Espero que a penúltima do Hurts (a decepcionante "Some Kind Of Heaven") seja só a pior do novo álbum. Semana passada a dupla inglesa subiu no Youtube a nova "Rolling Stone" e as coisas melhoraram sensivelmente. Timbres irregulares de sintetizador, bela sessão de cordas, climão dramático e a estética do desespero explorada com maestria num refrão arrebatador. Ingredientes que (quase) sempre rendem boas canções technopop.
Sentido horário, de cima para baixo: Parallels, IAMX, Hurts e Little Boots.
Uma das grandes vedetes dos anos 80, o synthpop, continua firme no imaginário dos inabaláveis amantes de sintetizadores da atualidade e... não, espera. Tem gente aí que está se livrando aos poucos do rótulo. Abaixo, quatro faixas recentes de artistas que ainda não chegaram lá (onde?).
Parallels
A persistência e a tenacidade do Parallels é comovente. Já
gravou dois álbuns, já lançou cinco singles, ainda não fez uma música realmente digna de nota (OK,
gosto um tanto assim - junta o polegar ao indicador - de "Dry Blood"),
não tem nenhum hit, está na ativa desde 2007 e, mesmo assim, não desiste. Acabaram de lançar (por conta própria) o EP Civilization, com quatro faixas inéditas, um cover fiel do New Order ("Age Of Consent") e um remix. Infelizmente, não é com esse disquinho que a história dessa banda canadense
vai mudar.
Hurts
O duo britânico formado por Theo Hutchcraft (vocais) e Adam Anderson (guitarras, sintetizadores) tem, até agora, dois álbuns: o primeirão (autointitulado, de 2010) foi promissor, especialmente pelos ótimos singles "Wonderful Life" e "Better Than Love", mais uma e outra faixa. O segundo, Exile, de 2013, mostrou a transformação do Hurts numa espécie de sub-Coldplay, desesperado pra viralizar um hino de estádio. A nova faixa, "Some Kind of Heaven", com toda pompa e pretensão do mundo, comprova que o Hurts não passou de mera curiosidade passageira, mesmo.
Little Boots
Victoria Hesketh vem tentando. Pro conteúdo não mais do que mediano, até que ela ganhou muito espaço com o debut Hands, de 2009, um disco que fez um burburinho razoável. Desvencilhando-se aos poucos da hashtag synthpop, não passou no teste do segundo álbum (Nocturnes, 2013, que foi esquecido mais rápido do que o primeiro) e agora reaparece com Working Girl, com o mesmo dance pop que a Kylie Minogue vem fazendo há vinte anos. Algumas faixas bacanas de house ("Heroine", "Working Girl", "No Pressure") dividem espaço com bobagens do calibre de "Taste It". Tem até samplezinho de "Genius Of Love" (Tom Tom Club) em "Better In The Morning", vai vendo.
IAMX
Projeto solo de Chris Corner (vocalista do finado Sneaker Pimps), o IAMX mantém firme a proposta rock alternativo/synthpop que vem praticando desde 2004. Com letras abrangendo preferencialmente sexo, decadência, religião, política, alienação e morte, o IAMX tem álbum novo prestes a ser lançado (Metanoia, o sexto da carreira) e já soltou uma amostra mês passado, o bom single "Happiness" - que mostra o quanto Corner canta bem, a despeito do instrumental simples.
Admito: quando conheci Calvin Harris musicalmente, o escocês parecia possuir uma verve debochada na linha "I don't give a fuck", que ia do título do seu debut, I Created Disco (2007) até a tosquice da produção - torta e propositalmente datada. Harris era uma espécie de Mike Myers do pop eletrônico. Simpatizei com a cafonice explícita em sua música. Dei algumas risadas com o funk capenga "Merrymaking at My Place" e com os teclados fuleiros e o vocal desengonçado de "Colors". Me surpreendi com o potencial pop contido em "Girls" e até com o estranho caso em que o título de uma música era mais interessante do que a própria ("Acceptable in the 80s"). Era descompromissado, foi divertido e, bom, o disco vendeu relativamente bem. Harris viu que estava no caminho certo. Só que ele precisava atualizar seu som. A piada de I Created Disco não ia ter fôlego pra um segundo álbum. E assim foi. A partir de Ready for the Weekend (2009), o menino Calvin optou pela solução mais fácil: montou uma linha de produção de electro house genérica, acumulando montanhas de clichês do gênero (ouça "I'm Not Alone"). Depois, ladeira abaixo. Além da música igualmente ordinária do disco seguinte 18 Months (2012), Harris começou a andar com gente suspeita (Florence Welch, Nicky Romero) e compor para artistas como Rihanna (o mega hit "We Found Love"). Aí, 2014 e acaba de sair o novo Motion. Calvin Harris não pode jogar tudo pro alto agora. É um caminho sem volta: é o suicídio artístico em detrimento de uma carreira comercialmente bem sucedida - que o colocou no topo da Forbes, como o DJ/produtor mais bem pago do mundo. E mais uma vez, Motion é uma coleção monótona e burra, que inacreditavelmente repete fórmulas surradas de dance pop, de riffs insuportavelmente chatos de sintetizador, da falta de imaginação ao compor canções exatamente idênticas umas às outras, de afundar no terreno mais improdutivo da eletrônica atual e levar consigo nomes que nos faziam acreditar num sopro saudável de renovação quando apareceram (Hurts, Ellie Goulding), mas que agora provam que eram só mera curiosidade passageira, mesmo. É aquela conversa mole de "verão sem fim", "magia da noite", "todos numa só batida"... eca. Daria pra ligar um "foda-se, é só pop descartável", mas esse nem é o problema. Lance é que é pop descartável e ruim, muito ruim. Pensei que True do Avicii levaria fácil o primeiro lugar como Pior Disco de Dance Music do Ano. Pois ele acaba de ganhar um sério concorrente.
