohead, Thee Madkatt Courtship) para três faixas bem distintas entre si neste quarto volume: dos enxertos de synthpop em "Neon Flyy" (com participação do produtor Clarian North e Blakk Hazel), o clima sexy e percussivo de "Quicksand" e "Death Toll Cinema", uma música com vocoder e uma levada de baixo que poderia estar em qualquer disco do AIR. Maravilha.

O EP está disponível pra audição no Spotify e está à venda no Beatport.



domingo, 19 de novembro de 2017

Techno Sedutor


O duo francês Miss Kittin & The Hacker, formado no final dos 90 por Caroline Hervé e Michel Amato, já acumula dois álbuns e uma batelada de singles com respeitáveis doses de electro e synthpop envolvidos. Seu lançamento mais recente é o EP Lost Tracks Vol. 1, de 2015, com quatro demos inéditas gravadas entre 1997 e 1999. Para 2017, a dupla volta a trabalhar em conjunto na faixa "The X" (Dark Entries), um techno subterrâneo sem espaço para melodia ou refrão. A música não se mostra muito amigável numa primeira audição, mas os vocais sexy e sussurrados de Miss Kittin e o instrumental pesado de Amato - com bleeps e efeitos nos lugares certos - vão seduzindo aos poucos. Remixes de gente como Jeff Mills seriam bem-vindos. "The X" é a única faixa com vocais de Le Théâtre des Opérations (disponível para audição no Spotify), novo álbum de Michel - desta vez solo.

"The X":

O disco traz nove faixas de techno com vasta influência de EBM e uma curiosidade: na contramão da tecnologia e seus softwares milagrosos, foi todo gerado por equipamentos analógicos. É isso que dá um sabor quente e especial à dance tracks como a kraftwerkiana "Dark Neon" (lembra vagamente as explosões eletrônicas de "It's More Fun To Compute") e a totalmente Nitzer Ebb "Body Diktat", com seu baixo cambaleante e baterias eletrônicas paleolíticas. Ainda como destaques fortes do álbum, a abertura "Underwater Sequence" e seus sintetizadores borbulhantes e o encerramento "Camisole Chimique", de ritmo engrenado e bateria em primeiro plano. Le Théâtre des Opérations é um disco robusto, homogêneo e que se posiciona facilmente entre os melhores da cena techno lançados neste 2017 carente de bons álbuns do gênero. Vale - muito - um confere.

"Underwater Sequence":


"Camisole Chimique":

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Frustrante


Pra você que perdeu o début do Trickfinger (homônimo, 2015), saiba que conhecer o projeto-de-um-homem-só de John Frusciante já por esse segundo álbum, recém lançado pelo selo americano Acid Test, não faz a menor diferença. 

Com duas músicas a menos que o seu predecessor de 2015, Trickfinger II não surpreende o ouvinte quando se descobre que as faixas são todas da mesma época (2007, no caso) e que Frusciante nem pensava em lançá-las "oficialmente". Fato é que o disco de seis temas instrumentais repete a ideia central da faceta eletrônica de Frusciante: acid house experimental com um acabamento propositalmente primário, onde tudo soa como se fosse um live P.A. gravado e mixado sem overdubs ou pós-produção de nenhum tipo (os solos de improviso fundidos às mil e uma variações da TB-303 em "Ruche", deixam isso bem claro).

Os únicos momentos de Trickfinger II que perigam ficar na memória são - para o bem - "Exclam", com seu esqueleto dorsal serpenteante em forma de arpejo de sintetizador que percorre toda faixa e, por cima disso, timbres acid que derretem e voltam a forma original em centésimos de segundo e - para o mal - "Hasan", onde Frusciante nitidamente perde a mão nos botões do equipamento e acavala programações de bateria e sintetizadores numa maçaroca ininteligível. Apenas como curiosidade, "Cuh" é uma tentativa techno-nostálgica que não faria feio no catálogo da Metroplex em 1987.

Lançar um disco desses em pleno 2017 não deixa de ser louvável e corajoso (por tudo que, digamos, Frusciante representa), mas convenhamos, se é pra ouvir uma aparente jam session freestyle assim, em forma de álbum, melhor catar os vídeos que o A Guy Called Gerald posta em seu perfil no Facebook.


