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domingo, 28 de junho de 2015

Laranja Eletrônica


The Orange Collection é mais uma coletânea que dá uma geral no cast da Eskimo Recordings, o quarto volume da série cromática da gravadora belga (já saíram Pink, Blue e Green). É um bom panorama a respeito do que está se produzindo de electropop atualmente, trazendo fusões interessantes com house, disco e synthpop. O álbum tem, obviamente, altos e baixos. É o que normalmente se espera e é o que acontece aqui.

As cinco primeiras músicas (de um total de 12) são ótimas. A faixa de abertura "Odds Are Good", do projeto solo do produtor francês Frédéric Rivière, Anoraak, é technopop em slow motion, com uma bela sequência de arpejos e vocais entorpecidos.


"Higher" (Ary) e "Renegades" (Majestique) que vem em seguida, parecem canções de uma mesma banda: ambas tem vocais femininos delicados (com um pezinho no indie rock) e timbres de sintetizadores analógicos escolhidos a dedo. Dançável, mas não exatamente dance music. Ligeira vantagem pro Ary e o admirável trabalho vocal da norueguesa Ariadne Loinsworth Jenssen.




"Animals", do Du Tonc - dupla formada pelo vocalista e baixista do Van She, Matt Van Schie e o produtor Mighty Mouse - é um primor. Disco music sintética, com aquele baixo dugu-dugu-dugu infalível. Pra mim, a melhor do álbum.



"Riptide", de George Bakalakos e seu NTEIBINT, encerra a melhor parte desta Orange Collection. Mais influências disco filtradas pela sensibilidade e precisão eletrônica do produtor grego. 



A curva descendente começa com "On & On", do australiano This Soft Machine. A ideia de continuidade e movimentos ininterruptos sugeridos pelo título esbarram na falta de criatividade e repetição sonolenta do tema. A viagem space disco de Tarjei Nygard & Are Foss ("Flog") dura quase seis minutos e não vai a lugar nenhum. A inacreditável "Fernandez", do israelense Moscoman, também patina: um mix de gosto duvidoso entre Country & Western e eletrônica retrô, com uma linha de baixo monocórdica. Pode pular essa. Uma animadinha com o simpático dance pop (no sentido Olivia Newton-John do termo) da dupla Horixon e sua "Hold It Like I Own It".     



"Find My Love", do misterioso Trulz, tem um baixo de dar vertigem, a despeito dos vocais não serem lá grande coisa. A italo disco instrumental de Marvin & Guy ("Unfailing Fall") é totalmente dispensável. Pomposa e chata em seus longos oito minutos e meio de duração. The Orange Collection encerra com "Wear Out", do duo Hydrogen Sea. Linda trama de sintetizadores apoiada por strings emotivos e os vocais etéreos da cantora Birsen Uçar, tudo coberto com um verniz dark que deixa a faixa com aquela carga dramática contida e de beleza indiscutível. Vale dizer, no entanto, que o climão desta versão é culpa do remix do DJ e produtor holandês Mees Dierdorp (a original é muito diferente, mas igualmente boa).



O saldo de The Orange Collection, no final, é altamente positivo. Fica fácil constatar que a Eskimo continua lançando bom material (desde sua fundação, em 2000) e não precisa apelar para alguns nomes de peso em seu elenco (Prins Thomas, Lindstrøm, Kris Menace, Chromeo, Aeroplane) pra tornar uma compilação atraente.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

It's Only Words And Words Are All I Have


Queria saber qual é o método que o diretor de A&R da Get Physical (se é que eles tem um) usa pra acrescentar nomes ao cast e depois separar as faixas que entram nas compilações da gravadora alemã. Imagine dezenas de músicas entupindo seu email todo dia, com pretensos artistas que ainda não ultrapassaram musicalmente as janelas dos seus próprios quartos.

Não é o caso da recente coletânea Words Don't Come Easy, uma vez que a maioria aqui já tem uma carreira estabelecida (mesmo que grande parte ainda não tenha sentido o gostinho do mainstream) e a seleção não contenha exclusivamente lançamentos, as faixas foram pinçadas do belíssimo catálogo da Get Physical. A regra é uma só: tem que ter vocais. Daí o nome do disco, uma provável citação ao refrão do hit chumbrega "Words", de F.R. David (1982).

