Mostrando postagens com marcador dub. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador dub. Mostrar todas as postagens

domingo, 8 de abril de 2018

Silent Nightmares

 

Silent Poets e Nightmares On Wax: dois nomes da eletrônica trilhando o arriscado caminho do downtempo. É preciso mais do que experiência, bom gosto e sensibilidade pra não resvalar na pieguice com discos do gênero?


O Silent Poets, que já foi um duo, mas hoje é um projeto solo do DJ e produtor japonês Michiharu Shimoda, assusta no começo ao equilibrar-se perigosamente sobre a linha que separa o sentimentalismo extremo da ousadia em seu novo álbum Dawn (o primeiro em doze anos, saiu em Fevereiro pelo selo de Shimoda, Another Trip). As duas primeiras faixas, "Asylums For The Feeling" e "Distant Memory", com arranjos de cordas adocicados e envolventes, deixam dúvidas a respeito da capacidade de Shimoda montar canções que vão além do lounge na linha Café Del Mar. As incertezas vão se dissipando a medida que o disco avança - especialmente por causa dos reggaes de torque alto e lento que vem a seguir. A exuberante "Shine", com seus metais e ecos em profusão, o ragga "Non Stoppa" e o sensacional dub em slow motion "Division of the World", provam que Tóquio e Kingston podem estar mais próximas do que você imagina. Some a isso raps em japonês ("Tokyo", "Eternal Life"), beats espertamente engendrados (a instrumental "Rain" é um dos melhores exemplos), vozes escolhidas a dedo (a urgência da rapper israelense Miss Red e o timbre lindo da ótima Hollie Cook, filha do ex-baterista do Sex Pistols, Paul Cook, entre elas) e Dawn já é uma volta do Silent Poets a ser celebrada da melhor maneira possível: ouvindo o disco várias vezes.

"Division of the World":



O DJ e produtor britânico George Evelyn, a.k.a. Nightmares On Wax, já tem 30 anos de carreira e, além de ajudar a cimentar o trip-hop no começo dos anos 90, vem lançando álbuns sólidos e bem pensados ao longo desse tempo. Seu recente Shape The Future (lançado em Janeiro pela Warp Records) é diversificado sem perder a homogeneidade. O disco vem sob a forma de conexões enfumaçadas com a Jamaica (como em "Tomorrow" e "Citizen Kane", com dinâmica de reggae e técnicas herdadas diretamente do dub), enxertos de jazz ("Typical", "The Other Ship"), soul ("Deep Shadows"), blues ("On It Maestro") e farta distribuição de timbres amadeirados de teclado, identificáveis pelos tons quentes dos pianos elétricos e nos efeitos analógicos dos sintetizadores. Usando de tecnologia discreta (perceptíveis quase que exclusivamente nas programações de bateria), Evelyn gravou mais um álbum em que a expressão retrofuturismo é apta para definição, sem culpa.

"Shape The Future":
     

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Jah É


Eis que reapareceu em Janeiro o álbum Mek It Bun, do rasta jamaicano Horace Andy, lançado originalmente em 2002 pela BMG francesa. O relançamento inclui 14 faixas a mais, todas versões dub do original, com 13 canções. Andy - colaborador frequente do Massive Attack - traz em Mek It Bun alguns covers de praxe: uma fraca revisão de "Horse With No Name" (original do America, 1971), uma versão um tanto sem fôlego do clássico "Night Nurse" (Gregory Isaacs, 1982) e outra que perde feio pra matriz ("Satta Massagana", roots reggae de belíssimas harmonias vocais do Abyssinians, 1976). Horace, no entanto, mantém o disco aceso com seu timbre particularíssimo e colaborações que incluem os onipresentes (e geniais) Sly & Robbie e o guitarrista Earl "Chinna" Smith. Com baixos de tirar pica-pau do oco, lindas melodias ("Johnny Awful", "Empress Lady"), metaleira soprando firme ("Babylon You Lose", "We Nah Run") e total equilíbrio entre o roots tradicional e o dancehall bom de pista, Mek It Bun é daqueles discos atemporais em que a data da gravação não faz diferença nenhuma. E ficou ainda melhor com os extra dubs. Não perca.


