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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Depeche Nobre


Não é nada fácil arriscar um cover de uma banda como o Depeche Mode. Há sempre boas chances da tentativa soar enfadonha ou oportunista, especialmente quando o alvo escolhido é um clássico do tamanho de "Enjoy The Silence", por exemplo. De qualquer maneira, há algumas boas variantes das canções da banda inglesa disponíveis: Johnny Cash ("Personal Jesus"), GusGus ("Monument") e Rammstein ("Stripped") são excelentes para mostrar que com versões radicalmente diferentes das matrizes e um toque claramente pessoal de cada um, o resultado causa a estranha sensação de que estas músicas sempre pertenceram aos artistas que as escolheram (o que é sempre bom sinal). A cantora, compositora e produtora americana Julia Holter não se intimidou e acaba de gravar sua interpretação para "Condemnation", cantada a plenos pulmões originalmente por Dave Gahan no álbum Songs Of Faith and Devotion, de 1993. São duas versões do hit escrito por Martin Gore, já disponíveis para streaming e que também serão lançadas em formato físico num single de sete polegadas de edição limitada, programado para 15 de Setembro, pela Domino Records. O single é um tributo ao músico e diretor americano Travis Peterson, que tinha o Depeche como uma de suas bandas preferidas e que faleceu em Dezembro do ano passado. Peterson, que dirigiu vídeos de Ariel Pink e Glass Candy, entre outros, era amigo pessoal de Julia Holter e dos outros três artistas que colaboram na gravação: Ramona Gonzalez, Cole M.G.N e Nedelle Torrisi. "Condemnation (Live)" é, como o nome indica, uma delicada e emotiva versão ao vivo, quase um acapella acompanhado somente por acordeão, enquanto "Condemnation (Synth)" traz arpejos de sintetizador emoldurando os vocais. São duas belas reconstruções, uma justa homenagem e que tem um destino nobre para a arrecadação alcançada com suas vendas: a renda será destinada para o Didi Hirsch Mental Health Services, uma organização sem fins lucrativos que presta serviços relativos a saúde mental e dependência química a comunidades carentes de Los Angeles.

"Condemnation (Live)": tributo.

domingo, 14 de maio de 2017

The Train Is Going Away


Achei que as ideias prosaicas do Depeche Mode sobre política tinham ficado no distante 1983, em Construction Time Again, terceiro - e excelente, a despeito das letras - álbum da banda. Pois em 2017 a banda achou que tinha a ver voltar ao tema e lançou "Where's The Revolution", o primeiro single do novo disco Spirit. Ambos levam o carimbo "medíocre", sem pena.

Não sei se se confirma a ideia que muita gente tem de que a maioria dos fãs (exceto os xiitas) vem esperando por uma nova "Enjoy The Silence" ou um novo Violator há tempos, mas a teoria me parece cada vez mais aceitável a medida que o tempo avança para o Depeche Mode, com uma discografia totalmente irregular desde o clássico de 1990. E para um grupo que sempre vendeu muito mais singles do que álbuns, Where's The Revolution foi decepcionante. Entrou em quadragésimo na parada alternativa da Billboard e nem figurou nas charts britânicas. Ah sim, o mercado mudou, público mudou, eles estão mais do que estabelecidos como a mais bem sucedida banda eletrônica da história do pop, etc... Mas os admiradores (como eu) estão sempre querendo mais, ou só querem, na verdade, moldar a banda de acordo com o próprio gosto saudosista. Me incluo nos dois grupos. O que a mim é certo, é que "Where's The Revolution" soou totalmente panfletária e óbvia. E não são os remixes das versões CD single / Digital Download que a salvaram - nem com as mãos habilidosas do produtor Ewan Pearson, nem com o remix entre solene e soporífero do Algiers, o techno cansativo do francês Terence Fixmer ou muito menos a frieza das batidas descompassadas do Autolux.

