sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Sexta Feira Bagaceira: Bellini


A desculpa, claro, é o Carnaval. Não que eu simpatize, mas batucada com eletrônica de vez em quando rende coisa boa. Nem que seja essa simpática picaretagem do quarteto de produtores alemães Bellini. Seu single "Samba de Janeiro" (capa linda acima) foi um hit que transcendeu as pistas e subiu bonito nos paradões do mundo inteiro, em 1997. Percebe-se que o truque não teve muito esforço: bastou samplear a percussão e o naipe de metais de "Celebration Suite", do baterista, percussionista e compositor brasileiro Airto Moreira, adicionar a essa base pronta um bumbo reto, vocais acompanhando a melodia e mais alguns sintetizadores e pronto, sucesso instantâneo. É ordinário, eu sei. Mas dou total crédito pela sacada do sample, uma faixa perdida no meio do álbum I'm Fine, How Are You?, que Airto gravou em 1977 no Paramount Studios, em Hollywood. O negócio virou um eurotrance pop com fartas doses de samba e vocais falados em português. Em pistas sem frescura, é sempre garantia de pés em movimento. Experiência própria.

"Celebration Suite": a percussão vai até 03:20, quando entram os metais. Sem cerimônia, o Bellini sampleou tudo.



"Samba de Janeiro" ficou assim:

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Pega Fogo, Cabaré


EP novo de Marc Almond, Tasmanian Tiger traz quatro faixas e uma sombra pálida do que foi o cantor no comecinho dos 80. Das tags que ajudavam a entender seu essencial Soft Cell (perversão, dor de cotovelo, kitsch, decadência, solidão, technopop), só sobrou a palavra "cabaré" pra definir a carreira solo de Almond (especialmente em seus lançamentos mais recentes). Sua voz continua intacta, cristalina, mas cantar bem até João Neto & Frederico cantam. O problema com Tasmanian Tiger é a falta de boas canções pra aproveitar o fole vocal respeitável de Almond. Experimente a fossa nova suntuosa à Angela Maria que se arrasta em "Love Is Not On Trial", ou tente encontrar algo animador nas duas faixas que parecem ter sido feitas sob encomenda pra um show exótico do Lido, "Tasmanian Tiger" e "Death of a Dandy" - ambas com arranjos de cordas de Tony Visconti (David Bowie, Morrissey). Meia estrelinha pro electro-soul "Worship Me Now" (escrita por Jarvis Cocker). E só.

"Worship Me Now": no limite do razoável.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Aussie Hit

Sparro e Bloxsom: hit em potencial.
Não costumo acertar previsões. Ano passado, apostei minhas fichas numa track do JBAG ("Mogadisco"), porque aquilo me cheirava a hit fácil, uma house chicletosa que pegaria tão rápido quanto enjoaria. Bom, ziquei o negócio, por que não aconteceu nem uma coisa, nem outra: a música apareceu discreta em alguns sets mixados, numa coletânea da Kitsuné, e só.


Dessa vez vai ser diferente. Acontece que o produtor australiano Felix Bloxsom (Plastic Plates) chamou o figuraça (e conterrâneo) Sam Sparro pra cantar maravilhosamente num electropop que tem tudo pra estourar. Trata-se de "Stay In Love", um momento pop ímpar nesse começo de ano, vindo de um país que empilha bons nomes na cena dance/eletrônica atual: a Austrália.

Devo estar exageradamente empolgado, mas achei a música ótima. E se isso aqui não for hit massivo, não entendo mais nada.

"Stay In Love": vai pro trono?

Torto-da-Tasmânia


Alguém se atreve a classificar o som do australiano (mais precisamente, da ilha-estado da Tasmânia) Akouo?


Seu recém lançado single "Last Time" é um nó na cabeça dos carimbadores de rótulos. É radicalmente eletrônica, mas em que tag encaixar essa batida torta, esses teclados circulares e esse vocal lá no fundo na mixagem? "Last Time" é o primeiro aperitivo que sai do EP Mesa, a ser lançado.

Disponível para download gratuito, basta dar aquela curtida marota na página do Facetruque do artista.

"Last Time": de entortar o cangote.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Segunda Class: Thievery Corporation


Rob Garza e Eric Hilton são fãs de música brasileira. Em quase todos os álbuns da discografia do Thievery Corporation (iniciada em 1997), há alguma faixa ou referência à nossa sonoridade, com colaborações que vão de Bebel Gilberto à Seu Jorge.


