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sexta-feira, 19 de maio de 2017

Sexta Feira Bagaceira: OFF


Pra mim o alemão Sven Väth tem sido o melhor DJ do mundo há alguns anos. Ele não tem o site mais fodão, o maior número de seguidores no Facebook ou tampouco interage com o público jogando bolo ou fazendo acrobacias no palco/cabine: o que conta são seus sets de house e techno acessíveis, incrível e obviamente dançantes, técnica e profundo conhecimento musical. E com um agravante digno de nota: ele não precisa mais do que dois toca-discos e um mixer. Só isso. Sem softwares, sem truques, sem bruxaria eletrônica. É o vinil e ele, só. 

Entre 1980 e 1981, depois de passar um verão em Ibiza, Väth (então com 16 anos), deslumbrado com a cena club da ilha, voltou para a Alemanha e começou a discotecar no pub dos pais. Depois, já residente de um clube em Frankfurt, conhece Michael Münzing e Luca Anziloti, monta o projeto OFF e produz o primeiro single em 1985, “Bad News". O sucesso só viria mesmo com "Electrica Salsa", do ano seguinte. A faixa pegou na Europa inteira (no Brasil, também, entrando na trilha da novela Bebê a Bordo). O synthpop mezzo New Beat claramente influenciado por grupos de EBM/industrial alemães como o DAF, era hipnótico e engrenado, com vocais declamados perversamente pelo próprio Väth. O sucesso do single abriu caminho para a gravação do álbum, lançado em 1988 (por aqui, saiu com a mesma capa do single "Electrica Salsa" - foto acima - com Väth segurando um cigarrinho maroto). Organisation For Fun influenciou fortemente a cena dance alemã de então e, além de ter colocado Sven Väth no caminho do estrelato como DJ, revelou dois produtores de mão cheia: Luca Anzilotti assumiu o pseudônimo John Virgo Garrett III, Michael Münzing virou Benito Benites e ambos estouraram com o Snap!, algum tempo depois.

O álbum é interessantíssimo, vale conhecer. E "Electrica Salsa" é reconhecível, ainda hoje, em qualquer pista, já no primeiro "Baba Baba" que Sven Väth solta.

"Electrica Salsa (Baba Baba)": esquisitinha e inesquecível.

domingo, 25 de setembro de 2016

Dez Perguntas Para: Simbolo


Pioneiro e maior nome da Electronic Body Music brasileira, Martin Neto fundou o Simbolo em 1988, tem cinco álbuns lançados (dois de forma independente e três pelo selo Cri Du Chat), um EP (Music From The Masses, lançado na Alemanha pelo selo Subtronic Records, em 1993) e várias faixas espalhadas em coletâneas, no Brasil e exterior. O projeto segue firme e recentemente disponibilizou sua obra em sites de streaming e venda digital, como Bandcamp, Google Play e Spotify (links no final da matéria). O músico e produtor Martin Neto concedeu gentilmente esta entrevista via email:

1) A arte gráfica da tua obra deixa claro que tens forte influência do construtivismo do russo El Lissitzky. Até que ponto isso reflete na tua música? 
Sou obcecado pela arte da vanguarda russa, fiz a faculdade de Belas Artes de São Paulo e estudei muito não só o trabalho de El Lissitzky, mas também de Rodchenko e Malevich. Eu mesmo crio e finalizo o design gráfico do Simbolo. Na música isso se reflete de forma natural porque faço uma programação midi geométrica, repetitiva, organizada em blocos e meticulosamente quantizada. Depois que a faixa está pronta, faço uma “limpeza”. Corto as partes desnecessárias para chegar na síntese da ideia. O melhor design é o mais simples. El Lissitzky escreveu que “quanto mais simples a forma, mais necessária é a qualidade e precisão da sua execução.”


2)
Já pintou algum convite para algum trabalho em algum projeto mais comercial, voltado ao pop? Já chegaste a pensar em fazer algo do tipo? 