O remix de Ewan Pearson é a única coisa aqui feita com a intenção de funcionar na pista de dança, um território que sempre foi muito familiar ao Depeche. A mim, não excita mexer o corpo com essa trilha, num single que é um erro - do começo ao fim.

"Where's the Revolution" (Ewan Pearson Remix): ninguém se salva.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Never Let Me Down Again


Seria só mais um cover horroroso do clássico do Depeche Mode, mas esse merece uma notinha, afinal ele vem embutido no primeiro trailer de Ghost in the Shell, sci-fi que estreia esse ano, dirigido pelo britânico Rupert Sanders (o filme é uma adaptação do mangá de mesmo nome escrito pelo japonês Masamune Shirow) e que tem a espetacular (em todos os sentidos) Scarlett Johansson no elenco. A "Enjoy the Silence" imaginada pelo autor do crime, o produtor americano Joel Burleson (que responde pelo nome artístico de Ki Theory), vem bem ao gosto da eletrônica popular de hoje em dia: pausas dramáticas, vocais maquiados por um filtro que provavelmente esconde um timbre ruim e uma masterização que sobe todos os elementos da música (bateria, efeitos, guitarras, etc...) até o limite do suportável pelo ouvido. Ou seja, Burleson pertence ao grupo de pessoas que acha que volume é garantia de sucesso. Vale o surrado clichê, no entanto: se isso servir pros interessados procurarem a versão original, já cumpriu seu papel.

A original:



E como ficou:

terça-feira, 28 de abril de 2015

Moda Que Não Passa


Quantos tributos o Depeche Mode ganha por ano? Claro, não dá pra calcular. Mas uma coisa é certa: é justíssimo. A influência e a importância da maior banda eletrônica da história são tão imensuráveis quanto o número de projetos que reverenciam o legado do (ex)quarteto. E assim vão pipocando aqui e ali discos que homenageiam a obra do grupo britânico, como esse Covering Depeche Mode, com um título de uma simplicidade tão encantadora quanto o conteúdo presente nas sete faixas do EP (disponível numa tiragem limitadíssima de 200 cópias em CD, sem edição digital). A responsável por despir os sintetizadores característicos do Depeche e transformar suas canções em versões voz e violão é a californiana Anna-Lynne Williams (ela cantou em "Hold Tight London", do Chemical Brothers), do extinto grupo indie underground Trespassers William. Desde 2007 gravando sob o pseudônimo Lotte Kestner, este é o segundo EP do projeto (que já conta com dois álbuns de covers, de um total de cinco da discografia). As reconstruções de Anna-Lynne são econômicas e delicadas, valorizando sua voz pequenina - desde as pausas de respiração em "Somebody" até o falsete de "Question Of Lust". Mesmo com a total ausência de complexidade das releituras, Williams salpica pequenas adaptações que fazem toda diferença no resultado final, como em "Stripped", que ganhou um arranjo camerístico em que um piano sutil emula o genial riff de sintetizador original. "World In My Eyes" e "Never Let Me Down Again" priorizam o violão, enquanto "It's No Good" traz piano elétrico e violoncelo. Em "Enjoy The Silence", uma terna sessão de cordas deixa o clima ainda mais plácido, como se a candura dos Carpenters encontrasse o folk/dream pop do Mazzy Star numa jam session. Pra ouvir de boca fechada.

"World In My Eyes": desnudando o Depeche Mode.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Presente de Grego


"A Broken Frame é o nosso LP mais fraco." (Dave Gahan)

Não concordo com o vocalista do Depeche Mode. Provavelmente, nem o duo grego Marsheaux - que acaba de lançar sua própria versão do álbum, faixa a faixa e na ordem original da edição inglesa de 1982. Os problemas aqui, abundam. OK, é uma homenagem (acho), não é pra levar tão a sério. Negócio é que a dupla sofre do mesmo mal da maioria dos artistas que já tentaram recriar a obra do Depeche: ou limitam-se a simplesmente atualizar o som do grupo com o aparato tecnológico vigente ou aventuram-se em metamorfoses pra lá de duvidosas. "_ Aponte o cover ideal então, Carlinhos." Olha, na minha limitada percepção acerca da obra do grupo, penso que o modelo a ser seguido é o que transforma sem perder a essência, a referência - tipo o que o Some Velvet Morning fez com "The Things You Said" ou o GusGus com "Monument": duas versões que emparelham em criatividade e rivalizam em qualidade com os originais (no caso do GusGus, até supera).

