SkalpelsãoMarcinCichyeIgorPudlo, DJs e produtoresde Wroclaw, Polônia. A onda deles é jazz, mas não é uma trip de músico: a dupla sampleia tudo de vinis poloneses de décadas passadas e salpica algumas batidas aqui, uns loops ali e em alguns momentos, reforça os grooves com sintetizadores, pra recriar o jazz à sua maneira.
O duo assinou com a gravadora Ninja Tune (de propriedade do Coldcut) no começo dos anos 2000, embora esse Simple EP tenha saído no começo de Maio pelo selo PlugAudio.
As quatro faixas de Simple são uma cinematográfica viagem ao passado, mas com embalagem de future jazz. Com recortes precisos (os samples de "On the Road" são brilhantes) e clima enfumaçado ("Soundtrack"), o Skalpel pratica o sampling criativo, coisa rara para os fatigados usuários do Akai MPC de hoje em dia. "Simple":
St. Germain é o músico francês Ludovic Navarre. Acid Jazz, Nu Jazz... é essa onda aí, jazz houseificado, cordas e metais costurados com loops, samples e beats digitais. Seu álbum Tourist, de 2000, entupiu os cofres do tradicional selo Blue Note: vendeu inacreditáveis 4 milhões de cópias.
É de Tourist o monumental single "Rose Rouge", sete minutos de improvisos de sax e trompete com baixo, elementos de bateria e piano emprestados da fenomenal "Take Five" do pianista Dave Brubeck, mais o vocal sampleado e de tom ligeiramente alterado de "Woman Of The Ghetto", de Marlena Shaw.
O De-Phazz é cria do produtor alemão Pit Baumgartner; uma fusão de jazz e música eletrônica que não dispensa soul, lounge, música latina e house music em sua fórmula.
Puristas costumam torcer o nariz para bandas nu-jazz como o De-Phazz, porque dizem que a precisão matemática dos beats sintéticos acaba com a espontaneidade e improviso, inerentes ao jazz. Besteira. Seu mais recente disco, Audio Elastique, é mais uma coleção refrescante de temas cool embalados por flautas ("What's The Word For Memory"), pianos sinuosos e trompetes em surdina ("Our Relationship"), sax ("Dog Run") e até uma faixa cantada em alemão ("Manner Die Pokale Kussen"). Pra uma segunda feira que pesa uma tonelada, Audio Elastique desce macio e relaxa.
"Our Relationship": clima de filme do Humphrey Bogart.
O prolífico austríaco Marcus Füreder não para. Quando não está discotecando ou apresentando-se em clubes e festivais com sua banda, ele produz o que há de melhor hoje em dia na rebolativa fusão swing jazz/eletrônica.
E é como Parov Stelar que Füreder acaba de lançar mais um discão: The Princess saiu no finalzinho de Abril e felizmente mantém o padrão de suas produções anteriores. Se você já ouviu e não achou nada muito inovador, preciso rebater te perguntando como e porque Parov Stelar viria com um disco que não fosse de electroswing - um gênero relativamente novo e que tem na figura do próprio Füreder um dos seus criadores? The Princess é um álbum duplo e vem recheado de temas jazzísticos e levemente houseificados: experimente o mix certeiro de scratches, metais e piano minimalista já na segunda faixa ("All Night") ou a levada um tiquinho mais pop de "Nobody's Fool" - com vocais da cantora da Parov Stelar Band, Cleo Panther - e uma linha de baixo inacreditável no refrão. Não sei como Füreder consegue recriar uma orquestração tão fiel ao swing jazz dos anos 30 (em "Silent Shuffle") ou se isso é resultado de trechos originais brilhantemente sampleados, mas que o efeito é sensacional, é. Os violinos de "You Got Me There", o violoncelo de "The Beach" e o piano elétrico, baixo acústico e sax de "Song For The Crickets" garantem uma rica diversidade instrumental ao disco em canções mais contemplativas e que nem sempre são destinadas aos quadris. O disco 2 traz faixas extras ou que saíram exclusivamente em vinis, estas sim, todas voltadas para a pista. BPM alto e grooves de entortar o cangote em "Jimmy's Gang", "Sally's Dance" e "Baska Brother". Stelar até arrisca um flertezinho com a disco em "Oh Yeah" e tira o pé do acelerador em "Booty Swing" para invadir a TV americana num anúncio do resort e cassino The Cosmopolitan de Las Vegas. Suinga Stelar, suinga!
