sexta-feira, 26 de maio de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Sigue Sigue Sputnik


A autoproclamada "quinta geração do rock'n'roll" foi uma piada inventada pelo ex-baixista do Generation X, Tony James. Punks de boutique, visual espalhafatoso, alguns hits e, estranhamente, uma imensa popularidade no Brasil - tanto que o segundo álbum, Dress for Excess, de 1988, teve o nosso Arnolpho Lima Filho (Liminha) como um dos produtores - fizeram do Sigue Sigue Sputnik uma curiosidade passageira, que enjoou tão rápido quanto pegou.

"Love Missile F1-11" foi o primeiro single do álbum de estreia do grupo, Flaunt It. Lançada em Março de 1986, chegou ao terceiro lugar no paradão inglês e teve parte da popularidade (foi o maior hit dos Sputniks) baseada em sua inclusão na trilha do blockbuster Curtindo a Vida Adoidado.

Movida a baterias eletrônicas frenéticas, "Love Missile F1-11" engaveta uma batelada de samples (a voz de Malcolm McDowell extraída de um trecho de Laranja Mecânica, por exemplo), chupa o baixo de "Girl U Want" do Devo, exagera nos efeitos sobre a voz de Martin Degville e tem um climinha futurista/apocalíptico providenciado pelo produtor da faixa, Giorgio Moroder.

Não sei se Moroder se orgulha disso, mas que foi divertido, foi.

"Love Missile F1-11": techno-punk era isso.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Club Classics: "The Luxury Gap", do Heaven 17


Nascido a partir de uma dissidência do Human League (os tecladistas Martyn Ware e Ian Craig Marsh) com o acréscimo do vocalista Glenn Gregory, o Heaven 17 fez relativo sucesso na primeira metade dos 80. Seu debut Penthouse and Pavement (1981) é considerado por muita gente como o melhor trabalho da banda - pra mim, eles atingiram a melhor forma, mesmo, com esse álbum aí, The Luxury Gap, de 1983. Imediatamente mais pop e acessível do que o predecessor, tem ao menos quatro singles de sucesso extraídos dele: "Crushed by the Wheels of Industry", "Let Me Go", "Come Live With Me" e o hitaço "Temptation" (que foi ressuscitada em 1996 ao entrar na trilha do filme Trainspotting). Synthpop em essência, mas com boas doses de funk e soul embutidas no som, The Luxury Gap sequer foi lançado no Brasil (o primeiro disco do grupo que saiu por aqui foi o seguinte, o fraco How Men Are, mostrando o quanto nossa indústria do disco canarinho estava ligada ao que acontecia lá fora). Bom, essa cópia aí da foto acabou de chegar agora a tarde. Bora curtir.

"Temptation": synthpop luxuoso.

domingo, 21 de maio de 2017

ReMoby



A bem da verdade, Richard Melville Hall (a.k.a. Moby) tem uma discografia bem irregular, no que tange aos seus álbuns. São poucos discos que mereçam uma audição completa com satisfação garantida. Com o sampler como artista principal, Play (1999) com certeza é o seu melhor trabalho (não por acaso, foi também o que o levou ao estrelato e o que mais vendeu). 18 (2002) está quase lá, com boas canções e diversos convidados que garantem uma diversidade rara de se encontrar num álbum de eletrônica. Seu debut autointitulado de 1992 trazia a força do techno ainda em expansão e a energia das raves para a sala de estar, com o frescor da novidade superando o próprio conteúdo, em si. Depois de 18, Moby tem entregado álbuns cada vez mais sonolentos e pouco inspirados, com um ou outro single digno de nota.

Não sei se essa inconstância ou alguma outra coisa pôs Moby a apertar o pause e repensar sua carreira, mas desde o ano passado começaram a pipocar singles e EPs de remixes de suas faixas mais emblemáticas, por diversos artistas e selos diferentes. Ouvi dois destes EPs recentes, com resultados totalmente desiguais.

