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terça-feira, 22 de julho de 2014

Cavaleiros da House


O Le Knight Club foi um projeto que surgiu da parceria entre Eric Chedeville e Guy-Manuel de Homem-Christo (Daft Punk). Entre 1997 e 2002, foram 12 singles, alguns divididos com outros nomes como Paul Johnson, DJ Sneak, Doggystyle e The Eternals (não, não conheço nenhum desses).

O legal é que se bateu saudade do Daft Punk "clássico", taí a recém lançada coletânea Crydamoure (também nome do selo de Chedeville e Homem-Christo), que faz uma apanhado das faixas mais legais dos cinco anos de atividades da dupla. Em alguns momentos, lembra muito o trabalho dos autores de "One More Time", especialmente no gancho de sintetizador hipnótico de "Holiday On Ice", nos vocais com o pitch lá em cima de "Soul Bells" (com empréstimo de "Streetwave", do Brothers Johnson) e nos metais nervosos de "Hysteria" (com sample da guitarra de "Miracles", do Change). De resto, a fórmula das nove faixas é basicamente a mesma: samples adulterados de disco e funk, loops intermináveis e linhas de baixo absurdas. Não é difícil sacar porque o projeto não teve fôlego: o duo provavelmente entendeu que começou a soar repetitivo demais e abandonou o Le Knight Club. Mas não que isso tire o mérito dessa compilação. Pelo contrário. Crydamoure é um item valioso na coleção de qualquer fã de french house e mais ainda na de quem deixou escapar essas faixas na época de lançamento (eu, inclusive). O detalhe curioso é a qualidade das gravações. Uma audição atenta revela vários trechos em que é possível perceber a fritação do vinil e em outros o áudio falha, mesmo (hi-hats achatados que me parecem de forma não intencional, e sim culpa de uma agulha meia-boca, por exemplo), o que reforça minha suspeita de uma coletânea não oficial. Não que eu me importe.

"Holiday On Ice": preciosidade.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Os Dez Álbuns de 2013


A exemplo da escolha das minhas faixas preferidas de 2013, os álbuns também seguem a mesma lógica sintético/sacolejante. Vão ser só dez, porque como escrevi no Top 65 Músicas, acho que foi um ano de poucos discos realmente bons, homogêneos, coesos. Olha, nada de The Knife, Boards Of Canada, Darkside ou Atoms For Peace. Não vou pagar de cool. Esses aí vão aparecer em muitas listas, ouvi todos e só consegui simpatizar um pouco com o Amok, do Atoms For Peace (projeto do Thom Yorke), mesmo assim, não acho suficiente pra estar num Top 10. Entendo a guinada artística e a ousadia do Knife, mas Shaking The Habitual é, francamente, inaudível. O Tomorrow's Harvest - que encerrou um jejum de oito anos do Boards Of Canada - achei árido demais, e o Darkside (parceria do músico/produtor Nicolas Jaar e do multi-instrumentista Dave Harrington), me deixou com a impressão de que o hype encobriu a música - que não é essa rapadura toda, apesar dos bons momentos revivendo o Pink Floyd no seu debut Psychic (especialmente em "Heart" e "Metatron"). O que eu realmente ouvi, curti, repeti, cantei junto, decorei a ordem das faixas e dancei, é o que está abaixo. Os links com os textos sobre cada um destes álbuns postados em 2013 aqui no blog, estão em vermelho.

10 - DJ Day - Land Of 1000 Chances


9 - Ian Pooley - What I Do


8 - Zomby - With Love


7 - Rudimental - Home



6 - Kölsch - 1977


5 - Mesh - Automation Baby


4 - Hot Natured - Different Sides Of The Sun


3 - Kraak & Smaak - Chrome Waves


2 - Daft Punk - Random Access Memories


1 - Disclosure - Settle


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Daqui Para A Eternidade


 Era inevitável. Exatamente como aconteceu com Nile Rodgers, agora é a vez do leviatã da eletrônica Giorgio Moroder oportunamente lançar uma coletânea escorado no recente sucesso de sua parceria com o Daft Punk.


Não sei qual foi o critério usado para a seleção das faixas, mas a lista de Best of Electronic Disco é bem estranha. Começa OK na segunda metade dos 70, sem pular monumentos do bigodudo como "From Here to Eternity" e "E=MC2", mas quando entra nos 80, as coisas ficam esquisitas. Há quatro faixas com o cantor Joe Esposito (incluindo a baba "Lady, Lady, Lady", da trilha de Flashdance) e duas canções com Paul Engemann (a lamentável "Shannon's Eyes" e a pavorosa "American Dream").

Dificuldade em licenciar músicas com gravadoras, privilegiar algumas pérolas obscuras como "I Wanna Funk With You Tonight" (de 1976), fugir das obviedades (Donna Summer / "I Feel Love", Irene Cara / "What a Feelin'", Philip Oakey / "Together in Electric Dreams", Berlin / "Take My Breath Away"), qualquer que tenha sido o motivo para a escolha destas 19 faixas presentes em Best of Electronic Disco, não alivia o veredicto: metade delas são totalmente dispensáveis.

