quinta-feira, 30 de abril de 2015

De Volta Pra Casa


Experiência não é tudo, mas ajuda. E muito. O francês Laurent Garnier que o diga. Atrás dos toca-discos desde o meio dos 80, Garnier é figura de proa da dance, seja produzindo ou mixando. Seu novo EP, Honey, I'm HOME, sai oficialmente dia 18 de Maio pela F Communications - gravadora fundada pelo próprio Garnier e Eric Morand, em 1994. O título do EP, aliás, diz respeito ao fato da F (que lançou álbuns de Mr. Oizo e Saint Germain, entre outros) ter passado seis anos em estado de animação suspensa. Honey, I'm HOME tem três faixas, incluindo a quilométrica e paisagística "Drifting In Midwaters" (mais de dez minutos), a soturna faixa título (com um contratempo de bumbo que causa uma certa desorientação) e, a melhor do pacote, "And The Party Goes On", com um baixo monstruoso. Très bien, monsieur Garnier.

"And The Party Goes On": baixo humano.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Caras Novas: Kaleida



Se eu te dissesse que Florence and The Machine voltou com um EP sem a grandiloquência característica; mais enxuto, eletrônico e totalmente audível, você acreditaria? Não... bom demais pra ser verdade. Bom, isso, de fato, não aconteceu. Mas tem o Kaleida, uma dupla nova aí que parece com a Florence Welch ideal: sem a afetação e a suntuosidade da cantora inglesa, a vocalista Christina Wood canta num limite emocional sem cair no estilo pomposo de Welch. A outra metade do duo, Cicely Goulder, providencia instrumentais eletrônicos limpos, um synthpop reluzente e preciso.

Think EP
saiu dia 7 de Abril, com seis faixas. O duo projeta um certo tipo de darkismo pop sobre as canções, algo que resulta em momentos onde o Kaleida funciona em perfeita sintonia ("Take Me To The River", "The Call"). O EP inteiro é apreciável, da abertura com a faixa título (um tiquinho mais pop), até a última faixa com um trabalho vocal admirável ("Aliaa").

A despeito da capa tenebrosa do EP, a beleza de Wood e Goulder compensa qualquer escorregada com a parte gráfica do álbum.

Think EP: novidade boa de ponta à ponta.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Moda Que Não Passa


Quantos tributos o Depeche Mode ganha por ano? Claro, não dá pra calcular. Mas uma coisa é certa: é justíssimo. A influência e a importância da maior banda eletrônica da história são tão imensuráveis quanto o número de projetos que reverenciam o legado do (ex)quarteto. E assim vão pipocando aqui e ali discos que homenageiam a obra do grupo britânico, como esse Covering Depeche Mode, com um título de uma simplicidade tão encantadora quanto o conteúdo presente nas sete faixas do EP (disponível numa tiragem limitadíssima de 200 cópias em CD, sem edição digital). A responsável por despir os sintetizadores característicos do Depeche e transformar suas canções em versões voz e violão é a californiana Anna-Lynne Williams (ela cantou em "Hold Tight London", do Chemical Brothers), do extinto grupo indie underground Trespassers William. Desde 2007 gravando sob o pseudônimo Lotte Kestner, este é o segundo EP do projeto (que já conta com dois álbuns de covers, de um total de cinco da discografia). As reconstruções de Anna-Lynne são econômicas e delicadas, valorizando sua voz pequenina - desde as pausas de respiração em "Somebody" até o falsete de "Question Of Lust". Mesmo com a total ausência de complexidade das releituras, Williams salpica pequenas adaptações que fazem toda diferença no resultado final, como em "Stripped", que ganhou um arranjo camerístico em que um piano sutil emula o genial riff de sintetizador original. "World In My Eyes" e "Never Let Me Down Again" priorizam o violão, enquanto "It's No Good" traz piano elétrico e violoncelo. Em "Enjoy The Silence", uma terna sessão de cordas deixa o clima ainda mais plácido, como se a candura dos Carpenters encontrasse o folk/dream pop do Mazzy Star numa jam session. Pra ouvir de boca fechada.

