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quarta-feira, 7 de março de 2018

Boa Noite, Tristeza


Esqueça o Moby craque das pistas, o exímio sampleador, as divas flamejantes exalando vida e suor a cada nota, o furor do techno e a redenção via blues eletrônico.

Basta uma olhada nos títulos das músicas pra sacar o que contém esta quase uma hora de Everything Was Beautiful, And Nothing Hurt (Mute), novo álbum do produtor americano: "The Last of Goodbyes", "Welcome to Hard Times", "The Sorrow Tree", "This Wild Darkness", "A Dark Cloud Is Coming" e por aí vai, divã abaixo. Sobra escuridão, melancolia e baixo astral, tudo regado com arranjos pesadíssimos (no sentido lúgubre do termo). Ouça a sessão de cordas macambúzia de "The Ceremony of Innocence" e afaste-se imediatamente de qualquer objeto cortante; perceba a voz embargada do robozinho-vocoder de "The Tired and the Hurt" e, por análise combinatória, constate que "This Wild Darkness" supera "Times Change" do New Order e assume o posto de rap mais triste da história.

Alguma luz no fim do túnel com os timbres amadeirados do piano elétrico e os bons vocais de Apollo Jane em "Welcome to Hard Times", a voz algo Liz Fraser de Julie Mintz em "The Sorrow Tree" e o trip-hop portishediano de "A Dark Cloud Is Coming", insuficientes para clarearem o ambiente escurecido que permeia o álbum.

Pode muito bem ser dito que Everything Was Beautiful, And Nothing Hurt é introspectivo e reflexivo e que não passa de um espelho que reflete a situação realmente desanimadora do mundo atual. Pra mim, é só triste, mesmo, em todos os aspectos. E tô fora.


"Mere Anarchy": Moby em frangalhos.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Bruxa à Solta


Por onde andava a Witch House? Com alguns nomes curiosos e/ou engraçados (Gvcci HvcciGuMMy†Be▲R!oOoOO), algumas coisas realmente interessantes (SalemClams Cassino), temática ocultista, eletrônica e batidas arrastadas, o (sub)gênero parece ter sumido com a mesma velocidade que ascendeu (lá por 2009/2010). Mas deixou alguns vestígios, como o misterioso (esconder o próprio rosto parece ser outra característica dos produtores de witch house) e impronunciável GVLVXY ("galaxy", dá pra sacar no primeiro sample de voz que aparece). Não sei quem é, de onde vem, como vive, nem do que se alimenta, mas sua "Ashia" apareceu agora no comecinho do ano e me fez voltar uns sete anos no tempo - e é uma nostalgia boa de sentir, porque a música é bacana: instrumental curiosamente tageado como electro na página do Soundcloud, mas que vem com aquele mesmo beat lento e seco, bumbos gravíssimos, clima fúnebre e samples vocais tensos. Bem-vinda a 2018, bruxa.


 
"Ashia": de volta à floresta.

domingo, 4 de junho de 2017

Quando o Techno Era Pop

 

Senta que lá vem clichê: o pop é cíclico. Estava pensando nisso enquanto ouvia Galvany Street (Blaufield Music), novo álbum do Booka Shade. A dupla alemã começou lá no final dos 80 como um projeto synthpop, foi convertendo-se em house e agora, em 2017, achou que tinha a ver lançar um disco que é uma espécie de volta às raízes (mais um chavão ordinário). Não sei se Walter Merziger e Arno Kammermeier encheram o saco do seu tech house límpido e geométrico que gerou belos álbuns como Memento (2004) Movements (2006) ou só quiseram provar que, sim, eles podiam compor canções com estrutura pop de estrofe-refrão-estrofe e trabalhar com mensagens um tanto mais diretas (no caso, letras) quanto os sensacionais ganchos de sintetizador que fizeram a fama das (já) clássicas das pistas "Body Language", "Mandarine Girl" e "In White Rooms". Para isso, convidaram quatro vocalistas (a mim, todos desconhecidos), incluindo Craig Walker (o do meio, na foto acima), que canta em metade do álbum.