Pois bem, o Marsheaux pode ter duas gurias bem intencionadas, mas isso não livra a barra da dupla da responsabilidade que é mexer com a obra de gente do primeiro escalão assim, a seu bel-prazer, com a desculpa da despretensão da ideia.

A falta de ousadia fica bem explícita em "My Secret Garden" (de novo aqui, só a batida), "Nothing To Fear" (recriada nota por nota) e principalmente em "The Sun And The Rainfall" - uma canção tão forte e intensa que abre um leque de possibilidades de exploração sonora, mas que o Marsheaux desperdiçou com um arranjo inofensivo e vocais soporíferos. O cover mais esquecível do disco é, sem dúvida, "A Photograph Of You" - que virou uma balada sonolenta e ficou ainda mais sem graça que a original. Usar baterias eletrônicas paleolíticas não ajudou em "See You" e dou um desconto pelo crime cometido com "The Meaning Of Love", porque ela é um caso perdido (mesmo com o próprio Depeche). O Marsheaux destrói a genial linha de baixo do reggaezinho sintético "Satellite" e a substitui por um arpejo cambaleante (que me faz pensar em como essa faixa poderia potencialmente soar bem com o Ace Of Base) e "Shouldn't Have Done That" não faz sentido pra mim sem a ameaçadora marcha original. Bom, o que sobrou de positivo foi o vigor do bassline de "Leave In Silence" (onde as meninas cantam e não sussurram, como na maioria do álbum) e as engenhosas soluções encontradas para a letargia minimalista de "Monument". No geral, o A Broken Frame do Marsheaux não diverte, não arrisca e aposto que não vai fazer Dave Gahan mudar de opinião.

"Leave In Silence": metade dos 20% interessantes do A Broken Frame do Marsheaux.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Sexta Feira Bagaceira: Depeche Mode

Dando mau exemplo e, segundo Dave Gahan, usando "roupas ridículas".
Para os fãs fervorosos do Depeche Mode sombrio que começou a aparecer por volta de 1984, a culpa por "Just Can't Get Enough" (1981) é de Vince Clarke. Bobagem. Vince mostraria ser um compositor pop talentoso depois que caiu fora do Depeche (um mês depois da banda lançar o álbum de estreia, Speak & Spell). Clarke compôs nove das onze faixas do disco - "Just Can't Get Enough" entre elas.

Não tinha como errar. Um riff de teclado viciante, uma letra bobinha sobre paixão adolescente ("Toda vez que penso em você / Sei que temos de nos encontrar / Está ficando mais quente, é um amor que queima") e o terceiro compacto do Depeche era o primeiro a beliscar significativamente a parada inglesa (chegou ao oitavo lugar). No Brasil, curiosamente, a faixa só foi chamar atenção dois anos depois, após ser incluída na trilha da novela Louco Amor, da Rede Globo.


A versão Schizo Mix do hit (lançada num doze polegadas) no entanto, mostrou-se profética ao projetar o Depeche para o seu próprio futuro. Estendida para quase sete minutos, é exatamente no meio da canção que o portal se abre para o grupo. Nele, Martin Gore, Dave Gahan e Andy Fletcher afastam-se da pista de dança e vão para um ambiente escuro entre sintetizadores que exprimem profunda tristeza e uma voz lúgubre que repete sinistramente o título da música. Os próximos passos do Depeche Mode apontariam exatamente pra esse caminho.

