sexta-feira, 29 de maio de 2015

Sexta Feira Bagaceira: Sabrina


"Boys", single da italiana Sabrina Salerno lançado em 1987, era mais ou menos como a maioria dos hits de pista vindos daqueles lados nos anos 80: exageradamente pop, chiclete, sazonal (o subtítulo "Summertime Love" evidencia o quanto se esperava que durasse a faixa) e apelativa. Fora que o visual de Sabrina não deixava dúvidas sobre o total desprendimento da cantora em relação ao conteúdo intelectual ou emocional de sua música. Bom, isso não faz a menor diferença. A música é ótima. Um Hi-NRG potente do tipo que o trio de produtores Stock, Aitken & Waterman daria o dedo mindinho pra fazer igual (certa vez eles confessaram que "Call Me" - de outra cantora que nadava na mesma piscina de Sabrina, a também italiana Ivana Spagna - era a melhor canção que eles nunca produziram). "Boys" foi um hitaço, vendeu muito (especialmente na Europa) e teve o vídeo banido na então conservadora Inglaterra de Margaret Thatcher, o que, óbvio, contribuiu pra alavancar o single até o número três do paradão do Reino Unido. E a Sabrina? Continuou trampando como cantora, compositora, produtora musical, modelo, atriz e apresentadora de TV. Ainda está na ativa e olha... ela era um pitéu, hm?

"Boys": festa na piscina.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

It's Only Words And Words Are All I Have


Queria saber qual é o método que o diretor de A&R da Get Physical (se é que eles tem um) usa pra acrescentar nomes ao cast e depois separar as faixas que entram nas compilações da gravadora alemã. Imagine dezenas de músicas entupindo seu email todo dia, com pretensos artistas que ainda não ultrapassaram musicalmente as janelas dos seus próprios quartos.

Não é o caso da recente coletânea Words Don't Come Easy, uma vez que a maioria aqui já tem uma carreira estabelecida (mesmo que grande parte ainda não tenha sentido o gostinho do mainstream) e a seleção não contenha exclusivamente lançamentos, as faixas foram pinçadas do belíssimo catálogo da Get Physical. A regra é uma só: tem que ter vocais. Daí o nome do disco, uma provável citação ao refrão do hit chumbrega "Words", de F.R. David (1982).

Abrindo os trabalhos com "Hausch", da dupla alemã andhim (em minúsculas, mesmo), dá pra sacar que a Get Physical seguiu à risca o tema, ainda que alguns cantores não tenham trabalhado exclusivamente para as faixas da seleção escolhida - porque em "Hausch", a impressão que tenho é que foi tudo extraído via sampler de velhos discos de blues e gospel. O resultado final compensou; lembra um Moby circa Play. O mesmo vale para a climática "Till The End Of...", de Anthony Middleton - embora a fonte destas vozes aparente ser outra (algum R&B que eu não conheço?). O próprio Middleton engata outra faixa no álbum, numa parceira com o DJ e produtor Luca Saporito e seu projeto Audiofly ("6 Degrees", que aparece num remix do Tale Of Us, com a voz da misteriosa Fiora).

A quarta faixa - do desconhecido Bedouin - é um crossover de pós-punk com dance music que rendeu a ótima "Walk Away". Agrada tanto na sala de estar quanto na pista de dança e é um dos melhores momentos da coletânea.



"It's All I Need", do duo mexicano Climbers, é uma surpreendente house vinda daqueles lados. Linha de baixo potente e empréstimo vocal de Judy Cheeks ("Respect", 1995). "Sunset", do belga Maxime Firket (Compuphonic), mantém o padrão alto de qualidade num tech house elegante (com vocais do cantor e violinista Marques Toliver) e com velocidade abaixo do usual.



A faixa mais pop e divertida de Words Don't Come Easy é, sem dúvida, o balaço "City Life" (com Cari Golden ao microfone e um remix espetacular de Maceo Plex). É uma merecida segunda chance para uma canção lançada originalmente em 2011.