Abrindo os trabalhos com "Hausch", da dupla alemã andhim (em minúsculas, mesmo), dá pra sacar que a Get Physical seguiu à risca o tema, ainda que alguns cantores não tenham trabalhado exclusivamente para as faixas da seleção escolhida - porque em "Hausch", a impressão que tenho é que foi tudo extraído via sampler de velhos discos de blues e gospel. O resultado final compensou; lembra um Moby circa Play. O mesmo vale para a climática "Till The End Of...", de Anthony Middleton - embora a fonte destas vozes aparente ser outra (algum R&B que eu não conheço?). O próprio Middleton engata outra faixa no álbum, numa parceira com o DJ e produtor Luca Saporito e seu projeto Audiofly ("6 Degrees", que aparece num remix do Tale Of Us, com a voz da misteriosa Fiora).

A quarta faixa - do desconhecido Bedouin - é um crossover de pós-punk com dance music que rendeu a ótima "Walk Away". Agrada tanto na sala de estar quanto na pista de dança e é um dos melhores momentos da coletânea.



"It's All I Need", do duo mexicano Climbers, é uma surpreendente house vinda daqueles lados. Linha de baixo potente e empréstimo vocal de Judy Cheeks ("Respect", 1995). "Sunset", do belga Maxime Firket (Compuphonic), mantém o padrão alto de qualidade num tech house elegante (com vocais do cantor e violinista Marques Toliver) e com velocidade abaixo do usual.



A faixa mais pop e divertida de Words Don't Come Easy é, sem dúvida, o balaço "City Life" (com Cari Golden ao microfone e um remix espetacular de Maceo Plex). É uma merecida segunda chance para uma canção lançada originalmente em 2011.



As esquisitices também valem a pena. Excentricidades são sempre bem-vindas - como as mostradas nos pianinhos nervosos e nos vocais completamente desengonçados de "Remember Love", do duo francês Nôze (2007); nos backing vocals que emulam uma espécie de Laurie Anderson tech house (em "Crazy", da cantora pop francesa Ornette) e especialmente em "Moment" (Damian Lazarus, 2009), que começa como um pop nostálgico à Deacon Blue e termina como uma produção do DJ Koze.



Pra fechar, um remix fresquinho de uma música que já vinha pedindo uma atualizada há tempos: a clássica "Pearls" (Sade), saiu da sala de cirurgia com uma cara renovada (mesmo com poucos retoques) pelas mãos competentes do produtor Timo Jahns - que manteve inalterados os vocais extracool do original.



O saldo é altamente positivo. Não há uma faixa ruim em Words Don't Come Easy e quase tudo funciona bem tanto em casa quanto na pista - o que é sempre bom sinal. De quebra, reforça a certeza de uma posição alta pra Get Physical num hipotético Top 10 Gravadoras Mais Importantes de Dance Music dos últimos 10 anos.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Cavaleiros da House


O Le Knight Club foi um projeto que surgiu da parceria entre Eric Chedeville e Guy-Manuel de Homem-Christo (Daft Punk). Entre 1997 e 2002, foram 12 singles, alguns divididos com outros nomes como Paul Johnson, DJ Sneak, Doggystyle e The Eternals (não, não conheço nenhum desses).