O produto final, se não é brilhante, é muito bom de ouvir. E se é assim, acredito que deve-se muito ao fato do Booka Shade ter dois produtores de mão cheia, com excelente gosto para timbres, texturas e batidas e ainda capazes de preencher cada espaço vazio na música com sons que quase passam despercebidos numa audição aleatória, mas são claramente perceptíveis com um bom par de fones de ouvido. São detalhes como a meticulosa programação de bateria de "Broken Skin", os mil teclados e o tratamento vocal de "Numb the Pain" ou os bleeps e micro ruídos que formam a base de "Peak". Afastando-se do 4x4 e formado em sua maioria por canções downtempo, Galvany Street traz poucos momentos propícios à pista de dança e, mesmo assim, com BPM médio: a suingada "Numb the Pain", os ecos de New Order de "Babylon" e o ótimo bassline amparado pelo refrão grudento de "Loneliest Boy". A baixa dançabilidade do álbum talvez não surpreenda os fãs (que já viram o Booka Shade experimentar com ritmos mais lentos em Cinematic Shades [The Slow Songs], de 2008), mas a  abordagem sugere uma aproximação do techno com o pop, mesmo, como tudo começou para a dupla.

"Babylon": das poucas faixas que induzem ao movimento de Galvany Street.



terça-feira, 16 de maio de 2017

Ciclo Completo


Nos anos 80, cada novo single do New Order era um acontecimento. Eles privilegiavam tanto a arte do doze polegadas que só depois de dois discos, em 1985 (Low-Life), resolveram os incluir nos álbuns. E junto com cada single, vinham remixes, versões dub e extended... uma festa para os DJs - que se consolidou definitivamente em 1987 com o lançamento da coletânea obrigatória Substance. A relação da banda de Manchester com as danceterias era tão estreita que alguns LPs tinham bem definidos o lado A (mais roqueiro) e o B (mais dançante): Power, Corruption & Lies (1983), Brotherhood (1986) Technique (1989), são bons exemplos.

Tudo nos conformes, então, com o lançamento mês passado do EP Music Complete: Remix (Mute), que traz versões alternativas para algumas canções (cinco) do ótimo álbum Music Complete, de 2015, que, diga-se, é o melhor do New Order dos últimos 20 anos (mais precisamente, desde Republic, de 1993).

Uma das coisas mais legais do EP é que eu nunca vi mais gordo ninguém que submeteu as músicas do New Order ao bisturi. Gente como o DJ e produtor japonês Fumitoshi Ishino (a.k.a. Takkyu Ishino) que transformou a já originalmente suingada "Tutti Frutti" numa viagem Acid House com uma profusão de arpejos de sintetizador e basslines de TB-303 alucinantes.


"The Game" e "Academic" foram retrabalhadas pelo produtor britânico Mark Reeder: a primeira passou do rock eletrônico pro downtempo (Spielt Mit Version), num novo arranjo que valorizou ainda mais as belas cordas da original; a segunda (uma das melhores de Music Complete) ganhou uma batida 4x4 forte, recortes das guitarras originais e uma linha de baixo propulsora. "People on the High Line" (pelas mãos do duo alemão Purple Disco Machine) virou a trilha perfeita para o hedonismo de Ibiza, repetindo infinitamente o trecho da letra "It's all gonna be alright" e adicionando pianos House e um bassline gordo e melódico de Disco Music.


"Restless" (com remix do francês Sébastien Devaud a.k.a. Agoria) fecha o EP com uma ótima versão instrumental tech-house para a ligeiramente melancólica faixa de abertura de Music Complete.

Não sei qual o critério usado para a escolha das faixas que foram remixadas em Music Complete: Remix EP, porque o álbum, em si, é de uma homogeneidade que só deve ter tornado mais difícil a decisão de pinçar só cinco canções e entregá-las para as reconstruções desse pessoal que trabalhou admiravelmente bem, porque o EP é sensacional. E bem que poderia abrir a possibilidade de um Remix EP II, que se for nesse nível aí, vai ser muito bem vindo.


terça-feira, 11 de abril de 2017

Artilharia Dub


O reggae, em suas mais variadas formas (dub, dancehall, ragga), sempre esteve presente na maioria dos álbuns do Thievery Corporation. Desde o debut Sounds From The Thievery Hi-Fi (1996), fortemente influenciado pelo dub, passando por referências mais (The Richest Man in Babylon, 2002) ou menos (Saudade, 2014) explícitas, o duo de Washington, D.C. formado por Rob Garza e Eric Hilton explora com maestria e propriedade o legado musical da ilha caribenha.