Desta vez, a dupla radicalizou. Saudade é seu sétimo disco de estúdio - sai oficialmente dia 01 de Abril, pelo selo do grupo, o ESL Music - e é inteiramente dedicado à MPB (especialmente a bossa nova), mesmo que nem todas as músicas sejam cantadas em português: há letras em italiano, espanhol, francês e inglês, o que prova a multiplicidade do movimento, desde seu pontapé inicial com o compacto Chega de Saudade (de Tom Jobim e Vinicius de Moraes), lançado em Agosto de 1958, pelo baiano João Gilberto.

Com cinco vocalistas convidadas (entre elas a brasileira Karina Zeviani, do Nouvelle Vague), o Thievery Corporation exibe em 13 faixas uma placidez contemplativa, cool e relaxante - próprias ao gênero - como uma saudade boa de sentir. Imperdível.

"Sola In Citta": bossa italiana.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Caras Novas: Juan Soto

A produção ainda é parca, mas já dá pra sacar que o mexicano Juan Soto (na ativa desde 2010) tem uma mão boa pra sintetizadores e noção rítmica suficiente pra tornar suas faixas hits de pista em potencial.


Seu lançamento mais recente é o synthpop "Cosmológica", algo nostálgica com seus vocais robóticos, mas com cheirinho de coisa nova vindo da combinação acertada da linha de baixo mecânica com a batida forte da caixa em primeiro plano.

Disponível pra download legal na página do Soundcloud de Juan. De olho.

"Cosmológica": enigmática, problemática y frenética.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

A Flash In The Pan


Animadoras as duas faixas que o Klaxons soltou recentemente. Ainda é tempo de provar que a banda não é fogo de palha. O debut Myths of the Near Future (2007) foi um ótimo aperitivo, mas o pavoroso Surfing the Void (2010), deixou muita gente coçando a cabeça.

"Children Of The Sun" tem produção encorpada do irmão químico Tom Rowlands: batidão cheio de sintetizadores derretendo de um lado pro outro do fone de ouvido.



Curti mesmo foi "There Is No Other Time" (produzida pela novíssima dupla Gorgon City), mais a ver com o Klaxons de sete anos atrás. Vocais contidos, bom refrão, boa pra pista, pop. Gostinho de Cut Copy aí.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Sexta Feira Bagaceira: MC Hammer


Curioso como o tempo passa e o approach muda em relação ao trabalho de um artista. A acusação que pesava sobre Stanley Kirk Burrell - o MC Hammer - em seu hit "U Can't Touch This", de 1990, era de que o sample usado em toda base era muito óbvio, uma mera chupação que não envolvia talento, pesquisa ou criatividade. Penso nisso toda vez que ouço "Harder Better Faster", do Daft Punk, montada com um sample indecente de Edwin Birdsong e sua "Cola Bottle Baby", de 1979. O veredicto para a dupla francesa foi um só: "gênios!"

De fato, à época de "U Can't Touch This", as leis sobre direito autoral ainda não estavam bem claras (honestamente, nem sei se hoje estão), mas Hammer decidiu usar "Super Freak", de Rick James (1981), pra tagarelar seu rap chinfrim e nada modesto ("Oh meu Deus, obrigado por me abençoar com uma mente para rimar e dois pés tão rápidos / Sou conhecido como um cara muito legal de Oaktown / Você não pode fazer igual / Eu te disse cara / Você não pode ser tão bom quanto eu"). E dá-lhe repetir "You can't touch this", 23 vezes canção afora. James não quis nem saber: enquanto o single de Hammer voava alto nos paradões de todo mundo, processou o rapper por violação dos direitos autorais. Hammer então apressou-se em ceder a co-autoria da faixa à James e molhou a mão do cantor (falecido em 2004).

O álbum Please Hammer, Don't Hurt 'Em foi lançado logo em seguida, e já tinha Hammer na zona de conforto. Vendeu algo em torno de 18 milhões de cópias, o que deve ter garantido a aposentadoria do MC. Para o bem ou para o mal, "U Can't Touch This" é um clássico.

"U Can't Touch This": "... Stop! Hammer time!"

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Baixaria


Citizen é o jovem produtor britânico Laurence Blake. A house de Blake - no recém lançado EP Climax - espalha vocais recortados (carregados de eco e reverb), bumbo pesadíssimo e timbres de orgão do sintetizador Korg M1, em três faixas.


No som do Citizen, o bicho pega mesmo é com o baixo. Ó a pressão desse subgrave em "U Don't Know", a melhor faixa do EP:

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Extorquindo Pixies


Pra deixar os fãs do Pixies de cabelo em pé: ouve a versão que a dupla belga Shindu fez de um dos clássicos da banda norte-americana de rock alternativo, "Gouge Away". A recriação sintética da fantástica linha de baixo original e a muralha de distorção convertida em timbres tensos de sintetizador já valeram a ousadia. Fora o que ficou dançável isso aí...

