Vai tomando forma No Tourists, o sétimo álbum do ex-quarteto, atual trio britânico The Prodigy (o "dançarino" Leeroy Thornhill - que tinha uma função meio Bez na banda - caiu fora no longínquo 2000). Com lançamento programado para 2 de Novembro, o álbum já revelou dois singles: "Need Some1" (em Julho) e "Light Up The Sky" (no finalzinho de Setembro).
Encurralados musicalmente pelo próprio subgênero de eletrônica que os levou ao estrelato (o breakbeat), ambas as faixas pegam pesado na pancadaria e distorção e, no caso de "Light Up The Sky", as autorreferências estão bem nítidas (citações das já clássicas "Breathe" e "Smack My Bitch Up" são facilmente perceptíveis).
A despeito do Prodigy 2018 não trazer nada de novo, a banda garante que, ao menos, o som seja reconhecível à quilômetros de distância.
Por onde andava a Witch House? Com alguns nomes curiosos e/ou engraçados (Gvcci Hvcci, GuMMy†Be▲R!, oOoOO), algumas coisas realmente interessantes (Salem, Clams Cassino), temática ocultista, eletrônica e batidas arrastadas, o (sub)gênero parece ter sumido com a mesma velocidade que ascendeu (lá por 2009/2010). Mas deixou alguns vestígios, como o misterioso (esconder o próprio rosto parece ser outra característica dos produtores de witch house) e impronunciável GVLVXY ("galaxy", dá pra sacar no primeiro sample de voz que aparece). Não sei quem é, de onde vem, como vive, nem do que se alimenta, mas sua "Ashia" apareceu agora no comecinho do ano e me fez voltar uns sete anos no tempo - e é uma nostalgia boa de sentir, porque a música é bacana: instrumental curiosamente tageado como electro na página do Soundcloud, mas que vem com aquele mesmo beat lento e seco, bumbos gravíssimos, clima fúnebre e samples vocais tensos. Bem-vinda a 2018, bruxa.
Me admirei - muito - ao ouvir "Filthy", o primeiro single do novo álbum de Justin Timberlake, Man of the Woods (lançamento
programado pra 02 de Fevereiro). Produzido pelo próprio Timberlake mais
o parceiro de sempre Timbaland e o produtor Danja, "Filthy" é um funk cibernético
corpulento e futurista, junta R&B e electro sob um baixo
paquidérmico e um rolo compressor de efeitos, não facilita as coisas com
as saídas mais fáceis do pop urdido por gente que dá as cartas
atualmente como Dr. Luke e Max Martin
e, mesmo assim, é totalmente digerível. Tão assombroso quanto a música é
o vídeo elaborado para "Filthy", logo abaixo. Renovador e
impressionante.
O duo francês Miss Kittin & The Hacker,
formado no final dos 90 por Caroline Hervé e Michel Amato, já acumula
dois álbuns e uma batelada de singles com respeitáveis doses de electro e
synthpop envolvidos. Seu lançamento mais recente é o EP Lost Tracks Vol. 1,
de 2015, com quatro demos inéditas gravadas entre 1997 e 1999. Para
2017, a dupla volta a trabalhar em conjunto na faixa "The X" (Dark Entries),
um techno subterrâneo sem espaço para melodia ou refrão. A música não
se mostra muito amigável numa primeira audição, mas os vocais sexy e
sussurrados de Miss Kittin e o instrumental pesado de Amato - com bleeps e
efeitos nos lugares certos - vão seduzindo aos poucos. Remixes
de gente como Jeff Mills seriam bem-vindos. "The X" é a única faixa com vocais de Le Théâtre des Opérations (disponível para audição no Spotify),
novo álbum de Michel - desta vez solo.