Então, o que a competente dupla oferece no seu mais recente lançamento The Temple of I & I (saiu em Fevereiro, pelo selo Eighteenth Street Lounge Music, de propriedade do Thievery) não causa nenhuma surpresa a quem já acompanha o grupo há algum tempo. A diferença é que desta vez temos um disco quase que inteiramente dedicado ao reggae. As duas únicas exceções entre as quinze faixas são "Love Has No Heart" (com um belíssimo arranjo de cordas) e um certo ar nostálgico encharcado de ecos e dos vocais melancólicos de Elin Melgarejo na trip enfumaçada de "Lose to Find". O restante do álbum traz desde a pegada mais roots ("Strike the Root", "Weapons of Distraction", "Drop Your Guns ", "Babylon Falling", com ótimos naipes de metais), passando por reggaes digitais ("Time + Space", "Thief Rockers"), fusões com rap ("Letter to The Editor", "Ghetto Matrix", "Fight to Survive") e faixas que parecem já ter nascidas como clássicos do gênero ("True Sons of Zion", "Road Block"), tudo feito com o esmero característico das produções de Garza e Hilton. The Temple of I & I conta com oito vocalistas convidados, que fornecem uma diversidade estilística às canções equalizada finamente pelo Thievery, garantindo ao trabalho a homogeneidade necessária para que nada soe fora do lugar, mesmo que o downtempo classudo e refinado da dupla reúna tantos elementos diferentes. Fora que é bem provável que eu deva estar completamente por fora do que anda acontecendo ao reggae ultimamente, porque este é, sem dúvida, o melhor disco do gênero que ouço em (muitos) anos.


"True Sons of Zion":

domingo, 13 de dezembro de 2015

Discos do Ano: LA Priest


Ex-guitarrista e vocalista da finada banda britânica de dance-punk Late Of The Pier, Samuel Eastgate assumiu seu alter ego LA Priest, abraçou suas influências de David Byrne, Prince e Arthur Russell e lançou (no meio do ano) um dos melhores discos de 2015. Com doses muito bem calibradas de experimentalismo e pop, Inji (Domino) encaixa-se em várias categorias, mas não pertence a nenhuma, especificamente. A primeira metade do álbum é arrebatadora. O funk em câmera lenta da abertura "Occasion", com seus solos lânguidos de guitarra, órgãos sacros e vocais lascivos soam mais Prince do que qualquer coisa do último álbum (HITnRUN phase one, lançado em Setembro) do geniozinho de Minneapolis. "Lady's In Trouble With The Law" é como se Terence Trent D'Arby tivesse ressuscitado da morte artística e lançado um dos singles mais bacanas de soul/pop dos últimos tempos. A desolação instrumental de "Gene Washes With New Arm" parece um pequeno e sintomático reflexo sonoro do atual isolamento de Eastgate num pequeno vilarejo do País de Gales: timbres irregulares de instrumentos indefiníveis que há alguns anos seriam incluídos facilmente sob o guarda-chuva da world music, mas que hoje pedem um novo nome (Ambient, Downtempo, você escolhe). Ainda sem pular nenhuma faixa, talvez a grande canção do disco, "Oino" ("Oh I Know", sacou?) continua com a desafiadora tarefa de tentar descrever que música é essa. Na minha cabeça, parece um reggae muito distante de Kingston, tocado por argelinos. "Party Zute / Learning To Love" é disco torta, com uma linha de baixo brilhante, mudanças de andamento e oito minutos de euforia prontos pra serem consumidos nas pistas menos cafonas. Pra completar, Inji ainda tem a sonhadora "Fabby", a house comportada "Night Train" em BPM baixo e teclados escolhidos, literalmente, a dedo e a progressiva que não dá sono "A Good Sign". O pop atual precisa de mais gente como Samuel Eastgate: ousado, talentoso e com um senso melódico apuradíssimo. Não à toa, cravou um dos álbuns do ano.