"Exclam": um dos raros bons momentos de Trickfinger II.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Guru Josh



"Fiquei realmente surpreso quando o Guru Josh chegou na Espanha primeiro e se manteve 17 semanas no primeiro lugar. 'Pacific State' deveria ter feito isso." 

O espanto do tecladista Martin Price, do 808 State, não escondia uma certa frustração por seu single "Pacific State" não ter alcançado o mesmo sucesso que "Infinity", faixa lançada quase simultaneamente pelo britânico Paul Walden, o Guru Josh, em 1989. A ideia, a grosso modo, era a mesma: ambient house tranquilona, com uma cama macia de teclados e, coincidentemente, solo de saxofone em ambas. "Pacific", sem dúvida, tinha uma produção mais refinada. Sons ambientais e um baixo elástico fundindo-se à melodia eterna do sax de Graham Massey, enquanto "Infinity" vinha numa embalagem new age meio canastrona (a frase "nineteen ninety... time for the guru" repetida incessantemente), com o próprio Josh se achando uma espécie de Messias da nova geração da dance music. Fato é que o riff de "Infinity" também foi digno de ficar na memória, para o bem ou para o mal. Tanto que a faixa ganhou uma recauchutagem em 2008 e foi hit tão forte quanto a primeira versão, se não maior.

Josh faleceu em Dezembro de 2015 e sua morte foi apontada como suicídio.

No único álbum lançado por Guru Josh (também Infinity, de 1990, capa acima), tem minha música preferida do tecladista. E não é a faixa-título, é "Lift Up Your Arms".

"Lift Up Your Arms": 



Mas o hitaço de Josh é mesmo "Infinity (1990's... Time for the Guru)":

sábado, 14 de outubro de 2017

Discotecagem Transcendental


A arte da mixagem não diz respeito somente ao simples alinhamento de batidas. É muito mais que isso. Tem a ver com climas, texturas, timbres, coerência, feeling, senso musical apurado... tudo o que anos de cabine deram ao DJ Renato Lopes e que faz seus sets transformarem-se em experiências transcendentais, onde a música leva a lugares desconhecidos e, muitas vezes, para além dos limites da pista de dança. O prazer da viagem e as surpresas que aparecem no caminho estão no mais recente set que Renato subiu no Mixcloud, chamado another mix Oct 2017. O mix inclui desde pioneiros da house como Glenn Crocker (Glenn Underground) até gente nova e talentosa como Alexander Dorn (Credit 00) e CVBox, em quase uma hora em que adicionar as palavras "viradas perfeitas" é absolutamente redundante. Ouça no player abaixo ou visite o perfil de Renato Lopes no Mixcloud, onde outras maravilhas como esta estão prontinhas pra serem ouvidas.

another mix Oct 2017: para além da pista.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Techno Comportado


Prolífico e inquieto, o produtor londrino Kieran Hebden (a.k.a. Four Tet) fez sua discografia virar uma deliciosa confusão. Em 2017 já rolou o álbum There Is Love In You (originalmente lançado em 2010) e simultaneamente, sua versão de remixes, retrabalhada por artistas como Jon Hopkins, Floating Points e Joy Orbison. Teve também o EP Ringer (em Janeiro) e duas faixas que saíram recentemente, "Two Thousand And Seventeen" (em Julho) e "Planet" (Agosto).

"Two Thousand And Seventeen" é uma canção ambient relaxante que parece ter sido gravada no alto do Monte Fuji, no Japão. Com batida de hip-hop em slow motion, teclados atmosféricos e um instrumento de cordas que lembra o tradicional shamizen japonês, é perfeita para aquele momento do dia em que se pensa em coisas como a política nacional e o preço do quilo da costela de primeira.



