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segunda-feira, 2 de abril de 2018

Tentativa e Erro


Chris Glover, a.k.a. Penguin Prison, DJ e produtor americano, vai pra dez anos de carreira e nesse (pouco) tempo enfileirou dois álbuns, vários singles e EPs e uma batelada de remixes (já levou pra mesa de cirurgia gente como Jamiroquai, Ellie Goulding, Goldfrapp, Faithless e Lana Del Rey). Inegavelmente, tem talento. Porque ainda não "aconteceu"? Não sei, coisas do pop. Seu debut autointitulado de 2011 é muito bom (duvido que alguém lembre de alguma coisa desse disco). Bom, ele continua tentando, como mostra seu novo EP Turn It Up. Altos e baixos no mini-disco (que saiu exclusivamente em formato digital). A faixa título é o electropop habitual do artista: bem feitinho, dançável, refrão ganchudo. Tudo parece estar no lugar certo... mas tem uma coisa que não me deixou ouvir mais do que duas ou três vezes a faixa: enjoa fácil. O mesmo vale pra "Keep Coming Alive", a segunda do EP. Já "Do Me Like That" exagera na vibe Grease enquanto bobinha e açucarada. A única música que realmente chama atenção aqui é a Nu-Disco "On Your Side", com uma mão nos vocais da musa-cult-indie-pop Soren Bryce. Espacial e dançável, pop onírico e com o nível de sacarose na medida certa. Aí sim.

"Turn It Up":



"Keep Coming Alive":



"Do Me Like That":



"On Your Side":

domingo, 25 de março de 2018

Caras Novas: Demuja


Com um background que inclui atividades como baterista e dançarino de break, o austríaco Bernhard Weiss, a.k.a. Demuja, descobriu a discotecagem e em seguida, a produção de sua própria música, por volta de 2010. Lançando seus singles por selos como o norueguês Uncut House Records, o americano Nervous Records e o italiano Traxx Underground, em 2016 Demuja criou seu próprio selo, MUJA, por onde saíram três EPs até agora.

Fã de vinil e reclamando para si influências que vão de artistas de house music (Kerri Chandler, Moodymann), jazz (Herbie Hancock, Miles Davis), hip-hop (Mos Def, Wu-Tang Clan) e diretores como Quentin Tarantino, seu lançamento mais recente é o EP Turn Around (realizado no final de Março pela gravadora alemã Toy Tonics) e inclui quatro faixas de house em estado bruto, sem muito polimento. Com samples irreconhecíveis (pra mim, ao menos), timbres macios de teclados e um modus operandi french touch, Turn Around solidifica a promissora carreira de Demuja.

Turn Around: inteiro no Bandcamp.


Ouça outros singles e EPs no perfil do artista do Bandcamp.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Mais Um Pulo do Gato


Um cara que nasceu em Chicago e foi criado em Detroit só podia ter house e techno na cabeça. Esse é Felix Stallings Jr. - a.k.a. Felix Da Housecat - e é exatamente isso que o DJ e produtor mostra em Founders of Filth Volume Four, seu mais recente EP, lançado pelo seu próprio selo, Founders of Filth. A série, iniciada ano passado e que já contou com a colaboração de gente do calibre de Jamie Principle, traz Felix usando alguns de seus diversos aliases (Aphrohead, Thee Madkatt Courtship) para três faixas bem distintas entre si neste quarto volume: dos enxertos de synthpop em "Neon Flyy" (com participação do produtor Clarian North e Blakk Hazel), o clima sexy e percussivo de "Quicksand" e "Death Toll Cinema", uma música com vocoder e uma levada de baixo que poderia estar em qualquer disco do AIR. Maravilha.

O EP está disponível pra audição no Spotify e está à venda no Beatport.



quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

The Phoenix Alive


Delícia pop do dia é o duo francês Ninety's Story e sua "Kikuyu", extraída do EP homônimo lançado no final do ano passado (o segundo da banda). O electropop urdido pelo Ninety's assemelha-se ao indie francês brisado e dançante de gente como Phoenix e Tahiti 80, mas tem brilho próprio, como prova a própria "Kikuyu" e as outras três faixas do EP ("Don't Mind Me", "I Want Your Love" e "Two Steps From the Sun"). Olho neles.