"The X":
O disco traz nove faixas de
techno com vasta influência de EBM e uma curiosidade: na contramão da
tecnologia e seus softwares milagrosos, foi todo gerado por equipamentos
analógicos. É isso que dá um sabor quente e especial à dance tracks
como a kraftwerkiana "Dark Neon" (lembra vagamente as explosões eletrônicas de "It's More Fun To Compute") e a totalmente Nitzer Ebb
"Body Diktat", com seu baixo cambaleante e baterias eletrônicas
paleolíticas. Ainda como destaques fortes do álbum, a abertura
"Underwater Sequence" e seus sintetizadores borbulhantes e o
encerramento "Camisole Chimique", de ritmo engrenado e bateria em
primeiro plano. Le Théâtre des Opérations é um disco
robusto, homogêneo e que se posiciona facilmente entre os melhores da
cena techno lançados neste 2017 carente de bons álbuns do gênero. Vale -
muito - um confere.
Art Rock é um guarda-chuva multifacetado, que tanto pode abrigar gente
que faz o rótulo ser visto com bons olhos (leia-se ouvidos), como o Roxy Music, ou pode trazer para perto de si abacaxis do tamanho de um Kansas,
por exemplo. Fato é que discos que já nascem com o carimbo de Grande
Arte estampado em suas capas geram uma expectativa que pode
transformar-se em decepção assim que a agulha pousa no vinil (ou quando
você clica no play); por presunção, vaidade ou falta de talento, mesmo. O
australiano Angus Andrew, que agora conduz sozinho o Liars, segue pelo
tortuoso caminho escolhido para o seu pop oblíquo por natureza, que, no
final das contas, junta art rock e eletrônica, com resultados ambíguos.
Com um novo álbum recém lançado (TFCF, Mute Records)
e uma temática centrada quase que exclusivamente sobre a degeneração da
relação entre Andrew e seu ex-companheiro de banda, Aaron Hemphill, o
Liars soa desafiador ao disparar uma metralhadora de batidas abrasivas
("Staring At Zero"), toneladas de amostras de sons/timbres esquisitos,
violões que surgem redentores e vocais ora cantados com a doçura de um Wayne Coyne ("No Help Pamphlet"), ora declamados com o tédio abissal de um rap desengonçado em slow motion à Beck Hansen ("The Grand Delusional"). No final de Agosto, o Liars jogou no Youtube o primeiro vídeo extraído de uma canção de TFCF,
"Cred Woes" e ela deixa muito claro que o trabalho da banda-de-um-homem-só vai trilhando propositalmente essa rota perigosa, que pode ser o
equivalente sonoro de um quadro de Jackson Pollock ou, na pior das
hipóteses, de Romero Britto. Para decodificar a arte de Angus Andrew,
escolho os dois.
Com uma abordagem muito particular sobre a música eletrônica - o que inclui o uso de alguns instrumentos nem tão convencionais ao gênero (como o sagrado trio baixo-guitarra-bateria) e outros que fogem a qualquer tipo de categorização (brinquedos e até um sincronizador de filmes 35mm) - o quarteto mezzo americano mezzo canadense baseado em Toronto, Holy Fuck, segue entortando o óbvio com seus experimentos que fundem ousadamente o orgânico e o sintético - a despeito do grupo dispensar formalmente o uso de computadores em suas composições.
Somando quatro álbuns na discografia (o mais recente, o elogiado Congrats, é do ano passado) e vários singles no currículo, a banda acabou de lançar o novo EP, Bird Brains, pelo selo californiano Innovative Leisure, gravado no esquema ao vivo do "1-2-3-4, valendo!". A faixa título foi disponibilizada no Youtube há alguns dias num curioso vídeo que traz a banda animando uma festa que "...explora a ideia da histeria em massa", segundo a diretora Allison Johnston. Investindo no lado mais cerebral da dance music numa canção que poderia ser definida como um mix improvável dos pioneiros Silver Apples com o injustiçado Add N To (X), "Bird Brains" pode não soar familiar ao ouvinte médio numa primeira audição, mas leva pouco tempo para a estranheza viajar do cérebro para os pés.