"Oino": inclassificável, mas de fácil digestão.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A Inesgotável Leveza do Ser

Tageado como trip-hop, o misterioso produtor californiano Esbe ficaria mais confortável no guarda-chuva downtempo. Beats de hip-hop com pianos onipresentes e dedilhados delicados de violão, samples de soul e jazz com vocais sedativos; seu álbum Bloomsday merece uma audição atenta. As notas surpreendentes vão para o sample do riff de violão de “Oba, Lá Vem Ela” (do nosso Jorge Ben), magistralmente fundido com cítaras e vocais emprestados de "Open Your Eyes" (Bobby Caldwell) em “Darling” e na reconstrução de “Am I The Same Girl” (que virou hit com o Swing Out Sister em 1992) em "Autumn Bliss", com o aproveitamento do sensacional naipe de metais da original de Barbara Acklin (1968) e o milionésimo empréstimo da imortal batida de “Ashley's Roachclip” (Soul Searchers). Mas o disco também é rico em detalhes e amostragens de sons reutilizados com extrema habilidade, como no jungle estratosférico da apropriadamente chamada “Thousands Of Rhythms”, os solos lânguidos de trompete com surdina e a guitarra encharcada de wah-wah da preguiçosa “Intimate” e no arranjo de cordas onírico - provavelmente sampleado do catálogo de Glenn Miller - em “Serenade”. Bloomsday (disponível para audição no Bandcamp) é suave e refrescante, como uma brisa numa dessas noites escaldantes do Hemisfério Sul e tão leve que flutua mansamente pelo ambiente. Ótima surpresa.

Bloomsday: perfeito pro sofá.

domingo, 23 de novembro de 2014

Slow Motion


Pra ver o mundo passar em câmera lenta, taí o single Hurry Slowly da dupla americana Arms and Sleepers. São duas faixas que serviram de introdução ao álbum Swim Team, recém lançado. Beats lentos de hip-hop, estalinhos glitch, loops, timbres delicados de sintetizador. Tudo pensado para o completo conforto auditivo do ouvinte, sem abrir mão da inteligência no que tange aos arranjos de uma certa complexidade, mas de fácil assimilação. Have a nice trip.

Hurry Slowly: trip hop instrumental.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Melodias Subaquáticas


Há uma linha tênue que separa experimentos com sons ambientais e eletrônica da cafonice em que resultam a maioria destas tentativas. Ultimamente, ou vira trilha da problemática série Café Del Mar ou entra numa chatíssima vibe new-age-pra-chamar-gnomo. Um tanto desconfiado, fui ouvir o novo EP do duo australiano Willow Beats e - surpresa - gostei. Water reforça o interesse que vem aumentando no som deles. Existe uma clara aproximação com o dubstep na maioria das faixas, perceptível nas frequências subterrâneas dos baixos e nas batidas fraturadas. Os samples não impressionam, mas preenchem as faixas sem exageros: vão dos habituais trinados de pássaros ("Guardian") e amostras da floresta até diversas referências ao título do EP. A melhor das seis canções de Water é, sem dúvida, a abertura "Merewif" (que parece título de música do Cocteau Twins). Aqui, a fusão eletrônica/ambient encontra seu ponto ideal, fazendo-se valer da batida dançante e dos vocais angelicais de Kalyani Ellis. Water pode ser ouvido inteiro na página do projeto no Bandcamp (assim como os outros dois EPs já lançados).

"Merewif": faltou o Ian Thorpe.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Bomnobo


Sob o pseudônimo Bonobo, o produtor britânico Simon Green lançou ano passado The North Borders, um ótimo disco de eletrônica e uma bem resolvida e minuciosa fusão entre downtempo e ambient. Em Junho último, Green apareceu com o EP Ten Tigers, com duas faixas do álbum retrabalhadas mais uma inédita. A própria "Ten Tigers" não perdeu seu loop de piano original e ainda ganhou uma linha de baixo oscilante e baterias mais esparsas na versão "Bengal Edit". A nova "Duals" exibe a criatividade de Bonobo na justaposição de camadas de teclados e o senso rítmico do artista, que encaixa com precisão e elegância a batida aos sintetizadores. O grande destaque do EP, no entanto, é o remix da DJ, produtora e gata Maya Jane Coles para a belíssima "First Fires". Originalmente delicada, sinfônica e com os vocais blueseiros do compositor americano L.D. Brown (Grey Reverend), a "First Fires" houseificada imaginada e realizada por Maya - que também é engenheira de áudio - tem frequências de sub grave aproximando-se do limite que o ser humano consegue ouvir. Sensacional.

