sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Sexta Feira Bagaceira: Tiësto


Primeiro ponto: eu odeio o Tiësto. Não, pera. Eu odeio a música do Tiësto. Nem conheço o holandês direito, mas - a julgar por algumas entrevistas e pela pose estudada enquanto discoteca - ele tem a maior pinta de maleta sem alça, mesmo. Enfim. Seu trance rasteiro nunca me interessou. Fora aquele remix que tirou o Delerium do anonimato ("Silence", 2000, com vocais da ótima Sarah McLachlan), não tem nada de seu trampo autoral que me chame a atenção. Ah, sim, tem "Who Wants To Be Alone", também. Inclusa no álbum Kaleidoscope, de 2009, a faixa foge da tecladeira épica e dos beats acima de 130 BPMs, característicos do DJ e produtor - como, aliás, boa parte das faixas do disco, que atira em vários alvos e erra quase todos. Com um batalhão de vocalistas convidados (Calvin Harris e Kele Okeleke, entre eles), Kaleidoscope foi uma tentativa de Tiësto provar que nem só de trance vive o homem atrás das pickups. Entrando com os dois pés num pop dance pra lá de descartável, o plano não deu muito certo. "Who Wants To Be Alone" é quase o oásis do disco. Em termos mercadológicos, o single foi um fiasco. Mas ouvindo bem, merecia melhor sorte. Tem a voz anasalada de Nelly Furtado e uma levada boa o suficiente pra manter os pés em movimento. Induz o tamborilar de dedos naturalmente e Nelly deixa o fogo bem aceso durante os pouco mais de quatro minutos e meio de duração. Gosto muito.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

AlunaGeorge + ZHU


O produtor Steven Zhu une forças com a talentosa dupla britânica AlunaGeorge e o resultado é um estouro. "Automatic" sai por esses dias como single e deve estar também no segundo EP de Zhu, o colaborativo Genesis Series (que traz ainda Skrillex, A-Trak e Bone Thugs-N-Harmony). "Automatic" tem o refinamento UK garage do AlunaGeorge, mas quase não consigo perceber a mão EDM de Zhu aqui. A faixa dá uma quebrada no minuto final, o que uma edição pra pista pode limar sem culpa.

domingo, 13 de setembro de 2015

Lições De Um Remix


Imagine a cena: você é um DJ que já tem boas horas de experiência na cabine, mas ainda está dando os primeiros passos no estúdio. Então a gravadora te convida pra fazer um remix de uma faixa estourada nacionalmente. O material que ela te disponibiliza consiste em Gillette, régua e fita adesiva.

Por mais estranho que isso possa parecer hoje em dia, era esse o cenário nos anos 80. A música em questão é "Ela Não Gosta de Mim", da boy band brasileira Dominó - uma versão em português do hit "Standing In The Twilight", da dupla holandesa Maywood. Softwares de edição em computadores ainda não eram nem sonhados e a dificuldade em editar um remix de forma praticamente artesanal era enorme. O DJ e produtor Sylvio Müller, que foi incumbido da tarefa (junto com os DJs Cabello e Grego) de levar o Dominó das rádios e TVs para as pistas de dança, explica - entre um e outro "Mansss!", seu inconfundível bordão - como foi o processo.

De quem partiu o convite pro remix?