Os narizes semi torcidos da crítica para Amnesty (I), quarto álbum do Crystal Castles, justificam-se para quem esperava algo realmente novo no som produzido pelo canadense Ethan Kath. Teoricamente, já seria hora de mudar, fundir, arriscar alguma coisa que fizesse com que sua música soasse diferente, mas igual. Que reverberasse com toda fúria habitual, mas que trouxesse alguns elementos até então inéditos nas canções. Que a dupla se mantivesse perto do padrão usual, identificável à distância, só que diferente. Difícil, não? A intelligentsia então, passou a dizer que as onze faixas de Amnesty (I) estão irremediavelmente datadas, previsíveis e que Kath e a vocalista substituta de Alice Glass, a competente Edith Frances, finalmente estão acomodados na zona de conforto.
Há, porém, gente que ouve o disco e percebe que os ataques não perderam um décimo da potência, que o que se criou foi uma identidade que torna a música do duo excitante e desafiadora, sem deixar de ser - em certos momentos - acessível e impactante. E os carimbadores de rótulos não param: chamam isso de Witch House, Electropop, Synthpunk... tudo pra tentar jogar a eletrônica sem freio do Crystal Castles em um universo desajustado e oblíquo - agora, segundo eles, perdido na vala comum das obviedades pop. Besteira. Ethan Kath continua afastado da mediocridade. E continua fazendo ótimos discos.
Imagine o clássico e obrigatório debut do Orb, Adventures Beyond the Ultraworld (1991), sem as baterias. É nessa onda que COW / Chill Out, World!, décimo quarto álbum de material original do projeto ambient house de Alex Paterson, vai. Coletando sons com seu iPhone e jogando num laptop durante sua turnê do ano passado (juntamente com Thomas Fehlmann), Paterson foi montando o disco. O processo demorou seis meses e o que a dupla entregou foram dez faixas onde tudo é climático e indecifrável, ambient em essência, mas sem identificação imediata com nenhuma cultura específica. Ao contrário de Adventures Beyond the Ultraworld (com sua temática calcada em longas expedições pelo espaço sideral), COW / Chill Out, World! sobrevoa paisagens terrenas e as transforma numa espécie de paisagismo sonoro rico em timbres, texturas e climas. Um dos pontos altos da carreira do Orb, um dos melhores álbuns de eletrônica do ano passado.
O Lusine - projeto do texano Jeff McIlwain - acaba de soltar música nova: "Just a Cloud", com vocais da finlandesa Vilja Larjosto. O single precede o álbum Sensorimotor, com lançamento programado para Março, pela Ghostly International. Em "Just a Cloud", Jeff picota os vocais em pedaços assimétricos e vai colando a um riff de sintetizador ondulante, de maneira que tudo soe de forma onírica e fluída. Excelente.
Há tempos que Anders Trentemøller vem merecendo maior reconhecimento pelo trabalho apresentado. O músico e produtor dinamarquês vem desde 2006 lançando discos sólidos e transitando por vários estilos (Electronica, Techno, Ambient e Dark Rock, entre eles). Em seu ótimo álbum do ano passado, Fixion, Trentemøller recrutou três cantoras (Marie Fisker, Lisbet Fritze e Jehnny Beth). É Beth - vocalista do grupo pós-punk inglês Savages - quem canta em "River In Me", uma das melhores faixas do disco. A música dosa com exatidão eletrônica e rock gótico, soando soturna, dançável e longe das caricatas tentativas de gente que explora o darkismo muito mais ligado na forma do que no conteúdo, em si. Segundo o próprio Trentemøller, "...Beth tem essa voz realmente intensa e única e acabou sendo realmente desafiador e divertido tirar essa voz do universo do Savages e colocar no meu". Impossível discordar.