Nunca pensei em fazer algo fora do Simbolo. Uma exceção foi o Depeche Mode Cover em 1991, mas durou pouco porque neste ano eu estava gravando o meu primeiro álbum (Le Sacré Du Printemps) e fiquei sem tempo disponível. Sou inclinado a fazer coisas num contexto mais cultural. Toquei com o VJ Spetto no Centro Cultural Itaú e foi muito bom. Pretendo fazer mais coisas assim.

3) Qual a tua relação com o sampler e quais os teus critérios para o uso do instrumento? Já usaste algum trecho gravado de outro artista em alguma composição?


Nunca usei sampler. Só o EXS24 do Logic Pro X, mas como um sintetizador normal. Entre 2002 e 2004 usei um pedaço da introdução de "Carmina Burana", de Carl Orff, para abrir os shows. E na faixa "Fabrika", do álbum Originate, tem um trecho de um coral russo em reverso. Prefiro ter tudo em MIDI.


4) Em 1998, por ocasião do lançamento da compilação Electroad na qual havia duas faixas do Simbolo inclusas, a revista Bizz definiu que teu som “realmente dispensa letras” (no sentido da excelência do instrumental). Com uma temática que trata, especialmente, sobre violência, qual a importância das letras na tua música e porque a escolha do inglês como meio de expressão? 

Fiquei sabendo disso agora, não conhecia essa coletânea. Quanto à temática das letras vale deixar claro que não faço apologia à violência. Um exemplo é a faixa "Cease Fire", que contêm mensagem pacifista. Mas gosto desse tema porque é atemporal. Letras na minha música têm dupla função. A primeira é a presença vocal. A voz como instrumento. Muitas faixas não precisam deste ingrediente, mas outras precisam, senão ficam incompletas e sem foco. A segunda função é que a letra traz a narrativa de forma a contar uma história. Com frases soltas, dentro do mesmo tema, cria um panorama visual imaginário, como um filme. Quanto a usar letras em inglês, essa pergunta abre espaço para uma explicação maior. Desde o começo eu imaginava o Simbolo como um projeto com características globais. Tanto é que adotei o nome Simbolo (sem o acento no i) porque é como se escreve em Esperanto. Pois bem, em 1988, sem internet, atingir este objetivo era um caminho muitíssimo mais longo, e cantar em inglês seria o primeiro passo. Hoje não. O caminho quase não existe. Mas as músicas atuais têm letras em outros idiomas, além do português.

"That's Possession", do álbum  Le Sacré Du Printemps, lançado em 1992:



5) A EBM sempre teve uma boa relação com as pistas de dança – especialmente no final dos 80 e começo dos 90. Tu já fizeste alguma faixa intencionalmente voltada para a pista? 

Até pouco tempo tudo o que eu fazia era para funcionar ao vivo porque era a via que eu tinha para divulgar o trabalho. Atualmente estou reprogramando tudo, ou a grande maioria, para funcionar também na pista.

"Train Forest", do álbum In The Danger Zone, de 1995.



6) Qual é a formação atual do Simbolo e qual o equipamento tu levas pro palco atualmente? Quantos por cento do material é pré-gravado?


A formação atual sou só eu, porque não vejo mais o Simbolo como uma banda. Também parei de tocar ao vivo, pelo menos por enquanto. Mas no passado usava um sintetizador Roland Alpha Juno 1, o sequenciador de baixo Roland TB-303 e a bateria eletrônica Roland TR-707. Depois fui somando com vários módulos E-mu como o Proteus 1 e o Vintage Keys. E ao longo dos anos entraram muitos outros instrumentos, como a bateria eletrônica Alesis SR-16 e os sintetizadores Korg Prophecy, Alesis Ion, Yamaha DX-7 e Yamaha CS6X, entre vários outros.  Não uso material pré-gravado, mas tudo é pré-programado. Ao vivo só o vocal e alguma melodia adicional no sintetizador. Uma coisa interessante de se fazer eletronicamente ao vivo é interagir com os sons usando modulações de filtro ou pitch bender, por exemplo. A audiência percebe que tem algo realmente acontecendo e que aquilo não é gravado.



7) O mercado de venda de música eletrônica alternativa é mais ou menos interessante hoje com os sites de streaming e downloads pagos em relação à quando tu começaste, quando os CDs ainda eram a única forma de mídia disponível?