"World In My Eyes": desnudando o Depeche Mode.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Shake Your Booty


Ouvi o segundo do hypado Alabama Shakes, o recém lançado Sound & Color, por curiosidade. Reconheço a qualidade do trabalho (os vocais de Brittany Howard são qualquer coisa), mas algumas audições serviram pra atestar que o rock cru da banda - num contexto semi acústico - realmente não é minha praia. O primeiro single do álbum, no entanto, me pegou. O sacolejante cruzamento entre Curtis Mayfield e blues de "Don't Wanna Fight" destoa consideravelmente do resto do disco, resgata uma das características primordiais do rock (fazer dançar), tem um refrão pop excelente e um balanço irresistível. Espero que não apareça nenhum remix EDM fuleiro, porque ela é ótima do jeito que está.

"Don't Wanna Fight": Alabama pra pista de dança?

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Sexta Feira Bagaceira: Anything Box


Um mix ralinho de New Order (fase Factory) e indie pop tristonho, com letras especialmente mal feitas e um visual constrangedor. Esse é o Anything Box. Comprei o álbum Peace (1990) por causa do semi-hit "Living In Oblivion", mas hoje não tenho paciência de ouvir. É ruim demais. A xerocada na banda de Barney Sumner é óbvia (ouça "When We Lie" e "Kiss Of Love" e comprove), mas o Anything Box chegou nesse som com pelo menos cinco anos de atraso em relação ao outro lado do Atlântico. Soa defasado pacas. E piegas. Estranhamente cultuado em alguns países da América do Sul (vez ou outra rola um live modesto por aqui), o Anything Box ainda está na ativa - provavelmente vivendo de um passado onde disputava um lugar no segundo escalão ao lado de When In RomeCause & Effect.

"Living In Oblivion": o título diz tudo.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

New Chemicals On The Block


No final do ano passado a metade do Chemical Brothers, Ed Simons (o da esquerda, na foto), anunciou que iria dar um tempo nas apresentações ao vivo com sua banda por conta de "compromissos acadêmicos". Sem nenhum sentimento de culpa, ainda brincou: "Estou verdadeiramente ansioso para ver como se parece o novo espetáculo e, vejamos o lado positivo, um dia poderei ver um show do Chemical Brothers da perspetiva da audiência". Ao que parece, no estúdio as coisas continuam OK, porque hoje o grupo liberou a faixa "Sometimes I Feel So Deserted" para audição no Youtube. Deve ser o primeiro single do novo álbum Born In The Echoes (programado para 17 de Julho) - o primeiro desde Further, de 2010. É um techno que poderia estar em Surrender (1999), com todos aqueles espasmos sintéticos ritmicamente ordenados característicos do som da dupla. Nos meus monitores soou bem, mas imagino que isso aí com os P.A.s certos deve bater no meio do peito com muito mais vontade.

"Sometimes I Feel So Deserted": potente.

sábado, 18 de abril de 2015

Técnica & Fúria


Damogen Furies, novo álbum de Squarepusher, divide-se em duas partes: a primeira, harmoniosa e regular, começa com o drum'n'bass na velocidade da luz da faixa de abertura "Stor Eiglass" (com melodia baseada em "Just Like Heaven", do Cure). Fim da primeira parte.
As outras sete faixas compõe a segunda parte. É preciso fôlego. O que vem a seguir é um rolo compressor de cortes secos, rufos impossíveis, claustrofobia e opressão, num tsunami cibernético que deve deixar Mike Paradinas choramingando baixinho assim que ouvir esse álbum. Não é o tipo de disco que eu colocaria num churrasco com amigos.