"Mek It Bun": Jah é.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Artilharia Dub


O reggae, em suas mais variadas formas (dub, dancehall, ragga), sempre esteve presente na maioria dos álbuns do Thievery Corporation. Desde o debut Sounds From The Thievery Hi-Fi (1996), fortemente influenciado pelo dub, passando por referências mais (The Richest Man in Babylon, 2002) ou menos (Saudade, 2014) explícitas, o duo de Washington, D.C. formado por Rob Garza e Eric Hilton explora com maestria e propriedade o legado musical da ilha caribenha.

Então, o que a competente dupla oferece no seu mais recente lançamento The Temple of I & I (saiu em Fevereiro, pelo selo Eighteenth Street Lounge Music, de propriedade do Thievery) não causa nenhuma surpresa a quem já acompanha o grupo há algum tempo. A diferença é que desta vez temos um disco quase que inteiramente dedicado ao reggae. As duas únicas exceções entre as quinze faixas são "Love Has No Heart" (com um belíssimo arranjo de cordas) e um certo ar nostálgico encharcado de ecos e dos vocais melancólicos de Elin Melgarejo na trip enfumaçada de "Lose to Find". O restante do álbum traz desde a pegada mais roots ("Strike the Root", "Weapons of Distraction", "Drop Your Guns ", "Babylon Falling", com ótimos naipes de metais), passando por reggaes digitais ("Time + Space", "Thief Rockers"), fusões com rap ("Letter to The Editor", "Ghetto Matrix", "Fight to Survive") e faixas que parecem já ter nascidas como clássicos do gênero ("True Sons of Zion", "Road Block"), tudo feito com o esmero característico das produções de Garza e Hilton. The Temple of I & I conta com oito vocalistas convidados, que fornecem uma diversidade estilística às canções equalizada finamente pelo Thievery, garantindo ao trabalho a homogeneidade necessária para que nada soe fora do lugar, mesmo que o downtempo classudo e refinado da dupla reúna tantos elementos diferentes. Fora que é bem provável que eu deva estar completamente por fora do que anda acontecendo ao reggae ultimamente, porque este é, sem dúvida, o melhor disco do gênero que ouço em (muitos) anos.


"True Sons of Zion":

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Lo-Fi Dub


Chiptune é um negócio meio limitado musicalmente e enche a paciência rapidinho. A minha, ao menos. Dei uma segunda chance pro gênero (?) depois de ouvir No Broken Hearts On This Factory Floor, debut do DJ britânico Jackson James Bailey. O fato de Bailey discotecar com fitas cassete já é esquisito por si só, imagina gravar um álbum inteiro de dub reggae em versão 8 bit. É algo como se Lee "Scratch" Perry tivesse comprado um Nintendo do começo dos 80 e resolvesse tirar um som com o bichinho. A faixa de abertura "Helix Dub", com ruídos e ecos tipicamente Perry, deixa isso bem claro:



Basicamente instrumental, No Broken Hearts traz 16 faixas - seis inéditas e dez lançadas anteriormente em singles (Bailey está nessa desde 2009), remasterizadas especialmente para o disco. Única com vocais (de Vernon Maytone), "Old Pan Sound" não fica nada a dever à matriz jamaicana:


A ideia me parece muito original (nunca ouvi falar em chiptune dub, pelo menos) e o melhor, funciona muito bem. Tem melodias lindas e baixos rechonchudos providenciados por tecnologia fora de linha ou, vá lá, por softwares que recriam com precisão esses timbres datados. No Broken Hearts On This Factory Floor é divertido e altamente apreciável, um disco com faixas que raramente chegam aos três minutos - tempo mais do que suficiente pra Bailey abusar da criatividade com os parcos recursos que dispõe. Por enquanto, é meu disco preferido de reggae de 2015.

domingo, 23 de agosto de 2015

Diversidade Ainda Que Tardia


No começo do ano, o DJ e produtor Felix Da Housecat virou notícia no mundo todo. Não por causa de alguma track brilhante ou um disco fenomenal e sim porque foi barrado na porta do famoso clube Berghain, em Berlim. Um injuriado Felix Stallings, Jr. foi então pro Twitter expor toda sua mágoa com a casa, entre acusações de racismo e oportunismo (em relação a cena de Chicago e Detroit).