O legal é que se bateu saudade do Daft Punk "clássico", taí a recém lançada coletânea Crydamoure (também nome do selo de Chedeville e Homem-Christo), que faz uma apanhado das faixas mais legais dos cinco anos de atividades da dupla. Em alguns momentos, lembra muito o trabalho dos autores de "One More Time", especialmente no gancho de sintetizador hipnótico de "Holiday On Ice", nos vocais com o pitch lá em cima de "Soul Bells" (com empréstimo de "Streetwave", do Brothers Johnson) e nos metais nervosos de "Hysteria" (com sample da guitarra de "Miracles", do Change). De resto, a fórmula das nove faixas é basicamente a mesma: samples adulterados de disco e funk, loops intermináveis e linhas de baixo absurdas. Não é difícil sacar porque o projeto não teve fôlego: o duo provavelmente entendeu que começou a soar repetitivo demais e abandonou o Le Knight Club. Mas não que isso tire o mérito dessa compilação. Pelo contrário. Crydamoure é um item valioso na coleção de qualquer fã de french house e mais ainda na de quem deixou escapar essas faixas na época de lançamento (eu, inclusive). O detalhe curioso é a qualidade das gravações. Uma audição atenta revela vários trechos em que é possível perceber a fritação do vinil e em outros o áudio falha, mesmo (hi-hats achatados que me parecem de forma não intencional, e sim culpa de uma agulha meia-boca, por exemplo), o que reforça minha suspeita de uma coletânea não oficial. Não que eu me importe.

"Holiday On Ice": preciosidade.

domingo, 18 de maio de 2014

Reeducation For The Infants


Em 2014, o trio synthpop Camouflage completa 30 anos de atividades. Provavelmente a contragosto da banda, a Polydor achou que tinha a ver jogar mais uma coletânea dos alemães no mercado - The Singles já é a quarta. Remasterizadas digitalmente e organizadas em ordem cronológica, as 20 faixas são uma boa introdução ao som do grupo e um item indispensável na coleção dos admiradores fervorosos de technopop.
Idealistas e cheios de ideias ingênuas sobre política, o Camouflage teve bons momentos no começo de carreira, mas aderiu tardiamente ao tipo de som a que se propôs. O synthpop já estava em declínio quando o grupo teve o primeiro (e até agora, maior) hit, "The Great Commandment", de 1987.


Boas canções como a delicada "That Smiling Face" e "Love Is A Shield" (com seu memorável som de oboé), conferiram popularidade ao Camouflage, assim como a ótima "Neighbours" (1988) - apesar da estrutura muito parecida com "New Dress", do Depeche Mode (1986).



A partir dos 90, o Camouflage se perde. Experimentou com bateria acústica e músicos de estúdio (no álbum Meanwhile, de 1991), volta radicalmente à eletrônica no álbum seguinte (Bodega Bohema, 93) e tenta pegar carona em sons então mais atuais, como o techno (Spice Crackers, 95), mas os acertos são cada vez mais raros e hits, nem pensar. Só em 2003, o Camouflage volta a lançar um bom single ("Me And You").



Inicialmente programado para 2014, a data de lançamento do novo álbum Greyscale foi alterada para 13 de Fevereiro de 2015, conforme comunicado no site da banda.

"Love Is a Shield":

sábado, 19 de abril de 2014

He Wants


Há mais de vinte anos atrás das pick-ups, o DJ e produtor gaúcho Fabrício Peçanha divide-se entre as discotecagens e a criação de faixas, como "I Want You", que acabou de lançar. A música foi incluída em WMC Survival Kit 2014, compilação do selo alemão de house music Moodmusic Records. À venda no Beatport (onde entrou no Top 40 das mais vendidas do site), "I Want You" é um tech house eficiente com sample dos vocais de Pharrell Williams no R&B "Frontin'" (de 2003). 

"I Want You": o onipresente Pharrell.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Segunda Class: The Orb

Paterson e seu atual colaborador, Thomas Fehlmann.
 Nunca é tarde pra descobrir o The Orb. Cria da mente mucholoca de Duncan Alexander Robert Paterson - Dr. Alex Paterson - e do visionário Jimmy Cauty (The KLF), o projeto apareceu no final dos 80 com um mix de eletrônica, dubismo, psicodelia e ficção científica. Com temas focados num tipo de som que fosse adequado pro descanso pós-gandaia dos ravers, a experiência resultou no surgimento da ambient house.   


O CD duplo History of the Future saiu em Outubro e compila boa parte dos singles do Orb pela gravadora Island no disco 1, e remixes no CD 2. Na versão Box Set, são três CDs mais um DVD com apresentações ao vivo, vídeos e parte de um show realizado em 1993, em Copenhagen.

O primeiro single do Orb, "A Huge Ever Growing Pulsating Brain That Rules From The Centre Of The Ultraworld" (com sample de "Loving You", de Minnie Riperton) aparece em duas versões (uma dançável, outra não), e ambas as faixas ganharam um fade out na metade da extensão de suas edições, assim como convenientemente foi feito com a fantástica "Blue Room", que não chega nem perto da duração original. Mesmo com impraticáveis 40 minutos (!), "Blue Room" (com uma impressionante linha de baixo de Jah Wobble) chegou ao número #8 no paradão inglês, em Junho de 1992 e catapultou o álbum U.F.Orb, inacreditavelmente, ao topo da parada, um mês depois. Outros tempos.

O veredicto é um só: se você não conhece muito bem o The Orb, History of the Future é absolutamente essencial.

"Blue Room (7" Mix)": boa de pista, boa de fone de ouvido.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Segunda Class: Tony Bennett


É sério. Tony Bennett é legal. Tem aquela pegada cafajeste hollywoodiana de Sinatra e Sammy Davis Jr., mas sua voz limpa, potente e aveludada (quando necessário) compensa. Assusta um pouco na suntuosidade dos arranjos de "Reflections" e nos exageros vocais de "Maybe September", mas os dois minutos e meio deliciosos de "I Wish I Were In Love Again" e a delicadeza acústica de "Blue Moon" superam qualquer escorregada. E o "Cole Porter Medley"? Maravilha.

Está tudo em As Time Goes By, Great American Songbook Classics, lançado em Fevereiro deste ano. Aos 87 anos, um dos últimos moicanos na ativa. Essencial.

"Blue Moon": original de 1958.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Segunda Class: King Tubby


Segunda complicada? Ressaquinha? Dub é um santo remédio.  


King Tubby foi um gênio. Possuía uma oficina de reparos de rádios e TVs em Kingston, começou a trabalhar com amplificadores, até construir modelos modelos mais resistentes e potentes dos usados habitualmente na Jamaica e montar seu próprio sound system - o King Tubby's Hometown Hi-Fi - que rapidamente tornou-se o mais popular da Ilha no final dos anos 50. Com seu conhecimento de eletrônica, trabalhou numa das primeiras gravadoras independentes local, a Treasure Isle Studios. No estúdio, Tubby empenhou-se na produção de lados B de singles de artistas jamaicanos (que continham a versão instrumental da faixa principal), e descobriu que era possível não só remover os vocais, mas também acrescentar efeitos como eco, reverb, distorções, além de acentuar baixo e bateria, até tornar a música quase irreconhecível. Nascia o dub, e por extensão, o remix.

Tubby foi baleado e morto em frente à sua casa, em 1989.

Hometown Hi-Fi Dubplate Specials 1975-1979 sai agora em 2013, e compila parte dos dubs tocados com exclusividade pelo sound system de King Tubby. São 18 faixas carregadas de efeitos e apenas ecoando referências e amostras do que eram os vocais originais, pra perda dos sentidos ser apenas parcial.

Essencial.

Dá pra ouvir trechos da coletânea no Soundcloud:

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Daqui Para A Eternidade


 Era inevitável. Exatamente como aconteceu com Nile Rodgers, agora é a vez do leviatã da eletrônica Giorgio Moroder oportunamente lançar uma coletânea escorado no recente sucesso de sua parceria com o Daft Punk.


Não sei qual foi o critério usado para a seleção das faixas, mas a lista de Best of Electronic Disco é bem estranha. Começa OK na segunda metade dos 70, sem pular monumentos do bigodudo como "From Here to Eternity" e "E=MC2", mas quando entra nos 80, as coisas ficam esquisitas. Há quatro faixas com o cantor Joe Esposito (incluindo a baba "Lady, Lady, Lady", da trilha de Flashdance) e duas canções com Paul Engemann (a lamentável "Shannon's Eyes" e a pavorosa "American Dream").

Dificuldade em licenciar músicas com gravadoras, privilegiar algumas pérolas obscuras como "I Wanna Funk With You Tonight" (de 1976), fugir das obviedades (Donna Summer / "I Feel Love", Irene Cara / "What a Feelin'", Philip Oakey / "Together in Electric Dreams", Berlin / "Take My Breath Away"), qualquer que tenha sido o motivo para a escolha destas 19 faixas presentes em Best of Electronic Disco, não alivia o veredicto: metade delas são totalmente dispensáveis.

Mesmo sendo Giorgio Moroder.

"First Hand Experience In Second Hand Love": vocoders e arpejos.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

We're Up All Night To Get Money



 Nile Rodgers não perdeu tempo. Bastou o Daft Punk trazer à tona pros anos 2000 o genial guitarrista do Chic, que já rolou mais uma coletânea - a décima sexta do grupo. Bastante pra uma banda que tem metade desse número de álbuns de estúdio. O subtítulo da compilação, inclusive, pega uma carona num trecho da letra do megahit "Get Lucky" da dupla francesa, que Rodgers participa ("We're up all night to get lucky").


 Mas que diferença isso faz quando a música aqui nesse CD duplo é fantástica? Nile Rodgers Presents the Chic Organization: Up All Night cata o melhor da produção do Chic, e não só pra sua banda titular, mas também para medalhões como Diana Ross, Carly Simon, Debbie Harry e suas protegidas do Sister Sledge. Como tudo de bom que a banda fez só caberia num box com 10 CDs, ficaram de fora nomes como Duran Duran ("Notorious"), David Bowie ("Let's Dance"), INXS ("Original Sin") e mais um monte de gente, mas justifica-se pelo fato das faixas escolhidas cobrirem o período 1977 - 1982, em que Nile Rodgers e o baixista Bernard Edwards assinavam as produções como The Chic Organization.

Entre várias versões extended e itens exóticos como um pseudo-sambinha com o galã da menopausa Johnny Mathis ("I Love My Lady"), dá pra sacar as fontes de vários samples. O mais famoso, claro, é o baixo com refrão de 20 notas de "Good Times" (que serviu de Queen à Gabriel o Pensador). Mas dá pra entender também que "Lady (Hear Me Tonight)" do Modjo (hitaço de 2000) chegou no topo de várias charts escorada em quase toda base de "Soup For One".

Obrigatório.

"Everybody Dance (12' Version)": maior e melhor.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Sexta Feira Bagaceira: Army Of Lovers


Se você não acompanhou a trajetória do Army Of Lovers de 1987 até agora, saiba que não perdeu muita coisa. O erotismo burlesco e o pop dançante de altíssimo teor camp está bem representado na recém lançada coletânea Big Battle of Egos, que compila 16 faixas dos 26 anos de carreira do grupo sueco. Mas o que realmente vale a pena, caberia num EP. A saber: a boa italo-disco "Signed On My Tattoo" (uma das quatro inéditas presentes no álbum), a refrescante "My Army Of Lovers" (digna de figurar em alguma edição da série Café Del Mar), a house "Ride The Bullet" e a melhor da leva, a ótima "Obsession".


O single "Obsession" foi lançado em 1991, foi bem nas paradas europeias, mas não chegou nem perto de ser popular na Inglaterra ou Estados Unidos, ficando praticamente restrito à execução nos clubs. Aqui o Army Of Lovers acerta um belo refrão (sussurrado pelo vocalista Alexander Bard), usa uma base vocal em staccato inspirada em "O Superman" de Laurie Anderson e garante que os pés se movimentem na pista com um corpulento groove Soul II Soul. Não foi o maior hit da banda ("Crucified" mantém o posto), mas com certeza é sua melhor música.

"Obsession": sexy e cafona.
 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Feet In Motion


Altos e baixos na terceira compilação que acabou de sair da Get Physical, ótimo selo alemão de eletrônica (capa engraçadinha acima). Focada em deep e tech house, a coletânea abre com o climão dark de "Hands Full Of Black Color" do produtor Bryan Kessler, vira com a parceria entre Manuel "Mantu" Overbeck e Adeline Supreme na batida suingada de "Next Gen" - que é um ótimo contraponto para os vocais sexy, segue com as baterias nervosas de "When It Was Good" (Ioakim Sayz) e emenda um tech house padrão maquinado pela dupla britânica Stereo.type ("Momento"). A primeira boa surpresa é "All Gods Love" de MAD ! Feat. Antranita: ela tem um baixo cavalar totalmente anos 90 e os vocais reverberam como se tivessem sido gravados no banheiro do produtor. Não sei se a Antranita dos créditos é um sample de alguma diva underground ou se os vocais são originais, mas o resultado ficou bonito demais. Depois tem os graves no limite da distorção de Acumen em "Copie Conforme", o baixo elástico de "Get Into The Groove" (nenhum sample de Madonna aqui) de Hector Couto e a dura de cintura "Agent Elastic" do DJ Hal. Outro bom momento é o inacreditável freestyle "Spend The Night" (Palma & Salvatierra), que parece uma gravação feita em algum estúdio na Miami de 1988 (pensa no Noel Pagan gravando house). Get Physical Tracks Volume 3 passa a régua com a esquisitona "Some Sense" de Julio Victoria - com os vocais grandiloquentes de um tal de Steinlausky. A faixa aparenta uma certa falta de harmonia entre a voz de barítono do cantor com os teclados flutuantes e a base houseificada, mas esses elementos que parecem não ter nascido um pro outro acabam por tornar a faixa estranhamente encantadora, além de ser bem sacolejante.

Dá pra comprar separado no Beatport ou optar pelo álbum todo mixado e pagar de Steve Angello enquanto você coloca os fones de ouvido, capricha na cara de concentrado e banca o fodão das viradas na sua festinha descolada. Das dez faixas, metade é jóia (particularmente, as que contém vocais), o resto pode até preencher o requisito "manter os pés em movimento", mas também não tem nada de inesquecível.


"All Gods Love": 1991 é hoje.

sábado, 18 de maio de 2013

Soul Colorido


Boa oportunidade de conhecer o soul psicodélico de Shuggie Otis, com um lançamento que ainda respinga do Record Store Day: a coletânea Introducing Shuggie Otis. Se as onças estão circulando livremente pela sua casa, recomendo o vinil 180 gramas que saiu pela Epic, cópias numeradas e edição limitada. Vem com senha pra baixar em MP3 também. Ou, claro, você pode dar um rolê pela rede e topar com o álbum louquinho pra ser ouvido. 


 A compilação inclui gemas como "Aht Uh Mi Hed" (com percussão genial e uma belíssima sessão de cordas) e "Strawberry Letter 23", que virou hit com o Brothers Johnson em 1977 (a versão não escapou dos ouvidos atentos de Quentin Tarantino que a incluiu em seu Jackie Brown vinte anos depois). A única faixa de Otis que chegou perto do sucesso foi "Inspiration Information" de 1974, com desempenho modesto na parada R&B da Billboard. É mais um daqueles casos em que a influência e inspiração para artistas posteriores - além de fonte riquíssima de samples - supera qualquer fracasso comercial. Shuggie ainda está na ativa e finaliza um álbum de inéditas para ser lançado ainda em 2013, chamado Cash Deep.

"Strawberry Letter 23": visões multicoloridas.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

As Dores Do Mundo


Se você nunca ouviu falar, vale a pena conhecer: o sueco Jäje Johanson apareceu no meio dos 90 com um punhado de canções dolorosamente românticas envoltas num adverso clima em preto e branco; nublado, desesperançado. Não é à toa que Jay-Jay aparece na capa de seu terceiro disco (Poison, 2000) com um corvo ao seu lado. Seu vocal límpido inclina-se para o jazz no fundo do poço de Bing Crosby, elegante, mas à centímetros da suntuosidade ("So Tell The Girls That I Am Back In Town"). Felizmente, ele nunca ultrapassou essa linha. Não que eu tenha ouvido. Best of 1996-2013 cobre os singles do cantor, do início da carreira até agora. Na coletânea, percebe-se que Johanson fica à vontade em meio à rocks sujinhos e distorcidos ("Keep It A Secret"), house ("Because Of You"), jazz ("Dilemma") e pop ("Paris"), mas é a tag trip-hop que mais carimbou seu trabalho (a melhor da leva é a sensacional corta-pulsos "Believe In Us"). O saldo positivo é que suas canções tem a mesma intensidade e carga emocional, esteja ele acompanhado apenas de um piano (como na linda "On The Other Side") ou da complexidade das batidas do drum'n'bass ("She's Mine But I'm Not Hers"). Não perca.