É desafiador e angustiante acompanhar Damogen Furies faixa por faixa e ouvir Jenkinson esticar os limites de sua música num nível de tensão que beira o surreal. Por vezes as coisas parecem que vão fugir do controle, como na metade final de "Kontenjaz", onde os efeitos vão se sobrepondo de tal maneira que a impressão que se tem é que não vai caber na música, em si. Às vezes Squarepusher tenta nos desorientar, como na introdução cheia de teclados ambient de "Exjag Nives". O que aparenta ser uma delicada faixa de progressive transforma-se rapidamente num dubstep mutante, que vira um breakbeat hardcore de timbres ásperos e viradas de bateria inacreditáveis. Menção honrosa também para o ameaçador riff de "Baltang Arg"- que Jenkinson faz questão de picotar com pouco mais de um minuto, até sobrarem só estilhaços colados quase aleatoriamente sobre a polirritmia indecifrável das baterias. Construir, despedaçar e reconstruir um tema dessa maneira é algo um tanto brutal ou divino; assistir o processo no conforto dos fones de ouvido é fascinante. "Kwang Bass" leva o instrumento oscilante e minimalista do título à um passeio por paragens de drum'n'bass atmosférico e rajadas nervosas de ruído eletrônico e estrondos metálicos. "D Frozen Arc" lacra o disco com mais pistas falsas espalhadas: do clima soturno inicial restam poucos vestígios até o final, numa faixa com andamentos genialmente distribuídos de maneira irregular.

A duração de apenas 44 minutos de Damogen Furies é providencial. Absorver esse disco em doses homeopáticas é fundamental pra perceber que essa é a musica eletrônica mais violentamente sedutora disponível no mercado.

"Rayc Fire 2": no limite.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Sexta Feira Bagaceira: Savage Garden


1997 foi um ano incrível pro pop. Pra facção que explorou a eletrônica experimental e/ou dançável (Depeche Mode, Chemical Brothers, Björk, The Prodigy e Daft Punk), a sofisticação do R&B (Tony Braxton) ou o dance-pop (Spice Girls), parecia improvável que, na contra mão disso tudo e buscando referências oitentistas numa época em que o revival dos 80 ainda nem estava pegando forte, o Savage Garden fosse vingar. Claro que o som tramado pelo vocalista Darren Hayes e o multi instrumentista Daniel Jones tinha quase nada a ver com as bandas acima, mas a dupla australiana debutou com um álbum que vendeu absurdamente (mais de 12 milhões de cópias, segundo a Billboard) e provou estar certa com sua proposta de nadar contra a maré pra retornar ao pop sem o menor pudor de reverenciar a década que o bom gosto esqueceu (como adoram citar os detratores). A ousadia valeu a pena. O disco de estreia, autointitulado, rendeu nada menos que oito singles. OK, cinco deles saíram apenas na Australia, Japão e em alguns países da Europa, mas é um bom termômetro pra sacar o potencial das canções. E Savage Garden, como produto pop, é sensacional. Entre esses singles, está minha faixa preferida da dupla, "To The Moon and Back". Tem um pouco de tudo aí - A-ha, INXS, Tears For Fears - e gruda fácil. Isso, somado ao apelo visual de Hayes, catapultou a banda aos primeiros lugares do difícil mercado americano, onde o single seguinte "Truly Madly Deeply", bateu no topo do Hot 100 da Billboard. Som cafoninha, mas delicioso.

"To The Moon and Back": pop irretocável.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Life After Death


Será que o Crystal Castles sobrevive sem Alice Glass na linha de frente? A julgar pela nova "Frail", sim. Glass deixou a peteca na mão de Ethan Kath em Outubro passado, alegando "razões pessoais e profissionais", como de praxe. Curioso é que Kath arrumou uma vocalista com um timbre sádico/infantil igualzinho ao de Alice: conforme anúncio na página da banda no Soundcloud, a nova cantora chama-se Edith. "Frail" tem aqueles sintetizadores sacro-tranceiros dignos das melhores faixas do duo, hi-hats sujos e vocais ininteligíveis (não se preocupe porque eles incluíram a letra no post). Eu achei foda.

"Frail": ótima volta.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Sexta Feira Bagaceira: Indecent Obsession


Lembro bem do começo dos 90, quando esse Indecent Obsession enchia a paciência nas FMs. Com desempenho modesto em sua terra natal (Austrália) e vendido como boy band pro mercado asiático (onde se deram relativamente bem e abreviaram o nome para Obsession), acho que o grupo pode levar sem pudor a pecha de one hit wonder por conta de sua "Kiss Me", de 1992. Reconheço que é uma boa canção pop - algo entre Roxette e Dead Or Alive - mas o som, em si, envelheceu pacas. Mesmo funcionando bem nas pistas da época, hoje em dia soa pejorativamente datado, sem aquele charme blasé do new romantic ou do synthpop do início da década de 80.

