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terça-feira, 18 de março de 2014

A Segunda Vez a Gente Esquece


Quando uma amiga me indicou o New Division, no começo de 2012, confesso que achei interessante o esforço dos californianos em soar como um mix atualizado de suas bandas preferidas, a saber, Depeche Mode, New Order e Joy Division. Claro que uma penca de gente que se veste preferencialmente de preto já estava explorando esse filão há algum tempo, desde o segundo escalão derivativo do She Wants Revenge até bandas que conseguiram se desvencilhar do excesso de referências disco após disco, como Editors e Interpol. O negócio é que desde que começaram a fazer showzinhos descompromissados pros amigos da faculdade até a brincadeira ficar séria e sair o primeiro disco (Shadows, 2011), o New Division parecia saber dosar suas composições nubladas com pop aparentemente digerível, o que poderia garantir um lugar ao sol ao quinteto.

Aí, estamos em 2014 e sai o segundo álbum. E, vou te falar, foram meus 45 minutos mais desperdiçados do ano. O disco é tenebroso. O que, em Shadows, vinha embalado pela acessibilidade de refrões amigáveis e levadas dançantes - mantidas por bases sóbrias e de uma certa beleza triste - em Together We Shine mostra a banda optando pela solução mais baixa, mais óbvia e mais preguiçosa possível: juntar sua sonoridade pseudo-sorumbática ao que de pior a dance music oferece hoje em dia, leia-se a EDM de gente como Avicii e Swedish House Mafia.

Pule sete casas e vá direto em "Lifted". O que temos? House music padrão Jovem Pan, com um verniz de new wave xinfrim e um riff de sintetizador que faria até o Steve Aoki corar de vergonha. As lambanças estão espalhadas pelo resto do disco. Os efeitos de bateria de nonagésima categoria de "Den Bosch", a interminável chupação dos baixos de Peter Hook ("Shine", "Honest"), a inevitável balada emocional ("St. Petersburg"), os timbres surrados dos teclados, a tentativa desesperada do vocalista John Kunkel em soar como um ícone atormentado do darkismo oitentista.

Datado e cafona, Together We Shine começa mal já no título e se estende até suas onze canções insossas, vazias e sem a menor inspiração. Se alguém se importar com esse lançamento, deve disputar a liderança na lista de piores do ano.

Uma geral em Together We Shine: sente o drama.

domingo, 9 de junho de 2013

Compare e Comprove


Comparações são mesmo necessárias na hora de falar sobre um disco? Depende. O que soava parecido com Kraftwerk, Joy Division, Roxy Music, Pink Floyd, Velvet Underground, Jesus & Mary Chain, Aphex Twin, The Doors? Nada. Artistas absolutamente inovadores como esses cravaram suas bandeiras no Everest musical (essa foi horrível) e mudaram os rumos do pop, influenciando de maneira imensurável o que veio depois deles. Então, o que restou para as gerações subsequentes? Absorver essas influências, fundir, misturar, tentar criar algo novo a partir das sementes lançadas anos atrás.

OK, mas isso você sabe. Então porque essa filosofia de almanaque enquanto divagação de boteco?


Bom, o Editors está com álbum novo prontinho pra ir pras prateleiras. The Weight Of Your Love sai oficialmente dia 1º de Julho e é o quarto da discografia - o primeiro sem o guitarrista e tecladista Chris Urbanowicz, que saiu alegando estar descontente com os rumos musicais que o grupo estava tomando (a desculpa mais habitual pra esse tipo de situação). Sintomaticamente, The Weight Of Your Love tem muito menos sintetizadores que seus antecessores. Segundo o vocalista e letrista Tom Smith, o Editors tem se aproximado cada vez mais da sonoridade de bandas como R.E.M. e Arcade Fire, mais simples e menos experimental. Na verdade, eles tiram o Joy Division da alça de mira e apontam agora na direção de Ian McCulloch e seus homens-coelho.

