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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Retrovisor


Vira e mexe, leio sobre o Meat Beat Manifesto, ouço alguma coisa ou um vídeo vai parar aleatoriamente em algum playlist do Youtube. Ativo desde 1987 e apesar da banda ser considerada uma relevante influência para a cena eletrônica britânica (especialmente o drum'n'bass) do começo dos 90, o som nunca me chamou atenção - ao contrário de pares como Squarepusher, Aphex Twin e μ-Ziq. Com todo respeito, provavelmente porque não mereceu.

Aparentemente, Jack Dangers (cofundador e único membro original remanescente) é quem está tocando sozinho o projeto e em Janeiro, teve disco novo. Impossible Star (capa acima) é o primeiro álbum do MBM em oito anos (saiu pela Flexidisc, uma subdivisão do selo Tino Corp., do próprio Jack) e, estranhamente, parece um passo atrás para uma banda eletrônica que, teoricamente, deveria estar olhando pra frente. São treze faixas que passeiam pelo jungle torto ("Bass Playa"), big beat caótico ("Unique Boutique"), techno sombrio ("The Darkness", "Lurkers", "Synthesizer Teste") e experimentalismo árido ("Liquidators", "Rejector"). Tinha tudo pra ser um trabalho interessantíssimo - se tivesse sido lançado em 1992.

Impossible Star: nenhuma novidade no front.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Who Almost There


Bem consistente esse Through The Walls, novo disco do trio dinamarquês WhoMadeWho (2018, saiu pela prestigiada gravadora alemã Gomma Records). Já ouvi outros álbuns da confusa discografia da banda (iniciada em 2005), mas nada que merecesse ficar armazenado em alguma gaveta menos acessada do meu cérebro.


Mesmo com alguns (poucos) momentos de experimentalismo estéril como a chatíssima "I Don't Know" ou a indecisa "Surfing on a Stone" (uma pretensiosamente delicada balada bem ao gosto dos fãs do - argh - Coldplay), Through The Walls está quase lá (mesmo que eu nem saiba exatamente onde é "lá"). Músicas totalmente dançáveis como "Dynasty" e "Funeral Show" (a despeito do título) e seus basslines à Peter Hook, puxam a média pra cima. Há ainda incursões pelo synthpop (na belíssima "Goodbye to All I Know" e sua variada paleta de timbres), farta distribuição de criatividade nos sintetizadores ("Keep On", "If This Is Your Love") e transito livre entre o indie rock e a eletrônica. Vale conhecer.


"Dynasty": um dos (muitos) bons momentos de Through The Walls.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Frustrante


Pra você que perdeu o début do Trickfinger (homônimo, 2015), saiba que conhecer o projeto-de-um-homem-só de John Frusciante já por esse segundo álbum, recém lançado pelo selo americano Acid Test, não faz a menor diferença. 

Com duas músicas a menos que o seu predecessor de 2015, Trickfinger II não surpreende o ouvinte quando se descobre que as faixas são todas da mesma época (2007, no caso) e que Frusciante nem pensava em lançá-las "oficialmente". Fato é que o disco de seis temas instrumentais repete a ideia central da faceta eletrônica de Frusciante: acid house experimental com um acabamento propositalmente primário, onde tudo soa como se fosse um live P.A. gravado e mixado sem overdubs ou pós-produção de nenhum tipo (os solos de improviso fundidos às mil e uma variações da TB-303 em "Ruche", deixam isso bem claro).

Os únicos momentos de Trickfinger II que perigam ficar na memória são - para o bem - "Exclam", com seu esqueleto dorsal serpenteante em forma de arpejo de sintetizador que percorre toda faixa e, por cima disso, timbres acid que derretem e voltam a forma original em centésimos de segundo e - para o mal - "Hasan", onde Frusciante nitidamente perde a mão nos botões do equipamento e acavala programações de bateria e sintetizadores numa maçaroca ininteligível. Apenas como curiosidade, "Cuh" é uma tentativa techno-nostálgica que não faria feio no catálogo da Metroplex em 1987.

