sábado, 14 de outubro de 2017

Discotecagem Transcendental


A arte da mixagem não diz respeito somente ao simples alinhamento de batidas. É muito mais que isso. Tem a ver com climas, texturas, timbres, coerência, feeling, senso musical apurado... tudo o que anos de cabine deram ao DJ Renato Lopes e que faz seus sets transformarem-se em experiências transcendentais, onde a música leva a lugares desconhecidos e, muitas vezes, para além dos limites da pista de dança. O prazer da viagem e as surpresas que aparecem no caminho estão no mais recente set que Renato subiu no Mixcloud, chamado another mix Oct 2017. O mix inclui desde pioneiros da house como Glenn Crocker (Glenn Underground) até gente nova e talentosa como Alexander Dorn (Credit 00) e CVBox, em quase uma hora em que adicionar as palavras "viradas perfeitas" é absolutamente redundante. Ouça no player abaixo ou visite o perfil de Renato Lopes no Mixcloud, onde outras maravilhas como esta estão prontinhas pra serem ouvidas.

another mix Oct 2017: para além da pista.

domingo, 8 de outubro de 2017

Sofrência


Bem-vindo ao mundo VIP do Chainsmokers: narcisismo, ostentação, hedonismo, famosidades, caras, bocas, poses, tapetes vermelhos... e música ruim. É o vazio existencial traduzido em beats de EDM fuleiro que a dupla americana Andrew Taggart e Alex Pall devolve em forma de canções como "#Selfie", o primeiro hit, de 2014: "Vocês podem me ajudar a escolher um filtro? / Eu não sei se eu deveria escolher o Xxpro ou Valencia / Eu quero parecer bronzeada / O que devo colocar na descrição? / Eu quero que seja algo inteligente / Que tal 'vivendo com minhas vadias, #viver' / Eu só consegui dez likes nos últimos cinco minutos / Você acha que eu deveria apagar? / Deixa eu tirar outra selfie". De uma composição pueril com a nítida intenção de tirar proveito de um termo em voga, o Chainsmokers foi ao encontro de uma geração prontinha pra abraçar, por simples identificação, uma dance track fadada ao sucesso: o single vendeu mais de um milhão de cópias só nos Estados Unidos e o vídeo tem mais de 500 milhões de visualizações no Youtube.


Depois de mais alguns singles e EPs de sucesso e amparada por dígitos acima de seis zeros, a dupla chegou a 2017 com material suficiente para o primeiro álbum, Memories...Do Not Open (saiu em Abril, pela Columbia). Não foi surpresa, portanto, que o disco chegasse no topo do paradão da Billboard. É uma coleção homogênea de dance music de linha de montagem, provavelmente manufaturada com softwares comuns a produtores da mesma estirpe (como Calvin Harris, Avicii e nossa estrela canarinho Alok), porque soa exatamente igual a esse pessoal. Fácil constatar que Memories... atingiu em cheio seu público-alvo, de obcecados por som automotivo (porquê os graves aqui são surreais) até quem acha que a Tomorrowland é, realmente, a Terra dos Sonhos da música para dançar de todo o Universo. O álbum tem metade das faixas narrada (porque "cantar" não é exatamente o verbo aqui) de forma monocórdica e semi rouca por Andrew Taggart e o restante traz gente tão ruim quanto: da insossa Emily Warren (ligada ao selo do picareta Dr. Luke) até o arroz de festa do Coldplay, Chris Martin (na sofrível "Something Just Like This").

Não tem nada, mas nada, minimamente aceitável nesse Memories...Do Not Open e a única boa notícia é que "Honest", single mais recente do duo, alcançou apenas um modesto número 77 no paradão de singles da Billboard, o que diz muito sobre a descartabilidade e a volatilidade do pop de hoje quando a ameaçadora sentença bate à porta: não vendeu, babau. Quem sabe eles somem tão rápido quanto apareceram?

"Something Just Like This": Chris Martin beijando a lona.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Club Classics: Raze


Uma pausa para o amor em 45RPM: o projeto nova-iorquino Raze, formado pela dupla Keith Thompson e Vaughan Mason, lançou vários singles e dois álbuns no período 1986/1992, mas serão lembrados eternamente por "Break 4 Love", de 1987; uma faixa de puro soul com roupagem house, absolutamente brilhante em sua sedutora simplicidade. Classic garage house anthem.

Uma rapidinha com o Raze:

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Light My Cover


Tecnicamente, qualquer canção pode virar um reggae. É só dar uma checada na discografia do UB40 e constatar que a banda britânica construiu sua exitosa carreira apoiada, basicamente, em covers. Parece uma fórmula não muito honesta quando isso ocorre com clássicos como "Can't Help Falling In Love" (Elvis), que deu ao UB40 seu terceiro single número um no paradão inglês em 1993. Por outro lado, pode, também, trazer à tona e dar uma segunda chance a faixas semi obscuras como "Red Red Wine" (Neil Diamond, 1967) e transformá-las em hits mundiais (a versão do UB40, de 1983, chegou ao topo nos dois lados do Atlântico).

  Seguindo essa cartilha, o outrora onipresente Inner Circle acaba de gravar sua "Light My Fire" (Doors) - coisa que o UB40 já havia feito em 2000. Com o auxílio dos cantores Konshens e J Boog, os jamaicanos cometeram uma versão bem comportadinha, talvez tentando reviver a década em que a banda dominava o dial (eles empilharam sucessos nos anos 90).

Se o cover não foi lá muito animador, a boa notícia é que, na sequência, o Inner Circle pretende lançar novas músicas com gente bacana como Maxi Priest e Mykal Rose e, ano que vem, comemorar 50 anos de estrada com - quem sabe - um disco novo, que espero, seja de inéditas.

"Light My Fire": fogueirinha.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Carl Douglas


Bruce Lee fez a cabeça da molecada americana nos anos 70. Filmes como A Fúria do Dragão, O Voo do Dragão e O Dragão Ataca, se pecavam pela falta de variedade temática, elevaram Lee à condição de ícone cultural e popularizaram definitivamente películas dedicadas às artes marciais, deixando um legado absorvido por artistas tão díspares quanto Wu-Tang Clan e Quentin Tarantino.

Foi nessa onda que embarcou o jamaicano Carlton George Douglas. "Kung Fu Fighting" deveria, originalmente, apenas preencher o lado B do single "I Want to Give You My Everything", mas após ter sido gravada (em menos de uma hora e apenas dois takes), um executivo da gravadora insistiu para que a faixa fosse prensada no lado A. Sábia decisão: lançado em 1974, o single vendeu mais de onze milhões de cópias. Produzida pelo subestimado indiano Biddu (Tina Charles, The Flirtations), "Kung Fu Fighting" tem um riff de flauta oriental clássico, entre vários "huh! hah!", representando foneticamente os movimentos da luta. Carl Douglas cantava bem demais, mas lustrava a cara de pau e mandava ver na performance metido nesse ifu (roupa para a prática do kung fu) do vídeo abaixo. Foi um hit só, mas lá em 1974, everybody was kung fu fighting.