"First Fires" (Feat. Grey Reverend) [Maya Jane Coles Remix]: soco no plexo solar.

domingo, 20 de julho de 2014

Igapó de Almas


Prepare-se para um mergulho profundo contra a correnteza da parca cena eletrônica brasileira atual. O Igapó de Almas vem do Rio Grande do Norte e conforme o nome do projeto indica (igapó é uma área de floresta que se mantém alagada, mesmo após as chuvas ou as cheias dos rios), reúne múltiplos elementos em suas águas e funde com rara precisão eletrônica e regionalismos em A, seu disco de estreia. Uma "mestiçagem musical", como a banda mesmo define.

Samples intrigantes flutuam na faixa de introdução "Afechadura"; lindas harmonias vocais (de Clareana Graebner) embelezam a riqueza instrumental de "A Bruxa no Trecho", emoldurada por sintetizadores, cellos, efeitos e guitarras limpas.


No enigmático texto recitado na breve "Ao Vomitório", a base funde-se às vozes num entra-e-sai de estática e ruídos sintéticos, até acabar de forma misteriosa. Em "A Maçã", a cantora Laya Lopes define: "meu samba é psicótico, meu baião é enfeitiçado", entre zabumbas e triângulos digitais. "Abruxa" traz guitarras serenas apoiadas por violão e teclados que voam mansamente de um canal pro outro do fone de ouvido. Talvez seja o momento mais desolador e bonito do disco.  

A, o disco, pode ser ouvido inteiro na página do Bandcamp da banda. Confesso que é de difícil categorização, mas isso realmente não importa. O grupo conseguiu realizar um trabalho em que experimenta com ritmos eletrônicos e regionais, psicodelia e música étnica, com letras especialmente bem feitas. E consegue resultados impressionantes, na maior parte do álbum. Conversei por email com integrantes do Igapó de Almas, que explicam melhor o processo:


Desse mix étnico-psicodélico-eletrônico de "A", quais as principais referências musicais da banda?

Sobre essa mistura que você citou e sobre nossas referências, a intenção primeira é construir novas variações musicais, a partir de conexões entre os ritmos étnicos oriundos da cultura brasileira: indígenas, caboclos & afro-brasileiros, juntamente com a psicodelia, o progressivo setentista, e alguns sub-genêros da música eletrônica como o trip-hop, downtempo, etc... Todos os envolvidos no Igapó de Almas são curiosos por sons, timbres, células rítimicas, então estamos sempre buscando.

Quais as fontes dos samples usados no álbum? São extraídos de sons ambientais in loco ou são trechos pré-gravados?

Hmm... sim, alguns samples ouvidos no álbum são sons que captamos in loco, na Floresta Amazônica.

Cinco das doze faixas do álbum tem participações de vocalistas convidados. Qual a solução para os shows?

No show nós contamos com a presença do cantor Tiago Landeira, que interpreta todas as canções. Enquanto que no disco, o processo de gravação das faixas cantadas se deu a partir de encontros em viagens, amizade e parceria.

Vocês sentem proximidade com alguém, musicalmente, na cena independente brasileira?

Nós sentimos uma afinidade com algumas criações da cena independente brasileira, no sentido de desejar realizar conexões. Mas por enquanto estamos à margem dessa mesma cena, uma vez que o material lançado ainda é muito recente. Seria um prazer construir interações musicais com alguém como Tom Zé ou Uakti, por exemplo.

Há planos para lançar "A" numa mídia física, ou o ambiente virtual é suficiente pra divulgar a banda?

O ambiente virtual não é suficiente, devido à efemeridade das relações virtuais. Na internet tudo é muito veloz, isso é positivo, mas também negativo, diríamos paradoxal. No entanto, tudo que tem acontecido até então é fruto do mundo virtual. Existem planos para lançar o álbum "A" num material físico (de preferência vinil). Mas para isso é preciso captar recursos ou estabelecer novas parcerias. Estamos nessa busca...





terça-feira, 3 de junho de 2014

Hors Concours


Alguém realmente esperava que essa parceria não funcionasse? Era batata: a união dos escandinavos Röyksopp e Robyn renderia algumas das gravações mais legais do ano. Foi o que aconteceu. Pelo menos três, das cinco faixas do EP Do It Again (lançado dia 23 de Maio), são irrepreensíveis.