"Kikuyu": pra deixar no repeat.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Hip-Hop No Disquete


Udeze Ukwuoma (a.k.a. Dday One) é um DJ e produtor americano, na ativa desde meados da década de 90. A onda dele é hip-hop instrumental, um subgênero que já deu ao mundo nomes muito interessantes, como DJ Krush, RJD2, J Dilla e DJ Shadow, (cujo álbum Endtroducing….., de 1996, é um marco da música eletrônica).



Dday One acabou de lançar seu novo EP, Artifact, pelo próprio selo, Content (L)abel, com seis faixas carregadas de beats engenhosos e samples variados convivendo em harmonia com instrumentos acústicos. Além da (boa) música contida no EP, um detalhe que chama atenção em Artifact é o formato em que ele foi lançado: um edição limitadíssima de apenas cem cópias... em disquete. A inusitada plataforma vem devidamente autografada e inclui um download code para o EP em versão MP3 e ainda um arquivo de texto que contém um link para uma faixa extra. Mais estranho ainda é saber que a prática pouco usual não é exclusiva de Dday. Tem um povo que também emprega essa forma de divulgação atualmente, num movimento muito bem descrito pelo jornalista Ricardo Schott em uma matéria para o seu site Pop Fantasma. Quem, porém, não quiser se aventurar pelos problemáticos floppy disks, pode ouvir Artifact e outros trabalhos de Dday no Bandcamp do artista.

Artifact EP: beats no disquete.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

I'm Like a Bird


Com uma abordagem muito particular sobre a música eletrônica - o que inclui o uso de alguns instrumentos nem tão convencionais ao gênero (como o sagrado trio baixo-guitarra-bateria) e outros que fogem a qualquer tipo de categorização (brinquedos e até um sincronizador de filmes 35mm) - o quarteto mezzo americano mezzo canadense baseado em Toronto, Holy Fuck, segue entortando o óbvio com seus experimentos que fundem ousadamente o orgânico e o sintético - a despeito do grupo dispensar formalmente o uso de computadores em suas composições.

Somando quatro álbuns na discografia (o mais recente, o elogiado Congrats, é do ano passado) e vários singles no currículo, a banda acabou de lançar o novo EP, Bird Brains, pelo selo californiano Innovative Leisure, gravado no esquema ao vivo do "1-2-3-4, valendo!". A faixa título foi disponibilizada no Youtube há alguns dias num curioso vídeo que traz a banda animando uma festa que "...explora a ideia da histeria em massa", segundo a diretora Allison Johnston. Investindo no lado mais cerebral da dance music numa canção que poderia ser definida como um mix improvável dos pioneiros Silver Apples com o injustiçado Add N To (X), "Bird Brains" pode não soar familiar ao ouvinte médio numa primeira audição, mas leva pouco tempo para a estranheza viajar do cérebro para os pés.

"Bird Brains": entortando a dance music.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

More Trumpet!


Começa a tomar forma o novo álbum dos californianos do Capital Cities. Em Setembro do ano passado rolou o bom single "Vowels" e há poucos dias os barbudos soltaram o EP Swimming Pool Summer, com quatro faixas zeradinhas e um remix. A faixa título tem tudo pra emparelhar com a excelente "Safe And Sound", de 2012 - até agora, o maior hit de Ryan Merchant e Sebu Simonian. "Swimming Pool Summer" repete o trompetinho característico do som do duo que pontua a bela melodia e a gostosa levada de violões e guitarras da canção. "Drop Everything" tem mais cara de EDM rasteira, mas os bons vocais da dupla e o trompete (ele de novo) provam que bate um coração electropop atrás da pilha de sintetizadores. Em "Drifting", a guitarrinha funky e as intrincadas harmonias vocais garantem um ponto a mais para o EP, enquanto que nem o vacilão Rick Ross consegue estragar a boa "Girl Friday". Por fim, um remix totalmente dispensável de "Swimming Pool Summer" (THCSRS Remix), que lima o trompete e o som de caixa da bateria e deixa a coisa toda meio cambaleante. Saldo final: meio synthpop e meio indie, o Capital Cities se destaca da manada pelo pop eletrônico bem feitinho, dançável e delicioso de ouvir. Eu aposto que voa alto, de novo.



