domingo, 8 de abril de 2018

Silent Nightmares

 

Silent Poets e Nightmares On Wax: dois nomes da eletrônica trilhando o arriscado caminho do downtempo. É preciso mais do que experiência, bom gosto e sensibilidade pra não resvalar na pieguice com discos do gênero?


O Silent Poets, que já foi um duo, mas hoje é um projeto solo do DJ e produtor japonês Michiharu Shimoda, assusta no começo ao equilibrar-se perigosamente sobre a linha que separa o sentimentalismo extremo da ousadia em seu novo álbum Dawn (o primeiro em doze anos, saiu em Fevereiro pelo selo de Shimoda, Another Trip). As duas primeiras faixas, "Asylums For The Feeling" e "Distant Memory", com arranjos de cordas adocicados e envolventes, deixam dúvidas a respeito da capacidade de Shimoda montar canções que vão além do lounge na linha Café Del Mar. As incertezas vão se dissipando a medida que o disco avança - especialmente por causa dos reggaes de torque alto e lento que vem a seguir. A exuberante "Shine", com seus metais e ecos em profusão, o ragga "Non Stoppa" e o sensacional dub em slow motion "Division of the World", provam que Tóquio e Kingston podem estar mais próximas do que você imagina. Some a isso raps em japonês ("Tokyo", "Eternal Life"), beats espertamente engendrados (a instrumental "Rain" é um dos melhores exemplos), vozes escolhidas a dedo (a urgência da rapper israelense Miss Red e o timbre lindo da ótima Hollie Cook, filha do ex-baterista do Sex Pistols, Paul Cook, entre elas) e Dawn já é uma volta do Silent Poets a ser celebrada da melhor maneira possível: ouvindo o disco várias vezes.

"Division of the World":



O DJ e produtor britânico George Evelyn, a.k.a. Nightmares On Wax, já tem 30 anos de carreira e, além de ajudar a cimentar o trip-hop no começo dos anos 90, vem lançando álbuns sólidos e bem pensados ao longo desse tempo. Seu recente Shape The Future (lançado em Janeiro pela Warp Records) é diversificado sem perder a homogeneidade. O disco vem sob a forma de conexões enfumaçadas com a Jamaica (como em "Tomorrow" e "Citizen Kane", com dinâmica de reggae e técnicas herdadas diretamente do dub), enxertos de jazz ("Typical", "The Other Ship"), soul ("Deep Shadows"), blues ("On It Maestro") e farta distribuição de timbres amadeirados de teclado, identificáveis pelos tons quentes dos pianos elétricos e nos efeitos analógicos dos sintetizadores. Usando de tecnologia discreta (perceptíveis quase que exclusivamente nas programações de bateria), Evelyn gravou mais um álbum em que a expressão retrofuturismo é apta para definição, sem culpa.

"Shape The Future":
     

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Sexta Feira Bagaceira: Dead Or Alive


O sucesso de lá nem sempre é o sucesso daqui. Conheci o Dead Or Alive na virada dos 80 pros 90, porque "Come Home With Me Baby" martelava direto nas FMs. Um tempo depois fui descobrir que o grande hit do grupo britânico era "You Spin Me Round (Like a Record)" (1984), primeiro (de vários) número um na parada inglesa produzido pelo trio Stock, Aitken & Waterman. Não que o som do Dead Or Alive tivesse algo a ver com o pop pasteurizado do pessoal que estava sob as asas dos produtores: com a postura extravagante do bom vocalista Pete Burns na linha de frente, o grupo livrou-se das origens pós-punk/góticas (Wayne Hussey, do The Mission, fez parte da formação inicial da banda) e juntou Hi-NRG com synthpop mais a androginia provocante de Burns - algo entre Alice Cooper e Boy George - pra produzir hits de pista explosivos como essa "Come Home With Me Baby", confortavelmente inserida em sets de freestyle e house. Burns empilhou plásticas e polêmicas até falecer em Outubro de 2016, vítima de um ataque cardíaco.

"Come Home With Me Baby": exuberância.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Mea Culpa


Só fui conhecer a cantora, atriz e modelo neozelandesa Kimbra em 2012 por causa do multi platinado single "Somebody That I Used to Know", que ela gravou com o belga esquisitão Gotye - um ano antes ela havia debutado com o elogiado Vows. Passei batido. Assim como também nem fiquei sabendo do segundo disco, The Golden Echo, de 2014. Nesse meio tempo, se ouvi alguma coisa da guria, entrou aqui e saiu aqui (aponta os indicadores para as orelhas). Bom, ela acabou de lançar "Like They Do On The TV", o quinto (!) single do seu novo álbum, Primal Heart, que sai no final de Abril. Esse disco não pretendo perder, porque "Like They Do On The TV" me pegou já nos primeiros 30 segundos (fora o que ela é gata).

"Like They Do On The TV": finalmente ela acertou no corte de cabelo.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Tentativa e Erro


Chris Glover, a.k.a. Penguin Prison, DJ e produtor americano, vai pra dez anos de carreira e nesse (pouco) tempo enfileirou dois álbuns, vários singles e EPs e uma batelada de remixes (já levou pra mesa de cirurgia gente como Jamiroquai, Ellie Goulding, Goldfrapp, Faithless e Lana Del Rey). Inegavelmente, tem talento. Porque ainda não "aconteceu"? Não sei, coisas do pop. Seu debut autointitulado de 2011 é muito bom (duvido que alguém lembre de alguma coisa desse disco). Bom, ele continua tentando, como mostra seu novo EP Turn It Up. Altos e baixos no mini-disco (que saiu exclusivamente em formato digital). A faixa título é o electropop habitual do artista: bem feitinho, dançável, refrão ganchudo. Tudo parece estar no lugar certo... mas tem uma coisa que não me deixou ouvir mais do que duas ou três vezes a faixa: enjoa fácil. O mesmo vale pra "Keep Coming Alive", a segunda do EP. Já "Do Me Like That" exagera na vibe Grease enquanto bobinha e açucarada. A única música que realmente chama atenção aqui é a Nu-Disco "On Your Side", com uma mão nos vocais da musa-cult-indie-pop Soren Bryce. Espacial e dançável, pop onírico e com o nível de sacarose na medida certa. Aí sim.

"Turn It Up":



"Keep Coming Alive":



"Do Me Like That":



"On Your Side":

domingo, 1 de abril de 2018

Não Há Vida Em Marte


Com o novo single "My Name Is Mars", os synthpoppers californianos do Capital Cities vão se candidatando fortemente a um lugar no Hall da Fama dos One Hit Wonders (só que a música em questão não é essa e sim a boa "Safe and Sound", de 2011). "My Name Is Mars" vem sem os onipresentes trompetinhos já ouvidos em outras faixas da dupla. Também vem sem um bom refrão, sem um instrumental que faça a diferença, sem inspiração, sem sal e sem graça. Ano passado saiu o promissor EP Swimming Pool Summer, mas isso aqui é decepcionante. Pra uma banda mais pop do que synth, é grave.


"My Name Is Mars": insossa.