A magnífica abertura, apropriadamente chamada "Monument", ganha contornos celestiais com seu coro ininterrupto fundindo-se aos sintetizadores e sua base engrenada com baixo de tom constante e hipnótico. Só lá pelos seis minutos (a faixa tem quase dez) uma percussão tribal preenche o ambiente e prepara o terreno para que um sax soprado com languidez encerre a canção de maneira brilhante.

"Do It Again" é uma obra-prima de inspiração pop e dance, mas absurda em cada detalhe da produção: das navalhadas de teclados entrecortando a música até os vocais de Robyn - do tipo que deixam até uma leitura de "O Capital" emocionante.

O synthpop "Every Little Thing" mais uma vez acentua o trabalho primoroso de Svein Berge e Torbjørn Brundtland à frente do aparato eletrônico. Saltam aos ouvidos a riqueza e a variedade de timbres alcançados e como os sintetizadores soam poderosos manipulados pela dupla, a sacada genial do pequeno enxerto de cordas especialmente bem encaixados no meio da canção e mais um trabalho exemplar da talentosa Robyn no microfone.

"Sayit" é uma faixa techno que traz Robyn duelando com um vocoder (idêntico ao que o Kraftwerk usou em "Numbers"), enquanto "Inside The Idle Hour Club" é um encerramento instrumental e melancólico, bastante distante da euforia da faixa-título. São duas músicas que baixam a média geral do mini-álbum, que mesmo assim, bate fácil nos 7.5.

"Every Little Thing": perfeição.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Segunda Class: Skalpel


Skalpel são Marcin Cichy e Igor Pudlo, DJs e produtores de Wroclaw, Polônia. A onda deles é jazz, mas não é uma trip de músico: a dupla sampleia tudo de vinis poloneses de décadas passadas e salpica algumas batidas aqui, uns loops ali e em alguns momentos, reforça os grooves com sintetizadores, pra recriar o jazz à sua maneira.

O duo assinou com a gravadora Ninja Tune (de propriedade do Coldcut) no começo dos anos 2000, embora esse Simple EP tenha saído no começo de Maio pelo selo PlugAudio.

As quatro faixas de Simple são uma cinematográfica viagem ao passado, mas com embalagem de future jazz. Com recortes precisos (os samples de "On the Road" são brilhantes) e clima enfumaçado ("Soundtrack"), o Skalpel pratica o sampling criativo, coisa rara para os fatigados usuários do Akai MPC de hoje em dia.

"Simple":

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Segunda Class: Innocence


Vida curta e dois álbuns na carreira do Innocence, grupo britânico de R&B que tinha como trunfo a impressionante Gee Morris nos vocais. Seu maior hit, "Natural Thing", sampleia o solo de guitarra de "Shine On You Crazy Diamond", do Pink Floyd, com a benção de David Gilmour. Dá pra comparar com Soul II Soul numa boa, mas a vibe do Innocence era mais tranquilona, downtempo.

Seu debut Belief, de 1990, traz outras faixas dignas de nota, como o batidão acompanhado de teclados atmosféricos e floreios de trompete de "Silent Voice":



"Natural Thing" e seus nove minutos de soul relax:

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Quarta Do Sofá: Fernanda Abreu


 Fernanda Abreu foi, provavelmente, a precursora da moderna dance music brasileira, com seu Sla Radical Dance Disco Club (1990).


Do álbum saíram os hits "A Noite" e "Você Pra Mim" - esta com uma batida lenta e espaçosa, cama perfeita pro baixo de reggae, trompetes com surdina e samples de Barry White e Soul II Soul preencherem sua extensão. Pop nacional já foi cool assim.