"Swimming Pool Summer": esmero pop.

domingo, 11 de junho de 2017

Garbage House



Não tenha dúvida que os DJs e produtores suecos Axwell e Sebastian Ingrosso conhecem música. Se o que eles fizeram em suas carreiras solo ou com o infame Swedish House Mafia (junto com Steve Angello) tem mais a ver com dance ordinária ou com uma linha de produção de música de pista, você decide. Eu não gosto. 


Nem sabia que Axwell e Ingrosso continuaram gravando como dupla, depois do fim da máfia sueca da house, em 2013. Descobri essa semana, quando o EP More Than You Know caiu na minha timeline no Facebook. Isso me fez pensar que: 1) preciso dar uma filtrada no feed e 2) qualquer informação é válida, assim posso falar mal sem o remorso do "não ouvi mas não gosto".

Bom, "More Than You Know", a faixa título, engana bem. Durante seis segundos. É o tempo da introdução com uma guitarra escovada que parece preceder uma faixa funky e grooveada. Mentira. O refrão entra rachando, mesmo antes de qualquer estrofe. É o método Dr. Luke de composição de hits: não pode se perder muito tempo até chegar ao refrão. Nenhum tempo. Cinco segundos e olhe lá. Não tive paciência pra contar quantas vezes o refrão é repetido pelo insípido e desconhecido cantor (hahaha) Kristoffer Fogelmark, até porque esse é um dado irrelevante. "More Than You Know" é mais desse lixo EDM que você ouve por aí (casualmente ou não), de produção estrondosa pra funcionar bem nos fones de ouvido ou nos PAs bombados das pistas mais top (argh). Com "Renegade", parece que a coisa vai engrenar num acento de house francesa, de baixo elástico e vocais da dupla Salem Al Fakir e Vincent Pontare (?) maquiados por um filtro para, provavelmente, corrigir alguma deficiência. "How Do You Feel Right Now" e "Dawn" são o suprassumo da dance music eletrônica mais rasteira possível. A primeira com drops calculados, pausas que se limitam a repetir o título da canção e intervalos pra colocar as mãos pro alto. A segunda, uma melodia de synths "pra cima" obviérrima, que lembra vagamente algo que um dia se chamou progressive, mas hoje rotular isso como garbage house cai como uma luva.

No final da audição de More Than You Know, lembrei do álbum We're Only in It for the Money (clássico do Mothers of Invention de Frank Zappa, que completa 50 anos em Março do ano que vem). Claro que a lembrança não tem nada a ver com música e sim com o título. Sem a ironia de Zappa, claro.

"More Than You Know": jatinhos e mãos pro alto.


terça-feira, 30 de maio de 2017

Nova Aparição de Fatima


Fatima Yamaha é um projeto de house e electro do holandês Bas Bron que não é lá muito prolífico em relação a sua produção. São onze anos de distância que separam o primeiro (2004) do segundo single (2015), até que ele resolvesse gravar um álbum. Agora em 2017, Bron retorna com Araya EP (Dekmantel), com um som que preserva as características de sua pequena e curiosa discografia, até aqui.

Araya tem a faixa título estendendo-se por seis minutos de tech house sci-fi instrumental, com arpejos sustentando os belos timbres de sintetizadores old school e condução rítmica 4x4 (usando o velho truque das palmas na caixa), que deixa tudo com cara de space disco à la Cerrone/Patrick Cowley (e funciona).

