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sábado, 3 de junho de 2017

Strange World

 O que Erasure e Alphaville tem em comum? O synthpop, o sucesso nos anos 80 (em menor escala, no caso do Alphaville), a carreira cambaleante nos 90 e o franco declínio nos 2000. Ambos acabaram de lançar novos álbuns e o resultado...


Strange Attractor (Polydor) é o sétimo disco do Alphaville, que tem como único membro original o alemão Marian Gold (nome artístico para o quase impronunciável Hartwig Schierbaum). A média até que é baixa, já que Marian lança um álbum a cada sete anos, desde o bom Forever Young (1984). Negócio é que depois do empolgante debut, o Alphaville não teve mais nenhum trabalho digno de nota. Alguns singles interessantes (como o relativamente recente "I Die For You Today", de 2010) e só. Strange Attractor pega leve com baladas a um passo da grandiloquência, sintetizadores macios, levadas de violão e os bons vocais de Gold, que aos 63 anos se mostra mais contido do que quando alcançava as notas altíssimas de hits como "Big In Japan" e "Sounds Like a Melody". Se você quiser arriscar uma ouvida em Strange Attractor, ignore o fraco single "Heartbreak City" e tente a razoável "House Of Ghosts", a boa "Around The Universe" e a fluída "Mafia Island". São as que se salvam.

"Heartbreak City": decepcionante.




World Be Gone (Mute) é o décimo sétimo (!) álbum do Erasure, numa carreira iniciada em 1986. Aliás, os discos do Erasure dos anos 80 são todos muito bons, com menção especial à The Innocents (1988), talvez o melhor da dupla formada por Andy Bell (vocais) e Vince Clarke (sintetizadores). O duo ainda adentrou respeitosamente os 90 com o bom Chorus (1992) e o incrível EP de covers ABBA-esque (também de 1992) e, depois disso, ladeira abaixo. Recentemente, o Erasure procurou trabalhar com novos produtores pra tentar um upgrade no som, como Frankmusik (em Tomorrow's World, de 2011) e Richard X (The Violet Flame, de 2014), mas os resultados foram tão pífios que os próprios Clarke e Bell resolveram girar os botões da mesa de som do estúdio nas gravações de World Be Gone (com a ajuda do engenheiro de som Matty Green). Bom, infelizmente não adiantou. O novo álbum é arrastado, modorrento, preguiçoso. Nada do technopop esfuziante de outros tempos, o que temos aqui são baladas tristonhas carregadas pelos teclados mais sem graça que Vince Clarke já tocou na vida. World Be Gone chegou em sexto na parada inglesa - o que não deixa de ser surpreendente. Se bem que ficar no número seis da tabela britânica hoje em dia significa vender o que? Umas cinco mil cópias? Não importa. Sinceridade que não tem nem o que indicar pra ouvir desse disco - que é, provavelmente, o pior da carreira do Erasure.
"Love You To The Sky": declínio.

domingo, 5 de outubro de 2014

Synthpoppers 2014 - Part 2

Veteranos. Três bandas vindas dos 80, três projetos que não envelheceram muito bem. Erasure, Information Society e And One seguem na ativa, mas com álbuns um tanto decepcionantes. 

Os fãs de Andy Bell e Vince Clarke não podem acusar a dupla de improdutividade. De 1986 pra cá, são 16 álbuns, fora projetos paralelos, EPs e singles. O disco mais recente é The Violet Flame, lançado mês passado e produzido em parceria com Richard "X" Philips. É ouvir uma vez e sacar que o Erasure continua com o mesmo problema que vem desde I Say I Say I Say (1994): irregularidade. O duo simplesmente não consegue mais produzir um álbum em que ao menos metade dele seja realmente de boas canções. Em The Violet Flame, as faixas mais legais foram estrategicamente colocadas no começo e são só duas: "Dead of Night" (que aparenta ter bom potencial pra pista de dança) e o single "Elevation", em que nota-se um cuidado maior com a melodia e o refrão. "Reason" e "Paradise" são duas amostras de como o Erasure conseguiu trazer o synthpop pra 2014 sem muitas rugas: com o bom direcionamento proporcionado pelo esperto Richard X, elas soam musicalmente robustas sem perder o charme particular dos sintetizadores de Vince Clarke. Negócio é que eu imagino a briga no estúdio pra conter o ímpeto de Andy Bell em baladas cabaré totalmente insossas como "Be the One" e "Smoke & Mirrors".

