terça-feira, 5 de junho de 2012

Dubpop


Duas boas notícias: o duo sueco Modual acabou de lançar seu terceiro EP, e ele está disponível para audição e download gratuitamente no Soundcloud.

Em Choose Your Confusion, Mikael Sjöberg e Olle Thulin suavizam ainda mais seu drum'n'step elegante com basslines mais macios e vocais pop que combinados à placidez dos sintetizadores casam direitinho com a batida cadenciada do dubstep em "Fade Away" e com o emaranhado percussivo drum'n'bass de "As We're Falling". A diferença é que agora o Modual arrisca com andamentos mais pop ("Dying Breed" e "No Way Out"), e quando acerta em cheio o resultado é uma faixa como "Had You", equilibrada entre um riff liquefeito de sintetizador e os vocais dilacerados de Sjöberg. Eletrônica invernal, mas não soporífera.

"Had You": dubstep fofinho.
    
Had You by modual

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Tias Gatunas


A fórmula é a seguinte: samplear na cara dura os vocais do clássico "Being With You" de um dos maiores canários que a Motown já pariu - Mr. William "Smokey" Robinson - bolar uma base house-disco padrão bem chinfrim do tipo que você encontra fácil nas dezenas de lançamentos diários de singles dance, usar um trechinho da letra pra rebatizar a faixa ("Heartbreak Reputation", no caso) e pronto: já podem te chamar de artista.
 

Só que numa tossida de Smokey Robinson dá pra encontrar mais criatividade do que qualquer coisa que esses australianos do Dublin Aunts (vai entender esse nome) já lançaram até hoje. Gentalha.

"Heartbreak Reputation": será que Smokey Robinson levou algum nessa?
   

domingo, 3 de junho de 2012

Black Celebration


Synthpop brazuca cresce e aparece. The Chanceller é o projeto do produtor e vocalista Luciano Cardozo, disco lançado há um mês (Painted In Black, independente) e mini-tour de divulgação acontecendo.


Luciano reivindica para si influências que vão de Kraftwerk à New Order, que junto com o Depeche Mode estão presentes no genoma de qualquer banda do gênero, mas curiosamente não percebi com clareza essas influências em Painted In Black - a não ser no arranjo simplório de "Don't You Dare" e na instrumental "Surfin Square", que lembram muito aquele technopop de base sintético/monofônica urdido tecla por tecla no começo da carreira do próprio Depeche. A mim pareceu que, mesmo sem querer, o Chanceller está mais próximo da escola belga do EBM praticado por gente como Neon Judgement nas faixas mais viscerais (como "Time To Sleep") - que por tabela era algo que a banda santista Harry fazia admiravelmente bem na segunda metade dos 80 e começo dos 90. Quando a pegada é puramente eletrônica como em "Blood Stain" ou no single "Brokens Dreams (Like That)", o Chanceller cria um experimento imaginário com um hipotético Front 242 sem a muralha de samplers ou um Nitzer Ebb sem hits de pista, tanto na temática quanto nos vocais mais próximos à Douglas McCarthy e Jean-Luc De Meyer do que do onipresente Dave Gahan. O synthpop em que o projeto se autodefine está manifesto mesmo é na bela instrumental "Runaround" e nos blips intricados de "Surrounded" - onde é possível ter idéia da parcela de culpa do britânico Vince Clarke na paixão de Cardozo por sintetizadores. Com uma imagem ainda assustadora demais pra frequentar o Domingão do Faustão mas com um nicho de mercado garantido por algum tempo no underground, resta saber onde o Chanceller quer chegar. Acho que seria realmente um desperdício um hit em potencial com um gancho de teclado atraente como o de "Tease, Chase, Kill (Me)" ser ouvido somente por um público vestido de preto em clubes Brasil afora.

O vídeo de "Tease, Chase, Kill (Me)": pernas pra que te quero.

sábado, 2 de junho de 2012

Ultravolta

Billy Currie, Midge Ure e Chris Cross voltam com menos cabelo.
 Surpreso com a notícia do disco novo do Ultravox? É, eu também. Mas espantado mesmo eu fiquei depois de ouvir Brilliant, décimo primeiro álbum de material original da banda londrina.


Quando o grupo encerrou atividades pela primeira vez (em 1988), Midge Ure (vocais, guitarra, bigode e costeletas) justificou a atitude dizendo que "a banda estava se repetindo". A segunda volta durou de 1992 à 1996, e a terceira tentativa aconteceu em 2008. Mas então o que Brilliant traz de diferente daquele Ultravox realmente relevante (o período 1980/1984)? Absolutamente nada. E isso é ótimo, porque a diferença é que agora o quarteto dispõe de mais tecnologia pra deixar o som tecnicamente mais polido. E acontece que desde Lament (1984) o grupo não conseguia reunir uma coleção de canções tão coesa quanto as doze faixas do disco novo. Midge Ure continua cantando maravilhosamente bem, e há faixas capazes de rivalizar em pé de igualdade com clássicos como "Hymn" e "Dancing With Tears In My Eyes", caso da ótima abertura "Live" e da faixa-título, duas pérolas synth-rock revelando picos de intensidade e entusiasmo só ouvidos no começo dos 80. Canções emocionantes conduzidas por piano e cordas sintéticas como "Remembering" e "One" convivem em harmonia com momentos em que o Ultravox encontra as soluções menos habituais para enriquecer os arranjos (os tons enegrecidos dos sintetizadores e a bateria eletrônica de "Fall", por exemplo). O rock vigoroso de "Lie" (com performance vocal impressionante de Ure), o technopop tradicional de "Rise" e "Change" e o encerramento com a apropriada "Contact" não me deixaram nenhuma dúvida de que o Ultravox não voltou para ser um mero cover de si próprio. A mim soa como uma continuação natural da obra que estacionou criativamente no meio dos anos 80 e volta agora com um álbum realmente digno de constar entre os mais importantes na discografia da banda.

"Lie": não basta comprar um Moog no eBay e achar que é moderninho.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A Procura Do Riff Perfeito


Mesmo caindo num certo ostracismo durante a ressaca pós-boom acid house (movimento que ele próprio ajudou a cimentar), o britânico Adam Paul Tinley nunca parou de gravar. Tentou se reinventar no início dos 2000 sob um novo pseudônimo (Adam Sky), lançou singles de pouquíssima repercussão, virou DJ residente do já extinto clube londrino Nag Nag Nag e retomou a carreira como Adamski, nome que lhe deu até agora seu único número um na Inglaterra ("Killer", com vocais do então desconhecido Seal).


I Like It é seu single mais recente, acabou de sair pelo selo Continental Records. E olha, Adamski não perdeu o jeito pra coisa. A faixa-título insiste num riff derretido de sintetizador, emenda com pianinhos ítalo, chamadas pra pista ("Don't stop, let your body rock!") e baixão disco. Já o B-Side "Wot Happened To U" é tão eficiente quanto, só que ao invés do teclado, Adamski funkeia nas seis cordas e ergue um paredão instrumental house de quem conhece o riscado. Recomendável para qualquer pista imbuída de diversão.

Esquisitão e performático: é o Adamski de sempre.