"Piayes Beach Bar and Grill" tem um ritmo mais engrenado - culpa do baixo sintético funkeado, mas monocórdico - e uma cama macia de teclados esvoaçantes em segundo plano. O pecado aqui é o timbre meio estridente do sintetizador que vai solando durante a faixa, que quase põe tudo a perder. Já a desnecessária "Romantic Bureaucracy" tem cara de lado B, mesmo: sons de piano bem reais na base, mas um teclado irritante no tema principal.



A julgar pelas três faixas de Araya EP, até que Bas Bron não está tão errado em lançar seus discos sob o pseudônimo Fatima Yamaha de forma homeopática. Sorvidos aos poucos, os EPs descem redondinho. Já um álbum inteiro (Imaginary Lines, de 2015) deixa um indelével sabor retrô na garganta que não significa exatamente que a experiência foi boa.



segunda-feira, 29 de maio de 2017

Fool's Gold



Aos fãs mais empolgados do músico e produtor britânico William Bevan (a.k.a. Burial), um aviso: nem tudo que ele toca vira ouro. Fato é que ficamos mal acostumados com a excelência de seu dubstep sombrio e indecifrável, a saber, perpetrado num álbum muito bom (Burial, de 2006) e em outro, à centímetros da perfeição (Untrue, 2007). De 2007 pra cá, só EPs e alguns singles gravados com gente como Four Tet, Thom Yorke e Massive Attack, com resultados não tão impactantes quanto as canções contidas em Untrue, mas bastante interessantes.



 O EP Subtemple (Hyperdub) saiu agora em Maio, em quatro formatos de áudio digital (AIFF,  ALAC, FLAC e MP3) e num vinil 10 polegadas. As duas faixas, "Subtemple" e "Beachfires", são longas (7:23 e 9:54 minutos, respectivamente) e não diferem muito uma da outra. No geral, é um experimento de música ambiental de tons escurecidos por synths e ruídos desordenados de estética glitch, com um sample vocal cadavérico em "Subtemple" e sintetizadores celestiais/ameaçadores em "Beachfires". Não vai faltar gente pra dizer que é genial, pós-qualquer coisa ou o surrado clichê "música que desafia rótulos". Eu achei chato e pretensioso pra cacete. São 18 minutos de tensão, sons perturbadores e suspense que, na versão em LP, devem fazer os estalos e cliques do vinil soarem mais interessantes que a música, propriamente dita. Algo me diz que a soberba já anda frequentando os trabalhos recentes de Burial. Só isso justifica provocar o ouvinte desse jeito.
 

"Subtemple"/"Beahfires": teste de paciência.

domingo, 28 de maio de 2017

Mesh Up


Você, jovem (ou nem tanto), fã ardoroso de technopop e que anda decepcionado com suas bandas preferidas (Erasure, Pet Shop Boys, Depeche Mode), saiba que o Mesh continua na ativa entregando trabalhos deliciosos. Álbuns redondinhos (Looking Skyward, o mais recente, é do ano passado) e singles idem. 

Mês passado a dupla de Bristol soltou o EP Runway (Dependent Records), com a faixa título extraída de Looking Skyward (aqui acrescida de um remix), mais uma inédita e um cover do Yazoo. "Runway" junta com maestria alguns elementos que os fãs do gênero apreciam: uso inteligente da eletrônica, acessibilidade, intensidade. É uma grande canção synthpop, com um belo gancho de sintetizador e um refrão que merece ser conservado na memória. A versão Club Class Mix não é nenhuma radicalização em cima do original; só ganhou mais extensão, arpejos de baixo, efeitos e um bumbo mais amigável às pistas de dança. As duas faixas extra nem de longe lembram algo que se pareça com um lado B: "Too Little Too Late" é um tanto enegrecida pelos sintetizadores, mas a construção das estrofes até chegar ao refrão de tom épico é digna de nota. "Tuesday" é um ótimo cover do Yazoo, transformando o minimalismo gelado (e espetacular) de Clarke/Moyet em hit de pista gótica. 