Hoje é muito mais interessante, sem dúvida. Não só pelo alcance global dos sites de música mas por outro aspecto muito importante: não tem atravessador. A internet mudou o destino do artista alternativo, que por ser independente, já começava com um pé no fracasso. Hoje não. Pelo menos em termos de oportunidade, todos são iguais perante a tecnologia.

"We Are The Music":



8) Já tiveste na carreira algum hit cult (em pistas ou rádio) que te surpreendeu? Tens ideia do alcance da tua música fora do Brasil? 

Muita coisa me surpreendeu, mas não por causa de um hit específico. Talvez as músicas "K.A.O.S." e "Enforced" tenham causado um impacto maior, mas eu acho que a força do Simbolo está no conjunto da obra, quando o todo é maior do que a soma das partes. E o alcance fora do Brasil é total. Tive até uma oferta para remix de um DJ, na China, só para ficar num exemplo.

"Enforced":



9) Para onde vai a EBM (ou, num contexto mais amplo, a música eletrônica), num cenário pulverizado por milhares de bandas/projetos do gênero? Como é possível soar original e inovador nessa situação? 

A EBM é eterna porque seu formato original é simples e elementar: voz, baixo e bateria. A originalidade e inovação virá da forma como se lida com estes três elementos e adicionar outros. Tendo isso em mente, é só não fazer igual aos outros. Parece fácil mas não é. Quanto ao cenário, que hoje pode ser confuso e desfavorável, a solução é trabalhar com objetivos de longo prazo, porque o cenário muda. Noventa por cento do que existia quando o Simbolo começou – gravadoras, lojas de discos, casas noturnas, fanzines, programas de rádio, etc... –  já não existe mais, mas estou aí fazendo e muito satisfeito com o atual momento.

10) Top 5: cinco músicas eternas e cinco atuais:

Eternas:


1) "Computer Love", Kraftwerk.



2) "Carmina Burana", Carl Orff.



3) "Sonata No.14: Moonlight”, Beethoven.



4) "Chase", Giorgio Morder.



5) "Oxygene Pt.4", Jean-Michel Jarre.



Atuais:

1) "Expo 2000", Kraftwerk.



2) "Opus Dei", Laibach.



3) "Russians", Sting.



4) "Why This, Why That and Why", Jean-Michel Jarre.



5) "I’m A Man", Black Strobe.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Suicidal Tendencies


Dois anos depois de seu single mais recente (Unterwelt), a banda de um homem só Suicide Commando - cria do belga Johan van Roy - volta a ativa. O recém lançado EP The Pain That You Like vem com duas inéditas (a faixa título, mais "Crack Up") e cinco remixes. O veterano van Roy (na cena EBM desde a segunda metade dos 80) abraça forte o electro-industrial, com a bateria marcial característica, linhas de baixo pesadas, vocais nervosos e aqueles enxertos derivados do trance provavelmente extraídos de algum Roland JP-8000. "The Pain That You Like (Pleasure & Pain Remix)" é muito semelhante ao original, mas me surpreendi mesmo é com a versão suingada dos noruegueses do Pride And Fall, boa pra dançar com o nariz colado na parede. The Pain That You Like deve agradar em cheio os fãs do gênero e mesmo pra quem não acompanha muito de perto esse povo esquisitão da EBM, como eu, fez cosquinha na sola do pé.

"The Pain That You Like": seria hit fácil no Crepúsculo de Cubatão.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Körpermusik


O que tenho ouvido de EBM recentemente me tem feito muito bem: não consigo conter o riso. A maioria das bandas escandinavas e alemãs não consegue ir além dos clichês mais surrados do gênero (instrumental pretensamente pesado, temática apocalíptica dominante) e o que apareceu de interessante nos últimos anos são os projetos que aproximaram a velha Electronic Body Music do techno. Abaixo, Powell e Tzusing: dois artistas novos e duas variações interessantes para o mesmo tema.


O produtor britânico Powell assinou ano passado com a XL Recordings (The Prodigy, Basement Jaxx) e acaba de lançar um single pela gravadora. O som de Sylvester Stallone é duro e árido, sem espaço para melodia - tanto na faixa título (com samples vocais característicos) quanto no lado B "Smut", com bateria minimalista e várias interferências de industrial. É um caminho que pode render bons remixes.



