domingo, 11 de dezembro de 2016

Escolha Certa



Mayer Hawthorne tinha tudo pra se transformar no Calvin Harris versão ianque. Os primeiros passos foram semelhantes: estreia promissora, revisionismo, respeito da crítica, atenção do público e a consequente e inevitável aproximação do mainstream. Harris converteu-se num artista dance ordinário, grava com figurões do establishment da música, ganha milhões e coleciona McLarens. Hawthorne continuou destilando seu soul de boa cepa em pequenos selos (à exceção de seu segundo álbum, How Do You Do, que saiu pela Universal) e quase caiu em tentação quando aproximou-se perigosamente do rapper de ladainha fraca Pitbull em 2013 ("Do It").



Felizmente, ao que parece, Andrew Mayer Cohen optou pelo que realmente importa nessa história toda: fazer boa música. Ele possivelmente perdeu público com a escolha, mas acertou pela preferência, porque esse hipotético consumidor de pop rasteiro que coleciona hits no celular tem uma volatilidade totalmente dispensável pra um artista que pensa em seguir carreira fazendo algo relevante. Seu álbum mais recente, Man About Town (2016, Vagrant Records) é mais uma coleção irrepreensível de soul pop sem bolor, sem o ranço "neo-alguma-coisa", excepcionalmente bem produzido (o produtor e DJ belga Vito de Luca - do projeto Aeroplane - e o ótimo Benny Sings estão entre os nomes por trás da mesa de som do estúdio) e, mais importante, delicioso de ouvir. São 10 faixas em pouco mais de meia hora; nada descartável, nada fora do lugar. Longe de ser um disco saudosista, Man About Town aponta para várias direções, entre R'n'Bs sedutores com instrumental cuidadoso e backings maravilhosos ("Cosmic Love", "Book of Broken Hearts"), sacolejos estilosos ("Lingerie & Candlewax", "Love Like That"), blue eyed soul à Hall & Oates ("The Valley"), disco/boogie ("Out of Pocket"), baladas soul viscerais ("Breakfast in Bed", "Get You Back") e até um reggae respeitável ("Fancy Clothes").

Com esse álbum, Mayer Hawthorne merecia bem mais que o modesto nonagésimo lugar que alcançou no paradão da Billboard. Questão é que imagino que ele esteja feliz, mesmo assim. Senão pelos resultados comerciais, pela satisfação pessoal de não se dobrar pra indústria em troca de uns tostões e por continuar fazendo música que coloca um sorriso no rosto de quem se interessa pelo seu incrível trabalho (e não é pouca gente). São trinta minutos de prazer garantido. Não perca.

"Lingerie & Candlewax": uma das faixas de mais um discaço de Mayer Hawthorne.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Sexta Feira Bagaceira: Ottawan


Qual era a boa numa melancólica noite de domingo de 1980? Programão era sentar na frente da TV e assistir Os Trapalhões. Didi Mocó tinha lá sua graça. Num fim de noite desses antes do Fantástico, um esquete do quarteto trazia uma zebra pinguça pra dentro de um bar e... bom, esse não foi dos momentos mais inspirados. A trilha pra dancinha do quadrúpede, no entanto, eu nunca mais esqueci. O refrão pegajoso da brejeira "D.I.S.C.O." da dupla francesa Ottawan me pegou de jeito, do alto dos meus cinco anos. Originalmente gravada na língua nativa, esse funkão de baixo obeso e um pezinho no Caribe chegou ao número dois no paradão britânico com vocais em inglês. O single seguinte - a não menos cafona "Hands Up (Give Me Your Heart)" - também teve bom desempenho nas charts. Mas "D.I.S.C.O." ficou pra posteridade, hit disco já na era pós-disco, que gerou inclusive uma espécie de resposta da dance music contemporânea com o pioneiro do hip-house Doug Lazy e sua ótima "H.O.U.S.E.", de 1990. O Ottawan ainda está na ativa.