Mesmo sendo Giorgio Moroder.

"First Hand Experience In Second Hand Love": vocoders e arpejos.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

We're Up All Night To Get Money



 Nile Rodgers não perdeu tempo. Bastou o Daft Punk trazer à tona pros anos 2000 o genial guitarrista do Chic, que já rolou mais uma coletânea - a décima sexta do grupo. Bastante pra uma banda que tem metade desse número de álbuns de estúdio. O subtítulo da compilação, inclusive, pega uma carona num trecho da letra do megahit "Get Lucky" da dupla francesa, que Rodgers participa ("We're up all night to get lucky").


 Mas que diferença isso faz quando a música aqui nesse CD duplo é fantástica? Nile Rodgers Presents the Chic Organization: Up All Night cata o melhor da produção do Chic, e não só pra sua banda titular, mas também para medalhões como Diana Ross, Carly Simon, Debbie Harry e suas protegidas do Sister Sledge. Como tudo de bom que a banda fez só caberia num box com 10 CDs, ficaram de fora nomes como Duran Duran ("Notorious"), David Bowie ("Let's Dance"), INXS ("Original Sin") e mais um monte de gente, mas justifica-se pelo fato das faixas escolhidas cobrirem o período 1977 - 1982, em que Nile Rodgers e o baixista Bernard Edwards assinavam as produções como The Chic Organization.

Entre várias versões extended e itens exóticos como um pseudo-sambinha com o galã da menopausa Johnny Mathis ("I Love My Lady"), dá pra sacar as fontes de vários samples. O mais famoso, claro, é o baixo com refrão de 20 notas de "Good Times" (que serviu de Queen à Gabriel o Pensador). Mas dá pra entender também que "Lady (Hear Me Tonight)" do Modjo (hitaço de 2000) chegou no topo de várias charts escorada em quase toda base de "Soup For One".

Obrigatório.

"Everybody Dance (12' Version)": maior e melhor.

domingo, 16 de junho de 2013

Robôs Com Alma


Não que eu esteja atrasado. Fato é que não dá pra digerir rápido o novo disco do Daft Punk. E a esta altura, você já leu tudo sobre ele.


  Você leu que Random Access Memories é a aproximação do Daft Punk com um som mais orgânico, vivo, que eles são alunos estudiosos, aplicados e amantes dos grooves setentistas desde sempre.

Que ficou muito mais difícil pra Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter criar música do nada. Mas o resultado compensou, porquê desta vez a dupla vem apoiada em inspiração e influência e músicos do naipe do gigante Nile Rodgers, não em samplers. Não que o sampler significasse menos qualidade para o Daft Punk. Nada disso. Chupar grooves semi-desconhecidos com a maestria que o duo pratica e transformar isso em hit mundial sem enquadrar a música numa fórmula de sucesso já comprovado é para pouquíssimos.

Que esse disco pode (e vai) derrubar vários (pré) conceitos, como o que joga Barry Manilow, Alan Parsons, Eagles ou 10cc na vala comum da cafonália, por exemplo. E o que tem da musicalidade pulsante e efervescente do som desse pessoal em Random Access Memories, só caras com uma reputação praticamente inatacável musicalmente como a do Daft Punk pra abalizar e fazer com que uma legião de detratores dê o braço a torcer.

Que no soft rock "Instant Crush", até Julian Casablancas (não estranhe ele num álbum do Daft Punk: Julian já se afastou da fórmula vencedora de Is This It? há tempos) aparece vocoderizado, num refrão emocionante; que "Touch" é uma espécie de Barry Manilow progressivo, com arranjos de cordas adocicados e backing vocals tipo musical da Broadway; que "Get Lucky" dificilmente não vai ser a música do ano; que o groove lento, o ótimo falsete de Pharrel Williams e a guitarra sinuosa de Nile Rodgers fazem do funk "Lose Yourself To Dance" uma das melhores dance tracks dos últimos meses e que, finalmente, Giorgio Moroder recebe uma homenagem à altura de sua genialidade.

Mas tudo isso você já sabia.

PS.: é um dos discos mais legais do ano, sim.

"Lose Yourself To Dance": nu-disco é isso aí.

domingo, 19 de maio de 2013

Romanthony


Sad news: o vocalista, DJ e produtor americano Anthony Moore, conhecido como Romanthony, faleceu dia 07 de Maio. A notícia só veio à público agora, através de sua irmã Mellony em um post no Facebook. Romanthony deixou quatro álbuns e um legado importante para a house music, com produção apurada e vocais distintos. Sua colaboração mais famosa é com o duo Daft Punk no álbum Discovery, onde providenciou os vocais de "One More Time" e "Too Long".

"One More Time": Romanthony e Daft Punk experimentando com o auto-tune.

domingo, 12 de maio de 2013

Comatose


Entrar no mundo de Kavinsky é como assistir uma temporada inteira de Miami Vice em VHS: pode distrair por um tempo e soar nostálgico (para o bem e para o mal), mas a falta de variedade vai te fazer olhar com mais carinho para produções atuais que não buscam só no passado sua fonte de inspiração. 