"Just Can't Get Enough (Schizo Mix)": presságio.
   

sábado, 11 de maio de 2013

Soothing Dancers


Fãs fundamentalistas podem fazer beicinho que não adianta. Há uma verdade incontestável na carreira do Depeche Mode: boa parte da sua popularidade é baseada sim no material dançável da banda. Mesmo que Alan Wilder tenha declarado à época do lançamento do polêmico single "Blasphemous Rumours" (1984) que o grupo "não fazia mais música simplesmente para dançar", o Depeche empilhou hits de pista nos seus mais de trinta anos de atividades. Tanto que dois anos depois, a Sire - gravadora responsável pelo catálogo do grupo nos Estados Unidos na ocasião - optou por promover "But Not Tonight" (mais pop e dançante) como primeiro single de Black Celebration, ao invés de "Stripped", o que mostrou-se uma decisão duplamente errada: além de desagradar a banda, o single foi um fracasso. Corta pra 2013: ficou perguntando onde está aquele Depeche fornecedor de combustível para as danceterias em Delta Machine (álbum mais recente, lançado em Março)? Bom, a resposta vem em forma de remixes oficiais e fresquinhos, que começam a brotar.


"Oficiais" por que você sabe que o Depeche atrai uma cambada de aventureiros que se metem à remixadores com seus softwares envenenados e idéias manjadas, a cada lançamento. Centenas de remixes fuleiros aparecem todo dia na rede, então nada mais justo do que deixar o próprio grupo escolher quem vai meter a mão na sua obra e botar isso no mercado com uma embalagem mais atraente (e ainda ganhar algum trocado com o negócio). O CD maxi-single de "Soothe My Soul" vem com seis versões da canção. E já começa mal. Então o Depeche é extremamente cuidadoso com o repertório atual, busca uma (difícil) fusão - que seja convincente - de blues com eletrônica e entrega uma faixa pro greco-sueco Steve Angello, um dos maiores picaretas da dance music atual? Angello, além da música puramente comercial e ordinária que faz com o seu Swedish House Mafia (junto com Axwell e Sebastian Ingrosso), ainda comete - suprema vergonha! - uns DJ sets onde finge mixar, com aquela cara de pau de quem está muito feliz com as moedas tilintando na bilheteria, acredite. Bem, ele divide a mesa de som com o respeitável Jacques Lu Cont (Stuart Price), e fica bem claro onde cada um trabalhou: Stuart segura o ímpeto farofeiro de Angello até chegar perto dos dois últimos minutos do remix, mas depois não tem jeito, a canção transforma-se numa electro house exagerada e medíocre. Tom Furse (baixo e sintetizadores do The Horrors) aproveita somente o refrão da letra e incorpora alguns teclados à melodia, sem alterar o andamento original. O guitarrista Billy Gibbons (ZZ Top) sacou o espírito e injetou riffs blueseiros, num trabalho em conjunto com o produtor Joe Hardy, que limpou os timbres de bateria. A melhor idéia do jovem francês Joris Delacroix foi transformar Martin Gore num cantor de blues dos anos 30, em sua versão tech house apenas eficiente. Bryan Black (Black Asteroid) subverte "Soothe My Soul" e apaga tudo até restar apenas os vocais; o resto é preenchido por um baixo furioso, ruído e distorção. O alemão Gregor Tresher arrisca e se dá bem com sua boa reinvenção de bateria, uma linha de baixo criativa e sintetizadores bem ao gosto do Depeche. As interpretações de Tresher e da dupla Gibbons / Hardy acabam sendo as únicas dignas de nota nesse segundo single de Delta Machine. Acho que o Depeche precisa escolher melhor os artistas a quem vai confiar suas composições.

