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terça-feira, 25 de março de 2014

Muito Mais Que Um Rostinho Bonito

 

De onde menos se espera, daí é que não sai nada. Mentira. As fotos da italiana Tying Tiffany disponíveis na rede são pra deixar o desconfiômetro na luz amarela e poderiam sugerir música em segundo plano, mas Drop, seu quinto álbum, vai bem além de poses estilosas para as lentes.

O que artistas como Tiffany sacaram, é que o gótico é um filão inesgotável. Enquanto houver gente que cultiva o desencanto, a predileção pelo preto, Tim Burton, Drácula e Edgar Allan Poe, vai ter mercado na música pros tons menores, batidas fúnebres e estética do desespero.

E Drop surpreende. Quase tudo nas dez faixas do disco é encoberto por um manto pesado de sintetizadores lúgubres, da abertura "One Place" até o encerramento "Dissolve". No meio disso, pequenos fragmentos de funk ("One Second"), hip-house ("Neon Paradise"), rap meio desajeitado ("One Girl"), synthpop ("No Way Out"), momentos de desolação pura ("One End") e delicadas ambiências sintéticas ("Deep Blue River").

A mistura parece, mas não é indigesta. Tiffany amarrou tudo direitinho (ela toca, compõe e canta), de maneira pessoal, mas acessível - como em "A Lone Boy", a melhor faixa do álbum. Mesmo com as estrofes aflitivas ("Everyone I love dies / Everyone I know cries") e teclados ameaçadores que vão sufocando sua voz, o alívio vem no refrão, com uma luz de otimismo finalmente aparecendo ("I'll find a way", repetido à exaustão). No final das contas, o caminho escuro percorrido por Tiffany encontra, ao menos, um pouco de oxigênio no final.

"A Lone Boy": dark classudo. 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Disco Synthpop do Ano: Light Asylum



Ninguém veio com algo tão consistente no gênero esse ano quanto o Light Asylum. Empurrando o synthpop à pontapés de volta pro lado escuro que consagrou bandas como Skinny Puppy e Nine Inch Nails, a dupla nova-iorquina formada pelo tecladista Bruno Coviello e a vocalista Shannon Funchess debuta com um disco pesado, nervoso e visceral. A química do duo impressiona: Coviello usa poucos elementos pra construir bases sólidas, melódicas e criativas, mas o grande trunfo do Light Asylum é a cantora Shannon Funchess, negona locaça que incorpora uma Grace Jones electro, ora em ataques de fúria à Douglas McCarthy (“IPC”), ora em momentos de pura paixão à Alison Moyet (“Shallow Tears”). Cantora espetacular (forjada no punk e em recentes turnês com o TV On The Radio), Funchess é de uma versatilidade assombrosa. Ela berra, muda de tom a cada minuto, exibe sua voz potente (na ameaçadora "Sins of the Flesh") e - junto com os sintetizadores disparados tecla por tecla de Coviello - comete a canção mais Yazoo de 2012 ("Angel Tongue").
 

Programações de bateria que remetem à um Nitzer Ebb primitivo ("End of Days", "Pope Will Roll"), ritmos eletrônicos prontos para as danceterias ("Hour Fortress"), efeitos atordoantes (repare no zumbido desorientador de "At Will": a tempestade elétrica é semelhante à devastação que o Klinik causou com "Moving Hands" em 1988) e riffs de teclado memoráveis ("Heart of Dust"), Light Asylum leva de barbada o título de álbum synthpop do ano. Que estréia, meus amigos.

"Hour Fortress": postura gótica, atitude punk. 
 

sábado, 16 de junho de 2012

Farofada Britânica

Dias atrás toquei numa festa de temática oitentista numa cidade vizinha e me surpreendi com a reação positiva do público quando emendei faixas que não são exatamente hits de pista e pra alguns ficam a centímetros do cafona. Curiosamente, todas as bandas são inglesas. Sem pudor, aí meu Top 5 Farofa:

"(I Just) Died in Your Arms", Cutting Crew


Lançado em 1986, o primeiro single do Cutting Crew chegou a número um nos Estados Unidos em 1987. No Brasil ficaram mais conhecidos pela balada "I've Been In Love Before", incluída na trilha da novela Mandala da Rede Globo.

"Desire (Come And Get It)", Gene Loves Jezebel


Eles pagavam de góticos, mas os gêmeos Michael e Jay Aston estavam mais pra uma versão britânica do Poison. Banda de hits bem modestos, o Gene Loves Jezebel tem em "Desire" uma canção que merecia melhor sorte.

"She Don't Know", The Bolshoi



O Bolshoi estava naquele engarrafamento de bandas indecisas entre o synthpop e o gótico lá na segunda metade dos 80. "She Don't Know" nem saiu como single, mas foi hit massivo nas FMs brasileiras na época. Ótima música.

"Driven Out", The Fixx



Riff de guitarra reconhecível à distância e grande performance do vocalista Cy Curnin. O The Fixx ainda está na ativa e lança disco novo mês que vem.