O malaio de origem chinesa Tzu Sing surpreende com seu EP A Name Out of Place Pt. II. Muito bem produzido e imediatamente mais acessível do que o trabalho de Powell, a ótima faixa de abertura "4 Floors Of Whores" acelera firme rumo à pista de dança. Os zumbidos cambaleantes de "Frankinsense And Myrhh" e as distorções de "Khi Tang", ambas com andamento lento, preparam terreno para os excessos dos riffs furiosos de "O.D.D.". Música não tem fronteira, mas não deixa de ser inesperado um som assim vindo de Xangai.

domingo, 5 de outubro de 2014

Synthpoppers 2014 - Part 2

Veteranos. Três bandas vindas dos 80, três projetos que não envelheceram muito bem. Erasure, Information Society e And One seguem na ativa, mas com álbuns um tanto decepcionantes. 

Os fãs de Andy Bell e Vince Clarke não podem acusar a dupla de improdutividade. De 1986 pra cá, são 16 álbuns, fora projetos paralelos, EPs e singles. O disco mais recente é The Violet Flame, lançado mês passado e produzido em parceria com Richard "X" Philips. É ouvir uma vez e sacar que o Erasure continua com o mesmo problema que vem desde I Say I Say I Say (1994): irregularidade. O duo simplesmente não consegue mais produzir um álbum em que ao menos metade dele seja realmente de boas canções. Em The Violet Flame, as faixas mais legais foram estrategicamente colocadas no começo e são só duas: "Dead of Night" (que aparenta ter bom potencial pra pista de dança) e o single "Elevation", em que nota-se um cuidado maior com a melodia e o refrão. "Reason" e "Paradise" são duas amostras de como o Erasure conseguiu trazer o synthpop pra 2014 sem muitas rugas: com o bom direcionamento proporcionado pelo esperto Richard X, elas soam musicalmente robustas sem perder o charme particular dos sintetizadores de Vince Clarke. Negócio é que eu imagino a briga no estúdio pra conter o ímpeto de Andy Bell em baladas cabaré totalmente insossas como "Be the One" e "Smoke & Mirrors".

"Dead Of Night":





O conceito de uma sociedade informatizada ficou nos 80, hoje ele é realidade. Já o Information Society nessa época jurou que não carregaria seus teclados antiquados pra cima dos palcos num futuro não muito distante. Em 1997, eles pareceram cumprir a promessa e a banda suspendeu atividades - até reunir-se novamente em 2006. Com repercussão discretíssima, Synthesizer foi lançado em 2007 e também sem muito alarde, James Cassidy, Paul Robb e Kurt Harland editaram em Setembro o novo _Hello World, pelo selo de Robb, HAKATAK International. O primeiro single (saiu em Março) "Land Of The Blind", tenta juntar os dois mundos relativamente bem sucedidos do grupo: o freestyle de "What's On Your Mind" e o techno de "Peace & Love, Inc.", mas a fusão não passa de autoparódia. Os fãs xiitas (brasileiros, especialmente) vão encontrar motivos pra comemorar o retorno do trio na bem feitinha "Get Back" e no pop sintético de "Above and Below", mas a patética "Beautiful World" e a balada com sessão de cordas transistorizadas "Tomorrow the World" já seriam suficientes para que o álbum se chamasse _Goodbye World.

"Land Of The Blind":      