"Dead Of Night":





O conceito de uma sociedade informatizada ficou nos 80, hoje ele é realidade. Já o Information Society nessa época jurou que não carregaria seus teclados antiquados pra cima dos palcos num futuro não muito distante. Em 1997, eles pareceram cumprir a promessa e a banda suspendeu atividades - até reunir-se novamente em 2006. Com repercussão discretíssima, Synthesizer foi lançado em 2007 e também sem muito alarde, James Cassidy, Paul Robb e Kurt Harland editaram em Setembro o novo _Hello World, pelo selo de Robb, HAKATAK International. O primeiro single (saiu em Março) "Land Of The Blind", tenta juntar os dois mundos relativamente bem sucedidos do grupo: o freestyle de "What's On Your Mind" e o techno de "Peace & Love, Inc.", mas a fusão não passa de autoparódia. Os fãs xiitas (brasileiros, especialmente) vão encontrar motivos pra comemorar o retorno do trio na bem feitinha "Get Back" e no pop sintético de "Above and Below", mas a patética "Beautiful World" e a balada com sessão de cordas transistorizadas "Tomorrow the World" já seriam suficientes para que o álbum se chamasse _Goodbye World.

"Land Of The Blind":      




O And One não é propriamente uma "banda dos 80", embora tenha sido fundada nesta década. O som do grupo incorpora elementos de EBM, synthpop e industrial, algo que fica evidente em Magnet, o lançamento mais recente (Agosto) do quarteto e que estou tentando até agora entender. Trata-se de um Box Set com três CDs, nomeados como Magnet, Propeller e Achtung 80!. Fora isso, há ainda a Premium Edition, com três CDs extras que são, como indica o nome, Live On Stage 1, 2 e 3. Magnet é o darkwave do pacote, tem sintetizadores mais sombrios e clima nubladão, comuns ao gênero. As faixas cantadas em alemão, curiosamente, são as que soam melhor - talvez por serem totalmente incompreensíveis pra mim - e acabam combinando com a desolação de músicas como a misteriosa "Zeit Ohne Zeit". Propeller tem uma pegada EBM de inferninho gótico, dançante ("Synchronizing Bodies") e ameaçador ("An Alle Krieger!"). Aqueles baixos impulsivos de Oberheim Xpander do começo da carreira do Nitzer EBB, estão na maior parte desse disco ("Zwei Tote", "Before I Go" e claramente em "U-Boot-Krieg In Ost-Berlin"). Achtung 80! dá uma desopilada no som e pega leve em canções technopop inofensivas, com melodias ingênuas e instrumental primário, como na constrangedora "Girls On Girls". Não consideraria esse lançamento uma espécie de suicídio comercial, já que edições como essa hoje (amparadas pelo selo do grupo, Deutschmaschine Schallplatten) são quase que puramente artesanais, mesmo... Os problemas com o And One são outros: não trazem nada de novo, chupinham o que já foi feito e ainda são incapazes de produzir canções realmente relevantes, do ponto de vista literário ou musical. Mesmo assim, dá pra pescar faixas interessantes nesse lançamento triplo dos alemães.

Uma geral em Magnet, um dos volumes da trilogia:

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Unhappy Christmas


"Tudo sobre o Natal já foi escrito. Nós pensamos que seria mais interessante olhar para o lado mais sombrio do período. Para muita gente, o Natal não é um momento feliz".