"Soothe My Soul (Gregor Tresher Soothed Remix)": um dos poucos acertos.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Emissões, Eficiência


E esse cover dos noruegueses do Röyksopp para a gelada (sem trocadilhos) "Ice Machine" do Depeche Mode? Começa titubeante com os vocais de Susanne Sundfør, mas à medida que a faixa vai avançando, o gelo vai derretendo (ops!). Um ponto a mais pela idéia do rufar coletivo de tambores, o clima ganhou em dramaticidade. Originalmente lançada como lado B do primeiro single do Depeche ("Dreaming Of Me", de 1981), "Ice Machine" é obra do geniozinho Vince Clarke.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Durable Mode



Cara de malvado e dedo em riste: Depeche Mode 2013.
"Quando você procura um hit single, vai atrás de uma faixa que seja mais acessível que o resto, porque quer atingir mais gente. Queremos que o máximo de pessoas compre nossos discos. Qual o sentido em lançar um disco que vai ser comprado por umas cem pessoas?"

Andrew Fletcher, 1989
 

Andy Fletcher - o homem de negócios do Depeche Mode - mudou muito de 24 anos pra cá. Aliás, tudo mudou: o mercado da música, a maneira como a consumimos, e principalmente, a banda mudou. As escolhas recentes dos singles lançados pelo trio inglês já não parecem mirar o Top 20. "Wrong", do disco anterior Sounds of the Universe, teve o pior desempenho comercial da discografia do grupo para um single inicial de um álbum de estúdio. Isso, pra uma banda que sempre vendeu mais compactos do que álbuns, seria preocupante. Seria. O Depeche tem uma base de fãs tão sólida, que o conceito de "atingir o máximo de pessoas" urdido por Fletcher no século passado, já não faz mais sentido. Os singles hoje para o Depeche funcionam tão somente como cartão de visitas. "Heaven" certamente vai figurar em muitas charts - e isso já é louvável, porque é alternativa demais pra rivalizar com astros pop da atualidade. Trata-se de um lindo pedaço de blues eletrônico envolto em algumas das temáticas preferidas do compositor Martin Gore: amor, religião, relações. Faz jus às melhores canções do Depeche do período Violator/Songs Of Faith and Devotion, não por acaso, porque o grupo vem dizendo que o próximo álbum Delta Machine, bebe exatamente nesta fonte.     


domingo, 16 de dezembro de 2012

Falar & Soletrar


Quando eu começo a achar que o And One está deixando um pouco de lado as referências beirando o exagero em relação ao Depeche Mode, eles vêm com essa. Mas onde é que o trio alemão arrumou uma KORG KR55 - a mesma bateria eletrônica que o Depeche usou no álbum Speak & Spell, de 1981? No eBay? É ouvir as primeiras batidas de "Shice Guy" e lembrar instantaneamente de "Dreaming Of Me" ou "What's Your Name". E "Perfect Life", então? A exatos 02:56, o solinho de teclado é chupado na cara dura do trecho final da baladona melosa cantada por Martin Gore, "A Question Of Lust" (especificamente, o synth a partir de 03:00 minutos). Tsc tsc.

De interessante mesmo, só o synthpop leve de "Für Zwei" e a fantasmagórica "S.R.Y.", ambas com letra em alemão. No caso de "S.R.Y.", não faço idéia do que o Steve Naghavi declama em tom gravíssimo, mas pelo jeito, boa coisa não é. Tudo isso no novo EP do And One, Shice Guy.

"Shice Guy": bom gosto na escolha da drum machine.


terça-feira, 3 de julho de 2012

Happy Birthday To...


 
Vincent John Martin, o Vince Clarke. 52 anos hoje. Músico, compositor, produtor. Depeche Mode, Yazoo, Erasure. Sua frase "Não tenho muita habilidade para teclados, tenho que apertar uma tecla de cada vez" é minha preferida dele. Imagina se tivesse, Vince. Imagina se tivesse.

 "Don't Go", do Yazoo. Alison Moyet nos vocais. Que Adele que nada.