A culpa é, de certa forma, do próprio Chemical Brothers. Quando Ed Simons e Tom Rowlands conceberam a obra-prima Dig Your Own Hole (1997), eles certamente não poderiam prever que nada que viesse depois iria superar esse álbum. Substituir parte das baterias cruas do big beat enérgico que estourou o som da dupla mundo afora pelo technão 4X4 que tomou metade do trabalho seguinte Surrender (1999), foi não só uma correção de rota ou busca de novos limites pra sua música, mas também uma clara (e louvável) tentativa de fugir de estereótipos, autorreferências e comparações. A atitude deixou vários órfãos entre os fãs, arrebatou tantos outros (especialmente por causa do hit "Hey Boy Hey Girl") e foi muito bem recebida tanto pelo público quanto pela imprensa especializada. A marca indelével no som do grupo, porém, ficou bem definida e o que não dá pra ignorar é que a partir daí, cada vez que se fala em disco novo do duo, a gente já consegue prever - com bom índice de acertos - o que vem a seguir. O mix de rap, funk, house, psicodelismo e rock não pega ninguém de surpresa. E é aí que está o pecado (perdoável) dos Brothers, independente dos altos e baixos na sua discografia. Em compensação, penso não decepcionar nem quem os acompanha há algum
tempo, nem quem está descobrindo a química dos irmãos postiços somente
agora. O que vale, claro, é deixar-se levar pelas suas criações que muitas vezes desafiam classificações possíveis, num entra-e-sai de gêneros que fundem-se entre si até gerarem coisas como o big beat - que teve no debut Exile Planet Dust (1995), seu marco zero. Em seu oitavo álbum, Born In The Echoes, lançado mês passado, não é diferente.
Como sempre, o disco traz cantores convidados e aqui a bola da vez é Annie Clark (St. Vincent). É fato que Rowlands e Simons tem essa certa predileção por artistas cool, mas não vi nada que fizesse diferença em sua participação tímida na gravação de "Under Neon Lights" - ao contrário de gente que já esteve nos créditos de seus álbuns, como Hope Sandoval e seus vocais particularíssimos, por exemplo - fora a
impressão de que o fator "queridinha do momento" da musa indie ganha em relevância no que tange ao respeitável fole vocal de uma Beth Orton, outra colaboradora frequente da dupla.
Ali Love também se sai mal. O cantor britânico, que já tem uma faixa (a razoável "Do It Again", de 2009) com os Brothers no currículo, aparece messiânico e irreconhecível no techno "EML Ritual", o que tanto pode ser uma prova de versatilidade do vocalista quanto uma simples adequação à temática proposta (eles sabem o que estão fazendo, mas abrir mão do falsete agradável de Ali é subaproveitar seu potencial).
Já Q-Tip (do A Tribe Called Quest) casou muito bem sua excepcional qualidade de parecer rapear com um prendedor de roupas no nariz com a levada empolgante de "Go!", talvez a melhor música do disco (ele também se saiu magistralmente em outra colaboração com o duo, "Galvanize", de 2005), a despeito do vídeo tenebroso:
Uma das faixas mais legais é a que menos soa Chemical Brothers. A melancolia reluzente e a simplicidade eletrônica de "Wide Open" (com vocais de Beck) lembram um hipotético Hot Chip com um vocalista decente.
O que me dá um certo receio é perceber que eles precisam, eles fazem questão, de destruir boas ideias com alguma minúcia que pareça pretensamente artística. Tome o funk hipnótico de "Let Us Build a City" (incluída como uma das bonus tracks da Deluxe Edition), como exemplo. Precisava mesmo aqueles sintetizadores tocados com os cotovelos? Não sei se é uma estupidez jogar fora uma linha de baixo preciosa como essa com umas bobagens atonais com jeitão de improviso ou se é isso que faz seu som tão particular.