As esquisitices também valem a pena. Excentricidades são sempre bem-vindas - como as mostradas nos pianinhos nervosos e nos vocais completamente desengonçados de "Remember Love", do duo francês Nôze (2007); nos backing vocals que emulam uma espécie de Laurie Anderson tech house (em "Crazy", da cantora pop francesa Ornette) e especialmente em "Moment" (Damian Lazarus, 2009), que começa como um pop nostálgico à Deacon Blue e termina como uma produção do DJ Koze.



Pra fechar, um remix fresquinho de uma música que já vinha pedindo uma atualizada há tempos: a clássica "Pearls" (Sade), saiu da sala de cirurgia com uma cara renovada (mesmo com poucos retoques) pelas mãos competentes do produtor Timo Jahns - que manteve inalterados os vocais extracool do original.



O saldo é altamente positivo. Não há uma faixa ruim em Words Don't Come Easy e quase tudo funciona bem tanto em casa quanto na pista - o que é sempre bom sinal. De quebra, reforça a certeza de uma posição alta pra Get Physical num hipotético Top 10 Gravadoras Mais Importantes de Dance Music dos últimos 10 anos.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Para Confundir


Passado o susto inicial causado pela primeira faixa disponibilizada pelo Disclosure ("Bang That", saiu no início desse mês) de seu próximo álbum, a dupla londrina solta agora outra amostra. "Holding On" tem ao microfone o cantor de jazz californiano Gregory Porter (vencedor do Grammy do ano passado na categoria Melhor Disco de Jazz com Vocais, por Liquid Spirit) e é justamente pela presença de Porter e pelo arranjo mais sóbrio que "Holding On" soa mais classuda e elegante, um tanto diferente do ritmo alucinado e dos samples de "Bang That". Ou seja, não dá pra prever mesmo que direção a dupla vai seguir no disco novo.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Caras Novas: Vök


Terra pródiga em bandas legais a Islândia. Vök é mais uma pra lista. Tem só dois anos e acaba de lançar Circles, o segundo EP (o primeiro, Tension, é de 2013), pela pequenina gravadora independente Record Records, sediada na capital Reykjavík. O som do trio formado por Margrét Rán (vocais, guitarra, teclados), Andri Már (saxofone, Akai APC) e Ólafur Alexander (guitarra, baixo) é um electropop em câmera lenta, com paisagens construídas por sintetizadores tão congelantes quanto um dia de noite absoluta no inverno do Círculo Polar Ártico. Um tempo atrás dava pra chamar de trip-hop que ninguém iria brigar.

Um dos trunfos do grupo da terra de Björk é a vocalista Margrét Rán. Canta muito. Mostra um controle invejável ao sussurrar e subir de tom muito rápido no curto espaço de uma tomada de fôlego ("If I Was"), fragilidade e potência ("Waterfall") e com a voz encharcada de reverb, bota um pé num dream pop que não dá sono ("Circles").

Com saxofones afiados atravessando o downtempo "Adrift", o Vök fecha com quatro faixas um EP que merece os 17 minutos da sua atenção. É mais ou menos o que o The Knife já fez bem - antes da dupla sueca lacrar sua trajetória com o pedante Shaking the Habitual (2013), ou seja, é um nicho que tá caindo de maduro pro Vök aproveitar. Potencial tem de sobra.

"Waterfall": a próxima grande banda islandesa?

domingo, 24 de maio de 2015

Poltergeist Techno


Acho que Cybekks, o EP mais recente de Robag Wruhme, deve ter sido gerado na mesma mansão em que Trent Reznor gravou The Downward Spiral - o local foi palco do assassinato da atriz Sharon Tate, pela trupe de lunáticos liderada por Charles Manson, em 1969.

Isso explicaria a aura sobrenatural do disco. Há desde os strings camerísticos ameaçadores da faixa título até a placidez do piano opaco de "Anton I" e a caixinha de música sinistra envolta em cânticos do além em "Anton II". A melhor do EP é "Volta Cobby": recortes de vozes possuídas, riff deformado de sintetizador e clima fantasmagórico. Pampa Records acerta de novo (nenhuma novidade).

"Volta Cobby": faixa poderosa e vídeo perturbador.