O And One não é propriamente uma "banda dos 80", embora tenha sido fundada nesta década. O som do grupo incorpora elementos de EBM, synthpop e industrial, algo que fica evidente em Magnet, o lançamento mais recente (Agosto) do quarteto e que estou tentando até agora entender. Trata-se de um Box Set com três CDs, nomeados como Magnet, Propeller e Achtung 80!. Fora isso, há ainda a Premium Edition, com três CDs extras que são, como indica o nome, Live On Stage 1, 2 e 3. Magnet é o darkwave do pacote, tem sintetizadores mais sombrios e clima nubladão, comuns ao gênero. As faixas cantadas em alemão, curiosamente, são as que soam melhor - talvez por serem totalmente incompreensíveis pra mim - e acabam combinando com a desolação de músicas como a misteriosa "Zeit Ohne Zeit". Propeller tem uma pegada EBM de inferninho gótico, dançante ("Synchronizing Bodies") e ameaçador ("An Alle Krieger!"). Aqueles baixos impulsivos de Oberheim Xpander do começo da carreira do Nitzer EBB, estão na maior parte desse disco ("Zwei Tote", "Before I Go" e claramente em "U-Boot-Krieg In Ost-Berlin"). Achtung 80! dá uma desopilada no som e pega leve em canções technopop inofensivas, com melodias ingênuas e instrumental primário, como na constrangedora "Girls On Girls". Não consideraria esse lançamento uma espécie de suicídio comercial, já que edições como essa hoje (amparadas pelo selo do grupo, Deutschmaschine Schallplatten) são quase que puramente artesanais, mesmo... Os problemas com o And One são outros: não trazem nada de novo, chupinham o que já foi feito e ainda são incapazes de produzir canções realmente relevantes, do ponto de vista literário ou musical. Mesmo assim, dá pra pescar faixas interessantes nesse lançamento triplo dos alemães.

Uma geral em Magnet, um dos volumes da trilogia:

terça-feira, 12 de março de 2013

Na Lata


Chegado num EBM? Tem esse single novo dos veteranos do Die Krupps.


Na ativa desde 1980, os alemães soltaram há pouquinho Risikofaktor. E o som nem mudou muito nesses 30 e poucos anos. Bateria duas vezes mais alta que os outros instrumentos na mixagem, baixo musculoso e vocais nervosos, um tanto mais assustadores com a letra em alemão. Com um pezinho no industrial, "Risikofaktor" vai bem na pista.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Tudo Dominado


Luciano Cardozo não para. Sua empreitada pra colocar o synthpop do seu Chanceller no mapa da eletrônica continua com o lançamento do single "Dommenation", primeiro de SynthElectroBass, álbum que a banda lança ainda este ano.
 

Referências sado-masô, trompete sintetizado apocalíptico... quem explica melhor "Dommenation" e pra onde vai o The Chanceller é o próprio Luciano:
 
Em quais formatos o single foi lançado?

CD, e mp3 (Maxi Single com 5 faixas). Pode-se comprar no Reverbnation, ou fazer download de graça do 128k no soundcloud. 50% do valor de uma faixa comprada, é doado para a ONG charity: water http://www.charitywater.org/, que trata de levar água potável às populações miseráveis da África.

Existe alguma execução em rádio ou algo parecido? De que maneira ele está sendo divulgado?

Sim, sim. Lumen FM, Mundo Livre FM (Curitiba), Antena Zero (SP)... também nos canais SoundCloud.com/Chanceller e no reverbnation : http://www.reverbnation.com/thechanceller
Nossa discografia completa e mini-extensa: http://www.lastfm.com.br/music/The+Chanceller/+albums Tem saído materias em jornais e algumas colunas tem recebido bem o single e dado espaço para esse estilo.

Com vocais filtrados e clima sombrio, "Dommenation" continua ameaçadora demais pro mainstream. Te interessa o mainstream?
 
Interessa. Claro. Se o mainstream significar levar minha música para o maior número de pessoas, isto é muito claro. Mas não faço uma música pensando no mainstream. Ela soaria falsa, fabricada, montada e descartável, e isso já tem bastante por aí. Todo mundo quer copiar alguém. No começo eu queria fazer música como o Depeche Mode e Erasure. Porra, lógico que nunca daria certo. Os caras são fodas, não dá para bater isso. Aí desencanei em tentar ser alguém e a minha música ficou um pouco melhor... (risos). Aprendi a aprender com os outros e absorver o que tinham de bom, mas não necessariamente fazer igual.

Mesmo com um álbum anterior tão recente (Painted In Black, lançado em Maio do ano passado), é possível dizer que o próximo disco vai apontar para outra direção no som do Chanceller?
 
