domingo, 29 de abril de 2012

Cool Fool


O dinamarquês Kasper Bjørke dividiu Fool - seu novo álbum - em dois lados, como num disco de vinil. O lado A é o Hungry Side, canções pop-eletrônicas montadas no esquema tradicional do estrofe-refrão. O lado B é o Foolish Side; onde o DJ, produtor e empresário resolveu experimentar timbres, efeitos e ritmos que não caberiam num formato pop. Temas instrumentais com ênfase nas guitarras (como nos mais de nove minutos de palhetadas lânguidas de "D.O.A.H."), climão space-disco ("Bohemian Soul"), vibrafones sintéticos ("US Escape") e até indie dance com baixo de verdade ("Mansisters").


O Hungry Side leva ligeira vantagem, não só porque é mais fácil de ouvir. Nestas quatro primeiras faixas Kasper Bjørke estabelece uma parceria com o excelente cantor (também dinamarquês) Jacob Bellens que faz toda diferença. Seu timbre grave e ligeiramente áspero casa com perfeição com as bases inspiradíssimas que Bjørke criou nessa fusão eletro/análoga que é a primeira metade de Fool. O single "Lose Yourself  To Jenny" é o melhor exemplo disso: synthpop bubblegum com sintetizadores felizes e melodia assoviada. "Sunrise" tem aquela progressão de acordes de baixo eletrônico - o onomatopéico "dugu-dugu-dugu-dugu" - suficiente pra dobrar o poder do refrão, enquanto "Deep Is The Breath" (dueto vocal de Bellens e Emma Acs) é puro ABBA e Erasure pré-1992 numa canção que poderia ser finalista do Eurovision. O álbum encerra com os pianinhos house e o refrão amigável de "Hand In The Beehive" (outra da dupla Bellens/Bjørke), uma das três faixas-bônus do disco. Eletro pop ou experimental, Kasper Bjørke cometeu um discão.

Fool: tem pra todos os gostos.

Kasper Bjørke - Fool by hfn music

sábado, 28 de abril de 2012

TOC


Single novo do Simian Mobile Disco, "Seraphim" precede o álbum Unpatterns, previsto para 14 de Maio. A versão original está mais pra downtempo com variações do simulador de baixos Roland TB 303 e um mantra repetido à exaustão: "Why can’t you be where I want you to be?", nos moldes daquelas divas flamejantes do comecinho dos 90. O "SMD Extended Mix" dá uma turbinada no bumbo, mas mesmo assim fica na casa dos 110 BPMs. De lambuja, um B-side bem bom: a tech-house instrumental simpática "Cerulean".

 

"Seraphim": Transtorno Obsessivo-Compulsivo.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Música da Semana: Benga


Quando eu conheci as primeiras faixas de drum'n'bass - lá por 93/94 - ele ainda se chamava jungle, e eu ficava me perguntando "_ Como é que se dança isso?", acostumado que estava com a linearidade 4x4 da house music. A desconstrução rítmica das baterias fazia com que eu ficasse procurando algum ponto de marcação que induzisse a um movimento contínuo, mas era impossível. Os rufos de caixa e os bumbos sem uma sequência identificável eram algo que meu cérebro não conseguia decodificar pra mandar a mensagem pras minhas pernas. As coisas ficaram mais fáceis algum tempo depois quando o drum'n'bass se subdividiu em outros gêneros (jazzy, liquid funk) e o beat um tanto mais reto aliado às frequências baixíssimas de grave eram garantia de pés se mexendo na pista.


Hoje o dubstep é a bola da vez. Cresceu assustadoramente nos últimos anos saindo dos guetos londrinos pra se instalar nas raves ianques pelas mãos de Skrillex ("acusado" de diluir o estilo), teve o britânico Rusko produzindo figuras como Britney Spears, Rihanna e T.I. e já rolou até Grammy para o próprio Skrillex. A pergunta é: o dubstep vai procurar se adequar às audiências pra atingir um público maior, como fez recentemente o trio Magnetic Man (que tem Benga como um dos integrantes), injetando vocais, refrãos e um formato um pouco mais pop ao gênero? Ainda não tenho a resposta, mas enquanto isso Adegbenga Adejumo segue fazendo ótima música. "I Will Never Change" é o single mais recente de Benga e talvez o título seja um recado à pessoas que tem essa pulga atrás da orelha, como eu. Tem aquele beat musculoso recortado por synths que parecem fatiar a melodia em centenas de pedaços. Qual a relação com o drum'n'bass do texto acima? Eu também fiquei em dúvida sobre a dançabilidade do dubstep um tempo atrás, mas esse é um som que não funciona nessas caixinhas mixurucas de computador. Se você tiver algo que reproduza metade da intensidade dessas batidas e desses baixos, dançar torna-se compulsivo. Quanto à "I Will Never Change", viciei de cara.