"Believe In Us": fossa nova.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Experimentar (Não) É Preciso

 Das duas uma: ou discos de eletrônica experimental faziam sentido pra mim só no século passado ou não tenho mais paciência pra gente que se autoproclama artista antes de qualquer coisa (músico, por exemplo). Nem sei se essa autoproclamação é o caso do francês Quentin Dupieux (Mr. Oizo) ou do americano Dayve Hawk (Memory Tapes) - espero que não - mas seus discos mais recentes são chatos pra cacete.
  

O título Unreleased Unfinished Unpleasant é a melhor coisa dessa compilação de sobras de Mr. Oizo, porquê explica exatamente o que são as 12 faixas: não lançadas, inacabadas e desagradáveis, conforme tuíte do próprio:

Ele podia ter substituído o "prepare seus ouvidos" por "prepare seu saco". E dá-lhe timbres esquisitos, ritmos trôpegos, sequências irritantes. Não admira ele ter disponibilizado de graça essa tranqueira.

"Duck Guts": e esse tecladinho?





Já o Memory Tapes é o cabeçudo da história. Profundo, folkeado, onírico. Três adjetivos que indicam perigo quando reunidos em disco. Cuidado.

"Sheila": oito minutos e meio. Sono.


domingo, 16 de setembro de 2012

Xerocadas Geniais

Shadow (a frente): escritório desorganizado.
DJ Shadow vai gravar mais 38 discos e nenhum vai chegar aos pés do seu debut Endtroducing....., de 1996. Era o tal momento mágico do artista, Toque de Midas, auge da inspiração.
 

Beleza, mas como é que ele grava um disco fundamental como esse, assim, de cara? Bueno, o californiano Joshua Paul "Josh" Davis vinha desde o começo dos 90 azeitando a máquina (no caso, o sampler Akai MPC60), até chegar na mistura perfeita de rap, funk, jazz e psicodelia de Endtroducing..... Esse processo todo agora pode ser descoberto através do lançamento mais recente de Shadow, Total Breakdown: Hidden Transmissions From The MPC Era, 1992-1996. A coletânea compila exatamente as faixas não lançadas no período pré-Entroducing (há registros de 25 segundos até sete minutos), e dá pra ter a exata noção do trabalho paciente de Davis com uma mão nos toca-discos e a outra no MPC.
 
"Affectations": quase no ponto. 


sábado, 8 de setembro de 2012

Drop The Bomb

 
 
Tim Simenon foi um dos heróis da primeira geração acid house britânica. Em 1987 - com pouco mais de 500 libras - prensou em vinil um engavetamento de mais de 70 samples chamado "Beat Dis", hit underground. Depois de assinar com o extinto selo de dance music Rhythm King, a distribuição e divulgação mais organizadas levaram o compacto ao número dois no paradão inglês um ano mais tarde, trazendo consigo uma leva de novos artistas com o smiley grudado nas capas ("Doctorin' the House" do Coldcut e "Theme From S-Express" do S-Express seguiram "Beat Dis" rumo ao Top Dez britânico). Produtor influente e aluno aplicado, Simenon trabalhou com gente tão diversa quanto Depeche Mode, Neneh Cherry, David Bowie e Sinéad O'Connor e ainda ajudou a definir o que seria o trip-hop em singles como "Winter In July" (1991) e o breakbeat de bandas como o Prodigy com o lado mais agressivo do seu subestimado álbum Unknown Territory, também de 1991. Para entendermos parte desse processo, temos do Bomb The Bass o recém lançado Rare and Unreleased, uma compilação que se auto-explica pelo título. Indispensável.   
 
