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quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Antropofagia Eletrônica


Vai tomando forma No Tourists, o sétimo álbum do ex-quarteto, atual trio britânico The Prodigy (o "dançarino" Leeroy Thornhill - que tinha uma função meio Bez na banda - caiu fora no longínquo 2000). Com lançamento programado para 2 de Novembro, o álbum já revelou dois singles: "Need Some1" (em Julho) e "Light Up The Sky" (no finalzinho de Setembro).

Encurralados musicalmente pelo próprio subgênero de eletrônica que os levou ao estrelato (o breakbeat), ambas as faixas pegam pesado na pancadaria e distorção e, no caso de "Light Up The Sky", as autorreferências estão bem nítidas (citações das já clássicas "Breathe" e "Smack My Bitch Up" são facilmente perceptíveis).

A despeito do Prodigy 2018 não trazer nada de novo, a banda garante que, ao menos, o som seja reconhecível à quilômetros de distância.


"Need Some1":



"Light Up The Sky":

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Hip-Hop No Disquete


Udeze Ukwuoma (a.k.a. Dday One) é um DJ e produtor americano, na ativa desde meados da década de 90. A onda dele é hip-hop instrumental, um subgênero que já deu ao mundo nomes muito interessantes, como DJ Krush, RJD2, J Dilla e DJ Shadow, (cujo álbum Endtroducing….., de 1996, é um marco da música eletrônica).



Dday One acabou de lançar seu novo EP, Artifact, pelo próprio selo, Content (L)abel, com seis faixas carregadas de beats engenhosos e samples variados convivendo em harmonia com instrumentos acústicos. Além da (boa) música contida no EP, um detalhe que chama atenção em Artifact é o formato em que ele foi lançado: um edição limitadíssima de apenas cem cópias... em disquete. A inusitada plataforma vem devidamente autografada e inclui um download code para o EP em versão MP3 e ainda um arquivo de texto que contém um link para uma faixa extra. Mais estranho ainda é saber que a prática pouco usual não é exclusiva de Dday. Tem um povo que também emprega essa forma de divulgação atualmente, num movimento muito bem descrito pelo jornalista Ricardo Schott em uma matéria para o seu site Pop Fantasma. Quem, porém, não quiser se aventurar pelos problemáticos floppy disks, pode ouvir Artifact e outros trabalhos de Dday no Bandcamp do artista.

Artifact EP: beats no disquete.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Zumbizeira


Depois de dois álbuns pela 4AD (os ótimos Dedication, de 2011 e With Love, de 2013), o produtor britânico Zomby assina com a XL Recordings (que tinha no Prodigy uma de suas moedas fortes, até 2004) e, de cara, já programa dois EPs que vão ser lançados no formato doze polegadas no finalzinho de Outubro: Let's Jam 1 e 2.

Let's Jam 2
é o Zomby habitual, um geniozinho eletrônico dubstepeando em graves absurdos e fazendo chover estalactites de sintetizadores no seu fone de ouvido.

Let's Jam 1 é a prova do talento e da versatilidade de um dos caras mais interessantes da música sintética atual: experimentos com
beats irregulares ("Slime") e acid house (as outras três faixas), resultam numa das melhores músicas já gravadas por Zomby: "Surf I". Com um baixo sedutor, teclados circulares e um sample vocal cavernoso, é também uma das dance tracks mais fortes que ouvi em 2015.

"Acid Surf": uma das oito inéditas de Zomby em 2015.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Sun Is Shining


