sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Stevie B


O Rei do Freestyle chegou ao topo do paradão da Billboard em 1990 com a baba "Because I Love You (The Postman Song)", mas sua música mais conhecida é "Spring Love", lançada dois anos antes - ao menos no Brasil, onde foi megahit de pistas e rádios. Pode colocar boa parcela da culpa em Stevie B pelo fenômeno do funk melody ter se propagado por aqui (ele tem um single que batizou esse subgênero do funk carioca, inclusive), de onde saiu gente um tanto duvidosa, como Latino e Copacabana Beat e também um povo comprovadamente talentoso (Claudinho & Buchecha). "Spring Love" é a canção freestyle por excelência: percussão latina, gancho forte de sintetizador, vocais dramáticos e linha de baixo adiposa correndo juntinho com o bumbo. Acha melosa? Bobagem. Stevie B é um ótimo cantor de R&B e os arranjos de voz dessa faixa (especialmente quando entram os backing vocals), são irrepreensíveis. Pra saudar a chegada da Primavera, uma óbvia (e ótima) pedida.

"Spring Love (Come Back to Me)": o cabelo está bem melhor agora.

domingo, 17 de setembro de 2017

It's The Remix About Me


Era de se esperar que o recém-lançado "You're the Best Thing About Me" (primeiro single do próximo álbum do U2, Songs of Experience), viesse acompanhado de uma batelada de remixes, oficiais ou não. Primeiro que faz bastante tempo que a relação do U2 com as pistas de dança é bem íntima, segundo que a banda irlandesa parece não querer perder o trem da história. Pra isso, convocou o galã norueguês (produtor e DJ nas horas vagas) Kygo para adequar a canção ao gosto dos frequentadores das Tomorrowland da vida. Kygo, fora suas duvidosas produções de dance, acumula as façanhas de ter ultrapassado a marca de um bilhão de views de sua * cof cof * música no Youtube e Soundcloud somados e ter sido o primeiro produtor de house music a se apresentar numa cerimônia de encerramento de uma Olimpíada (no Rio, ano passado). Uh.

A versão de Kygo para a faixa do U2 é uma EDM de paletó e gravata, sem os tradicionais e enfadonhos drops nem os irritantes sintetizadores à beira de um ataque de nervos, comuns ao gênero. Ao invés disso, Kygo optou por recriar o riff original com um nível de distorção aceitável, picotou os vocais aqui, espalhou uns pianinhos ali... nada original, mas, vá lá, eficiente para ouvidos com nível de atenção bem baixo e pés não muito exigentes do público a que foi destinada.

Original:



Como ficou:

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Secret Service


Tem tudo pra ganhar sua antipatia: uma canção que se chama "Oh Susie" e uma banda chamada Secret Service.


"Oh Susie" é o primeiro single do grupo sueco, lançado em 1979. Ficou 14 semanas em primeiro lugar na parada local, depois virou hit mundo afora. Aqui no Brasil saiu nessa versão sete polegadas acima. A faixa pega carona em alguns bondes da época: o emergente technopop, uma levadinha disco, soft rock, new wave. Gosto muito dos sintetizadores e o refrão dá pra decorar na primeira audição. Estranhamente constrangedora, datada. Na pista, a reação quase sempre é um misto de incredulidade e contentamento. O ex-vocalista da banda, Ola Håkansson, fundou a Stockholm Records em 1992, lançando nomes como The Cardigans. O que o redime, um pouco, dos pecados cometidos durante o período de atividades de sua banda.

"Oh Susie": "... we were much too young..."

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Disco Do Mês: Tender


Dois caras que se conhecem, descobrem afinidades musicais, gravam uma série de músicas, até que uma delas ganha execução considerável para atrair uma grande gravadora, que assina um contrato com a recém-criada banda e joga a dupla rumo ao estrelato. É parecida, mas essa não é exatamente a história do Tender e sim a do Lighthouse Family. E as semelhanças entre os dois não vão muito além do fato de ambos virem da Inglaterra e terem o R&B como leitmotiv. Só que enquanto as melodias ensolaradas do Lighthouse Family emolduram canções que versam sobre amor, esperança e boas vibrações, o terreno explorado pela dupla do Tender, James Cullen (vocais) e Dan Cobb (teclados), é o oposto muito mais sombrio; um mergulho nas águas turvas do desamor, desapontamento e perda.   

Com nove (de um total de doze) músicas inéditas, o debut do Tender, Modern Addiction (Partisan Records), traduz sentimentos tão comuns aos ouvintes que tornam as canções familiares instantaneamente, apesar (ou por causa) das letras aguçadas e diretas, de um romantismo em estado febril, mas não piegas. O instrumental de Cobb é simples mas incrivelmente eficiente, converte as letras num certo tipo de paisagismo sonoro, com uma paleta de sons distribuídos precisamente em cada faixa - ora lúgubre e ritualístico ("Hypnotised", "Vow", "Trouble"), ora desenvolvido em células suaves, quase dançantes ("Machine", "Powder"). A diversidade dos arranjos, predominantemente sintéticos e percussivos (nunca grandiloquentes), são o contraponto perfeito para os vocais murmurantes de Cullen desfilarem suas letras quase como confidências de seus amores perdidos em climas enfumaçados pelos teclados. A música do Tender atualiza o R&B britânico com o uso contido da tecnologia, há vários hits em potencial em Modern Addiction (o desempenho desse álbum pode - e deve - dar uma segunda chance para os singles "Erode" e "Machine" irem ao encontro do mainstream), para que, finalmente, as comparações com o Lighthouse Family encontrem mais uma similaridade: a dos números acima dos seis dígitos. Faz por merecer.

"Nadir": será o Tender 'The Next Big Thing'?

domingo, 10 de setembro de 2017

Ambiente-se


No final de Setembro do ano passado, a "bíblia indie" Pitchfork ranqueou os 50 melhores álbuns de ambient music já gravados. Esse aí da foto, Ambient 1: Music for Airports (1978), de Brian Eno, está no topo da lista.

Comprei esse disco totalmente às cegas, há uns 10 anos. Conhecia o Eno do Roxy Music, mais algumas produções e colaborações, mas de seus lançamentos solo, praticamente nada - situação não muito diferente da de hoje em dia, confesso. Ouvi pouco esse vinil durante esse tempo. São experimentos minimalistas; camadas sobre camadas de sintetizadores, vozes, pianos, manipulação de tapes... tudo para "produzir peças originais ostensivamente (mas não exclusivamente) para momentos e situações particulares com vistas a construir um pequeno, mas versátil, catálogo de música ambiental adaptado a uma ampla variedade de ambientes e atmosferas" (segundo o próprio Eno escreveu no encarte do LP, na foto acima).

Não é meu preferido do gênero (Chill Out, do KLF, está em primeiro na minha lista), mas esse Music for Airports passa longe de definições pejorativas como "música enquanto papel de parede". Este não é um álbum pra ser ouvido enquanto se lava a louça - embora o próprio Eno tenha considerado que a música aqui pode soar "tão ignorável quanto interessante".

Ambient 1: Music for Airports: se você dormir no meio da execução, tio Eno te perdoa.