"Did It All For Love", Phenomena



Meio hard rock, meio progressivo, o Phenomena foi uma espécie de supergrupo de rock (de arena) que envolveu jornalistas, produtores e músicos como Brian May (Queen). "Did It All For Love" é um single de 1987, e a canção ficou famosa no Brasil por servir de trilha da propaganda do cigarro Hollywood.

domingo, 6 de novembro de 2011

Música Para Não Ouvir No Verão

 Daqui a pouco é verão no Hemisfério Sul. Três meses de bermudas, biquinis, praia, sol e Ivete Sangalo. Putz, Ivete Sangalo? Há mais de dez anos que a cantora toma conta do campinho nessa época aqui no Brasil, existe distância segura para se proteger desse furacão baiano? Não, não tem. Mas eu não preciso ser cúmplice. Aliás, alguns lançamentos recentes também não se encaixam a algo próximo de um verão perfeito, musicalmente falando. Ei-los:



Artista: Ladytron

O quarteto de Liverpool soltou em Setembro seu quinto álbum, Gravity The Seducer. O synthpop épico tramado pela banda no disco tem várias camadas de gelo... digo, de sintetizadores com timbres mal-humorados (uma faixa chama-se sintomaticamente "Melting Ice", vai vendo) e alguns dos temas instrumentais mais populares na Groenlândia atualmente. Excessivamente melancólico, Gravity The Seducer não tem a menor chance de funcionar naquele seu surrado ghetto blaster na beira d'água.

Fator local: ouça o disco quando visitar Yakutsk, na Sibéria.
Fator de proteção sonar: 30 (médio).

"White Elephant": não, não é cor-de-rosa. É branco.




Artista: Zola Jesus

Apesar do nome, Nika Roza Danilova nasceu em Phoenix, Arizona. Conatus (lançado em Setembro) é o terceiro álbum da moça usando o alter ego Zola Jesus e traz 11 faixas de eletrônica experimental num cruzamento aproximado entre Joy Division e Siouxsie & The Banshees. O disco condensa rock gótico e synthpop, mas é o trabalho vocal inegavelmente bem feito de Danilova que mais chama atenção aqui - mesmo quando ela entoa um cântico ininteligível como em "Ixode". Seus trinados sinistros assustam na mesma medida que fascinam.

Fator local: bom de ouvir em São José dos Ausentes, nunca em Balneário Camboriú.
Fator de proteção sonar: 60 (alto).

"Vessel": filtro verde-esmeralda. E frio.




Artista: Justice

O franceses Gaspard Augé e Xavier de Rosnay acabaram de lançar seu segundo e esperado álbum, Audio, Video, Disco. Tarefa ingrata depois da estréia absurda (Cross fica mais fácil), do longínquo 2007. Passaram no teste? Sim e não. Ouvindo com carinho, o disco não chega a decepcionar. Tem aqueles timbres embolorados semelhantes aos encontráveis em singles (já) clássicos como "Waters of Nazareth" (em "Parade"), mas a diferença é que o Justice agora não engaveta a maior quantidade de distorção possível por metro quadrado como fazia há quatro anos atrás. O foco parece estar num electro-rock setentista/progressivo, cheio de guitarras e que pouco tem a ver com a pista de dança, bicho! O que deixou o som meio sem graça, é verdade.

Fator local: leve uma cópia na mochila na sua viagem para São Tomé das Letras.
Fator de proteção sonar: 15 (baixo).

"Civilization": "_ Corram para as montanhas!"



sábado, 23 de julho de 2011

Highlander


Não são legais essas bandas que vivem à margem do tempo? Tipo esse simpático grupo acima, o Clan Of Xymox (um dia vou aprender a pronunciar o nome). Para esses adoráveis holandeses com cara de figurantes do Trem Fantasma do Playcenter; tanto faz o preço do dólar, não importa se Oslo está indo pelos ares e muito menos se a seleção de seu país é a atual vice-campeã mundial de futebol: o calendário é um acessório irrelevante.



Isso concede ao Clan Of Xymox o direito de gravar um disco que é exatamente como eles fariam em 1985, época de seu debut epônimo pela 4AD. Certamente em 2011 eles tiram mais proveito da tecnologia, mas nada que faça esse álbum livrar-se do estigma gótico/apocalíptico de um tempo em que se levava isso a sério demais. Se bateu uma certa curiosidade, vale o clic em "My Reality", faixa que abre o recente Darkest Hour. Com seus synths roucos e blips percussivos, periga ser o momento mais interessante entre as dez canções. E se você está se lixando pra esse papo de atemporalidade, ouça "Tears Ago" e encontre nela e no seu riff de guitarra uma companhia perfeita para suas faixas preferidas do Sisters Of Mercy. O resto do disco é aquilo: arrastado, taciturno, sombrio. Já pensou se pega de jeito com a geração Crepúsculo? Improvável.

"My Reality": pop nubladão.