"Under Control": Hurts satisfeito com as migalhas.
O Monarchy deu azar de ter começado a chamar atenção por volta de 2010, justo numa época em que todo mundo estava maravilhado com o Hurts. Seu ótimo álbum de estreia, autointitulado, acabou ofuscado por Happiness, debut igualmente digno de nota do Hurts. O synthpop parecia estar em boas mãos, mas... não foi bem isso que aconteceu. A sequência do Hurts foi decepcionante, com o fraquíssimo Exile, do ano passado. E o Monarchy, depois de um single lançado em 2013 com Dita Von Teese ("Disintegration"), ensaia uma volta mais consistente.
Saiu ontem no Soundcloud uma amostra de "Living Without You", nova faixa de trabalho do Monarchy. Um minuto e meio é muito pouco pra qualquer avaliação, mas a impressão é bem positiva. Popismo sintético, com ótima sensibilidade melódica, características encontráveis facilmente no primeiro disco do duo australiano.
Sem muito estardalhaço, o Hurts subiu o áudio do seu novo single "Miracle" em Janeiro, no Youtube. Tão épica quanto "Stay" e "Illuminated" - faixas de seu debut Happiness, de 2010 - "Miracle" tem um cheiro forte de hino de estádio. Até alguma similaridade com Coldplay foi apontada. Não sei se pro bem ou pro mal. O novo álbum Exile, deve sair em Março.
Atrás dessas caras austeras também bate um coração. Sintético, mas bate. O Hurts acaba de lançar seu debut, Happiness: onze canções com uma carga emocional forte e dosada, e movida a sintetizadores. Parece exageradamente melancólico. Mas não é. É a felicidade, do jeito deles. Cometeu um dos discos do ano. Leia resenha completa aqui no rraurl.
Eu avisei aqui que o Hurts era um nome para se prestar atenção. Enquanto vai cumprindo uma agenda de shows que se estende até agosto, nesse meio tempo a dupla tecnopop de Manchester assinou com a Sony e ainda grava o primeiro disco. Pense na situação dramática em que estão as gravadoras e imagine que a Sony não está nada disposta a gastar seu dinheiro com divulgação e distribuição sem perspectiva de retorno, e essa expectativa vai tomando forma à medida que o trabalho de Adam Anderson e Theo Hutchcraft avança aos poucos. A banda agendou "Better Than Love" - o segundo single - para ser lançado em 24 de Maio no Reino Unido. No Youtube, o vídeo está disponível desde 06 de Maio. Aqui, mais uma vez o Hurts impressiona pela qualidade da composição, muito longe de ser um mero pastiche daquele pop de plástico de quase 30 anos atrás.
Pelo barulho que a dupla inglesa Hurts fez com seu single "Wonderful Life" ano passado (ganhou inclusive um 12" com remixes de Arthur Baker), deve pesar sobre eles a pressão de confirmar as apostas que veículos como a rádio inglesa BBC fizeram. Em seu já tradicional exercício de futurologia de fim de ano, o "BBC Sound Of The Year" incluiu a dupla de Manchester como uma das coisas a se prestar atenção em 2010. A lista já deu algumas dentro, como o Keane em 2004, The Bravery em 2005, Corinne Bailey Rae em 2006 e Adele em 2008, então há alguma consistência aí.
Os exageros sobre "Wonderful Life" incluem a definição "novo Pet Shop Boys", mas mais fácil do que sair procurando comparações óbvias é entender que de fato o Hurts - Theo Hutchcraft (vocais) e Adam Anderson (guitarra e sintetizadores) - traz pra 2010 o formato de duo tecnopop clássico: o cantor teatral (olhares pro vazio, postura blasé) e o tecladista silencioso e eficiente. Acima de tudo isso, está "Wonderful Life", a canção: com produção dos experientes Trevor Horn e Martin Hannett, é épica, pegajosa e realmente promissora.
O vídeo P&B foi dirigido pelo chapa de Depeche Mode, U2, Smashing Pumpkins (e mais um monte de gente), Anton Corbijn:
Tudo muito bom, mas cabe ao Hurts provar que não é mais um one hit wonder.