"Gouge Away": nem vem com essa de "do vinho pra água".

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Boogie Nights


Fatnotronic é o duo Rodrigo Gorky (Bonde do Rolê) e Philip A. (Killer on The Dancefloor). Discotecagem sem limites, mash-ups e edits pra qualquer pista imbuída de animação é o que a dupla promete.

Seu primeiro trabalho é um edit de "Margarida (Felicidade)", das Harmony Cats - grupo vocal disco feminino formado em São Paulo, ativo entre 1976 e 1986. A hilária capa parodiando o original de 1980 (abaixo), já dá uma ideia do clima.

O original "Felicidad (Margherita)" é cria do produtor italiano Pino Massara (falecido ano passado), e foi gravado também pelo trio Boney M.

Abaixo, o edit do Fatnotronic: uma limada no refrão desnecessário, sintetizadores adicionais, um pouco mais de pressão no bumbo, uma salpicada de percussão e um baixo mais gordinho foram o Botox que essa faixa pedia. Baita sacada.

"Margarida": italo-disco à brasileira.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Segunda Class: Biosphere


A música eletrônica ambiental dos anos 90 foi de uma abundância e qualidade impressionantes. Desta cena saiu o norueguês Geir Jenssen, responsável por um clássico irrepreensível do gênero, o inacreditável Substrata, de 1997.



Até chegar na placidez hipnotizante de Substrata, Jenssen foi lapidando sua fórmula em dois álbuns de ambient house: a excelente estreia Microgravity (1992) e o seguinte Patashnik (1994).

Patashnik 2 chega 20 anos depois ao mercado, trazendo faixas inéditas que ficaram de fora do disco original e mixagens alternativas para músicas presentes no registro, gravadas entre 1992 e 1994. Ora dançante, ora absorto em mergulhos profundos em camadas de sintetizadores congelantes e samples de diálogos de filmes de ficção científica, Patashnik 2 torna-se uma obra tão essencial quanto sua matriz. No caso do Biosphere, um álbum de sobras que não soa menor ante a discografia notável de um gênio da ambient, como Geir Jenssen.

Disponível para audição e venda (com preço sugerido de €10 Euros) na página do Bandcamp do projeto. Altamente recomendável.

"Novelty Waves v.1": dançando nas calotas polares.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Miami em Vídeo


Nunca ouvi falar do tal Cleopold, mas seus vocais duplicados casaram direitinho com o clima onírico/setentista de "Colours In The Sky", single lançado em Novembro do ano passado pelos australianos do Miami Horror (o segundo do novo álbum que deve sair ainda nesse semestre - a ótima "Real Slow" saiu em Setembro). A novidade é o vídeo, que estreou quinta feira passada (13) no Youtube e mantém o clima de nostalgia incômoda da faixa:

João Cai na House


Dá uma ligada no single novo de John MacLean e seu (dããã) The Juan MacLean, que vale a pena.


"Get Down (With My Love)" sai pela DFA do James Murphy oficialmente na próxima semana (dia 17), em formato digital e num vinil sem lado B: apenas a faixa principal no A. A DFA ainda disponibilizou uma radio edit pra download gratuito na sua página do Soundcloud.

House frenética e enérgica, com piano saltitante no melhor estilo ítalo e bassline emborrachado. Os bons vocais são da frequente colaboradora Nancy Whang (a china girl da foto acima).

"Get Down (With My Love)": house febril.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Sexta Feira Bagaceira: Fiction Factory


Gosto pra lá de duvidoso no único hit dos escoceses do Fiction Factory, "(Feels Like) Heaven".


O single saiu na virada 1983/1984 e chegou ao sexto lugar no paradão inglês. Não lembro disso tocando aqui no Brasil, mas a faixa é bem simpática - um synthpop docinho e ingênuo, com um bom riff de teclado e o bonito refrão em falsete do vocalista Kevin Patterson.

"(Feels Like) Heaven": semi-obscuridade.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Semi-Férias


Lançamentos relevantes em ritmo lento e compromissos em praticamente todas as noites de Fevereiro. Resultado: blog em semi-férias. O status atual é "ouvindo o disco novo da Katy B". E estou gostando bastante. Quando eu tiver um textículo publicável sobre o álbum - ou sobre alguma coisa que realmente valha a pena - dou as caras.