Black Lacquer (2017, Fool's Gold Records)


Quatro remixes num EP desastroso. Ashley Jones (Treasure Fingers) pasteurizou "Go" com pianinhos manjados, bleeps sem graça e ainda deixou a base de strings original (chupada de "Laura Palmer's Theme", de Angelo Badalamenti) em segundo plano, bem discretinha. Praticamente matou a música. "Why Does My Heart Feel So Bad?" (Madeaux Remix) virou um monstro EDM desprovido de emoção, High Klassified só editou o sample vocal de "Natural Blues" pra encaixar na sua house monótona (que não chega a três minutos) e Nick Catchdubs (DJ, produtor e cofundador do selo que lançou este EP) não poderia ter feito programação de bateria pior (algo próximo ao hip-hop) pra usar na sua visão de "Porcelain".




The Drum & Bass Remixes (2017, Shogun Audio)

Aqui a coisa muda de figura. The Drum & Bass Remixes foi encomendado para o selo britânico de drum'n'bass Shogun Audio para ser usado como parte da campanha promocional do livro de memórias de Moby (Porcelain, que saiu no ano passado) e o que temos são radicais e inventivas recriações por parte do cast da gravadora. A flutuante "Natural Blues" (Icicle Remix) é um bom aquecimento pro liquid funk atmosférico do Technimatic em "Why Does My Heart Feel So Bad?", continua acelerando com a nervosa "Go" (Fourward Remix) e relaxa de novo entre ambient e liquid em "Porcelain" (Pola & Bryson Remix). É assim que se faz.


sexta-feira, 19 de maio de 2017

Sexta Feira Bagaceira: OFF


Pra mim o alemão Sven Väth tem sido o melhor DJ do mundo há alguns anos. Ele não tem o site mais fodão, o maior número de seguidores no Facebook ou tampouco interage com o público jogando bolo ou fazendo acrobacias no palco/cabine: o que conta são seus sets de house e techno acessíveis, incrível e obviamente dançantes, técnica e profundo conhecimento musical. E com um agravante digno de nota: ele não precisa mais do que dois toca-discos e um mixer. Só isso. Sem softwares, sem truques, sem bruxaria eletrônica. É o vinil e ele, só. 

Entre 1980 e 1981, depois de passar um verão em Ibiza, Väth (então com 16 anos), deslumbrado com a cena club da ilha, voltou para a Alemanha e começou a discotecar no pub dos pais. Depois, já residente de um clube em Frankfurt, conhece Michael Münzing e Luca Anziloti, monta o projeto OFF e produz o primeiro single em 1985, “Bad News". O sucesso só viria mesmo com "Electrica Salsa", do ano seguinte. A faixa pegou na Europa inteira (no Brasil, também, entrando na trilha da novela Bebê a Bordo). O synthpop mezzo New Beat claramente influenciado por grupos de EBM/industrial alemães como o DAF, era hipnótico e engrenado, com vocais declamados perversamente pelo próprio Väth. O sucesso do single abriu caminho para a gravação do álbum, lançado em 1988 (por aqui, saiu com a mesma capa do single "Electrica Salsa" - foto acima - com Väth segurando um cigarrinho maroto). Organisation For Fun influenciou fortemente a cena dance alemã de então e, além de ter colocado Sven Väth no caminho do estrelato como DJ, revelou dois produtores de mão cheia: Luca Anzilotti assumiu o pseudônimo John Virgo Garrett III, Michael Münzing virou Benito Benites e ambos estouraram com o Snap!, algum tempo depois.

O álbum é interessantíssimo, vale conhecer. E "Electrica Salsa" é reconhecível, ainda hoje, em qualquer pista, já no primeiro "Baba Baba" que Sven Väth solta.