"I Will Never Change": nem precisa, Benga. 



PS.: conheci a música no blog do Camilo Rocha, o Bate Estaca. Vale uma passada lá.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O Despertar da Besta


Deu medinho quando o americano Chris Dexter Greenspan apareceu em 2010 com esse impronunciável projeto chamado oOoOO? O gênero witch house certamente foi uma piada criada por algum jornalista pra definir o som dessa tchurba chegada em vocais distorcidos, batidas arrastadas e synths fantasmagóricos, mas seu novo EP (Our Love Is Hurting Us) tem lá seus momentos. Especialmente quando lembra um Enigma taciturno em "Springs" e soa quase doce com o auto-tune de "Break Yr Heart". R&B das profundezas.


"Break Yr Heart": Gasparzinho sexy.

Monsieur Ennuyeux


Será que o single "Flat Beat" (1999) foi só um acidente feliz na carreira do francês Mr. Oizo? Esse Stade 3 acabou de sair e é um EP prontinho pra testar sua paciência: sete faixas com loops cansativos e batidas tortas; começando pelo tiroteio de blips da faixa-título, passando pelos timbres inaudíveis da breve "Fingers" e chegando na mini-sinfonia caótica de "Pee Hurts", uma ode à esquizofrenia sintética. Ali no recheio o rap desengonçado de "Toodoo" e o techno "Textes" são os momentos pra respirar, mas o péssimo conjunto do EP define o resultado final.

     "Pee Hurts": um doce pra quem conseguir chegar até o final da música.
                                                   

Na Pista: Slugabed


A julgar pela foto, o nome de guerra é justo. Slugabed é o inglês Greg Feldwick, 22 anos. Tem um single fresquinho na praça (Sex) e a moral desse 12" ter saído pela Ninja Tune, conceituada gravadora independente londrina de propriedade de uns tais Matt Black e Jonathon More, também conhecidos como Coldcut.
                                                                                                                                                               

"Sex" é um electro instrumental com jeitão de Mantronix albino, com uns 25% da ginga da dupla americana. De bônus, um dubstep sem graça ("Molecules") e dois remixes: um em slow motion por Daedelus e outro freestyle comportado ("Groundislava Remix").

"Sex", o vídeo: uma idéia na cabeça e um orçamento modesto na mão.


Universo Em Desencanto


Ouvir Kill For Love - álbum mais recente dos americanos do Chromatics - é imaginar como seria se o New Order tivesse escolhido a tecladista Gillian Gilbert como vocalista ao invés de Barney Sumner. Talvez Movement, debut da banda inglesa lançado em Novembro de 1981 soasse assim. Apesar da voz pequenininha, Ruth Radelet encaixa-se confortavelmente aos sintetizadores congelados e de timbres fascinantes (o que é aquele teclado de "Lady"?). Pós-punk elegante, quase dançável sob suas baterias nada complexas ("The Page") e com riffs de guitarra básicos e certeiros ("Back From The Grave"), Kill For Love é um disco estranhamente encantador, dolorosamente bonito - uma ponte bem cimentada entre o indie e o eletrônico analógico com canções bem feitas e um cover escolhido à dedo: "Hey Hey, My My" de Neil Young abre o disco creditada apenas como "Into the Black". Climático e melancólico, dos títulos das faixas ("Dust to Dust", "No Escape", "Back From The Grave") até as composições instrumentais nubladas ("There's a Light Out On the Horizon", "Broken Mirrors"), Kill For Love exige uma hora e meia de dedicação à sua viagem sombria e de nada fácil digestão, mas extremamente recompensadora. Bom dia, tristeza.

"The Page": black is beautiful.

terça-feira, 24 de abril de 2012

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Na Pista: Wattie Green


Tem cheiro forte de picaretagem, mas e daí? Não é por isso que vamos desprezar esse pianinho safado de venenoso martelado numa levada house, hm? "Brazilian Heat" está no EP acima, lançado em Fevereiro.


CCD024 Wattie Green - Brazilian Heat (Original Mix) - Coyote Cuts by coyotecuts

domingo, 22 de abril de 2012

A Voz Continua A Mesma, Mas Os Cabelos...


Uma Marina Diamandis agora loira é o que temos em "Primadonna", single que precede o álbum Electra Heart, a sair oficialmente dia 30 de Abril. Sequência natural das canções pop bem construídas de seu bom álbum de estréia (The Family Jewels, 2010), "Primadonna" traz o registro vocal em montanha-russa de Marina - ela continua subindo e descendo notas com extrema facilidade - junto a um beat minimalista e paradas estratégicas no refrão. Os remixes do pacote digital é que são um capítulo à parte: Benny Benassi só transformou a canção numa house padrão para pistas mauriçolas enquanto Evian Christ colou os vocais de trás pra frente sob um dubstep moderninho. Agora, onde a desconstrução de "BURNS Remix" e a insuportável versão vocoderizada do Riva Starr quiseram chegar é o que eu estou me perguntando até agora.
 