Lembra do Sunscreem? Ingleses de Essex, o grupo teve em "Love U More" um hit bem expressivo no biênio 1992/1993. A faixa entrou no Top 40 do paradão americano, ganhou alta rotação nas FMs e pistas e foi sucesso também aqui no Brasil. Na colada veio o bom debut O₃, com um mix bem dosado de trance, house e breakbeat. Era uma visão pop do techno e funcionava muito bem tanto nas raves quanto nos fones de ouvido. O₃ envelheceu dignamente, tanto que o novo álbum do quarteto (com sua formação original), Sweet Life, lembra bastante a estreia da banda. A comparação não é depreciativa. Prova que o Sunscreem não perdeu a habilidade de compor belas canções dançáveis utilizando inteligência e criatividade nos arranjos ("What Will The Sun Say" é um ótimo exemplo), que a voz de Lucia Holm continua adorável (ouça a arrepiante faixa título) e que é possível abrir mão das soluções fáceis disponíveis na dance atual e apostar num tipo de som em que o grupo realmente acredita: o que privilegia melodias, beats que fogem do lugar-comum, basslines poderosos e construções eletrônicas especialmente bem feitas. A faixa de abertura, "Here's The Summer", poderia fazer as vezes de uma "Love U More" atual. Mas tenho quase certeza que isso não vai acontecer. A razão é simples: ainda há, sim, gente que se preocupa com noções como talento e inventividade na hora de ouvir ou dançar. Questão é que essa fatia do bolo é tão pequena hoje em dia que é incapaz de fazer com que o Sunscreem sequer tenha Sweet Life clicado de forma relevante num serviço de streaming qualquer. Imagina voltar a ter um desempenho comercial digno de nota. Se você puder, não desperdice.

"Shut Up":


domingo, 6 de setembro de 2015

Química Previsível


A culpa é, de certa forma, do próprio Chemical Brothers. Quando Ed Simons e Tom Rowlands conceberam a obra-prima Dig Your Own Hole (1997), eles certamente não poderiam prever que nada que viesse depois iria superar esse álbum. Substituir parte das baterias cruas do big beat enérgico que estourou o som da dupla mundo afora pelo technão 4X4 que tomou metade do trabalho seguinte Surrender (1999), foi não só uma correção de rota ou busca de novos limites pra sua música, mas também uma clara (e louvável) tentativa de fugir de estereótipos, autorreferências e comparações. A atitude deixou vários órfãos entre os fãs, arrebatou tantos outros (especialmente por causa do hit "Hey Boy Hey Girl") e foi muito bem recebida tanto pelo público quanto pela imprensa especializada. A marca indelével no som do grupo, porém, ficou bem definida e o que não dá pra ignorar é que a partir daí, cada vez que se fala em disco novo do duo, a gente já consegue prever - com bom índice de acertos - o que vem a seguir. O mix de rap, funk, house, psicodelismo e rock não pega ninguém de surpresa. E é aí que está o pecado (perdoável) dos Brothers, independente dos altos e baixos na sua discografia. Em compensação, penso não decepcionar nem quem os acompanha há algum tempo, nem quem está descobrindo a química dos irmãos postiços somente agora. O que vale, claro, é deixar-se levar pelas suas criações que muitas vezes desafiam classificações possíveis, num entra-e-sai de gêneros que fundem-se entre si até gerarem coisas como o big beat - que teve no debut Exile Planet Dust (1995), seu marco zero. Em seu oitavo álbum, Born In The Echoes, lançado mês passado, não é diferente.

 Como sempre, o disco traz cantores convidados e aqui a bola da vez é Annie Clark (St. Vincent). É fato que Rowlands e Simons tem essa certa predileção por artistas cool, mas não vi nada que fizesse diferença em sua participação tímida na gravação de "Under Neon Lights" - ao contrário de gente que já esteve nos créditos de seus álbuns, como Hope Sandoval e seus vocais particularíssimos, por exemplo - fora a impressão de que o fator "queridinha do momento" da musa indie ganha em relevância no que tange ao respeitável fole vocal de uma Beth Orton, outra colaboradora frequente da dupla.

Ali Love também se sai mal. O cantor britânico, que já tem uma faixa (a razoável "Do It Again", de 2009) com os Brothers no currículo, aparece messiânico e irreconhecível no techno "EML Ritual", o que tanto pode ser uma prova de versatilidade do vocalista quanto uma simples adequação à temática proposta (eles sabem o que estão fazendo, mas abrir mão do falsete agradável de Ali é subaproveitar seu potencial).

Já Q-Tip (do A Tribe Called Quest) casou muito bem sua excepcional qualidade de parecer rapear com um prendedor de roupas no nariz com a levada empolgante de "Go!", talvez a melhor música do disco (ele também se saiu magistralmente em outra colaboração com o duo, "Galvanize", de 2005), a despeito do vídeo tenebroso:

Uma das faixas mais legais é a que menos soa Chemical Brothers. A melancolia reluzente e a simplicidade eletrônica de "Wide Open" (com vocais de Beck) lembram um hipotético Hot Chip com um vocalista decente.