Eu desconfio de qualquer coisa que receber o rótulo IDM. Ainda não vi essa tag destinada ao Floating Points, mas imagino os dedos de gente que escreve sobre o projeto do britânico Samuel Shepherd coçando pra classificar assim o trabalho do cara.
OK, aqui a gente encontra experimentalismo, beats desengonçados e timbragens incomuns, mas dance music? Não. Seu EP mais recente (Shadows) não encontra paridade com bandas como Autechre, mas também não ficaria tão deslocado assim se estivesse na mesma prateleira. O que temos nas cinco faixas são longas trips instrumentais onde há um esqueleto por vezes linear como em "ARP3", onde a base garage pavimenta o caminho para o piano elétrico Fender Rhodes duelar com a linha de baixo durante os nove minutos da canção. Quando a polirritmia é que rege a estrutura, Shepherd causa uma espécie de desonrientação temporária com as baterias estilhaçando o andamento de "Realise" e "Obfuse". Jazzístico e delicado, Shadows já se pagaria só com duas faixas: "Myrtle Avenue" e "Sais" são dois exemplos de bom gosto na escolha dos timbres e talento para juntar eletrônica e experimentação num formato anti-pop na duração, mas perfeitamente digerível para simples amantes da música eletrônica.
"ARP3": o nome é ARP, mas pode chamar de Fender Rhodes.
Gravando singles house/electro desde 2001 sob o pseudônimo Plasma ou assinando a autoria dos trabalhos com seu próprio nome, foi só em 2004 que o austríaco Marcus Füreder decidiu direcionar sua música para a house com fartas doses de jazz. A partir daí, ele assume o alter ego Parov Stelar e funda seu próprio selo - especializado em jazz eletrônico, o Etage Noir Recordings. E desde o seu primeiro 12”, Füreder vem mantendo um padrão de qualidade que impressiona: são vários singles e EPs e quatro álbuns de material inédito (incluindo o recente “Coco”, lançado em 14 de Setembro) explorando o lado mais enxuto da eletrônica aliado a samples irreconhecíveis de ritmos até então conservados em formol, como o ragtime. Parov Stelar forjou uma sonoridade única, facilmente identificável – e mais fácil ainda de ouvir. Seu trabalho mais equilibrado até agora é justamente “Coco”. O disco abre com a faixa-título puxada por um piano melancólico, vocais tristes mas contidos da também austríaca Lilja Bloom (cantora do selo de Füreder) e violinos que aparecem e somem no meio das batidas quebradas. A diversidade aparece nos trompetes com surdina de “Hurt”, nas clarinetas e no swing algo Benny Goodman de “For Rose”, na levada pop, scratches, teclados e vocais filtrados de “True Romance”. E o que é o clima de bar jazz enfumaçado no começo de “Distance”, com o belíssimo timbre de Eva Klampfer e que recebe uma base de sintetizador e se transforma numa faixa tecno? E o baixo galopante, piano elétrico e improvisos jazzy em “Wake Up Sister”? Há ainda jazz rap em “Sunny Bunny Blues”, a big band cibernética de “Your Man”, a quase rock “You And Me” e mais os extras do CD bonus, que incluem faixas de singles ultra-dançantes como “Libella Swing”. Uma ótima oportunidade para conhecer o esmerado trabalho de Parov Stelar: mais um disco de future jazz acessível, eclético e que vai muito além das trilhas lounge de encomenda.
Cafajestes aos montes e mulheres mais lindas que a realidade habitam o vídeo de "Coco":