"Electrica Salsa (Baba Baba)": esquisitinha e inesquecível.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Ciclo Completo


Nos anos 80, cada novo single do New Order era um acontecimento. Eles privilegiavam tanto a arte do doze polegadas que só depois de dois discos, em 1985 (Low-Life), resolveram os incluir nos álbuns. E junto com cada single, vinham remixes, versões dub e extended... uma festa para os DJs - que se consolidou definitivamente em 1987 com o lançamento da coletânea obrigatória Substance. A relação da banda de Manchester com as danceterias era tão estreita que alguns LPs tinham bem definidos o lado A (mais roqueiro) e o B (mais dançante): Power, Corruption & Lies (1983), Brotherhood (1986) Technique (1989), são bons exemplos.

Tudo nos conformes, então, com o lançamento mês passado do EP Music Complete: Remix (Mute), que traz versões alternativas para algumas canções (cinco) do ótimo álbum Music Complete, de 2015, que, diga-se, é o melhor do New Order dos últimos 20 anos (mais precisamente, desde Republic, de 1993).

Uma das coisas mais legais do EP é que eu nunca vi mais gordo ninguém que submeteu as músicas do New Order ao bisturi. Gente como o DJ e produtor japonês Fumitoshi Ishino (a.k.a. Takkyu Ishino) que transformou a já originalmente suingada "Tutti Frutti" numa viagem Acid House com uma profusão de arpejos de sintetizador e basslines de TB-303 alucinantes.


"The Game" e "Academic" foram retrabalhadas pelo produtor britânico Mark Reeder: a primeira passou do rock eletrônico pro downtempo (Spielt Mit Version), num novo arranjo que valorizou ainda mais as belas cordas da original; a segunda (uma das melhores de Music Complete) ganhou uma batida 4x4 forte, recortes das guitarras originais e uma linha de baixo propulsora. "People on the High Line" (pelas mãos do duo alemão Purple Disco Machine) virou a trilha perfeita para o hedonismo de Ibiza, repetindo infinitamente o trecho da letra "It's all gonna be alright" e adicionando pianos House e um bassline gordo e melódico de Disco Music.


"Restless" (com remix do francês Sébastien Devaud a.k.a. Agoria) fecha o EP com uma ótima versão instrumental tech-house para a ligeiramente melancólica faixa de abertura de Music Complete.

Não sei qual o critério usado para a escolha das faixas que foram remixadas em Music Complete: Remix EP, porque o álbum, em si, é de uma homogeneidade que só deve ter tornado mais difícil a decisão de pinçar só cinco canções e entregá-las para as reconstruções desse pessoal que trabalhou admiravelmente bem, porque o EP é sensacional. E bem que poderia abrir a possibilidade de um Remix EP II, que se for nesse nível aí, vai ser muito bem vindo.


domingo, 14 de maio de 2017

The Train Is Going Away


Achei que as ideias prosaicas do Depeche Mode sobre política tinham ficado no distante 1983, em Construction Time Again, terceiro - e excelente, a despeito das letras - álbum da banda. Pois em 2017 a banda achou que tinha a ver voltar ao tema e lançou "Where's The Revolution", o primeiro single do novo disco Spirit. Ambos levam o carimbo "medíocre", sem pena.

Não sei se se confirma a ideia que muita gente tem de que a maioria dos fãs (exceto os xiitas) vem esperando por uma nova "Enjoy The Silence" ou um novo Violator há tempos, mas a teoria me parece cada vez mais aceitável a medida que o tempo avança para o Depeche Mode, com uma discografia totalmente irregular desde o clássico de 1990. E para um grupo que sempre vendeu muito mais singles do que álbuns, Where's The Revolution foi decepcionante. Entrou em quadragésimo na parada alternativa da Billboard e nem figurou nas charts britânicas. Ah sim, o mercado mudou, público mudou, eles estão mais do que estabelecidos como a mais bem sucedida banda eletrônica da história do pop, etc... Mas os admiradores (como eu) estão sempre querendo mais, ou só querem, na verdade, moldar a banda de acordo com o próprio gosto saudosista. Me incluo nos dois grupos. O que a mim é certo, é que "Where's The Revolution" soou totalmente panfletária e óbvia. E não são os remixes das versões CD single / Digital Download que a salvaram - nem com as mãos habilidosas do produtor Ewan Pearson, nem com o remix entre solene e soporífero do Algiers, o techno cansativo do francês Terence Fixmer ou muito menos a frieza das batidas descompassadas do Autolux.