O que me dá um certo receio é perceber que eles precisam, eles fazem questão, de destruir boas ideias com alguma minúcia que pareça pretensamente artística. Tome o funk hipnótico de "Let Us Build a City" (incluída como uma das bonus tracks da Deluxe Edition), como exemplo. Precisava mesmo aqueles sintetizadores tocados com os cotovelos? Não sei se é uma estupidez jogar fora uma linha de baixo preciosa como essa com umas bobagens atonais com jeitão de improviso ou se é isso que faz seu som tão particular.


A esquisitice da simplesmente intragável "Taste Of Honey", é uma ode à chatice, mesmo. Trôpega e incômoda, dá pra clicar no botão skip sem a menor culpa. O mesmo vale para "I'll See You There", mais uma faixa inspirada em "Tomorrow Never Knows" (Beatles), assim como "Setting Sun" e "Let Forever Be". "Born in the Echoes" é um bom pedaço de rocktrônica do álbum e a psicodelia de "Radiate", cumpre a função habitual de desacelerar por instantes o andamento quase frenético dos seus discos.  

A remissão de Rowlands e Simons é um clichê surrado, mas válido: a falsa expectativa por material inédito produzido pela dupla é encoberta pela certeza de que os Brothers nunca embarcaram - mesmo - em nenhuma febre de pista qualquer pra se manter "atualizados" e não seria depois de sete discos que isso iria acontecer. Por outro lado, é covardia comparar Born In The Echoes com trabalhos anteriores. Mas é, também, inevitável. Enquanto produto dance/eletrônico, o álbum mantém-se corpos à frente da manada vigente. Tratando-se de um disco da dupla, o resultado desta vez é apenas mediano.

"Sometimes I Feel So Deserted": bleeps techno à exaustão.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Breakbeat Back


"Nasty", novo single do Prodigy, acabou de sair. Breakbeat porradão, caberia fácil no Fat Of The Land. O álbum The Day Is My Enemy, sai em Março e se vier nessa linha aí, me parece um bom negócio.

"Nasty": de volta à 1997.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

The Copy Method


Difícil pro Crystal Method teria sido gravar um álbum repelindo categoricamente a clichezada dance mainstream, mas a luz amarela já tinha acendido em 2010 no single "Sine Language", com a participação nada especial do infame LMFAO. Seu novo álbum The Crystal Method sai dia 14 de Janeiro, e confirma a suspeita.

Talvez buscando uma posição de headliner no Electric Daisy Carnival 2014, o duo californiano rendeu-se à mesmice. Utilizando fartamente as teclas Ctrl + C e Ctrl + V, ficou fácil para Ken Jordan e Scott Kirkland atualizar o som. Saca os timbres, cortes, texturas e loops de "Over It" e me diz se o Skrillex (quem diria) foi ou não alvo de chupação explícita. A falta de identidade (ou ética) agrava-se em "Sling The Decks", "Jupiter Shift" e "Dosimeter " e na pavorosa "Difference": bassdrops insistentes, distorção no talo, baterias espalhafatosas... um esforço que não vai além de algo que lembra uma cópia do Knife Party. Quer ouvir um álbum bacana dessa dupla, vai no debut big beat Vegas, de 1997. Esse aqui é perda de tempo.

"Over It": carbono dubstep.

domingo, 23 de junho de 2013

Deformando o Óbvio


Não sou lá muito fã do Modeselektor. Nem do Apparat. Reconheço que a produção é esmerada e a criatividade é manifesta em batidas e timbres não convencionais, mas ambos os grupos tem um certo apreço por levar esse modo de distorcer a eletrônica até que ela beire a bizarrice, com as levadas tortas e o clima árido do Modeselektor e as composições e texturas amargas do Apparat. Decididamente, não é muito fácil digerir.


Acontece que Gernot Bronsert e Sebastian Szary (do Modeselektor) e Sascha Ring (Apparat) uniram-se em 2003 no projeto paralelo Moderat, que acabou resultando em alguns EPs e, em 2009, num álbum autointitulado. E deu caldo. Tanto que depois de seis meses trancados no estúdio, o trio retoma as atividades em 2013 com mais um disco de inéditas, chamado II.