Baixada a poeira, Felix lançou em Julho seu sétimo álbum, Narrative Of Thee Blast Illusion (pela gravadora nova-iorquina NoShame), quatro anos depois do bom Son Of Analogue, que saiu encartado numa edição da revista inglesa Mixmag. Com pouquíssima exposição (se comparado com o episódio do clube alemão) e nadando contra a maré, Housecat continua desafiando o mercado. Não há um hit single detectável no novo álbum - algo que até é comum à sua discografia. Em compensação, há um Narrative apostando numa variedade eletrônica que inclui os habituais house e electro, mas com enxertos de synthpop, italo disco e até reggae. O blend, no entanto, não soa alienígena, nem exageradamente eclético. A coesão acontece justamente porque sua produção é contida, polida e sem excessos. A regra só não se aplica a "Turn Off The Television", um mergulho no lado camp dos anos 80 e seus sintetizadores na linha sobra-de-estúdio-do-Devo.



Fora essa escorregada, o que temos é uma ponte imaginária que mostra o produtor transitando com desenvoltura por Chicago, Londres, Milão e Kingston. Maquiando seus vocais tímidos com efeitos ou convidando gente como o desconhecido Amadeus (em "Why Games"), Lee Scratch Perry ("The Natural") ou a DJ argentina Romina Cohn (no diálogo erótico de "Queer"), Felix segue com a cabeça na dance analógica, que tanto pode ser encontrada em faixas como a house paleolítica de "Freakz On Time" (com seu baixo engrenado e arpejos em segundo plano), quanto na italo recriada com perfeição em "Is Everything OK?".






Cascatas de sintetizadores jorram em ambiências etéreas no ótimo R&B de FM "Codeine Cowboy", enquanto um technopop ligeiramente houseificado surge na voluptosa "Why Games", em mais duas composições que dispensam formalmente o compromisso com a música de pista.




No convincente dub "The Natural", Felix da Housecat convida o lendário produtor Lee "Scratch" Perry para dividir os vocais e mandar pro espaço uma profusão de ecos e efeitos, num justo reconhecimento a uma das figuras mais inovadoras e criativas já surgidas na música jamaicana.



Narrative Of Thee Blast Illusion condensa em pouco mais de 40 minutos gêneros um tanto distantes entre si, mas prova que eles podem comunicar-se sem cair no pastiche, soando com naturalidade e sem forçar a barra da homogeneidade pra parecer moderno e esperto. Acho que Felix espera que você perceba que não é nada desonesto gravar dub ou synthpop, mesmo não tendo essas origens. O que vale aqui é a ousadia e o talento de um produtor que vem a mais de vinte anos tentando nos convencer que nem só de singles vive a dance music.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Segunda Class: Kanka


A culpa é do Fabio Bridges. Ele que me apresentou esse artista francês chamado Kanka. Agora já era: viciei.


E é assim mesmo. Basta dar uma rapidinha em Watch Your Step, seu sexto e recém lançado álbum e pronto. E eu que pensava que o único reggae capaz de rivalizar com a matriz jamaicana era o da Inglaterra. Quem imaginaria um dub tão potente vindo da França? Eu, jamais. Azar dos meus alto-falantes, com essas frequências de subgrave abaixo de 60 Hertz. É pra tremer a porta da estante. Legal e quase uma constante no som de Kanka, são seus timbres de sintetizador ameaçadores, tipo trombetas anunciando a abertura da Porta de Ishtar, na Babilônia. O restante da cartilha dub é cumprida à risca por Kanka, como se fosse um escravo Wardum fiel ao Código de Hamurabi: ecos em profusão, fluxo de efeitos entrando e saindo da música, toasters dando o recado, baixos de outro planeta. Sensacional.

Um aperitivo de Watch Your Step:

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Segunda Class: The Orb

Paterson e seu atual colaborador, Thomas Fehlmann.
 Nunca é tarde pra descobrir o The Orb. Cria da mente mucholoca de Duncan Alexander Robert Paterson - Dr. Alex Paterson - e do visionário Jimmy Cauty (The KLF), o projeto apareceu no final dos 80 com um mix de eletrônica, dubismo, psicodelia e ficção científica. Com temas focados num tipo de som que fosse adequado pro descanso pós-gandaia dos ravers, a experiência resultou no surgimento da ambient house.   


O CD duplo History of the Future saiu em Outubro e compila boa parte dos singles do Orb pela gravadora Island no disco 1, e remixes no CD 2. Na versão Box Set, são três CDs mais um DVD com apresentações ao vivo, vídeos e parte de um show realizado em 1993, em Copenhagen.