O primeiro Dance Mix (série de coletâneas de remixes de faixas do pop nacional dos anos 80, iniciada em 1985) foi um projeto da CBS (atual Sony Music), no qual o DJ Grego foi o encarregado de convidar os DJs para participar do empreendimento. Na época da Pool FM, nós já fazíamos remixes pra tocar na programação diária da rádio, mas para profissionalizar mesmo a situação dos remixes no Brasil, a CBS colocou o Grego para dirigir esse projeto e eu fui convidado pra fazer o remix do Dominó, junto com o DJ Cabello, porque era realmente um remix muito complicado. Já havia acontecido o primeiro remix que foi um sucesso nacional, "Loiras Geladas" (RPM) e o segundo também teria que ir pro mesmo caminho. Então o Grego convidou a mim e o Cabello porque nós editávamos vários gêneros de música - do rock ao pop, soul, black e dance em geral. Topamos editar o Dominó, mas com a condição de que no próximo trabalho tivéssemos o poder de escolher o remix a editar. Nesse Dance Mix nós fizemos o Dominó e uma faixa do Ritchie, "Tele Notícias", também. A faixa que escolhemos pra trabalhar na próxima edição da série foi "Olhar 43", do RPM. A curiosidade sobre o Dominó é que foi uma produção vinda da Espanha, feita por Oscar Gomez, que era um grande produtor musical e nós fizemos as novas mixagens pra música com uma master de muita qualidade (a letra em português foi feita pelo cantor, compositor, maestro e pesquisador Edgar B. Poças, pai da cantora Céu e de Diogo Poças). Na edição, deixamos a música bem pop, pra pista mesmo. Assim, conseguimos dar continuidade a esse tipo de trabalho por aqui e esse remix foi muito importante pra história do remix no Brasil.



E os sintetizadores e baterias eletrônicas adicionais, foram vocês que fizeram, também?


O master
era muito bem feito. Oscar Gomez era um ótimo produtor e nessa época ele já usava sintetizadores, sequenciadores e beats eletrônicos. Na época usávamos a bateria eletrônica LinnDrum. Nosso trabalho com o remix era de deixar a música com um formato mais adequado pra tocar na pista. Então realçávamos as baterias, o groove, deixando os elementos da parte rítmica em evidência. A partir da edição, temos a montagem, que faz com que a música adquira consistência. Esse método de edição que usávamos era do mesmo nível de um Shep Pettibone, Arthur Baker e John Jellybean Benitez, grandes produtores e remixers que nos ensinaram como deixar a música com características próprias de pista. Na edição e montagem da nova versão tínhamos que ter uma sensibilidade muito grande para saber o que cada música precisa e o Dominó foi uma música muito complicada de fazer. O resultado está aí e depois de 30 anos, dá orgulho de ouvir.


E o método disponível na época eram as masters em tape de rolo, Gillette, régua e fita adesiva, mesmo, ou já pintava alguma coisa via computador?

Não tinha computador, não, mans. Nessa época a gente pegava a fita master de duas polegadas, onde havia os canais separados. Fazíamos uma nova mixagem da música e então tirávamos todos os elementos: bateria, baixo, teclados, guitarra, voz, etc... Depois, resolvíamos tudo na edição. Não tinha computador na época. Esse era o segundo estágio. A primeira parte da nova mixagem era abrir o master e só depois ia pra edição, onde fazíamos o chamado half mix, que era pra não ficar quebrando a cabeça no estúdio e ficar gastando muita grana (porque o estúdio era caro). Então fazíamos num gravador Akai o half mix, que era uma prévia do que iríamos editar no estúdio, pra daí então entrar nas máquinas de estúdio. Vale ressaltar que a CBS nos deu suporte pra fazer o trabalho nos melhores estúdios da América Latina, que eram os estúdios da Transamérica. A gravadora nos oferecia engenheiros de som e equipamentos de alta qualidade, depois, era tudo com a gente: cortar literalmente a fita com a Gillette e colar com todos os elementos (vocais acapella, instrumentos) sendo disparados diretamente do tape de rolo. Não tinha nada de software.


O remix chegou a sair numa versão 12" pro mercado ou foi incluída exclusivamente nessa compilação?

Todas as versões que foram incluídas na série Dance Mix, saíram também como promos, mas não foram colocadas à venda. Existe o 12" em vinil e a versão que saiu na compilação era o remix oficial mesmo, idêntica ao promo.

Tu tinhas a informação da lista de equipamentos usados na gravação original da música? Qual sintetizador, drum machine?

