A autoproclamada "quinta geração do rock'n'roll" foi uma piada inventada pelo ex-baixista do Generation X,
Tony James. Punks de boutique, visual espalhafatoso, alguns hits e,
estranhamente, uma imensa popularidade no Brasil - tanto que o segundo
álbum, Dress for Excess, de 1988,teve o nosso Arnolpho Lima Filho
(Liminha) como um dos produtores - fizeram do Sigue Sigue Sputnik uma
curiosidade passageira, que enjoou tão rápido quanto pegou.
"Love Missile F1-11" foi o primeiro single do álbum de estreia do grupo, Flaunt It.
Lançada em Março de 1986, chegou ao terceiro lugar no paradão inglês e
teve parte da popularidade (foi o maior hit dos Sputniks) baseada em sua
inclusão na trilha do blockbuster Curtindo a Vida Adoidado.
Movida a baterias eletrônicas frenéticas, "Love Missile F1-11" engaveta
uma batelada de samples (a voz de Malcolm McDowell extraída de um trecho
de Laranja Mecânica, por exemplo), chupa o baixo de "Girl U Want"
do Devo, exagera nos efeitos sobre a voz de Martin Degville e tem um
climinha futurista/apocalíptico providenciado pelo produtor da faixa,
Giorgio Moroder.
Não sei se Moroder se orgulha disso, mas que foi divertido, foi.
Giorgio Moroder é o Moisés da dance music: com Pete Bellotte, ele dividiu a música de pista em antes e depois de "I Feel Love"
(Donna Summer, 1977). Acontece que o inovador e criativo homem por trás de monumentos como "From Here to Eternity" e "E=MC2", é o mesmo que girou os botões da mesa de som em hits de gosto duvidoso de Irene Cara ("What a Feelin'") e Joe Esposito ("Lady, Lady, Lady"), ambas da trilha de Flashdance; Berlin ("Take My Breath Away", que segundo o próprio, é a produção que mais o deixou orgulhoso) e Sigue Sigue Sputnik ("Love Missile F1-11"). Isso posto, não creio que alguém tenha se espantado com o material que este simpático bigodudo apresentou em Déjà Vu, seu décimo sétimo álbum e o primeiro desde Philip Oakey & Giorgio Moroder (1985).
A primeira pista apareceu no final do ano passado, mas era falsa (pra quem esperava um disco inteiro assim). A boa "74 Is The New 24" tem os usuais arpejos de
sintetizador, vocoders, pianos e guitarras da sua space disco atemporal, que, de certa forma,
o aproxima de pupilos como Lindstrøm e Todd Terje. Moroder estaria, por tabela, soando moderno e totalmente ambientado às eletronices dos produtores atuais.
No começo deste ano, foi a vez de "Right Here, Right Now", com Kylie Minogue nos vocais. Nada muito animador. Me empolguei mais com o andamento durante as estrofes do que
propriamente com o refrão. Começava a ficar claro que caminho o disco iria seguir: dance padrão FM, só que um tanto mais contida e sóbria do que a EDM praticada por gente como Avicii (que é incapaz de produzir uma música sem a emporcalhar com bass drops irritantes ou rufos previsíveis de bateria).
A faixa título, com a cantora e compositora australiana Sia Furler, tem uma grandeza disco explícita nos lindos strings dos sintetizadores e no refrão grudento, perfeito pra passar vergonha na pista:
Procurando bem entre as 12 faixas, ainda dá pra catar bons momentos, como a razoável "Wildstar" (com a britânica Foxes) e "Back and Forth", cujo diferencial está nos vocais particularíssimos de Kelis Rogers.
Bom, o resto de Déjà Vu é dispensável. Desde a breguíssima abertura "4 U With Love" e a escolha dos timbres de sintetizador na linha Casio Tone Bank, passando pela total descartabilidade da dance fuleira "Diamonds" (com Charli XCX) e por faixas que poderiam estar tranquilamente no último do David Guetta ("I Do This for You", "Don't Let Go"), até chegar no crime mor aqui: o péssimo cover de "Tom's Diner" (original de Suzanne Vega, que foi brilhantemente remixada pelo DNA em 1990), com Britney Spears nos vocais.
O que fica de bacana nessa história é que Giorgio Moroder, do alto de seus setenta e poucos anos, parecer estar se divertindo muito com tudo isso - desde sua recente introdução ao mundo da discotecagem até a produção de música nova. E - ninguém é perfeito - vez ou outra ele ainda acerta.
Mais uma faixa do novo álbum de Giorgio Moroder (74 Is The New 24) que aparece, "Right Here, Right Now" tem a australiana Kylie Minogue nos vocais. Bom pop, mas me empolguei mais com o andamento durante as estrofes do que propriamente com o refrão. 74 Is The New 24 sai esse ano e deve contar ainda com participações de Charli XCX, Britney Spears e Foxes. Dica do sempre atento Thiago Giardini.
"Right Here, Right Now": Moroder ligadinho no pop 2014.
Giorgio Moroder é o Moisés da dance music: ele dividiu a música de pista em antes e depois de "I Feel Love" (Donna Summer, 1977). "74 Is The New 24" é o single que precede o novo álbum a ser lançado ano que vem (provavelmente com esse mesmo nome) e olha, é ótimo que aos 70 e poucos anos esse gênio ainda esteja na ativa e produza uma faixa consistente como essa. Os usuais arpejos de sintetizador, vocoders, pianos e guitarras da sua space disco atemporal o aproximam de pupilos como Lindstrøm e Todd Terje, ou seja, Moroder está mais atual do que nunca.
A bela animação de "74 Is The New 24": velocidade em slow motion.
O Coldplay está tentando voltar a ser humilde, mas Giorgio Moroder não deixa. Seu remix para "Midnight", uma das faixas do novo álbum da banda inglesa (Ghost Stories, sai 19 de Maio), vai discreto e eficaz durante os três primeiros minutos, depois o bicho pega. Vocoders, arpejos, coros e camadas de cordas deixam a tímida "Midnight" a um passo da suntuosidade.
Mas não se assuste. O leviatã dos sintetizadores chamado Moroder sabe dosar como ninguém.
Era inevitável. Exatamente como aconteceu com Nile Rodgers, agora é a vez do leviatã da eletrônica Giorgio Moroder oportunamente lançar uma coletânea escorado no recente sucesso de sua parceria com o Daft Punk.
Não sei qual foi o critério usado para a seleção das faixas, mas a lista de Best of Electronic Disco é bem estranha. Começa OK na segunda metade dos 70, sem pular monumentos do bigodudo como "From Here to Eternity" e "E=MC2", mas quando entra nos 80, as coisas ficam esquisitas. Há quatro faixas com o cantor Joe Esposito (incluindo a baba
"Lady, Lady, Lady", da trilha de Flashdance) e duas canções com Paul Engemann (a lamentável "Shannon's Eyes" e a pavorosa "American Dream").
Dificuldade em licenciar músicas com gravadoras, privilegiar algumas pérolas obscuras como "I Wanna Funk With You Tonight" (de 1976), fugir das obviedades (Donna Summer / "I Feel Love", Irene Cara / "What a Feelin'", Philip Oakey / "Together in Electric Dreams", Berlin / "Take My Breath Away"), qualquer que tenha sido o motivo para a escolha destas 19 faixas presentes em Best of Electronic Disco, não alivia o veredicto: metade delas são totalmente dispensáveis.
Mesmo sendo Giorgio Moroder.
"First Hand Experience In Second Hand Love": vocoders e arpejos.
Não que eu esteja atrasado. Fato é que não dá pra digerir rápido o novo disco do Daft Punk. E aesta altura, você já leu tudo sobre ele.
Você leu que Random Access Memories é a aproximação do Daft Punk com um som mais orgânico, vivo, que eles são alunos estudiosos, aplicados e amantes dos grooves setentistas desde sempre.
Que ficou muito mais difícil pra Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter criar música do nada. Mas o resultado compensou, porquê desta vez a dupla vem apoiada em inspiração e influência e músicos do naipe do gigante Nile Rodgers, não em samplers. Não que o sampler significasse menos qualidade para o Daft Punk. Nada disso. Chupar grooves semi-desconhecidos com a maestria que o duo pratica e transformar isso em hit mundial sem enquadrar a música numa fórmula de sucesso já comprovado é para pouquíssimos.
Que esse disco pode (e vai) derrubar vários (pré) conceitos, como o que joga Barry Manilow, Alan Parsons, Eagles ou 10cc na vala comum da cafonália, por exemplo. E o que tem da musicalidade pulsante e efervescente do som desse pessoal em Random Access Memories, só caras com uma reputação praticamente inatacável musicalmente como a do Daft Punk pra abalizar e fazer com que uma legião de detratores dê o braço a torcer.
Que no soft rock "Instant Crush", até Julian Casablancas (não estranhe ele num álbum do Daft Punk: Julian já se afastou da fórmula vencedora de Is This It? há tempos) aparece vocoderizado, num refrão emocionante; que "Touch" é uma espécie de Barry Manilow progressivo, com arranjos de cordas adocicados e backing vocals tipo musical da Broadway; que "Get Lucky" dificilmente não vai ser a música do ano; que o groove lento, o ótimo falsete de Pharrel Williams e a guitarra sinuosa de Nile Rodgers fazem do funk "Lose Yourself To Dance" uma das melhores dance tracks dos últimos meses e que, finalmente, Giorgio Moroder recebe uma homenagem à altura de sua genialidade.