Não por acaso, o francês Vincent Belorgey cita a famosa série policial dos 80 como uma das influências presentes em seu debut OutRun (lançado em Fevereiro). Segundo Kavinsky, o disco é baseado na história de um jovem que bate sua Ferrari Testarossa em 1986 e reaparece como um zumbi que produz música eletrônica em 2006 (vai vendo). Daí tantas referências congeladas no tempo: sintetizadores Yamaha DX7, video games, filmes trash de terror (na linha nudez por qualquer motivo, sangue jorrando por todos os lados e humor grosseiro). É só dar uma olhada nos títulos das canções que eles explicam o conceito: "Rampage", "Deadcruiser", "First Blood", "Testarossa Autodrive"... O som é obviamente retrô, com teclados suntuosos (arpejos e timbres de guitarras heavy metal farofa onipresentes) e batidas que buscam a simplificação da forma - no esquema bumbo-caixa, bumbo-caixa, bumbo-caixa. Tem jogadas interessantes, como unir essa noção toda com o hip-hop do rapper Havoc (em "Suburbia"), ou cair em tentação e cometer uma bela canção pop ("Nightcall", com vocais da brasileira Lovefoxxx e produção de Guy-Manuel de Homem-Christo). E para os caçadores de samples, "Grand Canyon" chupa parte dos synths do clássico Italo Disco "Ikeya Seki", do projeto milanês Kano. Pelas idéias que variam minimamente durante os 44 minutos do álbum, OutRun cansa um pouco. Mas não deixa de ser divertido.

"Deadcruiser": é nessa onda aí.

sábado, 5 de maio de 2012

Control C + Control V


 
"... talvez a decadência tenha evoluído a partir do culto do DJ, quando qualquer um podia regurgitar a essência do rock ‘n’ roll revitalizando todos os clássicos do funk dos anos 70, colocando algumas bobagens de rap em cima e chamando isso de seu próprio trabalho. A música moderna não é mais vista como uma forma de arte? Ou é agora só mais um negócio?"

O trecho acima foi extraído de um artigo que Alan Wilder, ex-tecladista do Depeche Mode, escreveu para a revista virtual Side-Line, em 2008. O texto foi traduzido por Jeovane Cazer no site Música Para As Massas, e vale muito um confere. Estranhamente, lembrei do que Alan escreveu depois de descobrir o vídeo abaixo. Nele, há algumas fontes dos samples que o Daft Punk usou para compor o álbum Discovery, de 2001. Alguns são quase imperceptíveis, outros óbvios demais. Acontece que fiquei meio desapontado com a dupla francesa depois de ouvir isso. Então é assim? Chupa a base inteira da obscura "Cola Bottle Baby" de Edwin Birdsong pra montar "Harder, Better, Faster, Stronger" e chama de sua música? Ou o talento do Daft Punk é justamente transformar canções completamente esquecidas como essa em megahits planetários? Gosto do Daft Punk, mas confesso que pra mim tem mais graça quando os samples são praticamente irreconhecíveis e não tão na cara quanto os de Discovery.

Autorizados ou não, os samples não foram creditados no encarte do disco.

Música Da Semana: Kavinsky


Kavinsky é o francês Vincent Belorgey. Lembro que ouvi seu single Nightcall lá no meio de 2010 e não bateu muito não. Achei o som um mero pastiche daquele synthpop europeu exageradamente romântico do começo dos 80, tipo Savage e FR David. Os remixes então... variações pouco inspiradas do mesmo tema e um lado B que parecia ter saído da trilha d'A Super Máquina ("Pacific Coast Highway").


Pois bem, há coisa de dois meses a rádio Antena 1 resolveu incluir a faixa na programação, e mesmo martelando o dia inteiro eu não fazia idéia do que era - mas ficava hipnotizado quando essa música tocava. Fui procurar identificar e a ficha caiu: era o mesmo Kavinsky que eu havia desprezado quase dois anos atrás. Qual a teoria aplicável? Que acabamos vencidos pela insistência do playlist ou que nem sempre o amor à primeira vista é o mais arrebatador? "Nightcall" chegou a ficar um primeiro lugar no Top 10 da rádio, e bom, surpreso mesmo eu fiquei quando descobri que esse refrão quem canta é a Lovefoxxx, aquela mesma do Cansei de Ser Sexy. E canta lindamente, diga-se, sem aquela histeria indie/nonsense de sua banda original. Pra completar, a produção é de Kavinsky e Guy-Manuel de Homem-Christo (sim, metade do Daft Punk) e a mixagem do DJ e produtor SebastiAn. Não podia dar besteira. "Nightcall" é simples e sofisticada: um loop de teclado que lembra uma guitarra, sintetizadores limpos, bateria monocórdica e um refrão que acerta em cheio o ouvido. E prometo prestar mais atenção nos próximos lançamentos de Vincent Belorgey.

Kavinsky na Antena 1: Listen Without Prejudice.