Sim. Quando abrimos a master onde estão os canais separados da faixa, a produção do estúdio coloca a lista de equipamentos utilizados, para que possa ser aberto em outros estúdios. Na época era o começo do Yamaha DX-7, dos sintetizadores polifônicos. Eram recursos analógicos que já tinham como ser colocados no sistema de sincronismo que chamamos de SMPTE, que sincronizam as máquinas onde você pode ajustar o tempo de uma bateria eletrônica com um gravador de rolo. Obviamente que nós, como DJs, já sabíamos a diferença entre os sons de um MiniMoog, Hammond, Fender Rhodes... os timbres, tanto de teclados como de outros instrumentos e principalmente de baterias eletrônicas, já estávamos bem informados. Sincronizar, colocar tudo funcionando foi uma etapa de engenharia de áudio, que nós passamos a aprender. Fomos as cobaias desse processo.

 Esse foi, de fato, um dos primeiros remixes feitos no Brasil. Qual foi a repercussão entre DJs, produtores, jornalistas? A faixa chegou a fazer o crossover das pistas pro rádio, chegou a popularizar essa versão nas FMs?
Olha, mans... esse remix foi realmente uma zica (risos). Essa música era muito complicada. Nenhum DJ queria pôr a mão e muito menos tocar. Esse remix fez com que ela entrasse nas pistas e fosse depois, naturalmente, pro rádio. Deixar ela com uma cara de pista de dança é que foi um trabalho de dedicação que tivemos, porque não havíamos feito algo assim anteriormente. Não tínhamos referência, esse foi o primeiro, mesmo. Pegar um grupo super pop e deixar ele adequado pras danceterias foi um laboratório e tanto, onde nós fomos as cobaias e o Dominó, nosso produto (risos).

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Sexta Feira Bagaceira: F.R. David


Na França dos anos 70, o tunisiano Elli Robert Fitoussi havia tentado emplacar com bandas de rock de garagem, progressivo e até como vocalista em alguns álbuns do Vangelis. Acabou dando certo quando ele saiu em carreira solo, embarcando na onda synthpop do começo dos 80 e assumindo o pseudônimo F.R. David. Com um visual característico (os onipresentes óculos escuros) e a Stratocaster branca em punho, cravou um dos maiores sucessos do biênio 1982/1983: o single "Words" vendeu mais de oito milhões de cópias. Na Europa, bateu no primeiro lugar nas paradas de 13 países (foi número dois na Inglaterra) e, só na França, foram mais de um milhão de cópias comercializadas. Aqui no Brasil, a novela Guerra dos Sexos tratou de popularizar a faixa. Não é minha favorita do artista (mais próxima à italo disco, "Take Me Back" - do álbum de estreia de David, Words - tem minha preferência), mas é uma música bacana. Mesmo com os vocais altíssimos e meio enjoados de Fitoussi, é uma baladinha que funcionou bem nas danceterias da época. E volta e meia aparece no playlist das Antenas 1 da vida.

"Words":



"Take Me Back":

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Memê In The Mix


MEMIX Recordings é o novo selo de dance no mercado "dedicado exclusivamente à música de qualidade influenciada por House e Disco" (conforme definição no Soundcloud). Cria do imparável DJ Memê, a gravadora debutou com o single "Son Of A Gun", creditada como Mansur (sobrenome de Memê). A faixa é uma house robusta com bassline forte (feito num sintetizador Yamaha TX81Z, circa 1987), vários chamados pra pista e sample do Technotronic (um dos synths memoráveis de "Pump Up The Jam"). Planos para lançamentos futuros incluem o próprio DJ Memê (com seu som mais orientado para disco-house clássica) e o misterioso Mordechai, com ênfase na eletrônica.

"Son Of A Gun" está à venda exclusivamente no Traxsource, onde ocupa o segundo lugar no Top 100 do site, com pouco mais de uma semana de lançamento. Promissor.

"Son Of A Gun":