"Kiss Me": pop meloso.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Techno Subterrâneo


Sugiro reduzir um pouco os graves antes de ouvir "Universal Everything", a nova do (agora) projeto solo de Neil Barnes, Leftfield. A faixa vem de brinde pra quem encomendar o álbum Alternative Light Source no iTunes (lançamento previsto para 08/06/2015, pela BMG). Techno pesado com aquele baixo de tremer a persiana.

"Universal Everything": grave subterrâneo.

Jóia do Nilo


Se você perdeu a estreia do West Nile aqui no blog, volte algumas casas e corrija a rota: sua incrível "SSUFFIK8TRR" já é uma das músicas do ano. A dupla synthpop canadense acabou de lançar single novo, "Turnt 2 Cult" / "Whaaat I Can Gett" (já disponível na página da banda no Bandcamp). Um tiquinho mais pop e dançável, "Turnt 2 Cult" traz vocais deliciosamente sussurrados e sintetizadores tipicamente 80, enquanto que a funkeada "Whaaat I Can Gett" é um mix de italo disco e Prince. Promissor.

"Turnt 2 Cult":


"Whaaat I Can Gett":

Celebrando Knuckles


Para celebrar seu legado e para lembrar que há um ano perdíamos o DJ e produtor Frankie Knuckles, a dupla de produtores britânicos Pete Heller e Terry Farley mais o Underworld uniram-se para remixar o clássico de 1987 "Baby Wants To Ride", de Knuckles e Jamie Principle. Todo o dinheiro arrecadado com a venda do single - que sai em edição limitada de 1.000 cópias em vinil pelo selo Junior Boy's Own - vai para a Frankie Knuckles Fund (parte da Elton John AIDS Foundation) e está disponível no 
site babywantstoride.com no esquema "pague quanto quiser", com valor mínimo estipulado em 12 libras para o 12 polegadas e 3 libras para o pacote digital. Louvável iniciativa.

A "Baby Wants To Ride" original:



E como ficou:

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sexta Feira Bagaceira: Alex Party


A maior parte do eurodance foi acusado pela intelligentsia musical de servir apenas como trilha cafona de academia - como se isso fosse algum demérito. Coisa de quem está sempre querendo encaixar algum artista ou produção numa determinada "cena", de uma pretensa relevância artística que muitas vezes parece importar mais do que o próprio poder de fogo do trabalho. Ou seja, pra uma dance track como "Don't Give Me Your Life", do Alex Party (1994, UMM), bastava ser boa o suficiente pra um público ainda não saturado pela avalanche ítalo que varreu o mundo das pistas no começo dos 90. Funcionou tanto do ponto de vista comercial (o single chegou ao número dois no paradão inglês) quanto pela produção enxuta e certeira que arrebatou pernas e ouvidos dos que se dispuseram a ouvir (e dançar) sem preconceito: a divertida armação da dupla italiana Paolo e Gianni Visnadi trouxe os vocais entusiasmados da britânica Robin Campbell mixados com precisão ao riff de teclado fuén e ao baixo da TB-303 numa música de espírito light, simples, grudenta e eficiente.

  "Don't Give Me Your Life": mais transpiração que inspiração.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Terryfic


Todd Terry anda inspiradíssimo. Há poucos dias, mostrou sua ótima "Give Me A Reason", recuperando uma vocalista espetacular (Robin S.) e agora aparece com essa "Go Away" - outra faixa incrível - desta vez com a cantora Martyna Baker. Ambas estão na compilação Our House Is Your House, que acabou de sair pelo Ministry Of Sound. São 33 faixas mixadas por Terry, em dois discos: o primeiro inclui produções e remixes do DJ, como "Keep On Jumpin'" e "Something Going On", mais clássicos de Maurice ("This Is Acid"), Nightcrawlers ("Push The Feeling On"), Junior Jack ("Thrill Me") e Armand Van Helden (com o remix para "Professional Widow", de Tori Amos). O segundo, traz as faixas e remixes carregadas com mais frequência atualmente em seus pendrives, mais as duas inéditas de Terry. Sensacional.

"Go Away": Terry afiadíssimo.