The Fake Mode

Martin Gore, o Mão Santa do Depeche Mode.
Por ocasião do recém lançado S.T.O.P. (décimo primeiro álbum dos alemães do And One), fiquei pensando no tanto que o Depeche Mode fez a cabeça desse pessoal. Mas o And One não está sozinho. Abaixo, três exemplos de como seguir à risca os passos dos seus ídolos:


And One

Esse cabelo do vocalista Steve Naghavi aí acima é inspirado em quem? Dave Gahan, circa 1990. Mas curiosamente, Naghavi não passa nem perto de cantar como Gahan. E musicalmente, Depeche e And One não tem muito a ver. O And One pratica um EBM pesado, sombrio, e por vezes, dançante. O primeiro single da banda ("Metalhammer", 1990) mescla industrial e synthpop (gêneros que o Depeche soube explorar muito bem), num hit de pista doentio. A melhor música da banda alemã é, sem dúvida, "Sometimes", de 1997:




De/Vision

Mais germânicos: o De/Vision está na ativa desde 1988. Aqui o caso é mais grave: a inspiração beira a imitação. Os singles do grupo parecem acompanhar os passos do Depeche: a ótima "Heart-Shaped Tumor" lembra "Only When I Lose Myself", "Strange Affection" parece com "Barrel Of A Gun", "Rage" (com vídeo inspirado em "It's No Good", de adivinha quem?) soa como "Wrong"...



Color Theory

Projeto do americano Brian Hazard. Tecladista e cantor, tá na cara que Brian paga um pau pro Martin Gore. Canta, geme e solta aquele vibrato igualzinho ao principal compositor do Depeche. Cometeu a façanha de produzir, provavelmente, o pior álbum de covers dos ingleses de todos os tempos: Color Theory presents Depeche Mode, de 2003. É nesse disco que está essa versão lamentável de "I Want You Now":

terça-feira, 8 de maio de 2012

David Evans Syndrome

 

Some Velvet Morning é um trio londrino, de nome provavelmente extraído daquela canção imortalizada por Nancy Sinatra (a filha do The Voice) e que virou hit de inferninhos indie com o Primal Scream e Kate Moss em 2002.


A banda trabalha no esquema crowd funding, ou seja, levantam uma grana com a boa base de fãs que tem e financiam gravações de álbuns, turnês, bebidas, vagabundas e drogas. Não, mentira. Bebidas, vagabundas e drogas eu não sei. Mas não duvido. Buenas, nessas aí os Mornings já estão no segundo disco, Allies, recém lançado com essa capa estilosa aí. É bacaninha, sabe? Tem no ar uma certa ingenuidade cheirando à U2 no começo de carreira (se me dissessem que "Resistance" é uma sobra de estúdio de War, eu acreditaria), além de guitarras adeptas ao pedal de efeito característico de um certo The Edge.

"Resistance": vai Bono... digo, vai Desmond!


Não é nenhuma revolução (a despeito do single "How To Start A Revolution"), mas dá pra ouvir Allies numa boa. Agora, o mais curioso nisso tudo é que por tabela acabei chegando num vídeo de um cover que a banda fez de "The Things You Said" do Depeche Mode. Achei realmente do caralho.

"The Things You Said": e esse riff recriado na guitarra?

terça-feira, 13 de março de 2012

Dupla Dinâmica



Comecei a desconfiar que aquela história de "dois gênios não cabem na mesma lâmpada" pode ser verdadeira depois de ouvir Ssss, o álbum que marca a volta da parceria entre Vince Clarke e Martin Gore com o projeto criativamente chamado de VCMG. Erasure e Depeche Mode tomaram caminhos bem distintos em suas respectivas trajetórias, mas era de se esperar que pouca coisa da sonoridade das duas bandas respingasse nesse trabalho. E assim foi. Ssss é um álbum techno, minimalista, frio e que se auto-explica em todo seu distanciamento a partir do momento em que se descobre que Clarke e Gore o compuseram trocando e-mails. 