Imediatamente mais acessível do que os trabalhos titulares, os alemães mantém uma distância segura do pop, embora algumas canções utilizem elementos próprios ao gênero, como a estrutura de estrofe, refrão e melodia. O exemplo mais claro está no primeiro single do disco, "Bad Kingdom": uma oscilação de baixa frequência do sintetizador impõe a pulsação que serve de base para os vocais e a batida que vai sendo construída aos poucos. Aliás, o modo como o Moderat dedica-se à voz em II é um capítulo à parte. Em "Let In The Light", as notas delicadas de teclado aliviam o tom doloroso que o pitch baixo a que os vocais foram submetidos oferece. Já em "Therapy" e "Versions", é o contrário: a velocidade das vozes é alterada para a posição "higher", o que causa um efeito angelical. Em "Gita", o canto é recortado por loops, e só na delicada "Damage Done" as coisas voltam ao normal. Menção honrosa para os beats engenhosos de "Ilona" e "Versions" e o techno engrenado e áspero da instrumental "Milk".

II é um disco que explora com inteligência e aplicação o que a tecnologia oferece, com filtros, reverbs, distorção e efeitos varrendo as 11 faixas. Só que o Moderat administra e equilibra tão bem os recursos, que afasta a música da trivialidade ao mesmo tempo que não a torna inaudível.

"Bad Kingdom": techno e pop. 

sábado, 13 de abril de 2013

Back To The House


Depois de um ótimo álbum lançado em 2011 (Ghost People), o holandês Martijn Deykers volta aos holofotes.


Newspeak EP saiu mês passado e traz três faixas que são uma brisa refrescante pra house music atual. O trabalho magistral e esmerado de Martyn programando as percussões ouvidas no EP fazem uma diferença enorme no resultado final: ouça a fantástica profusão de batidas no breakbeat "Oceania", emoldurada com um riff hipnótico de sintetizador e graves potentes reforçando o arranjo. "Newspeak" é uma house montada em cima de uma robusta base percussiva e uma linha de baixo gorda e minimalista. Strings tensos e o sampler captando o ritmo feminino ofegante garantem uma boa dose de volúpia à faixa. Em "What is Room 101" (referência à câmara de tortura que aparece em 1984, de George Orwell), a faixa começa com um esqueleto sacolejante de bateria e baixo sintético preenchida aos poucos com sintetizadores que crescem devagar e tornam-se abstratos no cruzamento de timbres da paleta sonora de Martyn. Criativo e altamente dançante.

"Oceania": quebradeira rebolativa.   

domingo, 9 de setembro de 2012

Mais Influentes Do Que Ricos


 
Imagina a surpresa da dupla Rob Smith e Ray Mighty ao acordar numa manhã de Janeiro de 1990 e ver a americana Sybil no sexto lugar da parada inglesa com o single "Walk On By" - cover da canção imortalizada por Dionne Warwick e composta pela dupla Burt Bacharach (arranjo) e o recém falecido Hal David (letra). A história é a seguinte: a versão de Sybil é coincidentemente parecida com a que a dupla de Bristol havia gravado dois anos antes: baixo de reggae, batida de rap, vocais soul - só era um tiquinho mais pop, com a adição de uns teclados açucarados e backing vocais. E lá foi a Sybil pro alto do paradão enquanto Smith e Mighty não alcançaram nem o Top 40. Frustrante, não?
 
 
Bom, felizmente, eles não se abateram. O cruzamento de hip-hop com dub que foi um dos pilares do trip-hop inglês teve em Smith & Mighty um dos seus pioneiros - tanto que produziram o primeiro single do Massive Attack, "Any Love", de 1988. A dupla ainda está na ativa e acabou de lançar uma coletânea que cobre o período inicial da sua carreira, The Three Stripe Collection 1985 - 1990. Ouvindo hoje dá até pra achar os beats meio secos e os arranjos econômicos, mas se atualmente nós temos um cara como o Burial fazendo discos incríveis, pode ter certeza que uma parcela dessa inspiração passa pelos singles de Smith & Mighty.

"Walk On...": apropriação indébita de idéias.