A esquisitice da simplesmente intragável "Taste Of Honey", é uma ode à chatice, mesmo. Trôpega e incômoda, dá pra clicar no botão skip sem a menor culpa. O mesmo vale para "I'll See You There", mais uma faixa inspirada em "Tomorrow Never Knows" (Beatles), assim como "Setting Sun" e "Let Forever Be". "Born in the Echoes" é um bom pedaço de rocktrônica do álbum e a psicodelia de "Radiate", cumpre a função habitual de desacelerar por instantes o andamento quase frenético dos seus discos.
A remissão de Rowlands e Simons é um clichê surrado, mas válido: a falsa expectativa por material inédito produzido pela dupla é encoberta pela certeza de que os Brothers nunca embarcaram - mesmo - em nenhuma febre de pista qualquer pra se manter "atualizados" e não seria depois de sete discos que isso iria acontecer. Por outro lado, é covardia comparar Born In The Echoes com trabalhos anteriores. Mas é, também, inevitável. Enquanto produto dance/eletrônico, o álbum mantém-se corpos à frente da manada vigente. Tratando-se de um disco da dupla, o resultado desta vez é apenas mediano.
"Sometimes I Feel So Deserted": bleeps techno à exaustão.
Ele estava certo, sobre tudo. Previu que suas maquininhas iriam acontecer com tudo, ignorou com tenacidade todos os críticos que riam da sua visão robótica do pop e, uma de suas predições mais assombrosas, disse (lá nos 70) que no futuro, todo mundo iria produzir sua própria música eletrônica, em casa. Bingo. Ralf Hütter é uma das figuras mais influentes da música em todos os tempos e seu legado com o Kraftwerk, hoje, é impossível de ser mensurado. Basta dar uma clicada em qualquer página que contenha alguma menção à música eletrônica e seus autores techno-anônimos e lá está um pedacinho de Ralf. Parabéns, Mestre. 69 anos de serviços inestimáveis prestados a Música.
"Remix é super interessante porque é a ideia que outra pessoa tem sobre um trabalho que não importa quem fez. O jeito que fica é que é importante. Cada um tem um jeito de contar a mesma história."
Assim nosso camaleão mor do pop nacional Lulu Santos sabiamente definiu na vinheta de onze segundos "Speech", seu disco Eu E Memê, Memê E Eu, produzido em 1995 pelo DJ Memê e recheado com remixes, regravações e faixas inéditas.
Álbuns de remixes são prática comum há bastante tempo e não estamos falando somente de artistas ligados à eletrônica. De The Cure (Mixed Up, 1990) a Philip Glass (REWORK_Philip Glass Remixed, 2012), muita gente caiu em tentação e jogou sua carreira nas mãos de aventureiros, com resultados ora desastrosos (caso do Cure) ora sublimes (no disco de Glass). Mas e quando, ao invés de apenas juntar sucessos ou faixas com alguma coerência entre si pra mandar pra sala de cirurgia, a ideia é refazer um álbum de inéditas, inteiro, o que justifica? Insatisfação com o resultado final do original? Uma segunda chance para canções subestimadas? Uma simples adequação ao mercado? Curiosidade em saber como a obra soaria na visão de outra(s) pessoa(s)? Obviamente, não tenho a resposta, mas pode ser um pouco disso tudo. Não conheço muitos casos em que um disco de remixes superou a matriz. Talvez a versão post-dubstep de Jamie xx para I'm New Here (2010) de Gil Scott-Heron (We’re New Here, lançado no ano seguinte) seja um dos poucos exemplos. O dubismo de Mad Professor retrabalhando em No Protection (1995) o já ótimo Protection (1994), do Massive Attack, também é inesquecível. E as versões completamente reconstruídas de Telegram (1996), da Björk, são melhores que as do clássico Post (1995)?
Bom, os noruegueses do Flunk acharam que tinha a ver entregar seu álbum mais recente Lost Causes (2013) pra um povo que eu nunca ouvi falar, aperfeiçoar. E que ótimo o fato de tanta gente desconhecida conseguir produzir um disco de remixes sólido, diverso e muito melhor que o original. Isso prova por A mais B que nome não ganha jogo. E ainda teve a ótima sacada do nome do projeto - Deconstruction Time Again - uma alusão ao álbum do Depeche Mode Construction Time Again, de 1983. Começou bem.
No processo de recauchutagem, vemos a indietrônica do Flunk forrada com graves rechonchudos e vocais recortados e reinventados para uma nova forma de cantar, mesmo que o downtempo característico da banda não seja alterado ("Queen Of The Underground").
"Awkward", ganha duas versões: a sombria Dogg Edit - com uma linha de baixo subterrânea - e a eletrônica inclassificável de Luca Bluefire.
O rock com contornos de Cocteau Twins de "Sanctuary" também aparece em duas novas interpretações: é transformado numa house elegante (Nosak Remix) e em leftfield (Wappaa Remix).
"Personal Stereo" e "On My Balcony" não pertencem a Lost Causes, são de trabalhos anteriores do Flunk. Em Deconstruction, foram remixadas por Jean Claude Ades e Sandro S, respectivamente. Curiosamente, são dois remixes que só tornam dançáveis as originais e destoam do alto teor de criatividade embutido no resto do trabalho.
Ainda digno de nota: o belíssimo arranjo de cordas e a percussão encaixada em "Down" (Knights of Ygit Refill) e o drum'n'bass alucinado de "Love And Halogen" (Subversive Boy Rework).
Deconstruction Time Again provavelmente não vai tirar o Flunk do semi anonimato, mas certamente é uma ótima introdução ao som desse grupo que, pode ter certeza, merece sua atenção.
O mix de blues com eletrônica já rendeu bons discos. Desde o espetacular The Dark Side Of The Moon (1973, Pink Floyd), passando por Violator (1990, Depeche Mode), até Play (1999, Moby) e Tourist (2000, St. Germain). Os métodos de produção vão mudando com o tempo. Pink Floyd e Depeche compunham o próprio material, fartamente influenciados pelo gênero; Moby fez do sampler seu instrumento de trabalho e Ludovic Navarre (St. Germain) combinou os dois. O modus operandi do francês Tristan Casara consiste em atualizar ou regravar clássicos e faixas obscuras, sem mexer muito na estrutura original, além de também compor.
O debut de seu projeto The Avener, The Wanderings of the Avener, saiu em Janeiro, depois do sucesso do single "Fade Out Lines", no final do ano passado. A faixa não passa de um remix ligeiramente houseificado para a ótima "The Fade Out Line" (2013), da cantora Phoebe Killdeer.
"It Serves You Right to Suffer", clássico de
John Lee Hooker de 1966, não foi muito além do esquema caixa, bumbo e efeitos discretos. O mesmo valendo pro pop onírico do Mazzy Star em "Fade Into You", provavelmente a faixa mais popular do duo americano. A impressionante "Celestial Blues" (1974), do pianista e barítono americano Andy Bey, ganhou uma boa levada dançante a despeito do constrangedor efeito de voz. É o crime mor do Avener no disco.
Vou fingir acreditar nas boas intenções de Tristan Casara com esse projeto, por isso é impossível não simpatizar com a linda "Castle In The Snow", com os vocais emotivos de Amina Cadelli, do enigmático grupo suíço Kadebostany.
Felizmente, para cada escorregada em Wanderings of the Avener, como "We Go Home", de Adam Cohen (filho de Leonard Cohen) - que parece trilha de comercial de companhia aérea - há bons momentos que compensam, como os violões folk e a ótima voz da norueguesa Ane Brun (em "To Let Myself Go") ou a surpreendente participação do recentemente redescoberto Sixto Rodriguez (em "Hate Street Dialogue"). Outra surpresa é a transformação de "Lonely Boy" (Black Keys), do enérgico garage rock original para uma comportada faixa dance.