O remix de Ewan Pearson é a única coisa aqui feita com a intenção de funcionar na pista de dança, um território que sempre foi muito familiar ao Depeche. A mim, não excita mexer o corpo com essa trilha, num single que é um erro - do começo ao fim.

"Where's the Revolution" (Ewan Pearson Remix): ninguém se salva.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Frank Frank


Letras de sentido ambíguo ou teor satírico-pornográfico não eram propriamente uma novidade no pop brasileiro do começo dos 90. Do forró de Zenilton (cujo sucesso "O Pão da Minha Prima" foi regravado até pelo Raimundos) ao rock humorístico do Dr. Silvana & Cia. ("Serão Extra"), explorar essa verve cômica/libidinosa garantiu muitos hits (e boas risadas), até a chegada dos Mamonas Assassinas, que escancararam as portas da chinelagem alto-astral de vez.

José Francisco de Aquino (o rapper paulista Frank Frank) veio reforçar esse time, ao menos com uma música que foi hit dos bailes da época, "A Mulherada Tá Querendo Poder". A cacofonia gerada pela palavra "poder", não precisa nem explicar: "A mulherada tá querendo é poder e os homens tão querendo é..." Apesar do aparente machismo explícito no título/refrão, a letra é quase um manifesto ingênuo sobre as fêmeas oportunistas e safadinhas ("Existem minas que só querem tirar um barato / e com homens imbecis fazer gato e sapato / fazem o cara pagar tudo, deixam ele apaixonado / e ainda dizem que ele é o seu primeiro namorado / existem sete mil mulheres para cada um / mas dez mil homens para elas não valem nenhum").

O restante do álbum de estreia de Frank Frank, Raça, Axé e Poder (Zimbabwe Records, 1991) é bem abaixo da média do então embrionário rap brasileiro (Thaíde & DJ Hum e Racionais MCs já tinham discos bem consistentes nessa época), com letras pouquíssimo inspiradas e rimas fracas, mas contou com a produção do DJ Cuca, que montou bases irresistivelmente dançantes para Frank soltar seu flow esquisito. De qualquer forma, a letra de "A Mulherada Tá Querendo Poder" era berrada em uníssono quando tocava, por homens e mulheres. Com a exacerbada patrulha moral e de um politicamente correto que às vezes dá no saco, a faixa provavelmente seria condenada pelos tribunais das redes sociais hoje em dia. Por outro lado, Frank Frank parece um pregador da Pentecostal perto do que o funk carioca é capaz de produzir atualmente.

"A Mulherada Tá Querendo Poder": cacofonia.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Discoteca Gaudéria


Guilherme Silveira (a.k.a. DJ Feijão) deu um tempo com o Paradizzle pra lançar Summer Body, o primeiro álbum do seu projeto Lola Disco, pela ianque Sunrise Collective. O disco é um intrincado engavetamento de samples colados sob bases de french house ("I Want Your Love", a impronunciável "夏の準備は", "All The Time" e "G.T.H.Y.L.") e andamentos mais funky ("King Against The World", "Love Your Grooves"), entre amostras que vão de ABC à Rick Astley e alto poder de dançabilidade em 11 faixas originais e dois remixes. Com uma auto definição de tags que inclui disco, house, future funk, nudisco e vaporwave, é o próprio Guilherme que define qual é a da Lola, nesse papo que tive com ele:

Com tantas tags demarcando o território da tua música, onde exatamente está o Lola Disco?


Lola Disco foi um projeto que começou completamente despretensioso. Na verdade "ela" tinha uma outra função, foi um perfil fake que criei no Soundcloud para repostar as minhas outras coisas, do Paradizzle e também os sets e beats que fazia como DJ Feijão
.