Assim que lançamos o Painted In Black, eu já estava com milhares de idéias e algumas letras no bolso. E então, com todo o clima da tour que iniciamos e da sequência de shows (que eu não esperava que fossem tantos!), comecei a gravar as demos e ir trabalhando devagar. Eu queria fazer um trabalho mais sério, mais coeso, e mais pesado. Flertar com timbres mais agressivos e baixos mais nervosos... E quando vi, estávamos com 15 faixas já pré-produzidas. Chegou a sair um EP no ano passado pelo selo digital Shatten. Foi um EP de 5 faixas, Weird. Só instrumentais e faixas que certamente não caberiam no próximo álbum. Então, mixei usando uma técnica chamada Binaural Mixing, que tem um efeito de som 3D quando se ouve em fone de ouvido. Fantástico. O album está disponível aqui:
http://mofonovo.blogspot.com.br/2012/07/chanceller-weird-ep-2011.html
Então, resumindo (rá rá) a direção do Chanceller vai ser sempre o desafio de não se repetir, ser inovador, mas ao mesmo tempo, clássico. Eu sei, é pretensão. Mas sem pretensão, não há tesão... (risos).
 
Te preocupa soar datado com a música do Chanceller ou essa palavra não faz mais sentido depois de tantos revivals no pop recente?
 
Eu não gostaria de soar datado não. Ao menos, esta não é a intenção... (risos). Mas hoje em dia é difícil dizer. Todos usam sintetizadores hoje em dia. Virou moda. Se a música é boa e for datada, já nasce clássico... (risos).

O próximo disco sai pela Wave Records. Fale um pouco sobre o selo e porque tu achas importante que o álbum saia em formato físico também.
 
Se eu pudesse, lançava em vinil, cara! Sinto falta daquela parte da música que você sente, cheira, toca. No LP você tinha a capa, e dentro mais uma capa, encarte, depois o CD veio com livretos e tudo mais, a música tinha cara também. Hoje é tudo mp3. Acho chato. E a Wave tem uma proposta legal e apoia a cena. Vai distribuir nosso CD na Europa e no Brasil. Vai ser lançado no iTunes também, pelo selo catarinense Amplyart Music. É divertido ir conquistando os espaços...

O que mais te atrai na música eletrônica recente?
 
De artistas: Röyksopp, La Roux, Depeche Mode, Erasure, And One.
Na música em geral, como artista, as infinitas possibilidades de timbres. Fico louco quando descubro um synth novo. Isso me faz querer fazer música todos os dias.
 
Pra onde vai a música eletrônica, ou o synthpop, especificamente?
 
Acho que em todo lugar tem alguém fazendo música eletrônica e o synthpop está cada vez mais inserido na música mais pop. Lógico que ainda resta aquela vertente do synth europeu, que sempre vai soar mais dark, mais densa, mais pesada e com vocais duvidosos, hahahaha...


"Dommenation":


domingo, 8 de julho de 2012

Arqueologia

Julio Saraiva, o Frontrunner.
Dando uma desempoeirada (alô Pasquale!) nos meus velhos CDs hoje a tarde, (re)descobri um promo que recebi no século passado de um selo independente chamado Electroad Records, de São Paulo. A masterização das faixas ficou por conta de um cara chamado Julio Saraiva, da 4D Records (nada a ver com a 4AD inglesa). A Electroad era uma gravadora que tinha no cast artistas eletrônicos tupiniquins, que felizmente (em alguns casos) e infelizmente (em outros) não deram em nada. O selo eu acho que também virou pó, nunca mais ouvi falar. No promo, há duas faixas de cada artista (são seis grupos), entre eles o Simbolo - velho conhecido no underground sintético brazuca, e uma das poucas coisas dignas de nota do disco. O outro que vale mencionar é o Frontrunner, do próprio Julio Saraiva. Uma das músicas dele na coletânea ("Looking For You") é bem interessante. É um tanto defasada (mesmo pra época em que foi lançada, 1998), porque pega pesado num EBM nublado, sem espaço pra melodia - coisa que o Klinik e o Front 242 já faziam lá no meio dos 80. Gosto, entretanto, do bassline martelado nos indicadores e do climão ingenuamente dark da canção. Julio atualmente está trabalhando num novo álbum, chamado Damaged Control.