É assim que o geniozinho dos teclados Vince Clarke definiu Snow Globe, o tal disco de Natal do Erasure. De fato, não é um álbum alegre, cheirando a tender com farofa. Prova do clima melancólico do projeto está no single "Gaudete" - um tema sacro medieval, cantado no latim original por Andy Bell. A faixa é o máximo da ousadia que Snow Globe oferece. O resto divide canções compostas pela dupla e clássicos do tempo em que Papai Noel velho batuta descia pelas chaminés (não, a lamentável versão da Simone para "Happy Xmas [War Is Over]", de John Lennon, não está aqui, não se preocupe). Do material original, apenas "Make It Wonderful" faz a gente lembrar aquele Clarke que tirava vários coelhos da cartola nos melhores discos do Erasure. Já nas releituras, os arranjos são preguiçosos. Ouça a base Super Nintendo de "The Christmas Song" e comprove. Menção honrosa para a boa adaptação de "Silent Night" (a nossa "Noite Feliz"), com vocais especialmente bem gravados.

Nem pensei muito sobre as intenções do Erasure com esse álbum.
Honestamente, não acho que classificar como caça-níqueis seja o caso. A banda está bem longe da popularidade que alcançou no século passado e não consigo imaginar que alguém - fora os fãs mais xiitas - coloque isto como trilha pra sua ceia como se tirasse uma onda com o vinil de Merry Christmas do Bing Crosby. O problema de Snow Globe é que, perdoem a obviedade, é um disco que já vem com data de validade vencida antes mesmo de chegar às prateleiras (ou aos arquivos do iTunes). E isso tem sido frequente nos últimos trabalhos do grupo: discos insossos, indiferença, preguiça criativa. Já rolou álbum de covers, um acústico e agora um de Natal. O Erasure anda em círculos.

"Gaudete": seriedade. 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Sexta Feira Bagaceira: Erasure


Fãs de carteirinha do ABBA, o Erasure seguidamente visitava o repertório do grupo sueco nos shows, até "Gimme! Gimme! Gimme! (A Man After Midnight)" entrar em The Two Ring Circus (compilação de remixes e faixas ao vivo de 1987).  


Foi somente cinco anos depois que a dupla britânica decidiu registrar num EP quatro covers em formato synthpop para clássicos de Björn Ulvaeus e Benny Andersson, e o resultado foi certeiro: Abba-esque era o primeiro single do Erasure a chegar no topo da parada inglesa. 

"Take a Chance on Me" é a melhor faixa aqui, technopop reluzente de batida nervosa, que se transforma em raggamuffin no trecho rapeado pela MC Kinky.

Kitsch, cabaré, sintetizadores, dance music, ABBA e rap parece uma mistura indigesta, mas lá no meio de 1992, o Erasure conseguiu transformar em música boa e diversão.

"Take A Chance On Me": gatinhas.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Happy Birthday To...


 
Vincent John Martin, o Vince Clarke. 52 anos hoje. Músico, compositor, produtor. Depeche Mode, Yazoo, Erasure. Sua frase "Não tenho muita habilidade para teclados, tenho que apertar uma tecla de cada vez" é minha preferida dele. Imagina se tivesse, Vince. Imagina se tivesse.

 "Don't Go", do Yazoo. Alison Moyet nos vocais. Que Adele que nada.

terça-feira, 13 de março de 2012

Dupla Dinâmica



Comecei a desconfiar que aquela história de "dois gênios não cabem na mesma lâmpada" pode ser verdadeira depois de ouvir Ssss, o álbum que marca a volta da parceria entre Vince Clarke e Martin Gore com o projeto criativamente chamado de VCMG. Erasure e Depeche Mode tomaram caminhos bem distintos em suas respectivas trajetórias, mas era de se esperar que pouca coisa da sonoridade das duas bandas respingasse nesse trabalho. E assim foi. Ssss é um álbum techno, minimalista, frio e que se auto-explica em todo seu distanciamento a partir do momento em que se descobre que Clarke e Gore o compuseram trocando e-mails. 


