Mostrando postagens com marcador pós-punk. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pós-punk. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 25 de março de 2014

Muito Mais Que Um Rostinho Bonito

 

De onde menos se espera, daí é que não sai nada. Mentira. As fotos da italiana Tying Tiffany disponíveis na rede são pra deixar o desconfiômetro na luz amarela e poderiam sugerir música em segundo plano, mas Drop, seu quinto álbum, vai bem além de poses estilosas para as lentes.

O que artistas como Tiffany sacaram, é que o gótico é um filão inesgotável. Enquanto houver gente que cultiva o desencanto, a predileção pelo preto, Tim Burton, Drácula e Edgar Allan Poe, vai ter mercado na música pros tons menores, batidas fúnebres e estética do desespero.

E Drop surpreende. Quase tudo nas dez faixas do disco é encoberto por um manto pesado de sintetizadores lúgubres, da abertura "One Place" até o encerramento "Dissolve". No meio disso, pequenos fragmentos de funk ("One Second"), hip-house ("Neon Paradise"), rap meio desajeitado ("One Girl"), synthpop ("No Way Out"), momentos de desolação pura ("One End") e delicadas ambiências sintéticas ("Deep Blue River").

A mistura parece, mas não é indigesta. Tiffany amarrou tudo direitinho (ela toca, compõe e canta), de maneira pessoal, mas acessível - como em "A Lone Boy", a melhor faixa do álbum. Mesmo com as estrofes aflitivas ("Everyone I love dies / Everyone I know cries") e teclados ameaçadores que vão sufocando sua voz, o alívio vem no refrão, com uma luz de otimismo finalmente aparecendo ("I'll find a way", repetido à exaustão). No final das contas, o caminho escuro percorrido por Tiffany encontra, ao menos, um pouco de oxigênio no final.

"A Lone Boy": dark classudo. 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Towers Of Dub

Dois craques do dub com álbuns fresquinhos:
 
Mad Professor (Neil Fraser) já trabalhou com uma pá de gente bacana, produzindo e remixando. Lee Perry, Massive Attack, Sade, The Orb, The KLF, Jamiroquai, Depeche Mode e Beastie Boys já tiveram uma mãozinha do bruxo de estúdio mais famoso nascido na Guiana (e que vive em Londres desde os 13 anos de idade).


Seu The Roots of Dubstep não é um álbum do gênero, mas deixa bem claro para as novas audiências onde o dubstep foi buscar parte do seu som (especialmente no que diz respeito às baixas freqüências). Atenção para seus alto-falantes ganhando vida própria com o deslocamento de ar causado pelos baixos de "Inverted Minds", "Spa Dub" e "Costa Chica". E ainda tem um incomum solo de trombone em "Concrete Bunker", a flauta serpenteante de "Return of The Mandinka" e aqueles teclados partindo pro infinito com os ecos de "Slave Catcher" (abaixo):





Jah Wobble é o britânico John Wardle, baixista do seminal grupo pós-punk Public Image Ltd (junto com o vocalista John Lydon e o guitarrista Keith Levene). Influente, eclético e prolífico, a lista de artistas que já trabalharam com Wobble nem cabe aqui, mas no Discogs dá pra ter uma idéia.

Wardle chamou Keith Levene pra gravar um novo álbum (a parceria entre ambos não acontecia desde o clássico Metal Box do PiL, lançado em 1979). O resultado é imediatamente menos dançante e acessível em comparação à The Roots of Dubstep de Mad Professor, mas em Yin & Yang a psicodelia é uma das forças motrizes do disco (os solos lânguidos de Levene em "Back on the Block" e "Within You Without You" são um bom exemplo disso). Ainda tem espaço pro jazz em "Fluid", a aridez do baixo de Wooble em "Jags & Staffs" e o clima sessentista de "Mississippi". Yin & Yang não é especificamente dub, mas Wobble sabe misturar como poucos.

"Mississippi": o peso das quatro cordas.

Mississippi by cherryredrecords

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Universo Em Desencanto


Ouvir Kill For Love - álbum mais recente dos americanos do Chromatics - é imaginar como seria se o New Order tivesse escolhido a tecladista Gillian Gilbert como vocalista ao invés de Barney Sumner. Talvez Movement, debut da banda inglesa lançado em Novembro de 1981 soasse assim. Apesar da voz pequenininha, Ruth Radelet encaixa-se confortavelmente aos sintetizadores congelados e de timbres fascinantes (o que é aquele teclado de "Lady"?). Pós-punk elegante, quase dançável sob suas baterias nada complexas ("The Page") e com riffs de guitarra básicos e certeiros ("Back From The Grave"), Kill For Love é um disco estranhamente encantador, dolorosamente bonito - uma ponte bem cimentada entre o indie e o eletrônico analógico com canções bem feitas e um cover escolhido à dedo: "Hey Hey, My My" de Neil Young abre o disco creditada apenas como "Into the Black". Climático e melancólico, dos títulos das faixas ("Dust to Dust", "No Escape", "Back From The Grave") até as composições instrumentais nubladas ("There's a Light Out On the Horizon", "Broken Mirrors"), Kill For Love exige uma hora e meia de dedicação à sua viagem sombria e de nada fácil digestão, mas extremamente recompensadora. Bom dia, tristeza.

"The Page": black is beautiful.

domingo, 23 de outubro de 2011

A Drummer Called Boris


Alguma dúvida que o francês Boris Peter Bransby Williams foi o melhor baterista que passou pelo The Cure? Presente na banda de 1984 até 1993, Williams imprimiu um padrão rítmico no som do grupo inglês facilmente identificável, aproveitando-se da tecnologia para extrair efeitos certeiros de baterias eletrônicas e samplers, tanto no estúdio quanto ao vivo.