Já "Planet" é um techno comportado, com uma base de pouca variação melódica. Não acho lá muito excitante pra pista de dança, a despeito dos gemidos bem sexy dos samples vocais. O electro-shamizen aparece de novo e acaba deixando a faixa mais para se apreciar do que se movimentar. De qualquer forma, mantém o nível das produções de Four Tet bem acima da Troposfera. 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Sexta Feira Bagaceira: 2 Brothers On The 4th Floor


Mal comparando, a Eurodance foi o que a perigosamente rotulada EDM representa pros dias de hoje. Vejamos: apelativa, de fórmulas repetidas e com o olhar sempre desconfiado dos puristas. Hm. A receita da maioria dos projetos do gênero vindos - em sua maioria - da Alemanha, Holanda e Bélgica, continha ganchos fortes de sintetizador, refrão repetido ad nauseum, rappers disparando estrofes na velocidade da luz e um bumbo quicando quase sempre na casa dos 120 BPM. O 2 Brothers On The 4th Floor foi mais uma dessas armações, mas, ao contrário de gente como 2 Unlimited e Culture Beat, não teve lá um desempenho realmente digno de nota nas paradas. Apesar dos poucos hits, chegou a ser bem popular em pistas e rádios. O maior sucesso do grupo é "Dreams (Will Come Alive)", de 1994, que copia algumas ideias do single anterior, "Never Alone" (minha preferida). "Never Alone" não é nenhuma obra de arte, mas é bem feitinha, há de se reconhecer. Tem os vocais berrados (e muito competentes) de Desirée Manders, que, diga-se, era gata demais (confira no vídeo abaixo) e funde - ou dilui, depende do ponto de vista - house, hip-hop, Hi-NRG e pitadas de techno numa dance track, acima de tudo, eficiente. Bonitinha, vai.

"Never Alone": sonhos molhados.

domingo, 4 de junho de 2017

Quando o Techno Era Pop

 

Senta que lá vem clichê: o pop é cíclico. Estava pensando nisso enquanto ouvia Galvany Street (Blaufield Music), novo álbum do Booka Shade. A dupla alemã começou lá no final dos 80 como um projeto synthpop, foi convertendo-se em house e agora, em 2017, achou que tinha a ver lançar um disco que é uma espécie de volta às raízes (mais um chavão ordinário). Não sei se Walter Merziger e Arno Kammermeier encheram o saco do seu tech house límpido e geométrico que gerou belos álbuns como Memento (2004) Movements (2006) ou só quiseram provar que, sim, eles podiam compor canções com estrutura pop de estrofe-refrão-estrofe e trabalhar com mensagens um tanto mais diretas (no caso, letras) quanto os sensacionais ganchos de sintetizador que fizeram a fama das (já) clássicas das pistas "Body Language", "Mandarine Girl" e "In White Rooms". Para isso, convidaram quatro vocalistas (a mim, todos desconhecidos), incluindo Craig Walker (o do meio, na foto acima), que canta em metade do álbum.

O produto final, se não é brilhante, é muito bom de ouvir. E se é assim, acredito que deve-se muito ao fato do Booka Shade ter dois produtores de mão cheia, com excelente gosto para timbres, texturas e batidas e ainda capazes de preencher cada espaço vazio na música com sons que quase passam despercebidos numa audição aleatória, mas são claramente perceptíveis com um bom par de fones de ouvido. São detalhes como a meticulosa programação de bateria de "Broken Skin", os mil teclados e o tratamento vocal de "Numb the Pain" ou os bleeps e micro ruídos que formam a base de "Peak". Afastando-se do 4x4 e formado em sua maioria por canções downtempo, Galvany Street traz poucos momentos propícios à pista de dança e, mesmo assim, com BPM médio: a suingada "Numb the Pain", os ecos de New Order de "Babylon" e o ótimo bassline amparado pelo refrão grudento de "Loneliest Boy". A baixa dançabilidade do álbum talvez não surpreenda os fãs (que já viram o Booka Shade experimentar com ritmos mais lentos em Cinematic Shades [The Slow Songs], de 2008), mas a  abordagem sugere uma aproximação do techno com o pop, mesmo, como tudo começou para a dupla.

"Babylon": das poucas faixas que induzem ao movimento de Galvany Street.



terça-feira, 16 de maio de 2017

Ciclo Completo


Nos anos 80, cada novo single do New Order era um acontecimento. Eles privilegiavam tanto a arte do doze polegadas que só depois de dois discos, em 1985 (Low-Life), resolveram os incluir nos álbuns. E junto com cada single, vinham remixes, versões dub e extended... uma festa para os DJs - que se consolidou definitivamente em 1987 com o lançamento da coletânea obrigatória Substance. A relação da banda de Manchester com as danceterias era tão estreita que alguns LPs tinham bem definidos o lado A (mais roqueiro) e o B (mais dançante): Power, Corruption & Lies (1983), Brotherhood (1986) Technique (1989), são bons exemplos.

Tudo nos conformes, então, com o lançamento mês passado do EP Music Complete: Remix (Mute), que traz versões alternativas para algumas canções (cinco) do ótimo álbum Music Complete, de 2015, que, diga-se, é o melhor do New Order dos últimos 20 anos (mais precisamente, desde Republic, de 1993).

Uma das coisas mais legais do EP é que eu nunca vi mais gordo ninguém que submeteu as músicas do New Order ao bisturi. Gente como o DJ e produtor japonês Fumitoshi Ishino (a.k.a. Takkyu Ishino) que transformou a já originalmente suingada "Tutti Frutti" numa viagem Acid House com uma profusão de arpejos de sintetizador e basslines de TB-303 alucinantes.


"The Game" e "Academic" foram retrabalhadas pelo produtor britânico Mark Reeder: a primeira passou do rock eletrônico pro downtempo (Spielt Mit Version), num novo arranjo que valorizou ainda mais as belas cordas da original; a segunda (uma das melhores de Music Complete) ganhou uma batida 4x4 forte, recortes das guitarras originais e uma linha de baixo propulsora. "People on the High Line" (pelas mãos do duo alemão Purple Disco Machine) virou a trilha perfeita para o hedonismo de Ibiza, repetindo infinitamente o trecho da letra "It's all gonna be alright" e adicionando pianos House e um bassline gordo e melódico de Disco Music.


"Restless" (com remix do francês Sébastien Devaud a.k.a. Agoria) fecha o EP com uma ótima versão instrumental tech-house para a ligeiramente melancólica faixa de abertura de Music Complete.

Não sei qual o critério usado para a escolha das faixas que foram remixadas em Music Complete: Remix EP, porque o álbum, em si, é de uma homogeneidade que só deve ter tornado mais difícil a decisão de pinçar só cinco canções e entregá-las para as reconstruções desse pessoal que trabalhou admiravelmente bem, porque o EP é sensacional. E bem que poderia abrir a possibilidade de um Remix EP II, que se for nesse nível aí, vai ser muito bem vindo.


segunda-feira, 1 de maio de 2017

Amnésia Techno


Tive que dar uma fuçada no Youtube pra ver se lembrava de alguma coisa de Undercover, o bem avaliado álbum do produtor canadense radicado na Alemanha Marc Houle, de 2012, já que só tinha a imagem da capa forte na memória (um Abraham Lincoln de riso ameaçador e olhos diabólicos). Em vão. Ouvi algumas músicas, mas nada que estivesse minimamente registrado em algum canto esquecido do meu cérebro.


Seu recente lançamento, Sinister Mind (saiu em Março pela Items & Things, selo germânico que tem Houle como um dos fundadores), vai pelo mesmo caminho. O que não deixa de ser curioso, porque o minimal techno das nove faixas prima, obviamente, pela repetição de riffs, arpejos e loops, o que teoricamente deveria fazer com que a quase exaustiva duração do processo (as faixas tem, em média, seis minutos) deixasse gravada ao menos trechos da música contida aqui. Ouvi Sinister Mind várias vezes e o que ficou está mais associado à minha memória de curto prazo do que qualquer outra coisa, prontinho pra ser esquecido. Não me culpe. O responsável é o próprio Houle e a volatilidade de uma música que vai permanecer nos fones de ouvido dos fãs mais ardorosos do techno autor por algum tempo, é bem provável que seja executada em clubes underground e depois, periga sumir sem deixar vestígios - como aconteceu comigo e Undercover. Se reconheço, por exemplo, “Energy Flash” (Joey Beltram), "LFO" (LFO) e "Nude Photo" (Rythim Is Rythim) já nos primeiros acordes, porque o mesmo não acontece com qualquer coisa de Sinister Mind? Longe de mim querer insinuar que Houle não tem talento, mas se o objetivo de agrupar algumas canções e lançar isso em forma de um álbum não é que o conjunto mereça ser, no mínimo, conservado na lembrança, então o que justifica lançar discos? As tentativas são válidas, OK. O gancho arabesco de sintetizador da abertura "Don't Think of Me" e as oscilações da frase de teclado da irresistivelmente sacolejante "Loafers" são boas investidas, mas são oásis encontrados eventualmente num álbum em que a média é enfadonha: "Failure" justifica o título de uma canção soporífera, "Dark Tom" parece ter teclas apertadas aleatoriamente em meio a espancamentos metálicos de bateria e "Conbular" arrasta-se serpenteando efeitos que voam de um canal para o outro das caixas de som. Uma das poucas que destoam do geral é o encerramento "Paligama" - techno que erige uma ponte imaginária entre Detroit e Berlim, engrenada e hipnótica. O problema é que em quase um hora, pouco mais do que vocais/vocoders assustadores e timbres angustiantes de sintetizador chamam a atenção. Muito pouco.

Sobre Sinister Mind, Houle disse que depois de mais de dez anos fazendo música, sentiu que era um bom momento para parar e avaliar sua jornada musical e que não havia planejado uma trilogia, mas percebeu que tinha tanta coisa para dizer, que limitar a apenas um LP não iria contar a história toda. O primeiro álbum da suposta série, como o título indica, refletiu as tendências mais escuras do seu som, conforme ele mesmo disse. A representação sonora desse propósito deixou a desejar no primeiro volume, mas estou curioso para ouvir os próximos.


"Loafers": oásis.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Nostalgia Futurista


Voyager, quinto álbum do Vitalic (o produtor francês Pascal Arbez-Nicolas), saiu no começo do ano e parece já ter envelhecido uns dez anos. Na verdade, metade desse tempo se passou desde o último dele, o fraco Rave Age, mas a sensação de déjà-vu é constante durante os 42 minutos do novo disco.

Não que isso seja ruim, afinal não tem nada no techno atual que não soe como reciclagem. O problema - mais uma vez num disco do Vitalic - é que Voyager oscila demais. O techno espacial (evidenciado pela arte de capa, título, temática das canções e timbres usados) perpetrado por Arbez tem ótimos momentos de inspiração eletrônica e nostálgica, como em "Waiting For The Stars", com arpejos pesados de baixo sintético (que impulsionam uma grande canção pop dançante) ou "Levitation", que é mais Chemical Brothers que o próprio Chemical Brothers recente, embora a colisão de sintetizadores tenha me lembrado de cara "It's More Fun To Compute", do Kraftwerk (1981). A tristonha "Hans Is Driving" (com um vocoder lânguido e vocais "reais" de Miss Kittin) caberia em qualquer álbum do AIR e com um bom fone de ouvido é possível ainda perceber sutilezas como um lindo coral celestial no segundo plano. "Use It Or Lose It" também não faz feio, mais enérgica e dançável que a média do disco. Ainda da metade apreciável de Voyager, "Don't Leave Me Now" é um belo encerramento; uma delicada e emotiva faixa (coproduzida por Roger Hodgson, ex-Supertramp), que parece ter sido gravada na solidão-conforto de uma estação espacial. Os maus momentos passam por "Lightspeed" e seu riff de sintetizador grosseiramente baseado em "Funkytown" do Lipps, Inc. (1979), pela viagem prog sem sal de "Nozomi", a pretensão barroca de "Eternity" e a trôpega "Sweet Cigarette".