No geral, The Wanderings of the Avener é isso, mesmo: Casara dá um trato sutil em alguns artistas esquecidos ou ainda ignorados (o que é louvável) e também exibe sua perspectiva de música de pista para canções de nomes que vão do blues ao dream pop (John Lee Hooker, Black Keys, Mazzy Star). Ele acerta na maioria das 14 faixas e mostra bom gosto na escolha do repertório, presta o grande serviço de apresentar bastante coisa boa, desconhecida do grande público (eu, inclusive), mas espero um disco autoral pra considerar como estreia. Por enquanto, a ideia é excelente.
"Waiting Around to Die", na versão do grupo folk canadense The Be Good Tanyas...
O que tenho ouvido de EBM recentemente me tem feito muito bem: não
consigo conter o riso. A maioria das bandas escandinavas e alemãs não
consegue ir além dos clichês mais surrados do gênero (instrumental
pretensamente pesado, temática apocalíptica dominante) e o que apareceu
de interessante nos últimos anos são os projetos que aproximaram a velha
Electronic Body Music do techno. Abaixo, Powell e Tzusing: dois artistas novos e duas variações interessantes para o mesmo tema.
O produtor britânico Powell assinou ano passado com a XL Recordings (The Prodigy, Basement Jaxx) e acaba de lançar um single pela gravadora. O som de Sylvester Stallone é duro e árido, sem espaço para melodia - tanto na faixa título (com samples vocais característicos) quanto no lado B "Smut", com bateria minimalista e várias interferências de industrial. É um caminho que pode render bons remixes.
O malaio de origem chinesa Tzu Sing surpreende com seu EP A Name Out of Place Pt. II. Muito bem produzido e imediatamente mais acessível do que o trabalho de Powell, a ótima faixa de abertura "4 Floors Of Whores" acelera firme rumo à pista de dança. Os zumbidos cambaleantes de "Frankinsense And Myrhh" e as distorções de "Khi Tang", ambas com andamento lento, preparam terreno para os excessos dos riffs furiosos de "O.D.D.". Música não tem fronteira, mas não deixa de ser inesperado um som assim vindo de Xangai.
Em 1998 era praticamente impossível que eu tivesse ficado sabendo do lançamento de Nedi Myra, o primeiro álbum do norueguês Bjørn Torske. A internet ainda engatinhava por aqui, a Bizz agonizava e a MTV já tinha deixado de ser relevante há pelo menos uns cinco anos, então, como é que eu ia saber que esse disco saiu naquele ano pela minúscula Ferox Records - selo britânico de techno de propriedade do DJ e produtor Russ Gabriel? Bom, o importante mesmo é que agora, em 2015, ele acaba de ganhar uma reedição remasterizada, pela gravadora norueguesa Smalltown Supersound. E é uma maravilha.
A primeira constatação é que, passados 17 anos de seu lançamento e levando-se em consideração o cenário em 1998 e o atual, Nedi Myra não perdeu um pingo do seu frescor. A segunda é (re)descobrir um disco que merecia e muito, ter saído do anonimato.
Torske explora house music e ambient de tal forma, que a osmose sonora acontece naturalmente e a separação de ambos torna-se impraticável em suas oito faixas. Com a ajuda de um bom fone de ouvido, é fácil se deixar envolver por sons que induzem o ouvinte às paragens geladas do Ártico, tanto na cinematográfica abertura de "Limb Fu" (com sua linha de baixo orgânica e solos de flauta que atravessam a música) quanto nos sintetizadores nebulosos de "Eight Years", um breakbeat entrecortado por teclados de movimentos tão repentinos quanto a dança das luzes da aurora boreal. Jazzy e elegante, Nedi Myra acerta em cheio na escolha dos timbres - seja nas emulações de órgãos de "Beautiful Thing", na magistral sessão de cordas e no xilofone do aparentemente improvável encontro da deep house com o easy listening de "Fresh From The Bakery" (esta ainda com uma notável e minuciosa variação de hi-hats) ou nos efeitos borbulhantes dos synths de "Smoke Detector Song", encharcados de wah-wah.