 
A fantástica "Black River" (com vocais do ex-Screaming Trees Mark Lanegan), aparece numa versão demo em Rare and Unreleased. Impressiona a qualidade da demo (que mais parece o produto final, sem nada pra ser melhorado) e o resultado arrepiante da versão que foi pro álbum "Future Chaos" (2008), no vídeo abaixo: 

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Lado B = Lado A



A frase que li no Twitter outro dia sobre o novo álbum do Com Truise matou a charada: "Qual a diferença entre um disco de raridades do Com Truise e um disco 'normal'?". A resposta é óbvia: nenhuma.  


In Decay é uma compilação de inéditas, gravações pré-lançamentos oficiais e demos somente disponibilizadas anteriormente via Internet. O projeto synthpop/electro/downtempo do nova-iorquino Seth Haley vem ganhando admiradores desde o lançamento de Galactic Melt, seu debut do ano passado. Eu não acho lá grande coisa, mas para fãs de sintetizadores e entusiastas de pop eletrônico instrumental com os dois pés na década de 80, o som do Com Truise é o que há. Nadaver com coisas tipo o que Jean-Michel Jarre se transformou nessa época (um mala espacial/progressivo). A pegada aqui é uma espécie de simbiose improvável entre Harold Faltermeyer e Paul Hardcastle. Tava aqui vendo o site do Com Truise e analisando sua turnê européia, que começou em Maio e encerra em Agosto. Pensei que deve ser curioso e/ou engraçado assistir um show com um cara que fica com o nariz enterrado num laptop durante um bom tempo. Você nunca sabe se ele está cortando graves, limando vocais, adicionando samples ou se está só lendo o e-mail mesmo.

"84' Dreamin": o título diz tudo.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

The Best Of The Rest


O trocadilho infame "Pet Shop Sirs" não tem mais graça, né? OK. Viu que eles vão lançar em Fevereiro mais uma compilação de B-Sides e raridades? Format vem na mesma onda de Alternative, coletânea de 1995 que juntava trinta lados B dispostos cronologicamente em dois CDs. Já Format cobre o período restante, até a atualidade. 

 
A diferença é que dessa vez a dupla incluiu promos tipo "The Truckdriver & His Mate", que saiu em 1996 na versão cassete do single "Before" e também numa edição limitadíssima em vinil com uma capa que trazia a singela imagem de um par de bilaus cabisbaixos. Outro promo sensacional é "The Boy Who Couldn't Keep His Clothes On", um sacolejo house de teclados xinfrin e uma capacidade notável de transformar o título auto-explicativo da canção num refrão ganchudo. Format também revela coisas como o duo se aventurando na selva drum'n'bass, com resultado duvidoso ("Betrayed"), trip-hop (a arrastada "Silver Age"), techno-estéril ("Transparent", "Casting A Shadow") e numa vibe totalmente adolescente (algo me diz que "The Ghost Of Myself" foi escrita pensando em Britney Spears). Tem ainda as provocações e ironias típicas dos Pet Shop Boys, na ótima "How I Learned To Hate Rock And Roll" e em "Searching For The Face Of Jesus"; remixes ruins como "In The Night (1995)" e "Discoteca (New Version)" - muito abaixo das originais - e baladonas corta-pulsos como "No Time For Tears" e "Confidential (1992 Demo For Tina Turner)", que me deixou curiosíssimo a respeito do subtítulo. E os hits em potencial relegados à mero preenchimento de singles? Aqui temos faixas inacreditáveis como a lindíssima "In Private" (com participação de Elton John), popíssima, mas que acabou no outro lado de "Minimal" (2006). Bom, para fãs dos Pet Shop Boys como eu, esse disco é um presente e tanto antes da dupla lançar álbum novo (prometido para esse ano). Para apreciadores de música pop então, nem se fala. Só fica a dúvida: se você acha que Neil Tennant e Chris Lowe estão precisando de grana pra pagar seus respectivos jardineiros, espere o lançamento oficial. Senão, ele já está disponível por aí, você sabe. 

"How I Learned To Hate Rock And Roll": eu também detesto ás vezes, Neil.