"Você Pra Mim": sexy.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Segunda Class: The Orb

Paterson e seu atual colaborador, Thomas Fehlmann.
 Nunca é tarde pra descobrir o The Orb. Cria da mente mucholoca de Duncan Alexander Robert Paterson - Dr. Alex Paterson - e do visionário Jimmy Cauty (The KLF), o projeto apareceu no final dos 80 com um mix de eletrônica, dubismo, psicodelia e ficção científica. Com temas focados num tipo de som que fosse adequado pro descanso pós-gandaia dos ravers, a experiência resultou no surgimento da ambient house.   


O CD duplo History of the Future saiu em Outubro e compila boa parte dos singles do Orb pela gravadora Island no disco 1, e remixes no CD 2. Na versão Box Set, são três CDs mais um DVD com apresentações ao vivo, vídeos e parte de um show realizado em 1993, em Copenhagen.

O primeiro single do Orb, "A Huge Ever Growing Pulsating Brain That Rules From The Centre Of The Ultraworld" (com sample de "Loving You", de Minnie Riperton) aparece em duas versões (uma dançável, outra não), e ambas as faixas ganharam um fade out na metade da extensão de suas edições, assim como convenientemente foi feito com a fantástica "Blue Room", que não chega nem perto da duração original. Mesmo com impraticáveis 40 minutos (!), "Blue Room" (com uma impressionante linha de baixo de Jah Wobble) chegou ao número #8 no paradão inglês, em Junho de 1992 e catapultou o álbum U.F.Orb, inacreditavelmente, ao topo da parada, um mês depois. Outros tempos.

O veredicto é um só: se você não conhece muito bem o The Orb, History of the Future é absolutamente essencial.

"Blue Room (7" Mix)": boa de pista, boa de fone de ouvido.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Segunda Class: DJ Day


Day é o californiano Damien Beebe. DJ, produtor e multi-instrumentista, Beebe começou a discotecar em 1995, mas seu álbum de estreia só saiu agora, em 2013 (sem contar uma coletânea de singles, faixas inéditas e remixes lançado em 2008).

E que disco. Land of 1000 Chances pode ser colocado sem hesitação na mesma prateleira (ou na mesma pasta de arquivos) do que melhor DJ Shadow e RJD2 fizeram em suas carreiras. A síntese é a mesma: beats de hip-hop e andamentos de jazz sustentando enxertos de funk, soul e eletrônica. A diferença de DJ Day é que sua trip é de músico - ele se apoia fundamentalmente em instrumentos, não em samples. Ocasionalmente, amostras de diálogos e vocais são inseridos ("Mama Shelter"), mas são apenas coadjuvantes frente a quantidade de Mellotron, Clavinet, piano elétrico, baixo, guitarra e percussão usados nas faixas. Em "Boots in the Pool" e "Hopefully", belíssimos arranjos de cordas ornamentam músicas que transbordam bom gosto, calor e emotividade.

Land of 1000 Chances
tem 15 faixas instrumentais sem altos e baixos: o nível das composições é tão plano e homogêneo, que funciona incrivelmente bem se ouvido do início ao fim, sem interrupções. E pode ter certeza, você não vai querer pular nenhuma.

"Land of 1000 Chances": só uma das 15 pérolas do álbum.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Réquiem


Era um beco sem saída. Moby chegou ao topo com Play, seu multiplatinado álbum de 1999. Sintomaticamente, também, esgotava-se ali a fórmula: beats quebradiços recheados com loops de blues de meio século atrás e teclados sinfônicos a um passo da grandiloquência. Era o downtempo para as massas vendendo 12 milhões de cópias, estrelando campanhas publicitárias milionárias e elevando Moby à categoria de Pelé da eletrônica.


Dali pra frente, Moby manteve o foco num certo tipo de ambient music high tech, explorando com poucas variações a receita que deu certo em Play e abdicando do que foi o seu habitat natural no começo da carreira: as pistas de dança. Fora um ou outro single ("Lift Me Up", "Disco Lies"), os discos de Richard Melville Hall começaram a ficar cada vez mais modorrentos, arrastados, preguiçosos. E chatos.