Vince há tempos perdeu aquela vibe disco/cabaré que pontuava alguns de seus hits mais famosos ("Love To Hate You", "Drama", "Stop!") e a falta de comunicação com a pista faz diferença na hora de produzir música pra ela. Isso talvez explique o fato da dupla optar por um disco de minimal techno com um delay de pelo menos oito anos pós-estouro do gênero. Ssss é duro de cintura e despreza a melodia em favor de beats ininterruptos, faixas longas, efeitos e repetição. Honestamente, eu esperava que a colisão entre Martin e Vince trinta anos depois do afastamente musical de ambos rendesse algo mais mundano - onde alguns dos temas preferidos de Gore (luxúria, amor, relações, pecado) estivessem inseridos de alguma forma numa música capaz de instigar os quadris e a libido - tudo sustentado pelas mãos pacientes e pelo cérebro analógico de Clarke ("_ Não tenho muita habilidade para teclados... tenho que apertar uma tecla de cada vez", disse ele no começo dos 90). Acho que não foi bem isso que aconteceu, porque Ssss não é a minha idéia de música ideal para animar uma noite com sorrisos no rosto e diversão sem fim, mesmo que o disco coubesse no catálogo da Kompakt.

"Spock": fogo brando para as pistas.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O Fim do Reinado e a Volta da Monarquia


O Erasure passou a ser uma banda de singles a partir de 1994. Nesse ano a dupla britânica lançou o fraco I Say I Say I Say, e o álbum naufragou com a produção excessivamente digitalizada do admirável Martyn Ware (Human League, Heaven 17). Ou você lembra de alguma coisa de I Say que não seja a orientalizante "Always"? Ainda assim, era mais um disco do Erasure que chegava ao topo do paradão inglês. Pela última vez. Claro que o número de cópias vendidas não serve como termômetro para medir qualidade, mas como Andy Bell e Vince Clarke pareciam ter a fórmula mágica dos três minutos nas mãos durante a segunda metade dos 80 e o comecinho dos 90, foi de se estranhar que o tecno assumidamente pop da dupla começasse a rarear, em troca de composições mais longas ora tristonhas, ora experimentais. O problema é que até mesmo para singles o Erasure parece ter perdido o Toque de Midas. "In My Arms" (1997), "Freedom" (2000), "Breathe" (2004)... dá pra contar nos dedos o que é realmente digno de nota desse período. E eles se intimidaram? Nada. Continuaram lançando discos. Foram oito de 1995 até 2011, média de um a cada dois anos - contando o mais recente, Tomorrow's World, que saiu mês passado. Aqui temos Vince Clarke de novo usando sua coleção de synths de boa cepa para dar um acabamento mais envernizado nas canções e Andy Bell sofrendo nas mãos do produtor Frankmusik, no que tange aos vocais. O cantor está irreconhecível em "Fill Us With Fire" e cai na armadilha dispensável do auto-tune em "A Whole Lotta Love Run Riot". Honestamente, Bell soa muito melhor ao vivo do que nesse álbum (vi um show da banda em Agosto). Você certamente vai ler coisas por aí como "... é o melhor disco do duo desde...", e a gente quase acredita ouvindo refrãos como "Then I Go Twisting" e "Just When I Thought It Was Ending" ou o esforçado single "When I Start To (Break It All Down)". Fato é que o Erasure tem se desafiado constantemente nos últimos 15 anos: como não passar despercebido no meio de tanta música ofertada? Olha, só com um trabalho (ou uma sequência razoável de singles) realmente bom. E isso aconteceu pela última vez em 1991.

"When I Start To (Break It All Down)": softwares na voz.




Já o duo australiano radicado em Londres Monarchy finalmente debutou de forma oficial com Around The Sun. O disco deveria ter sido lançado ano passado, vazou, foi adiado para Janeiro, depois Julho... Com a lista de faixas alterada em relação a 2010, o álbum ganhou a adição das novas (e ótimas) "I Won't Let Go" e "Jealous Guy". Se você passou batido por esse hype em 2010, saiba do que se trata no texto que escrevi pro rraurl. Depois ouça Around The Sun e tenha certeza que o synthpop está em ótimas mãos com bandas como o Monarchy.

"Jealous Guy": o futuro é o passado, baby.