No fim das contas, ignorando algumas faixas (ou tentando ter mais paciência do que eu tive), Voyager é uma boa audição. Seu lado mais experimental soa árido e pedante, não acho que seja a praia de Vitalic. Já quando ele usa o que parece ser uma bela coleção de sintetizadores vintage para compor canções de inegável apelo pop (como "Waiting For The Stars" e "Don't Leave Me Now"), o resultado é altamente positivo. No mínimo, dá pra dizer que Voyager é bem melhor que seu antecessor e, ao menos, não caiu na vala comum EDM.


 


"Waiting For The Stars": nostalgia futurista.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Plus Staples


Uma lição deixada pelo Art Of Noise: imagem não é nada. O Plus Staples foi um desses casos. Projeto italiano sem rosto do começo dos 90, música pela música. Som de pista feito por gente que entendia demais do assunto, como o DJ Mauro Picotto e o produtor Gianfranco Bortolotti (chefão da Media Records, maior gravadora italiana de dance music da época). Durou só quatro singles, mas o debut "We Got 2 Be" (que aqui no Brasil saiu na coletânea da casa noturna paulista Rainbow - de capa horrenda, diga-se) fez um estrago considerável em rádios e pistas mundo afora, entre 1992 e 1993. Os vocais foram chupados de "Take Me Away", hit underground de 1991 do True Faith (mais tarde usados também na pancadaria "Warrior's Dance", do Prodigy). A base instrumental é épica. Sintetizadores se dividem entre arpejos e um riff inspiradíssimo, enquanto explosões de bateria anunciam que uma nova ítalo house estava chegando: mais pesada, techno, melódica e irresistível.

"We Got 2 Be": épica.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Melhores de 2016 - Discos (#01: Trentemøller)


"Eu simplesmente amo a ideia de que você pode construir este mundo imaginário com música. Para mim, a música é ficção. Não é apenas algo que existe separadamente da realidade. A ficção é a realidade irreal. Ambos se pertencem e são um só. Eu acho que a ficção e a música podem ser usadas para confrontar e criticar a realidade, mas também para escapar dessa mesma realidade. E essa é a beleza disso."

Assim o produtor dinamarquês Anders Trentemøller definiu Fixion, quarto álbum de sua carreira iniciada há pouco mais de dez anos com o impressionante debut The Last Resort, de 2006. Se na sua estreia Trentemøller já exibia uma paleta de cores granulado-escurecidas espalhadas pelo seu downtempo minimal, em Fixion a monocromia toma conta das telas. O darkismo à que o autor submete suas composições revela um elo perdido entre Faith, do The Cure (1981) e o último álbum do Röyksopp, The Inevitable End, de 2014 (que a cantora Robyn sentenciou como "triste, mas não frio"). Fixion, porém, é tudo isso. Triste, frio, nublado, denso. Ondas geladas de sintetizadores castigam canções como a abertura "One Eye Open" (emoldurando os ótimos vocais da também dinamarquesa Marie Fisker); andando lado a lado com os tons menores da guitarra em "Never Fade" e finalmente surgindo ameaçadores na angustiante "Sinus". No ótimo single "River In Me" (com vocais de Jehnny Beth, do Savages), baixo e bateriam duelam entre si enquanto os teclados aparecem mais discretos com um riff de sopro encaixando-se na melodia, mas o estado de ansiedade criado pelos synths volta com força na faixa seguinte, a lúgubre "Phoenicia". O clima de isolamento, intenso e pessoal, ronda a maioria do disco e atinge níveis de beleza e encantamento sublimes, em faixas como a instrumental e hipnótica "November" e a etérea "Where The Shadows Fall". A sufocante "Spinning" (mais uma vez com vocais de Marie Fisker - que sugerem uma Elizabeth Fraser nórdica) aumenta a sensação de afastamento; resultado duplicado pela percussão eletrônica lenta e ritualesca e a profusão de timbres de tonalidade cinzenta dos sintetizadores - os mesmos que acompanham Jehnny Beth no pós-punk "Complicated", sua última aparição no álbum.