Lançar um disco desses em pleno 2017 não deixa de ser louvável e corajoso (por tudo que, digamos, Frusciante representa), mas convenhamos, se é pra ouvir uma aparente jam session freestyle assim, em forma de álbum, melhor catar os vídeos que o A Guy Called Gerald posta em seu perfil no Facebook.


"Exclam": um dos raros bons momentos de Trickfinger II.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Nostalgia Futurista


Voyager, quinto álbum do Vitalic (o produtor francês Pascal Arbez-Nicolas), saiu no começo do ano e parece já ter envelhecido uns dez anos. Na verdade, metade desse tempo se passou desde o último dele, o fraco Rave Age, mas a sensação de déjà-vu é constante durante os 42 minutos do novo disco.

Não que isso seja ruim, afinal não tem nada no techno atual que não soe como reciclagem. O problema - mais uma vez num disco do Vitalic - é que Voyager oscila demais. O techno espacial (evidenciado pela arte de capa, título, temática das canções e timbres usados) perpetrado por Arbez tem ótimos momentos de inspiração eletrônica e nostálgica, como em "Waiting For The Stars", com arpejos pesados de baixo sintético (que impulsionam uma grande canção pop dançante) ou "Levitation", que é mais Chemical Brothers que o próprio Chemical Brothers recente, embora a colisão de sintetizadores tenha me lembrado de cara "It's More Fun To Compute", do Kraftwerk (1981). A tristonha "Hans Is Driving" (com um vocoder lânguido e vocais "reais" de Miss Kittin) caberia em qualquer álbum do AIR e com um bom fone de ouvido é possível ainda perceber sutilezas como um lindo coral celestial no segundo plano. "Use It Or Lose It" também não faz feio, mais enérgica e dançável que a média do disco. Ainda da metade apreciável de Voyager, "Don't Leave Me Now" é um belo encerramento; uma delicada e emotiva faixa (coproduzida por Roger Hodgson, ex-Supertramp), que parece ter sido gravada na solidão-conforto de uma estação espacial. Os maus momentos passam por "Lightspeed" e seu riff de sintetizador grosseiramente baseado em "Funkytown" do Lipps, Inc. (1979), pela viagem prog sem sal de "Nozomi", a pretensão barroca de "Eternity" e a trôpega "Sweet Cigarette".

No fim das contas, ignorando algumas faixas (ou tentando ter mais paciência do que eu tive), Voyager é uma boa audição. Seu lado mais experimental soa árido e pedante, não acho que seja a praia de Vitalic. Já quando ele usa o que parece ser uma bela coleção de sintetizadores vintage para compor canções de inegável apelo pop (como "Waiting For The Stars" e "Don't Leave Me Now"), o resultado é altamente positivo. No mínimo, dá pra dizer que Voyager é bem melhor que seu antecessor e, ao menos, não caiu na vala comum EDM.


 


"Waiting For The Stars": nostalgia futurista.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Melhores de 2016 - Discos (#04: Autechre)


O anúncio da Warp Records feito ano passado dando conta de que o novo álbum do Autechre não teria edição física, foi sintomático. elseq 1–5 (décimo segundo álbum da dupla) é uma obra divida em cinco partes, vinte e uma músicas e... mais de quatro horas de duração. Sou capaz de apostar que a icônica gravadora inglesa não vai resistir aos pedidos dos fãs mais xiitas e periga lançar isso em vinil numa caixa com dez unidades. Negócio é que a ausência dessa, de certa forma, "barreira", imposta pelos formatos CD e LP fez com que o Autechre expandisse ainda mais seus limites - ou qualquer outro termo que o valha, já que aparentemente, a única fronteira encontrável na sua música é o tempo, mesmo. No processo, há três autobahns com mais de vinte minutos e nenhuma delas é absolutamente indispensável. "elyc6 0nset", em seus espantosos vinte e sete minutos, vai ruminando ruídos e efeitos sob uma batida desconexa até os dez minutos quando, a partir daí, se transforma numa chuva de blips e sons mecânicos gerados - há de se supor - aleatoriamente. "eastre" é um tanto mais atraente (mesmo passando dos vinte e dois minutos) e me fez imaginar como soaria uma orquestra de câmara com cellos sintéticos e robôs executando pacientemente os movimentos. Já "mesh cinereaL" traz um entra-e-sai de zumbidos eletrônicos alternado-se em seus intermináveis vinte e quatro minutos. Com extensão mais praticável, "feed1", a faixa que abre o disco, foi também a primeira a ser divulgada (foi levada ao ar pela BBC Radio 6 alguns dias antes do lançamento do disco), mas não que isso signifique acessibilidade ou amenização: são vários níveis de distorção no talo e rajadas de estrondos metálicos que dão a tônica do que vem a seguir. elseq 1-5 não é pra ser ouvido de uma tacada só. Pode ser sorvido em doses homeopáticas, até porque ele não tem uma ordem crescente ou uma sequência lógica de início, meio e fim que faça sentido. São, aparentemente, jams gravadas em longos improvisos baseadas em sua turnê recente e editadas para o disco (há quem diga que o significado de "elseq" seja "edited live sequences"). Então, tanto faz começar pela bateria eletrônica que dita o ritmo cadenciado para os timbres alienígenas da quarta faixa ("pendulu hv moda") ou pelo sentimento de isolação causado pela imensidão glacial criada pelos sintetizadores em "oneum", a última do pacote. Criando uma hipotética sequência menos áspera, poderia-se iniciar pelo 4X4 complacente de "freulaeux" (uma composição que ficaria confortável no catálogo da Kompakt); pela quase easy listening eletrônica de "foldfree casual" (onde o duo faz questão de pulverizar os tons amenos dos synths com pequenas interferências e ataques de bateria a partir da metade da música, eliminando qualquer referência ambient) ou ainda pelo compasso ritualesco de "TBM2", bem distante da batida cambaleante de "chimer 1-5-1", de causar vertigem. elseq 1-5 é um álbum pra ser descoberto aos poucos. No geral, é um Blade Runner em forma de música: ruidoso, futurista e sombrio, em que só uma audição cuidadosa e - em boa parte de suas quatro horas - paciente, vai revelar que Rob Brown e Sean Booth continuam extremamente relevantes no universo dos grandes techno-autores da atualidade, esse grupo limitado que inclui gente como Aphex Twin, Squarepusher e μ-Ziq. Errando e acertando no disco - o que causa momentos que vão da aversão à empatia imediata, mas nunca a indiferença -, a dupla mostra que ousadia, ambição e a inexorável vontade de experimentar, levam a música do Autechre muito mais longe do que a restrição do errôneo rótulo IDM faz supor. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Eletrônica Visceral


Disco novo do Squarepusher à vista: Tom Jenkinson anunciou essa semana o lançamento de Damogen Furies, programado para Abril pela Warp. Em seu site oficial, Jenkinson disponibilizou gratuitamente uma amostra do que deve ser seu próximo álbum, através do download de "Rayc Fire 2". Baseado em pelo menos metade das canções de Ufabulum - disco mais recente do artista, de 2012 - dá pra dizer que "Rayc Fire 2" é uma faixa que mantém uma das principais qualidades do Squarepusher: a capacidade de surpreender. Estruturalmente complexa e de movimentos inesperados, "Rayc Fire 2" é um experimento eletrônico agressivo de nada fácil audição. Uau.

37 segundos de "Rayc Fire 2": o resto, no site.

sábado, 22 de novembro de 2014

25 Anos à Frente


Responsável por boa parte do que de melhor se produziu na música eletrônica - dançável ou não - nos últimos tempos, a gravadora Warp completa 25 anos de atividades em 2014. Pra se entender um pouco da escala evolutiva e do pioneirismo do selo, o Bleep (site de vendas de música e afins da Warp) pinçou 26 faixas do invejável catálogo da gravadora originária de Sheffield para a coletânea Bleep Selects: 25 Years Of Warp.

Na contramão do pop e apostando sempre em artistas sem medo de experimentar, um dos primeiros singles lançados pela Warp, o marco techno de frequências de sub-grave inacreditáveis "LFO" (1990, do projeto homônimo do recentemente falecido Mark Bell), provou que a gravadora estava no caminho certo: 130 mil cópias vendidas e 12º lugar no paradão inglês. A música está na compilação, mas como a regra é incluir uma faixa de cada ano, fãs de dance music mais fervorosos (e com boa memória) vão sentir a ausência de "Tricky Disco", outro grande hit do selo do mesmo ano. Por outro lado, os nomes inclusos dão uma excelente amostra da importância da Warp para a eletrônica (Autechre, Nightmares on Wax, Boards of Canada, Aphex Twin, Squarepusher), ao mesmo tempo em que exibem o leque de possibilidades que a gravadora abriu com o passar dos anos (para o desespero dos puristas), ao abranger gente como Jamie Lidell, Grizzly Bear e Battles. Não sou saudosista, mas a metade anos 90 da coletânea surra sem dó os artistas da década seguinte. Admiro a postura firme e independente da Warp com relação ao seu cast e seus lançamentos, desde sempre, mas Grizzly Bear, Battles e Rustie não me convenceram ainda de que merecem estar nesta gravadora. De qualquer maneira, Bleep Selects: 25 Years Of Warp é uma aula sobre música eletrônica que não dá pra cabular.

"LFO (Leeds Warehouse Mix)": arrebentando (literalmente) alto-falantes mundo afora.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Lá Onde o Sol Não Bate


O sintomático refrão da música que abre o novo EP do chileno Matias Aguayo, "Run Away From The Sun", esclarece o tom sombrio de seu mais recente lançamento. Legende (saiu no começo do mês, pela Kompakt) adentra titubeante numa neblina techno experimental, sem rastro de luz, mesmo. "Run Away From The Sun" tem vocais melancólicos a despeito do ritmo dançante. Descendo a régua do pitch, a faixa título - pesada e instrumental - é a que mais se aproxima de algo que funcionaria numa pista de dança, mas acho que Aguayo não tá nem aí. "Lola In The City" é um passeio minimal em andamento lento por bleeps techno, que só não soa mais sinistra que o rolê do produtor pelos quatro misteriosos minutos de "Walty". Legende tocaria inteiro no Crepúsculo de Cubatão.


"Run Away From The Sun": nada animador.

sábado, 27 de setembro de 2014

Ocean Within The Bath


 Tenho um bode com o Baths simplesmente porque não sei como classificar o trabalho do mentor do projeto, Will Wiesenfeld. Não que essa aparente falta de direção seja motivo pra gostar ou não. Até porque, em seu mais recente EP, Ocean Death, Wiesenfeld continua tentando confundir seus esforçados ouvintes - o que é sempre bom sinal. Indie rock depressivo ("Voyeur") ou eletrônica torta ("Yawn"); deep house angelical ("Ocean Death") ou indie dance ("Fade White"), Ocean Death oferece, em apenas cinco faixas, mais variedade e informação que todo catálogo da Ultra Music. OK, aí é até covardia.

"Ocean Death": das profundezas.

domingo, 20 de julho de 2014

Igapó de Almas


Prepare-se para um mergulho profundo contra a correnteza da parca cena eletrônica brasileira atual. O Igapó de Almas vem do Rio Grande do Norte e conforme o nome do projeto indica (igapó é uma área de floresta que se mantém alagada, mesmo após as chuvas ou as cheias dos rios), reúne múltiplos elementos em suas águas e funde com rara precisão eletrônica e regionalismos em A, seu disco de estreia. Uma "mestiçagem musical", como a banda mesmo define.

Samples intrigantes flutuam na faixa de introdução "Afechadura"; lindas harmonias vocais (de Clareana Graebner) embelezam a riqueza instrumental de "A Bruxa no Trecho", emoldurada por sintetizadores, cellos, efeitos e guitarras limpas.


No enigmático texto recitado na breve "Ao Vomitório", a base funde-se às vozes num entra-e-sai de estática e ruídos sintéticos, até acabar de forma misteriosa. Em "A Maçã", a cantora Laya Lopes define: "meu samba é psicótico, meu baião é enfeitiçado", entre zabumbas e triângulos digitais. "Abruxa" traz guitarras serenas apoiadas por violão e teclados que voam mansamente de um canal pro outro do fone de ouvido. Talvez seja o momento mais desolador e bonito do disco.  

A, o disco, pode ser ouvido inteiro na página do Bandcamp da banda. Confesso que é de difícil categorização, mas isso realmente não importa. O grupo conseguiu realizar um trabalho em que experimenta com ritmos eletrônicos e regionais, psicodelia e música étnica, com letras especialmente bem feitas. E consegue resultados impressionantes, na maior parte do álbum. Conversei por email com integrantes do Igapó de Almas, que explicam melhor o processo:


Desse mix étnico-psicodélico-eletrônico de "A", quais as principais referências musicais da banda?

Sobre essa mistura que você citou e sobre nossas referências, a intenção primeira é construir novas variações musicais, a partir de conexões entre os ritmos étnicos oriundos da cultura brasileira: indígenas, caboclos & afro-brasileiros, juntamente com a psicodelia, o progressivo setentista, e alguns sub-genêros da música eletrônica como o trip-hop, downtempo, etc... Todos os envolvidos no Igapó de Almas são curiosos por sons, timbres, células rítimicas, então estamos sempre buscando.

Quais as fontes dos samples usados no álbum? São extraídos de sons ambientais in loco ou são trechos pré-gravados?

Hmm... sim, alguns samples ouvidos no álbum são sons que captamos in loco, na Floresta Amazônica.

Cinco das doze faixas do álbum tem participações de vocalistas convidados. Qual a solução para os shows?

No show nós contamos com a presença do cantor Tiago Landeira, que interpreta todas as canções. Enquanto que no disco, o processo de gravação das faixas cantadas se deu a partir de encontros em viagens, amizade e parceria.

Vocês sentem proximidade com alguém, musicalmente, na cena independente brasileira?

Nós sentimos uma afinidade com algumas criações da cena independente brasileira, no sentido de desejar realizar conexões. Mas por enquanto estamos à margem dessa mesma cena, uma vez que o material lançado ainda é muito recente. Seria um prazer construir interações musicais com alguém como Tom Zé ou Uakti, por exemplo.

Há planos para lançar "A" numa mídia física, ou o ambiente virtual é suficiente pra divulgar a banda?

O ambiente virtual não é suficiente, devido à efemeridade das relações virtuais. Na internet tudo é muito veloz, isso é positivo, mas também negativo, diríamos paradoxal. No entanto, tudo que tem acontecido até então é fruto do mundo virtual. Existem planos para lançar o álbum "A" num material físico (de preferência vinil). Mas para isso é preciso captar recursos ou estabelecer novas parcerias. Estamos nessa busca...





segunda-feira, 31 de março de 2014

Segunda Class: Com Truise


Com Truise ainda não me convenceu.

Seth Haley viaja na dele, perdido entre seus sintetizadores vintage e suas baterias eletrônicas retrô - ou em seus emuladores virtuais, vai saber. Fato é que seu novo EP, Wave 1, é mais farinha pro mesmo saco. Truise passa longe de noções como originalidade e seu som soa familiar, mas ele é incapaz de compor algo que te faça ter vontade de ouvir de novo, basicamente por que suas melodias e programações são processadas na região frontal do cérebro, as chamadas memórias de curto prazo. O que significa dizer que terminadas as sete faixas do EP, não se tem ideia de como é a primeira. Pra ser honesto, a única coisa que lembro de Wave 1 (e ouvi o disco várias vezes) é a guitarrinha com timbre New Order da faixa-título. É um disco até interessante, uma espécie de papel de parede sonoro pra deixar rolar enquanto há coisas mais importantes a fazer, tipo não deixar a cerveja esquentar. Mas com músicas tão semelhantes entre si, também pode passar totalmente batido. O que é péssimo pra um artista de eletrônica instrumental como Seth Haley.

Wave 1 inteiro em menos de meia hora: amnésia.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Segunda Class: The Orb

Paterson e seu atual colaborador, Thomas Fehlmann.
 Nunca é tarde pra descobrir o The Orb. Cria da mente mucholoca de Duncan Alexander Robert Paterson - Dr. Alex Paterson - e do visionário Jimmy Cauty (The KLF), o projeto apareceu no final dos 80 com um mix de eletrônica, dubismo, psicodelia e ficção científica. Com temas focados num tipo de som que fosse adequado pro descanso pós-gandaia dos ravers, a experiência resultou no surgimento da ambient house.   


O CD duplo History of the Future saiu em Outubro e compila boa parte dos singles do Orb pela gravadora Island no disco 1, e remixes no CD 2. Na versão Box Set, são três CDs mais um DVD com apresentações ao vivo, vídeos e parte de um show realizado em 1993, em Copenhagen.

O primeiro single do Orb, "A Huge Ever Growing Pulsating Brain That Rules From The Centre Of The Ultraworld" (com sample de "Loving You", de Minnie Riperton) aparece em duas versões (uma dançável, outra não), e ambas as faixas ganharam um fade out na metade da extensão de suas edições, assim como convenientemente foi feito com a fantástica "Blue Room", que não chega nem perto da duração original. Mesmo com impraticáveis 40 minutos (!), "Blue Room" (com uma impressionante linha de baixo de Jah Wobble) chegou ao número #8 no paradão inglês, em Junho de 1992 e catapultou o álbum U.F.Orb, inacreditavelmente, ao topo da parada, um mês depois. Outros tempos.

O veredicto é um só: se você não conhece muito bem o The Orb, History of the Future é absolutamente essencial.

"Blue Room (7" Mix)": boa de pista, boa de fone de ouvido.

sábado, 2 de novembro de 2013

Freud Tinha Razão


O britânico Jonathon Fogel provavelmente nunca ouviu Aphex Twin.

Seu EP mais recente, Matchsticks (que ele assina como Stray), é coisa de quem passa noites em claro com o nariz na frente do notebook fuçando em softwares envenenados pra produzir esse pseudo-drum'n'bass de batidas em convulsão. Em "Dropping Bombs" ele parece querer provar que pode rufar qualquer coisa com velocidade mais absurda possível. Richard David James já fez tudo isso há quase 20 anos, Jonathon, com a diferença de que ele tem um senso melódico invejável, algo totalmente ausente no teu EP. Em "Matchsticks", Stray desacelera e cai no clichezão do vocal com pitch lá no fim da régua. Tsc, tsc. Se depender de artistas com essa aridez musical como a que Stray apresenta, o drum'n'bass está com os dias contados. Sai desse quarto, guri. Vai transar, vai.

A irritante "Dropping Bombs": rufos sem sentido.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Acesso Restrito


Dono de um dos discos de eletrônica mais elogiados do ano passado - R.I.P., terceiro do músico britânico Darren Cunningham - Actress voltou à ativa recentemente com um single que faz jus à esquisitice do seu som.


Silver Cloud é inclassificável. "Voodoo Posse Chronic Illusion", a primeira faixa, passeia por longos onze minutos entre estática, ecos de industrial e um um riff canhoto que parece extraído das teclas de um velho Motorola PT-550 que estava esquecido em alguma gaveta. "Floating In Ectasy" (título sugestivo) é um réptil techno movendo-se lentamente num pântano de sintetizadores. "Silver Cloud Dream Come True" não melhora muito as coisas. Tome sete minutos arrastados num minimal andamento ritualístico, com algumas intervenções misteriosas (gritinhos abafados, disparos).

Actress não me convenceu. Admiro quem ainda insiste em percorrer caminhos sem pavimentação no macrocosmo da música eletrônica atual, mas transformar isso em algo audível ou minimamente aceitável é uma tarefa ingrata. Silver Cloud deve seduzir a crítica pela inacessibilidade. É uma leitura rasa, eu sei, mas pra mim, não passou de duas audições.

"Voodoo Posse Chronic Illusion": glitch ambient?

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Ode Ao Barulho


 Acabei de ouvir o novo do incensado Fuck Buttons, Slow Focus (o lançamento oficial é 22 de Julho). A capa do terceiro álbum dos britânicos Andrew Hung e Benjamin John Power é essa biju aí abaixo.


 Eu já imaginava como seria, mas resolvi arriscar. Preconceito não é comigo. Seria burrice não tirar um tempinho pra escutar o que potencialmente poderia ser um dos discos do ano, já que muita gente jogou Tarot Sport - o álbum anterior da dupla - em várias listas de melhores de 2009. Não rolou. Falta de paciência minha? Pode ser. Mas não vou ouvir de novo pra eliminar essa dúvida. O duo de Bristol dividiu 52 minutos em sete ataques carregados de dissonâncias, arpejos, minimalismo, distorção, desordem, caos, ou, se você preferir, em algo que chamam de drone - que pode ser definido atualmente como o fim da linha que divide eletrônica experimental e post-rock (esse rótulo é o máximo). É o equivalente sonoro da sua máquina de lavar centrifugando com o pé quebrado. La Monte Young deve estar às gargalhadas.

Slow Focus, inteiro no Youtube. Te propõe?

terça-feira, 21 de maio de 2013

A Encruzilhada


É um dilema que deve acompanhar Andy McCluskey (baixo, vocais) e Paul Humphreys (teclados, vocais) desde o fim dos anos 80, sempre que a dupla senta pra conversar sobre um novo álbum do Orchestral Manoeuvres In The Dark: o que fazer? Chutar o balde, radicalizar, tentar algo fora dos padrões ou jogar pelo regulamento que consagrou o technopop do grupo inglês?  


Em seu décimo segundo álbum de material original, o OMD optou pelas duas vias. Claro que English Electric nem chega perto do harakiri comercial praticado em 1983, quando a banda descobriu o sampler e o levou às últimas consequências no espetacular Dazzle Ships - uma incompreendida colagem de ruído industrial, transmissões radiofônicas, sintetizadores e vocoders, que causou rejeição categórica da crítica e afastou boa parte dos admiradores do bem sucedido disco anterior, Architecture & Morality. Mas este mesmo Dazzle Ships respinga em English Electric em algo além da arte da capa de ambos ter a autoria do gênio Peter Saville: nas vozes sintetizadas e sobrepostas e nos bips eletrônicos de "Please Remain Seated", "Decimal" e "Atomic Ranch", fica bem claro - embora McCluskey afirme que a referência para a estrutura vocal dessas faixas não esteja no próprio OMD, e sim na ópera Einstein on the Beach, de Philip Glass (de 1975). Se o Kraftwerk era assumidamente homenageado pelo OMD em Dazzle Ships (os vocais da faixa "Genetic Engineering" são uma óbvia alusão à "Computer World", dos alemães), em English Electric é "Metroland" que reproduz o arpejo hipnótico de "Europe Endless" e depois repete a dose mais lentamente em "Kissing The Machine" (a robôzinho apaixonada da faixa é Claudia Brücken, vocalista do Propaganda). O outro caminho percorrido pelo OMD leva à canções pop eletrônicas com bons ganchos de sintetizador, onde o afetuoso coração das máquinas bate devagar ("Night Café" e "Stay With Me"), ou acelera com a linha de baixo galopante de "Dresden". O OMD ainda mostra que sabe exatamente em que ano está (aqueles synths derretidos de "The Future Will Be Silent") e encerra o álbum com uma bossa futurista ("Final Song", com sample dos vocais de "Lonely House", da cantora de jazz Abbey Lincoln).

É preguiça mental ficar comparando este trabalho à obras anteriores do próprio OMD, ou à artistas como o Kraftwerk? De certa forma, é. Primeiro, porque McCluskey e Humphreys estão realmente se apoiando em coisas que já fizeram no passado, mas as idéias, hoje, são completamente diferentes. Então não dá pra acusar a banda de cópia ou autoplágio simplesmente por executar sua música da mesma forma que há 30 anos atrás. Ou, como disse Ralf Hütter quando perguntado se ele se sentia confortável pelo mainstream ter adotado seus métodos: "Como poderíamos mudar agora? Gastamos vinte anos neste tipo de trabalho. Não podemos dizer amanhã que o negócio é voltar a usar violões." Sabe tudo.

"Dresden": synthetic pop song.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Metal Machine Music


Dessa vez não deu. Eu que defendi com unhas e dentes o álbum anterior do Autechre (Oversteps, 2010), dessa vez penso em jogar a toalha. O que Oversteps acertou em pelo menos 40% das faixas, o novo álbum do duo britânico ameaça botar a perder.


Exai (o título é a pronúncia em inglês para o numeral romano XI, alusivo ao décimo primeiro disco da banda) é (surpresa!) muito difícil. Bastam os primeiros segundos da faixa de abertura "Fleure" pra perceber que passar duas horas tentando se concentrar no som duro e abrasivo desse álbum é uma tarefa que exige dedicação. "irlite (get 0)", "bladelores" e "cloudline" ultrapassam os dez minutos de duração. "irlite (get 0)" é jazz extraterreno, Herbie Hancock numa jam session direto de Marte. Ela vai razoavelmente até a metade. Mas depois de uma pausa amedrontadora, vira trilha pro David Cronenberg. Há borrões onde deveria estar a percussão, há notas graves de sintetizador planando como aviões da Luftwaffe prontos pra atacar. "bladelores" é um tema menos austero, uma nuvem espessa de timbres atmosféricos conduzida por um beat industrial. "cloudline" é para os fortes. Um exercício glitch denso, arrastado. O entroncamento de batidas desconexas de "prac-f", os timbres de bateria opacos de "vekoS" e a pancadaria de "nodezsh" não deixam dúvidas sobre a criatividade dos programadores Rob Brown e Sean Booth, mas a desconstrução no limite cansa. "deco Loc" me faz lembrar da primeira e única vez que ouvi Tago Mago do Can inteiro. Se tem uma música mais próxima de você, ouvinte médio de eletrônica, ela é "jatevee C". O resto das 16 faixas desse vinil quádruplo (!) que sai no começo de Março é de nada fácil digestão. Se é isso que te atrai, vai com fé.

"jatevee C": nem tudo são espinhos. 
   

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O Melhor de 2012 - Parte 1: Álbuns

Era isso então, 2012. Foi um ano prá lá de fértil, musicalmente. Se o próximo ano for tão bom quanto este, ficaremos todos muito felizes. O Top 10 Álbuns do And Now limita-se ao campo da eletrônica, dançável ou não. Clique no nome do álbum para ler a resenha. Eis:

 
 













quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Experimentar (Não) É Preciso

 Das duas uma: ou discos de eletrônica experimental faziam sentido pra mim só no século passado ou não tenho mais paciência pra gente que se autoproclama artista antes de qualquer coisa (músico, por exemplo). Nem sei se essa autoproclamação é o caso do francês Quentin Dupieux (Mr. Oizo) ou do americano Dayve Hawk (Memory Tapes) - espero que não - mas seus discos mais recentes são chatos pra cacete.
  

O título Unreleased Unfinished Unpleasant é a melhor coisa dessa compilação de sobras de Mr. Oizo, porquê explica exatamente o que são as 12 faixas: não lançadas, inacabadas e desagradáveis, conforme tuíte do próprio:

Ele podia ter substituído o "prepare seus ouvidos" por "prepare seu saco". E dá-lhe timbres esquisitos, ritmos trôpegos, sequências irritantes. Não admira ele ter disponibilizado de graça essa tranqueira.

"Duck Guts": e esse tecladinho?





Já o Memory Tapes é o cabeçudo da história. Profundo, folkeado, onírico. Três adjetivos que indicam perigo quando reunidos em disco. Cuidado.

"Sheila": oito minutos e meio. Sono.


domingo, 4 de novembro de 2012

Não Há Vida Em Marte


"Queremos que o máximo de pessoas compre nossos discos. Qual o sentido em lançar um disco que vai ser comprado por umas cem pessoas?". Sempre que ouço álbuns como WOW - mais recente do duo alemão Mouse On Mars - lembro dessa frase de Andrew Fletcher, do Depeche Mode.


Não acredito que isso tire o sono de Jan St. Werner e Andi Toma, mas pra uma banda que lá na metade dos 90 chegou a ser exageradamente apontada como "o novo Kraftwerk", WOW é só um apanhado de 13 faixas de eletrônica experimental que soa estéril ("SUN"), vazio ("ACD") e por vezes, inaudível ("DOG"). Isso rende até pauta pro Globo Repórter. Já vejo o Sérgio Chapelin na chamada, com a mãozinha em riste, impassível: "_ Quem são os fãs do Mouse On Mars? O que fazem? Onde vivem?"

"HYM": a caixa alta faz parte do conceito (acho).