"Primadonna": Marina Diamandis e seu porte formidável.

 

Sugarpop


Intolerante ao açúcar? Cuidado. O nível de sacarose em Out Of My Hands, novo álbum do vocalista do finado A-ha é alto. Muito mais pop do que synth em comparação à sua ex-banda, Morten Harket já está no seu quinto álbum solo. Voz intacta aos 52 anos, aquele falsete impressionante de sempre. O problema são as composições exageradamente românticas, os arranjos melosos. Ouvir o instrumental constrangedor do single "Scared Of Heights" dá uma saudade tremenda de coisas do A-ha como "The Blood That Moves The Body", de cordas brilhantemente arranjadas por Anne Dudley. E se isso já é de fazer corar fãs antigos do norueguês, imagine ouvir o refrão "Everybody’s gonna have to hurt somebody / Everybody’s gonna need to be somebody / Baby I’m the one" de "I'm The One". Bacanas aqui são as levadas um pouco mais roqueiras de "Burn Money Burn" e "When I Reached The Moon" - esta uma prova da incrível extensão vocal de Morten. Como curiosidade, "Listening" é uma canção escrita pelos Pet Shop Boys para Morten Harket, mas não ultrapassa o nível médio das baladas de Out Of My Hands - um disco indicado para fãs xiitas e para o incorruptível público feminino do cantor, aquele mesmo que tinha sonhos pecaminosos com o nórdico de olhos espremidos em algum lugar dos anos 80.

"Scared Of Heights": só para os fundamentalistas.

sábado, 21 de abril de 2012

Suingue, Suor e Samplers


O prolífico austríaco Marcus Füreder não para. Quando não está discotecando ou apresentando-se em clubes e festivais com sua banda, ele produz o que há de melhor hoje em dia na rebolativa fusão swing jazz/eletrônica.
 

 E é como Parov Stelar que Füreder acaba de lançar mais um discão: The Princess saiu no finalzinho de Abril e felizmente mantém o padrão de suas produções anteriores. Se você já ouviu e não achou nada muito inovador, preciso rebater te perguntando como e porque Parov Stelar viria com um disco que não fosse de electroswing - um gênero relativamente novo e que tem na figura do próprio Füreder um dos seus criadores? The Princess é um álbum duplo e vem recheado de temas jazzísticos e levemente houseificados: experimente o mix certeiro de scratches, metais e piano minimalista já na segunda faixa ("All Night") ou a levada um tiquinho mais pop de "Nobody's Fool" - com vocais da cantora da Parov Stelar Band, Cleo Panther - e uma linha de baixo inacreditável no refrão. Não sei como Füreder consegue recriar uma orquestração tão fiel ao swing jazz dos anos 30 (em "Silent Shuffle") ou se isso é resultado de trechos originais brilhantemente sampleados, mas que o efeito é sensacional, é. Os violinos de "You Got Me There", o violoncelo de "The Beach" e o piano elétrico, baixo acústico e sax de "Song For The Crickets" garantem uma rica diversidade instrumental ao disco em canções mais contemplativas e que nem sempre são destinadas aos quadris. O disco 2 traz faixas extras ou que saíram exclusivamente em vinis, estas sim, todas voltadas para a pista. BPM alto e grooves de entortar o cangote em "Jimmy's Gang", "Sally's Dance" e "Baska Brother". Stelar até arrisca um flertezinho com a disco em "Oh Yeah" e tira o pé do acelerador em "Booty Swing" para invadir a TV americana num anúncio do resort e cassino The Cosmopolitan de Las Vegas. Suinga Stelar, suinga!

"All Night": electro-jazz para as massas.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Estado Das Coisas


Pena que seja meio chatinho esse EP novo do 808 State - uma banda que dividiu as águas da dance music em 1989 com o clássico single techno/ambient "Pacific State". OK, dá pra chamar de novo só porque tem essa capa aí e tal, mas na verdade o Extended Play agrupa quatro faixas só lançadas anteriormente como bonus tracks das edições americana e japonesa do álbum mais recente do grupo (Outpost Transmission, 2003).  Em O.T.E.P. o trio manchestrino remanescente (Graham Massey, Andrew Barker e Darren Partington) dá uma cutucada tardia no drum'n'bass ("Long Orange" e "Quincy's Lunch"), funde flautinhas orientalizantes e baixos gordos com bumbos e caixas um tanto frenéticos ("Doctors & Nurses" e "Brown Sauce"). É até interessante, mas não exatamente pra se acabar na pista. Pouco pra uma banda que causava comoção nas raves aos primeiros acordes de "In Yer Face".

O.T.E.P. : dá pra baixar na faixa no site oficial.