Esqueça os medalhões preguiçosos. Adote o Mesh.


domingo, 21 de maio de 2017

ReMoby



A bem da verdade, Richard Melville Hall (a.k.a. Moby) tem uma discografia bem irregular, no que tange aos seus álbuns. São poucos discos que mereçam uma audição completa com satisfação garantida. Com o sampler como artista principal, Play (1999) com certeza é o seu melhor trabalho (não por acaso, foi também o que o levou ao estrelato e o que mais vendeu). 18 (2002) está quase lá, com boas canções e diversos convidados que garantem uma diversidade rara de se encontrar num álbum de eletrônica. Seu debut autointitulado de 1992 trazia a força do techno ainda em expansão e a energia das raves para a sala de estar, com o frescor da novidade superando o próprio conteúdo, em si. Depois de 18, Moby tem entregado álbuns cada vez mais sonolentos e pouco inspirados, com um ou outro single digno de nota.

Não sei se essa inconstância ou alguma outra coisa pôs Moby a apertar o pause e repensar sua carreira, mas desde o ano passado começaram a pipocar singles e EPs de remixes de suas faixas mais emblemáticas, por diversos artistas e selos diferentes. Ouvi dois destes EPs recentes, com resultados totalmente desiguais.

Black Lacquer (2017, Fool's Gold Records)


Quatro remixes num EP desastroso. Ashley Jones (Treasure Fingers) pasteurizou "Go" com pianinhos manjados, bleeps sem graça e ainda deixou a base de strings original (chupada de "Laura Palmer's Theme", de Angelo Badalamenti) em segundo plano, bem discretinha. Praticamente matou a música. "Why Does My Heart Feel So Bad?" (Madeaux Remix) virou um monstro EDM desprovido de emoção, High Klassified só editou o sample vocal de "Natural Blues" pra encaixar na sua house monótona (que não chega a três minutos) e Nick Catchdubs (DJ, produtor e cofundador do selo que lançou este EP) não poderia ter feito programação de bateria pior (algo próximo ao hip-hop) pra usar na sua visão de "Porcelain".




The Drum & Bass Remixes (2017, Shogun Audio)

Aqui a coisa muda de figura. The Drum & Bass Remixes foi encomendado para o selo britânico de drum'n'bass Shogun Audio para ser usado como parte da campanha promocional do livro de memórias de Moby (Porcelain, que saiu no ano passado) e o que temos são radicais e inventivas recriações por parte do cast da gravadora. A flutuante "Natural Blues" (Icicle Remix) é um bom aquecimento pro liquid funk atmosférico do Technimatic em "Why Does My Heart Feel So Bad?", continua acelerando com a nervosa "Go" (Fourward Remix) e relaxa de novo entre ambient e liquid em "Porcelain" (Pola & Bryson Remix). É assim que se faz.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Melhores do Ano - Músicas (#11: Aphex Twin)


Em 2016, Richard David James deu as caras duas vezes com o seu alter ego mais conhecido, Aphex Twin. No final do ano, foi o single Houston, TX 12.17.16, quinhentas cópias prensadas com duas faixas de techno árido e irregular. Só para os fãs xiitas. Alguns meses antes, em Julho, o artista irlandês jogou no mercado via Warp o EP Cheetah, seis faixas desafiando o sintetizador Cheetah MS800 - um dos mais complicados de se programar existentes. O que Aphex Twin consegue extrair desse synth no EP resulta em células suaves, quase dançantes, em arranjos que privilegiam batidas econômicas e grande variação de timbres. Ou seja, James constrói uma muralha de sons com poucos tijolos. Minha preferida do disco é "CIRKLON3 [ Колхозная mix ]", mas poderia ser "CIRKLON 1", "2X202-ST5" ou "CHEETAHT7b", que todo o ano de trabalho de Richard D. James já estaria justificado.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

À Imagem e Semelhança


DJ, músico e produtor de Londres, Jamie Paton debutou no meio de 2013 com o EP Bizarre Feeling: uma dance meio retrô, mas sem sabor de coisa requentada. É possível? É. Trata-se de um mix de house, synthpop e new wave com bom uso de referências do passado e um verniz eletrônico que deixa tudo com cheiro de atemporalidade e não de mofo. Saca o baixo monocórdico, os synths nos lugares certos e os vocais sonolentos de "To The Light":



"Ju Know" não fica atrás. Do arpejo hipnótico no segundo plano à percussão em camadas até o baixo mutante da TB-303, são sete minutos e meio de viagem meio new beat meio italo-disco.