Vince há tempos perdeu aquela vibe disco/cabaré que pontuava alguns de seus hits mais famosos ("Love To Hate You", "Drama", "Stop!") e a falta de comunicação com a pista faz diferença na hora de produzir música pra ela. Isso talvez explique o fato da dupla optar por um disco de minimal techno com um delay de pelo menos oito anos pós-estouro do gênero. Ssss é duro de cintura e despreza a melodia em favor de beats ininterruptos, faixas longas, efeitos e repetição. Honestamente, eu esperava que a colisão entre Martin e Vince trinta anos depois do afastamente musical de ambos rendesse algo mais mundano - onde alguns dos temas preferidos de Gore (luxúria, amor, relações, pecado) estivessem inseridos de alguma forma numa música capaz de instigar os quadris e a libido - tudo sustentado pelas mãos pacientes e pelo cérebro analógico de Clarke ("_ Não tenho muita habilidade para teclados... tenho que apertar uma tecla de cada vez", disse ele no começo dos 90). Acho que não foi bem isso que aconteceu, porque Ssss não é a minha idéia de música ideal para animar uma noite com sorrisos no rosto e diversão sem fim, mesmo que o disco coubesse no catálogo da Kompakt.

"Spock": fogo brando para as pistas.

domingo, 16 de outubro de 2011

Moda Permanente


"Fazemos música para o quarto, para a sala de estar. Se for tocada nas discotecas, ótimo. Mas nunca chegamos a entender isso."

Palavras de Andrew Fletcher, numa entrevista para a finada revista Bizz em 1989. O mesmo Fletch que exercita seu lado DJ mundo afora hoje em dia. Bom, o Depeche sempre se deu bem em pistas de dança. Desde seu primeiro sucesso de fato (o terceiro compacto, "Just Can't Get Enough" de 1981) até o single inédito mais recente ("Fragile Tension"/"Hole to Feed" de 2009), os ingleses tem essa espécie de comprometimento com as danceterias. E tome versões dançáveis para coisas nada rebolativas. "Stripped" (um dos muitos clássicos da banda) por exemplo, quando lançado nos Estados Unidos em 1986, foi um fracasso. Foi preciso que um 12" com remixes fosse colocado no mercado americano para satisfazer o apetite dos clubbers e de parte dos fãs que viam no Depeche Mode uma banda que não ia muito além do pop eletrônico sacolejante (extremamente bem feito, diga-se).