Ouvindo Innocents - que sai oficialmente dia 01 de Outubro - deu pra sacar que Moby não intenciona mudanças significativas, mas os dezoito meses produzindo esse disco mostraram que o tempo foi muito bem gasto. Dá pra afirmar sem medo de errar que é seu melhor álbum desde 18, de 2002. Tem algumas colaborações vocais de respeito (Wayne Coyne do Flaming Lips e Mark Lanegan, ex-Screaming Trees, entre eles), e olha, é um mergulho em águas turvas. Ainda rolam aqueles samples obscuros ("The Last Day", "A Long Time"), chama atenção tecnicamente pelas camadas de vocais sobrepostas com perfeição (a produção é do craque Mark Spike Stent) e tem canções realmente lindas ("The Lonely Night" com Mark Lanegan e "The Last Day" com a desconhecida Skylar Grey são duas das melhores aqui), mas nada tem qualquer proximidade com as luzes frenéticas de uma discoteca, portanto não espere que Innocents migre dos fones de ouvido para alto-falantes de 18 polegadas. É um disco que pega no tranco: ouvi com desconfiança pela primeira vez, simpatizei com alguma coisa na segunda e comecei a descobrir as qualidades na terceira.

Ainda não é aquele Moby. Mas é o melhor Moby dos últimos dez anos.

"The Last Day": técnica de sampleamento em boa forma. 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Segunda Class: Nightmares On Wax


O trip hop vinha ensaiando timidamente uma tentativa de retorno ao pico de popularidade que atingiu no meio dos 90. O problema é que a falta de bons álbuns não deixou que artistas menores recolocassem o gênero numa segunda onda convincente e as bandas do primeiro escalão lançam discos com uma peridiocidade de fazer inveja ao finado Dorival Caymmi: o último do Massive Attack é de 2010 (sete anos depois do álbum anterior), Geoff Barrow do Portishead disse ano passado que um disco novo do grupo pode sair daqui dez anos, DJ Shadow anda devendo e Tricky voltou esse ano com um álbum apenas razoável.

 O britânico George Evelyn - ou DJ EASE, ou ainda seu alias mais famoso, o Nightmares On Wax - não dispunha de material original desde 2008. Volta agora em 2013 com um disco que compensa, e muito, os cinco anos de espera.

Feelin' Good acabou de sair pela Warp Records, seu lar desde o começo dos 90 e de álbuns essenciais do período, como Smokers Delight (1995) e Carboot Soul (1999).
O que Evelyn consegue nas dez faixas do álbum é amarrar o conceito do trip hop com todas as suas bases bem distribuídas: são canções muito diferentes umas das outras, mas que fazem todo sentido agrupadas em forma de disco. Feelin' Good tem soul clássico (a linda "Give Thx" soa 1966), funk ("Tapestry"), reggae ("Now Is The Time"), hip-hop, eletrônica e experimentalismos enfumaçados ("There 4u"). Ocasionais detalhes afro ("Be, I Do"), arranjos geniais (note o trompete jazzy e a base camerística de "So Here We Are") e a desolação convertida em beleza na acústica "Master Plan" (com os vocais pequenininhos da cantora folk Katy Gray), fazem do álbum um dos mais consistentes lançados com o carimbo trip hop nos últimos tempos, e se coloca confortavelmente ao lado do que melhor George Evelyn já fez. Não é pouca coisa.

Feelin' Good condensado em três minutos e meio:

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Segunda Class: Ulrich Schnauss


O prolífico produtor alemão Ulrich Schnauss voltou a se concentrar em um álbum solo, depois de seis anos colaborando com outros artistas.


A Long Way To Fall foi lançado em Janeiro, e a despeito de acusações como "falta de inovação" ou "zona de conforto" descritas por seus detratores, é um belíssimo álbum de eletrônica. Escolha sua tag preferida (ambient techno, chill out, downtempo) e mergulhe no oceano de sons que Schnauss espalha pelo disco: beats macios emoldurados por timbres encantadores ("Like a Ghost In Your Own Life"), cristais sintetizados pontuados por violoncelos ("A Forgotten Birthday"), ruído eletrônico vertido em melodia ("Borrowed Time"), programações enigmáticas ("Broken Homes") e uma clara influência do dream pop do Cocteau Twins de Robin Guthrie e Liz Fraser nas várias camadas de som da etérea "A Long Way To Fall".

É um clube cada vez mais restrito esse que inclui artistas relevantes de música eletrônica contemporânea. Schnauss tem a carteirinha. 

"A Long Way To Fall": melodias que evaporam.