"D.I.S.C.O.": acróstico.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Clássico De Primeira


Dia desses li um negócio que me deixou de boca aberta. "Bette Davis Eyes", hit interestelar da californiana Kim Carnes, foi gravado numa tacada só. Acredita? Eu custei a entender que a versão final não tem overdubs, não foi gravada em canais separados, nada disso. Foi "um, dois, três... valendo!", do começo ao fim. E prensa o single, e põe nas lojas em Março de 1981, e vai pro topo da Billboard (onde ficou por nove semanas), e termina o ano como compacto mais vendido nos Estados Unidos e coroa tudo isso com o prêmio de "Gravação do Ano" no Grammy Awards 1982. O autor da façanha é o produtor Val Garay, que disse ter feito "uns três takes e ter aproveitado um deles", simples assim. "Bette Davis Eyes" foi composta por Donna Weiss e pela cantora Jackie DeShannon - que chegou a gravar a canção em 1975, sem muita repercussão. A composição foi apresentada a Kim Carnes e Garay, que mudaram completamente o direcionamento da música - da letra ao arranjo - e o resultado foi um sucesso estrondoso, número um em 31 países - Brasil, inclusive. A voz rouca de Kim e o riff memorável do então novíssimo sintetizador Sequential Circuits Prophet 5 (sampleado pelo escocês Mylo no hit "In My Arms", de 2005) continuam entupindo pistas até hoje.

"Bette Davis Eyes": de primeira.

domingo, 20 de novembro de 2016

Caras Novas: Pr0files


Pra você, fã de technopop, que anda procurando uma novidade realmente interessante do gênero - que não venha com a clichezada oitentista inclusa no pacote, nem pastiches de Depeche Mode - atenção porque aqui pode estar uma das coisas mais bacanas que apareceram nos últimos anos. Os responsáveis pela façanha são Lauren Pardini (vocais) e Danny Sternbaum (sintetizadores), do Pr0files (grafado assim mesmo, com esse zero no lugar da letra o), de Los Angeles. Seu Jurassic Technologie saiu no final de Fevereiro com onze faixas e tageado pela própria dupla como darkdisco/electropop/synthpop. É um pouco de cada, bem equilibrado, com ótimas composições, potencial pra estourar algum single e uma cantora gata à frente (música pros olhos também é bacana). É um álbum homogêneo, coeso, pop e delicioso de ouvir. Dá pra sacar na faixa no Bandcamp, vai lá e me diz.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Sexta Feira Bagaceira: Milli Vanilli


Pilatus e Morvan: ternos à Didi Mocó e Grammy na mão.
A imagem não poderia ser mais emblemática. Rob Pilatus e Fabrice Morvan segurando - com toda cara de pau do planeta - o Grammy de Melhor Artista Estreante, entregue em 1990 por seu debut All Or Nothing, de 1988. O que veio a seguir, você sabe melhor que eu: descoberta a farsa, Rob e Fabrice não abriam a boca uma vez sequer no disco. Tudo por conta de vocalistas de estúdio. Resultado: tsunami de processos e Grammy retirado, até culminar com a morte por overdose de Pilatus, num quarto de hotel na Alemanha, em 1998.

Cria do produtor alemão Frank Farian (Boney M.), o Milli Vanilli nem de longe é um caso único do gênero. Samplear vocais sem dar crédito ou contratar vocalistas sem atributos físicos pra aparecer na capa de um álbum e nos vídeos, acontecia direto na dance music do comecinho dos 90. Technotronic, Black Box, C+C Music Factory e 49ers, são alguns exemplos bem conhecidos.

E a música? A dupla, ou melhor, Farian e os verdadeiros cantores, deixaram alguns singles bem legais. "All Or Nothing", "Girl You Know It's True" e "Baby Don't Forget My Number" tem exatamente a mesma estrutura: dance pop que chega no refrão sempre amparado pela bateria sampleada de "Ashleys Roachclip", do Soul Searchers. "Blame It On The Rain" tem andamento mais lento e "Girl I'm Gonna Miss You", uma baladinha R&B boa pro ritual de acasalamento.

Em All or Nothing, além dos singles de sucesso, tem um cover de "Ma Baker", originalmente de 1977, do grupo Boney M. Curto a programação de bateria e esses inidentificáveis violinos orientalizantes. Até hoje não sei se o som vem de instrumentos ou sintetizadores. Na real, se nunca me importei com os autores das vozes gravadas, porque haveria de perder o sono por causa desses violinos?


"Ma Baker": "...please contact the nearest police station..."