O primeiro single do Orb, "A Huge Ever Growing Pulsating Brain That Rules From The Centre Of The Ultraworld" (com sample de "Loving You", de Minnie Riperton) aparece em duas versões (uma dançável, outra não), e ambas as faixas ganharam um fade out na metade da extensão de suas edições, assim como convenientemente foi feito com a fantástica "Blue Room", que não chega nem perto da duração original. Mesmo com impraticáveis 40 minutos (!), "Blue Room" (com uma impressionante linha de baixo de Jah Wobble) chegou ao número #8 no paradão inglês, em Junho de 1992 e catapultou o álbum U.F.Orb, inacreditavelmente, ao topo da parada, um mês depois. Outros tempos.

O veredicto é um só: se você não conhece muito bem o The Orb, History of the Future é absolutamente essencial.

"Blue Room (7" Mix)": boa de pista, boa de fone de ouvido.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Segunda Class: King Tubby


Segunda complicada? Ressaquinha? Dub é um santo remédio.  


King Tubby foi um gênio. Possuía uma oficina de reparos de rádios e TVs em Kingston, começou a trabalhar com amplificadores, até construir modelos modelos mais resistentes e potentes dos usados habitualmente na Jamaica e montar seu próprio sound system - o King Tubby's Hometown Hi-Fi - que rapidamente tornou-se o mais popular da Ilha no final dos anos 50. Com seu conhecimento de eletrônica, trabalhou numa das primeiras gravadoras independentes local, a Treasure Isle Studios. No estúdio, Tubby empenhou-se na produção de lados B de singles de artistas jamaicanos (que continham a versão instrumental da faixa principal), e descobriu que era possível não só remover os vocais, mas também acrescentar efeitos como eco, reverb, distorções, além de acentuar baixo e bateria, até tornar a música quase irreconhecível. Nascia o dub, e por extensão, o remix.

Tubby foi baleado e morto em frente à sua casa, em 1989.

Hometown Hi-Fi Dubplate Specials 1975-1979 sai agora em 2013, e compila parte dos dubs tocados com exclusividade pelo sound system de King Tubby. São 18 faixas carregadas de efeitos e apenas ecoando referências e amostras do que eram os vocais originais, pra perda dos sentidos ser apenas parcial.

Essencial.

Dá pra ouvir trechos da coletânea no Soundcloud:

domingo, 28 de abril de 2013

Shooting Star


É foda ter que malhar um cara que eu admiro tanto quanto Tim Simenon, mas seu último single é decepcionante. Wandering Star saiu em Março e precede o novo álbum do Bomb The Bass, In The Sun, feito em parceria com Paul Conboy. Do ponto de vista técnico, Simenon continua muito acima da média - "Wandering Star" é um dub techno de bateria esparsa e pulsações de grave enérgicas - o problema são os vocais chochos e sufocados de efeito de Conboy, que se perdem no espaço sideral, indo pra bem longe do ouvinte. É um bom experimento, mas talvez uma péssima escolha para single.

"Wandering Star": pouco brilho.
 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Towers Of Dub

Dois craques do dub com álbuns fresquinhos:
 
Mad Professor (Neil Fraser) já trabalhou com uma pá de gente bacana, produzindo e remixando. Lee Perry, Massive Attack, Sade, The Orb, The KLF, Jamiroquai, Depeche Mode e Beastie Boys já tiveram uma mãozinha do bruxo de estúdio mais famoso nascido na Guiana (e que vive em Londres desde os 13 anos de idade).


Seu The Roots of Dubstep não é um álbum do gênero, mas deixa bem claro para as novas audiências onde o dubstep foi buscar parte do seu som (especialmente no que diz respeito às baixas freqüências). Atenção para seus alto-falantes ganhando vida própria com o deslocamento de ar causado pelos baixos de "Inverted Minds", "Spa Dub" e "Costa Chica". E ainda tem um incomum solo de trombone em "Concrete Bunker", a flauta serpenteante de "Return of The Mandinka" e aqueles teclados partindo pro infinito com os ecos de "Slave Catcher" (abaixo):





Jah Wobble é o britânico John Wardle, baixista do seminal grupo pós-punk Public Image Ltd (junto com o vocalista John Lydon e o guitarrista Keith Levene). Influente, eclético e prolífico, a lista de artistas que já trabalharam com Wobble nem cabe aqui, mas no Discogs dá pra ter uma idéia.