A melhor do pacote é a faixa título, sem dúvida. Se me dissessem que é uma faixa inédita do New Order gravada em 1982 e encontrada num tape de rolo numa gaveta do porão do estúdio do Arthur Baker, eu acreditaria.



PS.: gracias ao sempre atento Thiago Giardini por compartilhar o achado.

sábado, 31 de outubro de 2015

Drumba News


Não se assuste. Ringo e Paul não gravaram um disco de jungle. A figura é meramente ilustrativa. Negócio é que o drum'n'bass nunca estourou em escala planetária e ainda mantém-se muito popular no Reino Unido, mas com focos espalhados em doses homeopáticas no mundo todo. O que, de certa forma, é saudável para o gênero, já que superexposição mata, sem dó. Abaixo, alguns bons lançamentos que me chamaram atenção recentemente.

"Revolve-Her" > Alix Perez



Na ativa desde 2005, o belga Alix Perez já lançou uma batelada de singles e dois álbuns. Sua faixa mais recente, "Revolve-Her", não foge do liquid funk a que seu nome está constantemente associado. Teclados atmosféricos e enxertos vocais filtrados são adicionados de forma moderada, numa track boa pro sofá e pra pista.

 Dreamz Dub EP >  Calibre


Calibre (o irlandês Dominick Martin) mantém o alto nível de suas produções com mais um EP excelente. Dos vocalizes oníricos da abertura "Another" e do encerramento "Believe It" ao clima opressivo que os sintetizadores da faixa título sugerem, Calibre não se apega à mesmice das batidas, explorando o potencial das baterias na mesma medida em que forra tudo com graves que desafiam o capacidade dos alto-falantes.

Savage Circle EP >  Klute



Não é de se estranhar que o DJ e produtor britânico Tom Withers também seja compositor, baterista e vocalista da banda de punk/hardcore The Stupids (onde ele assume o alter ego Tommy Stupid). Seu recente EP Savage Circle saiu pelo histórico selo Metalheadz (fundado no meio dos anos 90 por Goldie e pela dupla Kemistry & Storm) e alterna momentos de fúria ("Westernized", "Mirror") com passagens totalmente ambient ("Arboretum"). A linda "Just What You're Feeling", funde os ataques brilhantes de percussão com a calmaria das cordas sintéticas.

Velocity EP > Nexus & Tight



Outro artista vindo da Bélgica, Tim Cox não se prende somente ao drum'n'bass: já tem no currículo lançamentos que incluem deep house, progressive, techno e até lounge. Seu alias Nexus & Tight (que é somente o nome do projeto, não uma dupla) assume a faceta drum'n'bass com muita competência. Velocity EP saiu em Setembro - a despeito de constar como Radar EP no Soundcloud, vai entender. O que temos são três faixas com nítidas influências de Netsky e Alix Perez, claramente direcionadas para o liquid funk. "Velocity" tem um riff/gancho de sintetizador repetido ad infinitum, enquanto "Prism" e "Spectrum" vem com baixíssimas frequências sustentando as variações da melodia.

 Flashbulb EP > Technimatic



Formado pela dupla inglesa Pete Rogers and Andy Powell, o Technimatic trabalha com as batidas velozes do drum'n'bass envolto em paisagens sonoras cinematográficas e detalhistas. Seu EP mais recente é Flashbulb (saiu em Julho) e traz a participação da misteriosa Lucy Kitchen na ótima "Secret Smile". A faixa título namora o dubstep, mas em "Dirty Hands" e "Remember You", a lenha queima com vontade.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Caras Novas: Barotti


A gravadora alemã Gomma Records vende seu novo peixe como um mix de Funkstörung, James Blake e peças sinfônicas. Um blend entre eletrônica e música clássica. E, talvez com um certo exagero, diz ainda que o músico e artista multimídia Barotti "criou seu próprio gênero de música". É techno esquisitinho e nubladão, mas nada que o martelo da Pampa Records já não venha batendo há um tempo. Seu single de estreia She Once Knew é, de fato, bem interessante. Tem a faixa título mais afeita à pista de dança (turbinada por um bom remix de Massimiliano Pagliara) e um lado B quase ambient, com beats quebrados e belas intervenções de cordas. Não é nenhuma revolução, mas é uma brisa fresca para os cansados ouvidos dos clubbers do planetinha. Periga emplacar.