The Weight Of Your Love é o Ocean Rain do Editors, levando em consideração a orientação musical: escalas menores, orquestrações de sonoridade oriental, sutil, deprê. O Echo & The Bunnymen começou a usar cordas em suas canções com o single "The Back Of Love" de 1982, mas foi em Ocean Rain que a coisa tomou a proporção de orquestra. E não para por aí. Além da voz de Tom Smith lembrar muito o McCulloch do começo dos 80, ecos dos arabescos sedutores das guitarras de Will Sergeant são fáceis de encontrar dispersos pelas 12 faixas do álbum, especialmente bem colocados entre a ótima linha de baixo e o loop de bateria de "Sugar" e no single "A Ton Of Love". A temática romântica de tons monocromáticos que caracteriza as letras de Tom Smith encaixa-se perfeitamente à doçura dos arranjos ("Honesty"), embora soe exageradamente suntuoso às vezes ("Nothing") e a decisão de gravar ao vivo boa parte do material do disco mostrou-se acertada nos momentos em que o andamento do metrônomo dispara (provavelmente na ótima "Formaldehyde" e nos violões blueseiros de "The Weight").

Agora, esse confronto faz alguma diferença no produto final? Nesse caso não. O Editors tem todo direito de reivindicar para si vestígios de Echo & The Bunnymen, sem que isso signifique um simples pastiche. A banda fez de The Weight Of Your Love um álbum inspirado num darkismo que enxerga o amor de uma forma sinuosa e amargurada, mas com lindas melodias e repleto de boas músicas. Isso é suficiente para livrá-los da pecha de meros copiadores.

"A Ton Of Love": nuvens escuras à vista.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Happy Birthday To... Peter Hook


Canastrão, bon vivant, galhofeiro e um patcha baixista. O britânico Peter Hook (nome verdadeiro: Peter Woodhead) já passou por duas bandas essenciais (Joy Division e New Order), montou alguns projetos fuleiros (Revenge) e outros bem interessantes (Monaco), entre discotecagens que são uma picaretagem só e participações especiais - produzindo ou tocando - com bandas que vão de Stone Roses à Inspiral Carpets. Sua marca indelével no pop é o inconfundível baixo palhetado e melódico (tocado de preferência na altura dos joelhos) que já emoldurou hits que nem cabem nesse espaço. Saiu do New Order em 2007 e, honestamente, o restante dos membros deveria se envergonhar de fazer shows usando o nome da banda. Por que o New Order não faz absolutamente nenhum sentido sem esse cidadão. 57 anos hoje, Mr. Hook. Bola pra frente.

Monaco, "What Do You Want From Me?": um dos melhores momentos de Hook fora do New Order.
 


domingo, 13 de novembro de 2011

Dark de Verdade


O figura com pinta de ator do cast do José Mojica Marins aí acima chama-se Spoek Mathambo. Aos 24 anos, o rapper e DJ nascido em Soweto faz parte da nova geração de artistas africanos entrincheirados na linha de frente da nova música eletrônica daquele continente. Também designer gráfico e ilustrador, Spoek lançou ano passado seu primeiro álbum, Mshini Wam.


Quarto single extraído do disco, "Control" é uma das músicas mais interessantes que escutei esse ano. Primeiro porque a idéia de transformar o clássico "She's Lost Control" do Joy Division numa faixa dance já soa desafiadora por si só e segundo porque o resultado final é surpreendente. Spoek subverteu o original numa house revestida de frequências baixíssimas de grave, ocasionais detalhes afro e vocais perversamente narrados dentro de um vocoder assustador, com alto teor de dançabilidade. O vídeo é outro caso à parte: idealizado pelos fotógrafos sul-africanos Pieter Hugo e Michael Cleary, o clip traz uma sequência perturbadora de cenas de rituais e possessões muito bem interpretadas pelo projeto Happy Feet, um grupo de dança que reúne a molecada local. Nem Wes Craven faria melhor. Eu, hein.

"Control": Ian Curtis dançaria essa?