As batidas apresentadas em Nedi Myra são um caso à parte. Não se resumem ao esquema bumbo e caixa de um 4x4 entediante: há desde as criativas viradas de bateria de "Beautiful Thing" até a polirritmia de "Eight Years", a levada sambística da bossa lounge "Ode To a Duck", os beats de hip-hop de "Smoke Detector Song" e a programação de "Station On Station" - uma percussão com toques de industrial que lembra os ataques estridentes de "Metal On Metal", do Kraftwerk.
Nedi Myra transpira musicalidade, é altamente criativo e, principalmente, uma delícia de ouvir. De quebra, mostra que Bjørn Torske - além de colaborador frequente do Röyksopp - é um produtor talentosíssimo que merece estar num lugar no mundo da eletrônica ao lado de gente como Lindstrøm e Todd Terje. Redescubra já.
O finlandês Roisto acaba de lançar o EP Apart In Love, pelo selo escandinavo Youth Control. A onda dele é disco (numa abordagem french touch do gênero) e eletrônica (na praia meio nublada de Trentemøller). O vídeo da faixa título é uma simpatia, confere:
Em "Call The Sky", comparações pejorativas com Röyksopp já começaram a aparecer. Até lembra o som da dupla norueguesa, mas a faixa tem brilho próprio. Roisto pode muito bem ter bebido na fonte de synths turvos do The Knife (especialmente de Deep Cuts) e do próprio Trentemøller, no processo - o que possivelmente invalida o argumento dos detratores. "I'm Who You Need" e "Apart In Love" são pura french house, com baixos galopantes, guitarrinhas funkeadas e os típicos refrões-gancho. Dá pra ouvir o bom Apart In Love EP inteiro no Soundcloud, ao alcance do seu clique:
"Nasty", novo single do Prodigy, acabou de sair. Breakbeat porradão, caberia fácil no Fat Of The Land. O álbum The Day Is My Enemy, sai em Março e se vier nessa linha aí, me parece um bom negócio.
Pra ver o mundo passar em câmera lenta, taí o single Hurry Slowly da dupla americana Arms and Sleepers. São duas faixas que serviram de introdução ao álbum Swim Team, recém lançado. Beats lentos de hip-hop, estalinhos glitch, loops, timbres delicados de sintetizador. Tudo pensado para o completo conforto auditivo do ouvinte, sem abrir mão da inteligência no que tange aos arranjos de uma certa complexidade, mas de fácil assimilação. Have a nice trip.
Sob o pseudônimo Bonobo, o produtor britânico Simon Green lançou ano passado The North Borders, um ótimo disco de eletrônica e uma bem resolvida e minuciosa fusão entre downtempo e ambient. Em Junho último, Green apareceu com o EP Ten Tigers, com duas faixas do álbum retrabalhadas mais uma inédita. A própria "Ten Tigers" não perdeu seu loop de piano original e ainda ganhou uma linha de baixo oscilante e baterias mais esparsas na versão "Bengal Edit". A nova "Duals" exibe a criatividade de Bonobo na justaposição de camadas de teclados e o senso rítmico do artista, que encaixa com precisão e elegância a batida aos sintetizadores. O grande destaque do EP, no entanto, é o remix da DJ, produtora e gata Maya Jane Coles para a belíssima "First Fires". Originalmente delicada, sinfônica e com os vocais blueseiros do compositor americano L.D. Brown (Grey Reverend), a "First Fires" houseificada imaginada e realizada por Maya - que também é engenheira de áudio - tem frequências de sub grave aproximando-se do limite que o ser humano consegue ouvir. Sensacional.
"First Fires" (Feat. Grey Reverend) [Maya Jane Coles Remix]: soco no plexo solar.