Esta versão de "Play For Today" foi extraída do vídeo The Cure in Orange gravado na França em 1986 e lançado um ano depois. Capta a banda no auge da forma e talvez com seu melhor line-up: Robert Smith, Simon Gallup, Porl Thompson, Boris Williams e Lol Tolhurst. Aqui, a performance de Williams impressiona. Com a precisão de um metrônomo ele conduz caixa, bumbo, chimbau e ainda encontra espaço para golpear o pad da bateria eletrônica e os pratos de ataque - praticamente um polvo do pós-punk. Perfeição.  

terça-feira, 14 de junho de 2011

Plano Piloto


É bem provável que o quarteto Vitrine não almeje ocupar o nicho no mercado fonográfico que está vago desde o fim do Legião Urbana (mesmo com as tentativas fracassadas do esquecível Catedral, por exemplo), e isso é muito bom. Até porque esse tal mercado mudou absurdamente de vinte anos pra cá (leia-se ninguém mais compra discos e o mercado de download pago aqui na terra da Claudia Leitte engatinha) e também porque talvez as coincidências existentes estejam só nas origens locais e musicais de ambas as bandas: Brasília e pós-punk, respectivamente.


Ouvindo o single Zero Hora - lançado no final do ano passado - dá pra perceber que o gosto por palhetadas vigorosas de guitarra e baixos bem cadenciados não fazem do Vitrine the next big thing nem trazem nenhum tipo de esperança de que o bom rock, um dia, vai triunfar. Porque, acredite, não vai. Daqui pra frente é ladeira abaixo. Simples assim. É só dar uma olhada à sua volta. Pega o Brasil Hot 100 Airplay da Billboard e me diz se tem alguém que se salva ali. Não tem. Mas o que o Vitrine oferece então? Numa palavra: honestidade. Penso que esses caras acreditam no que estão fazendo, no que estão cantando - mesmo que isso remeta à uma época (sim, os anos 80) em que não seria constrangedor ouvir um verso como "Sou tão velho para entender/Tão jovem pra me ajoelhar" ("Submissão") ou fechar os olhos e visualizar Ian McCulloch cantando o refrão de "Esther", sob uma linha de baixo pulsante. A canção pra se estar atento aqui, no entanto, é inegavelmente a faixa-título. Bateria e guitarra duelando à Strokes e um refrão pop prontinho pra grudar na memória. E assim - sem camisas xadrez ou bigodinho indie, sem um nome pseudo-engraçadinho, sem cabecices ou politizações vazias - o Vitrine chega no seu single de estréia, produzido por Philippe Seabra (Plebe Rude), apostando na lógica invertida do "pra que complicar se a gente pode simplificar?". Go ahead, rapazes.

   O belo vídeo em P&B de "Zero Hora": darkismo sutil.



segunda-feira, 8 de março de 2010

O Melhor Pedaço da Costela




Nada mal falar de um álbum chamado "Música para homens" no Dia Internacional da Mulher. Liderado pela grande (em todos os sentidos) vocalista Beth Ditto, o Gossip chegou ano passado ao seu quarto disco de material inédito. Produzido por Rick Rubin (dá uma olhada nas bandas que já passaram pelas mãos do cara aqui) e lançado em Junho, "Music For Men" já vendeu até agora mais de 400 mil cópias. Justíssimo, o disco é sensacional e pra mim é o melhor álbum de rock do ano passado: guitarras sujinhas, pinceladas de sintetizadores, linhas de baixo galopantes e os ótimos vocais de Ditto o credenciam à isso. Tudo muito dançante, nervoso, urgente... e pop. Muito digno de nota destacar a bateria de Hannah Blilie, a gracinha que estampa a capa do disco.

Assista a performance do Gossip para "Heavy Cross" (primeiro single extraído de "Music For Men") nos estúdios da BBC. Se isso não te convencer a correr atrás do disco, esqueça o Gossip pra sempre.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Divisão da Alegria



Mês passado o Editors lançou seu terceiro, e provavelmente, melhor álbum: "In This Light and On This Evening". Nem sei se ainda é necessário citar o Joy Division pra escrever sobre um disco do Editors, do Interpol ou ainda do She Wants Revenge - mas vai que você esteve em coma nos últimos dez anos? Pode ser relevante localizá-lo no tempo e no espaço pop e dizer que o finado vocalista do Joy, Ian Curtis, está assombrosamente presente nos vocais de Tom Smith. Ouça a sexta faixa do disco, "The Boxer", e deixe este seu sábio juiz (o ouvido) decidir: não é espantosa a semelhança?



A voz gutural de Tom Smith também vem das profundezas na faixa-título (que abre o álbum) e aqui dá pra ter uma idéia do que tem 43 minutos à frente: o Editors agora concentra seus riffs mais nos sintetizadores do que propriamente nas guitarras e o resultado é fantástico; os timbres são poderosos, ameaçadores. A melodia de "Papillon", o primeiro single do álbum, também evidencia isso:



"Like Treasure" é outro momento particular. Os vocais estão quase em segundo plano e é a melhor participação do baixista Russell Leetch no disco, numa linha de baixo pulsante e que conduz a faixa com segurança em meio ao redemoinho de teclados:



"In This Light and On This Evening" foi produzido por Flood (Depeche Mode, Smashing Pumpkins, U2, Killers e mais um monte de gente boa no currículo), e estreou direto em primeiro lugar na parada inglesa. Sinal de que a pequena correção de rota no pós-punk do Editors foi muito bem recebida, ao menos pelo público.