Wardle chamou Keith Levene pra gravar um novo álbum (a parceria entre ambos não acontecia desde o clássico Metal Box do PiL, lançado em 1979). O resultado é imediatamente menos dançante e acessível em comparação à The Roots of Dubstep de Mad Professor, mas em Yin & Yang a psicodelia é uma das forças motrizes do disco (os solos lânguidos de Levene em "Back on the Block" e "Within You Without You" são um bom exemplo disso). Ainda tem espaço pro jazz em "Fluid", a aridez do baixo de Wooble em "Jags & Staffs" e o clima sessentista de "Mississippi". Yin & Yang não é especificamente dub, mas Wobble sabe misturar como poucos.

"Mississippi": o peso das quatro cordas.

Mississippi by cherryredrecords

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Dubwood


Adrian Sherwood, mais de 30 anos pavimentando a ponte que liga Kingston à Londres através do dub, acaba de lançar disco novo.
 
 
Survival & Resistance é apenas o quarto álbum de Sherwood, incluindo aí uma colaboração com o lendário Lee "Scratch" Perry (Dub Setter, 2009).  Mas isso não significa falta de inspiração ou preguiça, o fato é que esse respeitável britânico de 54 anos também está a frente de um dos selos-chave do gênero (o On-U Sound) além de produzir e remixar gente tão diversa quanto Primal Scream, Depeche Mode, Asian Dub Foundation e Sinéad O'Connor. Survival & Resistance é um sopro de inventividade nessa ramificação do reggae tão maltratada ultimamente como o dub. Tem participações ilustres, como Adamski e o nosso subestimado Guilherme Arantes (na bossa-dub "Starship Bahia"). Bacana alguém de fora e de tamanha relevância como Sherwood gravar com um músico de primeira como Arantes, aqui visto por muita gente como não mais do que um sub-Phil Collins verde-amarelo.
 
"Starship Bahia": bon voyage.


segunda-feira, 2 de julho de 2012

Michael Jahckson

O Easy Star All-Stars é um coletivo de reggae mezzo jamaicano mezzo americano. Reúne músicos e cantores do gênero, e oficialmente, grava desde 2003. O lance deles é curioso: regravar álbuns clássicos em formato de reggae. Poderia até ser um negócio meio oportunista, mas uma ouvida no trabalho da banda evidencia o talento dessa tchurba em verter coisas improváveis no ritmo abençoado por Jah sem objetivos comerciais claros. O barato aqui é provar que qualquer coisa pode virar reggae dos bons: até Pink Floyd e Radiohead. Foi assim que eles lançaram a primeira parte do projeto: Dub Side Of The Moon (2003), que nem preciso dizer que disco da banda de David Gilmour os Stars homenageiam. Em 2006 veio mais um ótimo trocadilho (Radiodread), e um álbum inteirinho de reggae em cima de OK Computer do Radiohead. Finalmente em 2009 foi a vez dos Beatles e seu Sargento Pimenta em Easy Star's Lonely Hearts Dub Band.

O mais novo desafio do Easy Star é ver o que aconteceria se o disco mais vendido de todos os tempos (Thriller, de Michael Jackson) tivesse sido gravado em Kingston. Nada fácil mexer com esse vespeiro, mas os Stars se dão bem, sim. Respeitando até a ordem das faixas, começam com uma "Wanna Be Startin' Somethin'" cheia de metais, mas sem o nheco-nheco do reggae: é num funk cru e redondinho que eles suam os dreadlocks. "Baby Be Mine" vira um ska de lindos vocais, "The Girl Is Mine" sai do pop romântico original e vai pras praias ensolaradas do Caribe (junto com Steel Pulse), "Thriller" ganha um baixo orgânico musculoso (substituindo o groove sintetizado original), enquanto "Beat It" cai de rotação numa batida preguiçosa. "Billie Jean" vem cheia de ecos dub e "Human Nature" parecia estar esperando por uma versão jamaicana de tão bem encaixada que ficou. Pra completar a sequência original, "P.Y.T. (Pretty Young Thing)" e "The Lady In My Life" são mais relaxadas e doces com seus vocais femininos. Pra fechar o álbum, dois dubs siderais: "Dub It" (feita a partir de "Beat It") e "Close To Midnight" (de "Thriller"). O esmero e a musicalidade empregadas em Thrillah não deixam dúvidas sobre a relevância da homenagem: passa longe de um simples álbum de covers. Certeza que Michael Jackson aprovaria.