Fixion é um disco de eletrônica visceral aparentemente menos complexo musicalmente que seus lançamentos anteriores, mas que, por outro lado, facilitam a vida de Trentemøller no palco - e isso tem se mostrado extremamente positivo em sua turnê recente, com shows lotados pela Europa - em que reproduzir o rock gótico imaginado e concebido pelo produtor no álbum torna-se uma tarefa menos árdua e mais natural. Fixion, o disco e a tour, são vencedores. E evidenciam que Trentemøller, entregue sem medo à experimentação e simultaneamente ao tino pop, é um dos grandes músicos/produtores da atualidade. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Melhores de 2016 - Discos (#06: Pantha du Prince)


Quatro anos depois do arrojado Elements of Light - álbum que é uma espécie de sinfonia eletroacústica de uma peça só, gravado com o grupo de percussão norueguês The Bell Laboratory - o produtor alemão Hendrik Weber a.k.a. Pantha du Prince retorna com mais um trabalho que impressiona. Classificar The Triad (lançado pela célebre Rough Trade) simplesmente como techno minimal é deveras simplório. Na maioria das dez faixas há o 4x4 de BPM moderado como esqueleto, mas o que Weber desenvolve por cima disso vai muito além de um rótulo caracterizado pelo uso mínimo de elementos de composição. Não precisa mais do que ouvir a chuva de cristais sintéticos espalhando-se por faixas como "Lichterschmaus" e "You What? Euphoria!", vocalizes angelicais ("The Winter Hymn"), riffs precisos de sintetizador ("Frau Im Mond, Sterne Laufen"), basslines robustos impulsionando uma variedade deslumbrante de sons e efeitos ("Chasing Vapour Trails") e canções eficientes em sua rigidez geométrica de beats e programações eletrônicas ("Dream Yourself Awake", "Lions Love"), pra entender que este disco está à quilômetros de distância de um simples álbum de dance music. Pantha du Prince consegue - como poucos hoje em dia - unir elementos de forma tão harmoniosa e precisa, que fica difícil distinguir em sua música onde exatamente entram os componentes orgânicos e onde saem os sintéticos. The Triad tem um teor extremamente particular e profundo, que faz com que a tecnologia empregada soe de forma incrivelmente natural (e até visceral), incorporando-se perfeitamente ao ambiente - seja ele uma pista de dança ou a solidão-conforto da sua sala de estar.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Techno Descendente


Tentar entender o nome da faixa que o DJ e produtor alemão Robag Wruhme acabou de lançar faz tanto sentido quanto procurar saber o porquê de um nome artístico tão impronunciável quanto o seu verdadeiro (Gabor Schablitzki). "Xmop-198" perde em inventividade para o seu último EP (Cybekks, de 2015) e ele mesmo parece prever a onda de narizes torcidos com um comentário no Soundcloud ("But please! It's Techno inside."). O que Wruhme disponibiliza desta vez é techno minimal e monocórdico, sem variação, sem riffs e sem melodia. Uma linha de baixo e umas chicotadas de sintetizador. Perto do que ele já fez, achei fraquinho.

"Xmop-198": descendo um degrau.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Melhores do Ano - Músicas (#07: Abstraxion)


Elogiado por gente como Simian Mobile Disco e Caribou, o produtor francês Harold Boué grava como Abstraxion desde 2005 e ano passado lançou seu segundo álbum, She Thought She Would Last Forever. Produzindo em seu próprio estúdio em Marselha e cercado de equipamentos análogos,
Abstraxion passeia por techno, house e eletrônica experimental, sempre explorando com inteligência as possibilidades que a velha e a nova tecnologia - combinadas - podem render. Imediatamente após lançar She Thought She Would Last Forever, veio um vinil duplo com remixes do álbum e uma das faixas retrabalhadas, "An Error Occured", ganhou uma versão radicalmente diferente e poderosa, pelas mãos da dupla germânica Tuff City Kids. Ao techno original, plácido e rico em texturas de sintetizadores, Gerd Janson e Phillip Lauer (do Tuff City) adicionaram camadas sobre camadas de arpejos e uma linha de baixo brutal. Descobri esse remix num set do DJ Renato Lopes e desde então ela tornou-se uma obsessão - tanto pra dançar quanto para ouvir em um sistema de som à altura das baixas frequências do bassline. Fantástico.