Fita cassete do Frontrunner, lançada em 1996.

"Looking For You": vocais ininteligíveis.


terça-feira, 3 de julho de 2012

The Fake Mode

Martin Gore, o Mão Santa do Depeche Mode.
Por ocasião do recém lançado S.T.O.P. (décimo primeiro álbum dos alemães do And One), fiquei pensando no tanto que o Depeche Mode fez a cabeça desse pessoal. Mas o And One não está sozinho. Abaixo, três exemplos de como seguir à risca os passos dos seus ídolos:


And One

Esse cabelo do vocalista Steve Naghavi aí acima é inspirado em quem? Dave Gahan, circa 1990. Mas curiosamente, Naghavi não passa nem perto de cantar como Gahan. E musicalmente, Depeche e And One não tem muito a ver. O And One pratica um EBM pesado, sombrio, e por vezes, dançante. O primeiro single da banda ("Metalhammer", 1990) mescla industrial e synthpop (gêneros que o Depeche soube explorar muito bem), num hit de pista doentio. A melhor música da banda alemã é, sem dúvida, "Sometimes", de 1997:




De/Vision

Mais germânicos: o De/Vision está na ativa desde 1988. Aqui o caso é mais grave: a inspiração beira a imitação. Os singles do grupo parecem acompanhar os passos do Depeche: a ótima "Heart-Shaped Tumor" lembra "Only When I Lose Myself", "Strange Affection" parece com "Barrel Of A Gun", "Rage" (com vídeo inspirado em "It's No Good", de adivinha quem?) soa como "Wrong"...



Color Theory

Projeto do americano Brian Hazard. Tecladista e cantor, tá na cara que Brian paga um pau pro Martin Gore. Canta, geme e solta aquele vibrato igualzinho ao principal compositor do Depeche. Cometeu a façanha de produzir, provavelmente, o pior álbum de covers dos ingleses de todos os tempos: Color Theory presents Depeche Mode, de 2003. É nesse disco que está essa versão lamentável de "I Want You Now":

domingo, 3 de junho de 2012

Black Celebration


Synthpop brazuca cresce e aparece. The Chanceller é o projeto do produtor e vocalista Luciano Cardozo, disco lançado há um mês (Painted In Black, independente) e mini-tour de divulgação acontecendo.


Luciano reivindica para si influências que vão de Kraftwerk à New Order, que junto com o Depeche Mode estão presentes no genoma de qualquer banda do gênero, mas curiosamente não percebi com clareza essas influências em Painted In Black - a não ser no arranjo simplório de "Don't You Dare" e na instrumental "Surfin Square", que lembram muito aquele technopop de base sintético/monofônica urdido tecla por tecla no começo da carreira do próprio Depeche. A mim pareceu que, mesmo sem querer, o Chanceller está mais próximo da escola belga do EBM praticado por gente como Neon Judgement nas faixas mais viscerais (como "Time To Sleep") - que por tabela era algo que a banda santista Harry fazia admiravelmente bem na segunda metade dos 80 e começo dos 90. Quando a pegada é puramente eletrônica como em "Blood Stain" ou no single "Brokens Dreams (Like That)", o Chanceller cria um experimento imaginário com um hipotético Front 242 sem a muralha de samplers ou um Nitzer Ebb sem hits de pista, tanto na temática quanto nos vocais mais próximos à Douglas McCarthy e Jean-Luc De Meyer do que do onipresente Dave Gahan. O synthpop em que o projeto se autodefine está manifesto mesmo é na bela instrumental "Runaround" e nos blips intricados de "Surrounded" - onde é possível ter idéia da parcela de culpa do britânico Vince Clarke na paixão de Cardozo por sintetizadores. Com uma imagem ainda assustadora demais pra frequentar o Domingão do Faustão mas com um nicho de mercado garantido por algum tempo no underground, resta saber onde o Chanceller quer chegar. Acho que seria realmente um desperdício um hit em potencial com um gancho de teclado atraente como o de "Tease, Chase, Kill (Me)" ser ouvido somente por um público vestido de preto em clubes Brasil afora.

O vídeo de "Tease, Chase, Kill (Me)": pernas pra que te quero.