"Billie Jean": vou apertar, mas não vou acender agora.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Dub Fraturado


Fosse julgar pela capa, eu diria se tratar de um disco de R&B fuleiro. Nada disso. O que a londrina Merrisa Campbell oferece em seu debut Playin Me é um coquetel sedutor de dubstep embebido em generosas doses de dub e UK garage. É uma quebradeira cool, relaxada e sexy, com vocais sobrepostos e ritmos trôpegos.


Produtora, cantora e DJ, Cooly G me impressionou bastante pelas programações de bateria no disco, especialmente "What Airtime" pela sequência insana de socadas do bumbo e "Is It Gone" pela profusão de efeitos. Mas isso é só a parte técnica, porque o que tem aqui de canções genericamente inclassificáveis como "He Said I Said" (onde um loop de guitarra cria uma expectativa que só intensifica o suspense sobre pra onde a faixa vai: reggae? soul?), trips sossegadas ("Landscapes"), ótimos vocais (em "Come Into My Room" é difícil resistir ao pedido), reggae futurista ("Sunshine") e até um cover de "Trouble" (Coldplay) tão deliciosa quanto a original. No meio já superpopuloso do dubstep, um disco surpreendente.

"Landscapes": fugindo da mesmice em que o gênero já se meteu.        


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Tangoless


Os órfãos do Gotan Project periga se interessarem pelo Submotion Orchestra. Não que o Gotan - este projeto parido por um argentino, um francês e um suíço - tenha acabado, não é isso... mas você sabe, aquele tango eletrônico renovador e impressionante do trio funcionou 100% no debut La Revancha Del Tango de 2001, 50% no segundo álbum de fato (Lunático, de 2006) e dali pra frente a fórmula ficou presa no próprio tubo de ensaio.  


Buenas, o que os ingleses do Submotion tem a ver com o Gotan? Essencialmente electronica, jazz, dub e uma lona escura feita de trip-hop cobrindo tudo. O diferencial é que o grupo de seis músicos de Leeds passa longe dos ritmos portenhos e tem à sua frente uma vocalista fantástica chamada Ruby Wood. É ela com sua voz de Sade albina quem acalma as linhas de baixo que fazem os alto-falantes tremerem em certos trechos de Finest Hour, álbum lançado em Agosto deste ano. Atual mas não aproveitador, o Submotion encaixa-se confortável no dubstep vigente ("Back Chat") e no drum'n'bass jazzy ("Always"), ao mesmo tempo em que aproveita os músicos que tem pra criar um instrumental emocionante e detalhista como o da faixa título. Pontuado por um trompete onipresente que atravessa quase todas as dez faixas e favorecido pelos vocais de Ruby Wood, o Submotion Orchestra fez um disco de estreia apurado e minucioso, mas com um resultado final cool e extremamente prazeroso de ouvir.

"Suffer Not": tudo no capricho.




quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ladrões de Casaca


Qual é o habitat do Thievery Corporation em 2011? Coletâneas chill out? DJ sets? Apresentações em mini-festivais alternativos? Provavelmente, um pouco de cada. E pra reforçar o repertório, mais um álbum espetacular.


Culture Of Fear saiu no final de Junho e mantém o padrão estratosférico das produções da dupla americana Eric Hilton e Rob Garza. O mix de reggae, lounge music e acid jazz continua tão elegante neste sexto álbum da dupla quanto os ternos bem alinhados que eles vestem. A diversidade dos convidados que participam do disco reflete diretamente no som: são sete vocalistas e dez músicos explorando as possibilidades dos encontros musicais do primeiro com o terceiro mundo, capitaneados pela produção impecável de Hilton e Garza. Encaixar Culture Of Fear num rótulo é impossível - embora o álbum esteja mais ligado ao dub do que nunca: há uma profusão de ecos, efeitos, burburinhos à Lee Perry (ouça o trip-hop "Is It Over?") e baixos absurdos por todo o disco. De todas as vozes que aparecem nas treze faixas, a que mais me instigou foi a da californiana Lou Lou Ghelichkhani. Ela aparece doce e quase sussurrando entre paisagens desenhadas por pianos elétricos e percussão na onírica "Where It All Starts", cantando numa língua incompreensível conduzida pela escaleta de Jeff Franca na bossa espacial "Safar (The Journey)" e imersa no groove sexy e lento de "Take My Soul". Orgânico e visceral, eletrônico e sofisticado: seja qual for a sua praia, Culture Of Fear é um disco pra sonhar de olhos bem abertos.

"Is It Over?": uma trip a ser conferida no discaço do Thievery Corporation.