Entretanto, sempre fui muito afim de fazer uns beats no estilo Nu Disco/French Touch, queria deixar um pouco de trabalhar com a música Rap e experimentar coisas mais groove porque, na minha opinião, o Rap deixou de samplear o Funk e a Disco e caiu num tipo de música que não me agrada, algo muito dark, deprê.

E com uma música basicamente apoiada em samples, já rolou de artista/gravadora pedir pra retirar algum?

Respondendo mais diretamente a pergunta anterior, Lola Disco se encontra dentro do Future Funk, um estilo nascido a partir do Vaporwave - "Future Funk is a music genre that emerged from the Vaporwave genre in the summer of 2012. It is characterized with the heavy use of samples, primarily of 70's and 80's funk and disco." Nunca rolou nada de pedir pra retirar música por causa de sample.
Basicamente por usarmos em sua maioria samples de artistas desconhecidos. Caras que, pra eles, é até uma homenagem. E na verdade, só se fica sabendo do uso de algum sample quando a coisa fica realmente grande, e o artista em questão fica sabendo. Mas no meu caso nunca rolou nada.



Na virada dos 80 pros 90, pessoal do rap e da house começou a temer os processos por causa do uso de samples não autorizados. Tu achas que isso influenciou de alguma forma o processo criativo? No Summer Body tem ABC e Rick Astley, por exemplo. Tu não ficas receoso de tomar uma advertência?

Nao fico não, porque a label pela qual lancei o álbum não tem abrangência para tanto e inclusive o método de venda é o Name You Price, ou seja, o álbum está disponível para baixar de graça e paga quem quiser. Outra coisa, estamos falando de um "gênero musical" onde o uso forte de samples é obrigatório, portanto o grupo que consome esse tipo de música já sabe disso e procura por isso.

Como é o teu processo de composição e montagem das faixas?

Basicamente se escolhe primeiramente um sample que pode se tornar um "main" sample a medida em que se escolhe outros samples para serem secundários. Muito frequente no caso de se usar a técnica do "micro sampling", em que se mistura samples de 4, 5, 6 ou mais músicas diferentes em uma mesma track, o que tenho feito em minhas últimas produções. Nas últimas também tenho adicionado outros elementos tocados por mim mesmo, como baixo e teclados. E nesse caminho quero seguir.


E no Summer Body tu cuidaste de tudo? Produção, mixagem masterização, etc...?

Sim, tudo. Tirando as faixas em que houve participações de outros caras, daí eles também participaram desse processo. VHS Logos, grande produtor aqui do RS e um dos precursores do Vaporwave, disse certa vez que o próprio artista que deve cuidar de sua própria mixagem e masterização, pois só ele sabe o resultado onde quer chegar. Entretanto isso requer muito estudo, algo em que estou tentando aprender, mas cada vez o cara melhora mais um pouco, também não há uma regra em termos de música.


E sobre hardware/software?

Eu uso o FL Studio, também conhecido como Fruity Loops, grande amigo de 9 entre 10 beatmakers de Rap, e foi assim que comecei. Ano passado comprei uma MPD, mas não consegui fazer ela funcionar como deveria, então ainda não a estou utilizando. Quando gravo baixo e outros instrumentos, uso alguns dos plugins que vem junto com o FL Studio. MPD é tipo uma MPC mais simples, que tu consegue sincronizar com o FL Studio ou outra DAW que você use.


Tu gravas os samples nela?


Isso, você consegue colocar, digamos, em cada Pad (botão) um recorte de sample que você recortou ou outro timbre de qualquer outra coisa, daí você consegue com as mãos ou "dedos" tocar no ritmo e dinâmica que você quer a sequencia que você pensou, junto com um Drum ou não.



Em "I Want Your Love", a introdução tem um ruído de estática numa frequência altíssima. Foi intencional?

Sim.
Isso faz parte do estilo, colocar gravações antigas, de rádio, TV e até mesmo ruídos da época inicial da Internet, faz parte da coisa retrô da história...
Não é contraditório um gênero chamado Future Funk buscar samples de disco e funk do passado?

Não acho contraditório porque justamente o nome já fala tudo, usar samples de coisas antigas para tentar parecer moderno ou do "futuro", que tem tudo a ver com a estética 80's do que eles pensavam ser o futuro, coisa que o Daft Punk faz desde os 90 com maestria. É que tipo, nos anos 70 e 80 a música tinha uma visão de futuro, eles se voltavam para o futuro. De uma maneira piegas e ingênua,
mas eles tinham essa visão. Depois veio o grunge e caras como Kurt Cobain só queriam se matar e serem deprês, hehehe... Não havia futuro para eles.

 Samples são uma fonte esgotável?

Existe sim uma quantidade quase infinita de samples, porém tem gente que já sampleia coisa que já foi sampleada... Entretanto acredito que, principalmente após o advento da música Rap e da Eletrônica, onde o DJ virou protagonista, o conceito de música foi mudado e hoje vivemos em outra época onde também a questão de ser "músico" pode ser revista.


Há planos para mídia física do Summer Body?



O pessoal quer muito que eu lance o Summer Body em cassete. Mas isso não depende apenas de mim, teria que falar com o pessoal da Sunrise. Mas pelo que já vi, com muito erros na entrega do material pelo pessoal que faz, talvez ainda não valha a pena. Tipo gravação errada, capa errada, etc... Já ouvi falar. E vá saber se vai vender mesmo.
 
Pra encerrar: tu tens algum tipo de planejamento sobre o projeto (vender determinado número de discos, excursionar, live PA, etc...), ou é um dia depois do outro, observando as reações?



Summer Body foi o fechamento de um ciclo, a partir de agora me voltarei para um outro foco.
Trabalharei cada vez melhor as tracks e um EP apenas de música brasileira está a caminho.
Com todo feedback positivo que ganhei no exterior com o Lola Disco, não seria justo que não tentasse ganhar o mercado nacional.

Como Lola Disco?

Ou outro nome, se achar que der na telha eu faço...

Summer Body, inteiro no Bandcamp:


Soundcloud:

sábado, 6 de maio de 2017

Moda Passageira



O quinto álbum dos californianos do The Anix é um erro geográfico: Ephemeral (2017, Cleopatra Records) passaria fácil por uma banda germano-escandinava de futurepop (mais uma subdivisão do technopop, que parece ser um filho bastardo do trance com o synthpop).


Fato é que, segundo o próprio grupo relata, o novo disco é uma guinada definitiva rumo ao eletrônico, já que o cruzamento com o rock era o foco até agora. Devo confessar que é a primeira vez que ouço algo do trio, então confio totalmente no release. Direto ao ponto: o grande problema de Ephemeral é a falta de uma (ou mais de uma) canção que faça realmente a diferença. Um single forte, vendável, popular, que impulsione o álbum para algo além dos ouvidos do povo de preto que frequenta pequenos clubes enfumaçados da noite de Los Angeles - se é que esses clubes existem, porque a imagem que tenho ouvindo isso é uma referência-clichê cinematográfica de inferninho futurista e decadente, onde a qualquer momento um Schwarzenegger metade ciborgue vai invadir o local com uma escopeta em punho e destruir garrafa por garrafa do bar em meia dúzia de tiros.

O cinema, aliás, é influência forte para o Anix. Eles dizem tentar se afastar de referências mainstream e veem filmes de temática dark como orientação para o som e para a imagem da banda. Não por acaso, o grupo gravou um single em 2011 com os noruegueses do Apoptygma Berzerk, que traz um cover de "Burn" (The Cure), tema do filme O Corvo, de 1994.

Ephemeral, no geral, é uma audição agradável. Tem algumas boas ideias incrustadas nas músicas, como os cellos sintéticos na dramática abertura "Again"; a guitarra limpa de "Remnants of Us" e a batida cambaleante de "Vanished". Gol contra é a onipresença de arpejos de sintetizador, que quase cansa o ouvido em uma hora de duração do disco.



Entre as doze faixas, o Anix ainda cometeu um cover asséptico de "Celestica" (Crystal Castles) que não fez feio:


O vídeo do single "Mask" é um bom resumo de Ephemeral: synthpop enegrecido, mas com potencial perceptível.



Já que o Depeche Mode desistiu do gênero faz algum tempo e o Erasure não acerta um disco há anos, recomendo a audição para os fãs ardorosos de technopop. Pode surpreender e, principalmente, vislumbrar um futuro que pode ser promissor pro The Anix - a despeito do título do álbum.

Ephemeral, inteiro no Bandcamp:

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Shakin' Stevens


Conheci o galês Shakin' Stevens (de batismo, Michael Barratt) no começo dos 80, com a esquisitona "Give Me Your Heart Tonight", incluída na trilha da novela Pão Pão, Beijo Beijo (1983). A canção é um bolerão pop dramático com um memorável (para o bem e para o mal) teclado com timbre de acordeom.

Apesar de ter começado no final dos 60, Stevens só foi deslanchar nos 80, mesmo, e cravou nada menos que 33 singles no Top 40 inglês em sua carreira (e foi solenemente ignorado nos Estados Unidos). Com um visual totalmente Elvis e uma pegada rock'n'roll (no sentido Neil Sedaka do termo), minha preferida deste, hããã, herói tardio do rockabilly britânico, é a cafoninha "You Drive Me Crazy": rebolativa, grudenta e divertida pacas.

"You Drive Me Crazy": pseudo neo Elvis.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Amnésia Techno


Tive que dar uma fuçada no Youtube pra ver se lembrava de alguma coisa de Undercover, o bem avaliado álbum do produtor canadense radicado na Alemanha Marc Houle, de 2012, já que só tinha a imagem da capa forte na memória (um Abraham Lincoln de riso ameaçador e olhos diabólicos). Em vão. Ouvi algumas músicas, mas nada que estivesse minimamente registrado em algum canto esquecido do meu cérebro.


Seu recente lançamento, Sinister Mind (saiu em Março pela Items & Things, selo germânico que tem Houle como um dos fundadores), vai pelo mesmo caminho. O que não deixa de ser curioso, porque o minimal techno das nove faixas prima, obviamente, pela repetição de riffs, arpejos e loops, o que teoricamente deveria fazer com que a quase exaustiva duração do processo (as faixas tem, em média, seis minutos) deixasse gravada ao menos trechos da música contida aqui. Ouvi Sinister Mind várias vezes e o que ficou está mais associado à minha memória de curto prazo do que qualquer outra coisa, prontinho pra ser esquecido. Não me culpe. O responsável é o próprio Houle e a volatilidade de uma música que vai permanecer nos fones de ouvido dos fãs mais ardorosos do techno autor por algum tempo, é bem provável que seja executada em clubes underground e depois, periga sumir sem deixar vestígios - como aconteceu comigo e Undercover. Se reconheço, por exemplo, “Energy Flash” (Joey Beltram), "LFO" (LFO) e "Nude Photo" (Rythim Is Rythim) já nos primeiros acordes, porque o mesmo não acontece com qualquer coisa de Sinister Mind? Longe de mim querer insinuar que Houle não tem talento, mas se o objetivo de agrupar algumas canções e lançar isso em forma de um álbum não é que o conjunto mereça ser, no mínimo, conservado na lembrança, então o que justifica lançar discos? As tentativas são válidas, OK. O gancho arabesco de sintetizador da abertura "Don't Think of Me" e as oscilações da frase de teclado da irresistivelmente sacolejante "Loafers" são boas investidas, mas são oásis encontrados eventualmente num álbum em que a média é enfadonha: "Failure" justifica o título de uma canção soporífera, "Dark Tom" parece ter teclas apertadas aleatoriamente em meio a espancamentos metálicos de bateria e "Conbular" arrasta-se serpenteando efeitos que voam de um canal para o outro das caixas de som. Uma das poucas que destoam do geral é o encerramento "Paligama" - techno que erige uma ponte imaginária entre Detroit e Berlim, engrenada e hipnótica. O problema é que em quase um hora, pouco mais do que vocais/vocoders assustadores e timbres angustiantes de sintetizador chamam a atenção. Muito pouco.