Barotti: das galerias de arte para o estúdio.


terça-feira, 20 de outubro de 2015

Moço de Fino Trato


Altamente recomendável o segundo volume da série Quantum Physical EP, do multi homem Sam Sparro. Cantor, produtor, compositor e talentoso remixador, também, Sparro é elegância pura na abertura "In Your Heaven", que instrumentalmente revive os áureos tempos do M People. "Hands Up" e "On My Mind" evidenciam os vocais soul do australiano, em levadas dançantes de house charmosa e orgânica. A baladona "We Won't Need Anything but Love" encerra o EP e resume o trabalho: classudo e muito bem produzido. Sparro há muito vem mostrando que é um cara acima da média no pop atual. Merece bem mais reconhecimento.

"In Your Heaven": finesse.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Boring Creations


Pouquíssima inspiração no mais recente EP do meio chefão da Hot Creations, Jamie Jones (que, curiosamente, saiu pelo selo Cajual Records, de Chicago). This Way EP foi lançado somente em versão digital e divide-se em três faixas de tech house bem ordinário. A faixa título tem um riff de sintetizador que não faria feio num disco do 2 Unlimited. "Baloo" é dance genérica, house de linha de montagem tipo Jay Lumen. A soporífera "Ikki" é pra causar debandada geral na pista, mesmo. O próximo, Jones.
This Way EP: tudo errado.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Zumbizeira


Depois de dois álbuns pela 4AD (os ótimos Dedication, de 2011 e With Love, de 2013), o produtor britânico Zomby assina com a XL Recordings (que tinha no Prodigy uma de suas moedas fortes, até 2004) e, de cara, já programa dois EPs que vão ser lançados no formato doze polegadas no finalzinho de Outubro: Let's Jam 1 e 2.

Let's Jam 2
é o Zomby habitual, um geniozinho eletrônico dubstepeando em graves absurdos e fazendo chover estalactites de sintetizadores no seu fone de ouvido.

Let's Jam 1 é a prova do talento e da versatilidade de um dos caras mais interessantes da música sintética atual: experimentos com
beats irregulares ("Slime") e acid house (as outras três faixas), resultam numa das melhores músicas já gravadas por Zomby: "Surf I". Com um baixo sedutor, teclados circulares e um sample vocal cavernoso, é também uma das dance tracks mais fortes que ouvi em 2015.

"Acid Surf": uma das oito inéditas de Zomby em 2015.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Aerohouse


Numa palavra? Eficiência. O novo EP do Aeroplane (o DJ e produtor belga Vito de Luca), Page One Is Love (saiu pela Eskimo Recordings), traz duas inéditas (bem parecidas entre si) e dois respectivos remixes. “Page One Is Love” tem a moral de ter o título sussurrado por Jamie Principle, o autor do monolito "Your Love". É um lindo pedaço de piano house com bassline simples e envolvente, caminha de synths que mantém a temperatura acima dos 30ºC e vocalizes sonhadores. Já a irmã gêmea "Dancing With Each Other" mantém o clima baleárico, com bleeps sintéticos substituindo as marteladas de piano. Ambas muito boas. Os remixes de CASSARA (para "Page..") e Ten Ven ("Dancing...") são pequenas variações para os temas, com alterações das linhas de baixo: CASSARA deixou as quatro cordas mais robustas, enquanto Ten Ven optou por uma mixagem quase acid. Beleza de disquinho.

“Page One Is Love”:


"Dancing With Each Other":