Depois do bem sucedido Remixes 81-04 de 2004 (há rumores que essa compilação vendeu mais de um milhão de cópias), o trio lança uma segunda edição de parte de seus hits em versões recauchutadas. Claro que o aspecto financeiro é importante, mas ao mesmo tempo a banda respira e provavelmente pode trabalhar em material novo com um pouco mais de calma. Óbvio que existem bons, maus e péssimos momentos no disco triplo (!). Começando pelas mancadas, devo dizer que a pior coisa aqui é a versão do Digitalism para "Never Let Me Down Again": o duo alemão transformou a faixa de 1987 num monstro techno sem personalidade, distorcida, bizarra e sem a menor graça. O folk sinistro do SixToes para "Peace" também não ajuda, por que a própria música talvez seja uma das coisas mais medonhas que o Depeche já fez. "Personal Jesus" vem em três versões: uma mais house farofa que ficou a cara da Britney Spears feita pelo time de produtores noruegueses Stargate, uma mais barulhenta pelo britânico Alex Metric e outra mais climática pelo engenheiro de som e produtor Sie Medway-Smith com um solo de cello bem interessante. "In Chains" na visão do ex-integrante da banda, Alan Wilder, é tão soporífera quanto seus trabalhos com o projeto solo Recoil. Já outro ex-Depeche, Vince Clarke, se saiu OK com sua "Behind The Wheel": não mexeu muito na estrutura da canção e adicionou um baixo elástico que resultou numa levada mais amigável aos quadris, mas não conseguiu acertar a mão em "Freestate", encharcada com blips eletrônicos num clima quase industrial. Mark Stewart e seu Claro Intelecto transformou a dramática "Leave In Silence" numa experiência IDM cheia de cliques, estalos e sons aquosos, com um resultado ambient. Há a parcela de remixes feitos apenas para adequar a música às danceterias, como o deep house "Dream On (Bushwacka Tough Guy Mix)", o bom trabalho do dinamarquês Trentemøller em "Wrong", a inesquecível "Strangelove" retrabalhada pelos craques Tim Simenon (Bomb The Bass) e Mark Saunders e a ótima "A Pain That I'm Used To" de Stuart Price (aqui na pele de Jacques Lu Cont). Um dos melhores momentos de Remixes 2: 81–11 é protagonizado pelos suecos Christian Karlsson e Pontus Winnberg do Miike Snow, na sua versão psicótica de "Tora! Tora! Tora!". Tenho a impressão que a dupla colocou David Gahan num pau de arara enquanto aplicava choques elétricos no saco do vocalista, de tão apavorantes que ficaram esses vocais. A faixa teve reforçado o clima electro-opressivo do original de 1981 - tensão pura e um trabalho magistral. Agora, de fazer cair o queixo mesmo nessa coletânea, só o Röyksopp e sua "Puppets" (extraída do álbum de estréia, Speak & Spell). Os noruegueses literalmente tiraram a faixa de contexto colocando pausas e alterações de tom nos vocais de Dave Gahan, que parece cantar outra música. Onde haviam sintetizadores pesados, o Röyksopp suavizou tudo com timbres mais brandos e a batida marcial da TR-808 foi substituída por um ritmo percussivo sincopado. Um trabalho exemplar. No fim das contas, fica provado que nem só as discotecas citadas por Fletcher são o alvo dos remixes. A sala de estar e o quarto também são ambientes recomendados para ouvir as faixas que o Depeche Mode escolhe para jogar no liquidificador.

"Puppets" na versão do Röyksopp: é assim que se faz.




terça-feira, 28 de setembro de 2010

Cores Idênticas


O americano Brian Hazard é um bom pianista e tecladista. No seu recente álbum The Sound, encarnando a banda-de-um-homem-só Color Theory, Hazard mostra alguns caminhos inovadores para os sintetizadores percorrerem - se estivéssemos em 1984. Tudo aqui soa como o que de pior o Depeche Mode produziu nesse período, ou seja, a ba(ba)lada "Somebody". E não é que Brian Hazard canta igualzinho ao Martin Gore? Nem sei o que é mais constrangedor: a clonagem descarada do principal compositor do Depeche ou a versão risível para "Living a Boy's Adventure Tale" do A-ha. Mantenha distância.


   

quarta-feira, 17 de março de 2010

Die Loyale Kopie

Não será dessa vez que a dupla alemã De/Vision vai se livrar da incômoda comparação com o Depeche Mode. Pudera. Em "Popgefahr" (lançamento oficial em 19 de Março), Steffen Keth (vocais) e Thomas Adam (sintetizadores) entregam mais um álbum muito bem produzido, tecnopop impecável de timbres bem pensados e um certo darkismo melancólico que deve acertar em cheio os ouvidos dos admiradores do gênero. O problema é que o De/Vision parece não fazer questão de se livrar da sombra da matriz inglesa. Assista aqui o vídeo do primeiro single, "Rage", no canal da gravadora da banda no Youtube (Popgefahr Records) e perceba a semelhança da temática engraçadinha/cafageste com o clip de "It's No Good" do Depeche. A maneira como o refrão de "Rage" é cantado também gerou discussões entre os fãs das duas bandas: para os devotees (pró-Depeche), não passa de uma cópia de "Wrong", hit recente dos ingleses. Mas se você não leva muito a sério tudo isso nem se importa com noções como originalidade, aproveite o ótimo trabalho do tecladista Thomas Adam em "Be A Light To Yourself", a pegada pop de "Time To Be Alive" e o inegável apelo de "Rage". É o melhor carbono do gênero disponível no segundo escalão do mercado. 

"Rage", De/Vision: