domingo, 2 de setembro de 2012

Dia do Indie

 

Quando as palavras "indie" e "eletrônica" unem-se pra identificar o tipo de som de determinado artista, minha sobrancelha esquerda levanta involuntariamente em sinal de desconfiança. Entrar nessa onda - que deve ter alguém tipo o Stereolab como precursor - pode ser uma ótima desculpa pra justificar falta de intimidade com os instrumentos e explicar um som que aprecia New Order e sintetizadores vintage ou curte funk e jazz de boa cepa mas não despreza artistas cult experimentais tipo Can e Neu!.
 
 
Pois o Beat Connection (nome extraído de uma faixa do LCD Soundsystem) pode bater no peito e assumir o rótulo indietrônica, para o bem. Só que em seu álbum de estréia The Palace Garden, há um tratado de não-agressão na música. Esqueça experimentalismos egoístas de gente que faz arte e deixa a música de lado. As 12 canções aqui fluem com uma leveza e sensibilidade pop encantadoras, num som que passeia de mãos dadas com Postal ServiceToro Y Moi. A dupla (agora quarteto) de Seattle fez um disco inteiro de melodias acolhedoras e apoia-se na eletrônica não como uma bengala, mas como um elemento fundamental nas composições. Basta ouvir o belíssimo trabalho instrumental já na segunda faixa ("Palace Garden, 4 Am"), com sintetizadores bem colocados, linha de baixo empolgante e refrão ensolarado. E as lições de bom gosto continuam com as baterias eletrônicas fornecendo a base dançante de "Saola", a melancolia contida entre palmas e guitarras discretas de "Invisible Cities" e os vocais pequenininhos de Chelsey Scheffe quase soterrados pelos sintetizadores de "Think Feel" (numa imaginária conexão direta com o Other Two, projeto paralelo de Stephen Morris e Gillian Gilbert do New Order). E o Beat Connection ainda é eclético o suficiente pra compor canções cheirando à ares baleáricos, numa levada despretensiosa emoldurada por violões, cowbells e vocais em falsete na ótima "Other Side of the Sky", subverter a italo-disco, tocada em slow motion na instrumental "Trap House" e encerrar com a mistura perfeita de disco music e indie rock de "En Route". Depois do promissor EP Surf Noir de 2010, The Palace Garden é um debut com poucas arestas para aparar, de uma banda que é uma das boas surpresas desse ano. Não perca.

"Palace Garden, 4 Am": encantadora.
 

Dance Hall Days


Quando os estúdios jamaicanos descobriram o sampler lá no meio dos anos 80, o baixo e a bateria ganharam um novo sentido no reggae. Foi nessa época que surgiu o movimento dancehall - espécie de subdivisão do reggae com farto uso de batidas digitais, sintetizadores e linhas de baixo nunca imaginadas até então. 


Mark Anthony Myrie - o Buju Banton - começou a gravar nesse período, e estabeleceu-se como um dos principais artistas do gênero. Saiu agorinha uma coletânea que cobre parte desse período (The Early Years Vol. 2 - The Reality Of Life). É a segunda compilação que vasculha o extenso catálogo de Banton e serve pra apresentar o trabalho do jamaicano à novas audiências e também aos fãs que não devem ter disco novo dele tão cedo: Buju foi condenado pela justiça americana à dez anos de prisão (que ele cumpre até 2019), acusado de tráfico de drogas e posse de arma de fogo. Bom, tretas à parte, o cara é bom de microfone, inegavelmente, e aqui você encontra várias daquelas linhas de baixo gravíssimas que caracterizam seus principais hits. Sei, ele também tem uma postura homofóbica condenável, mas nesse caso, o que sai das caixas e o poder dessa música em induzir ao movimento é o que vale. É um argumento bobo, mas não é porque eu gosto de, por exemplo, Rage Against the Machine, que vou sair tacando fogo em tudo.

"Want It": Twiggi acalma a fera. 
 

sábado, 1 de setembro de 2012

Sem Comparação


Mais trumpetes e mais daquele pop ensolarado do Capital Cities, desta vez com um cover bem simpático de "Nothing Compares 2U"


A música foi escrita por Prince que a gravou em seu projeto paralelo The Family, em 1985. Mas a faixa só foi estourar mesmo na voz da cantora irlandesa Sinéad O'Connor, em 1990. A versão do Capital Cities ficou assim:



Nothing Compares 2 U by Capital Cities

Picardias Estudantis


Formado pela dupla Logan Takahashi e Nick Weiss no Oberlin College em Ohio, o Teengirl Fantasy soltou agora em Agosto seu segundo álbum, Tracer.  

 
Eu que perdi o debut 7AM de 2010, devo corrigir isso rapidinho e por tabela, porque Tracer tem tido boa rotação no meu player há coisa de duas semanas já. Nas dez faixas do disco, o duo experimenta muito mais do que se acomoda com fórmulas prontas ao mesmo tempo em que mostra que também sabe jogar o jogo, como se vê na house "Do It" (com vocais do bom Romanthony). Ás vezes a ousadia compensa no que deveria ser a cara do pop de hoje, mas ainda assusta um pouco pelos arranjos complexos ("EFX", "Mist of Time"). Composto em sua maioria por temas instrumentais que sugerem uma ambient house versão 2012 ("Vector Spray", "Timeline"), Tracer é um bom disco de eletrônica porque se mantém acessível mesmo sem ligação com o pop e ainda se afasta do rigor eletrônico/abstrato de certas bandas incensadas por aí. Vale o confere.

"EFX": a Jovem Pan tocaria essa?


Visão Não Muito Além do Alcance



Entra ano, sai ano, e o De/Vision continua lançando álbuns redondinhos. Não espetaculares, mas satisfatórios. Talvez a busca frenética pelo bastão que o Depeche Mode largou em 1990 (no álbum Violator) tenha finalmente acabado, porque no novo Rockets & Swords não tem nada assim tão xerocado dos ingleses como é possível encontrar em trabalhos anteriores do duo alemão.



 

 O que parece ter faltado no disco é um single forte - em Popgefahr, disco de 2010, tínhamos "Rage" na linha de frente - mas em Rockets & Swords nenhuma canção salta aos olhos. Candidatas seriam a faixa de abertura "Boy Toy", que tem uma levada OK mas deixa o pique cair um pouco no refrão sussurrado, enquanto "Superhuman" convence pela bela orquestração sintética, mas tem paradas não muito estratégicas e carece de mais apelo pra caber num compacto. Mas a homogeneidade das 12 faixas compensa. O melhor aqui é a produção cristalina, aliada aos vocais melodiosos e seguros de Steffen Keth (acompanhe o bom trabalho do vocalista em especial na climática "Beauty of Decay") mais o instrumental cheio de recursos do tecladista Thomas Adam, que preenche os arranjos com soluções interessantes (guitarras em "Brotherhood Of Man", ruídos e estalos que vão formando a base percussiva de "Want To Belive", os timbres retrô dos synths de "Bipolar"). Só acho que a dupla poderia investir mais em músicas como "Kamikaze", pra mim a melhor do disco. Com letra em alemão, levada irresistivelmente dançante e refrão do tipo chamada/resposta, "Kamikaze" seduz não só pela simplicidade da batida e pela economia certeira dos sintetizadores, mas principalmente pela elegância do sotaque - em geral eu acho um tanto ameaçadoras canções cantadas no idioma de Goethe, mas esta aqui está perfeita; é uma espécie de elo perdido entre Falco e Kraftwerk e é uma prova que o De/Vision talvez pudesse voar mais alto se acreditasse na autenticidade do idioma como uma arma na mão pra se destacar no rebanho eletrônico do pop atual, que cresce desordenadamente.

"Kamikaze": alguém entendeu a letra?