Sobre Sinister Mind, Houle disse que depois de mais de dez anos fazendo música, sentiu que era um bom momento para parar e avaliar sua jornada musical e que não havia planejado uma trilogia, mas percebeu que tinha tanta coisa para dizer, que limitar a apenas um LP não iria contar a história toda. O primeiro álbum da suposta série, como o título indica, refletiu as tendências mais escuras do seu som, conforme ele mesmo disse. A representação sonora desse propósito deixou a desejar no primeiro volume, mas estou curioso para ouvir os próximos.


"Loafers": oásis.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Culture Beat


O Culture Beat é um projeto alemão de Eurodance (ainda na ativa), fundado em 1989 pelo produtor Torsten Fenslau (falecido num acidente em 1993). Pouco antes de sua morte, Fenslau ainda viu o grupo estourar a banca com o single "Mr. Vain", lançado no começo daquele ano e número um em 13 países. "Mr. Vain" conta com os ótimos vocais de Tania Evans, que substituiu a primeira vocalista do projeto, Lana Earl - que canta no terceiro single do Culture Beat, "I Like You", ainda de 1990. De sucesso moderado nas charts, mas bem executada nas pistas do mundo inteiro, "I Like You" é um clássico exemplo da house europeia que dominaria o mundo até a metade dos anos 90: rap nervoso (a cargo do americano Jay Supreme), típico refrão-gancho feminino e instrumental não muito original, mas eficiente. Aqui ainda há samples precisos, uma linha de baixo potente e pianos galopantes no melhor estilo ítalo. Memorável.

"I Like You": coreografia ruim.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Nostalgia Futurista


Voyager, quinto álbum do Vitalic (o produtor francês Pascal Arbez-Nicolas), saiu no começo do ano e parece já ter envelhecido uns dez anos. Na verdade, metade desse tempo se passou desde o último dele, o fraco Rave Age, mas a sensação de déjà-vu é constante durante os 42 minutos do novo disco.

Não que isso seja ruim, afinal não tem nada no techno atual que não soe como reciclagem. O problema - mais uma vez num disco do Vitalic - é que Voyager oscila demais. O techno espacial (evidenciado pela arte de capa, título, temática das canções e timbres usados) perpetrado por Arbez tem ótimos momentos de inspiração eletrônica e nostálgica, como em "Waiting For The Stars", com arpejos pesados de baixo sintético (que impulsionam uma grande canção pop dançante) ou "Levitation", que é mais Chemical Brothers que o próprio Chemical Brothers recente, embora a colisão de sintetizadores tenha me lembrado de cara "It's More Fun To Compute", do Kraftwerk (1981). A tristonha "Hans Is Driving" (com um vocoder lânguido e vocais "reais" de Miss Kittin) caberia em qualquer álbum do AIR e com um bom fone de ouvido é possível ainda perceber sutilezas como um lindo coral celestial no segundo plano. "Use It Or Lose It" também não faz feio, mais enérgica e dançável que a média do disco. Ainda da metade apreciável de Voyager, "Don't Leave Me Now" é um belo encerramento; uma delicada e emotiva faixa (coproduzida por Roger Hodgson, ex-Supertramp), que parece ter sido gravada na solidão-conforto de uma estação espacial. Os maus momentos passam por "Lightspeed" e seu riff de sintetizador grosseiramente baseado em "Funkytown" do Lipps, Inc. (1979), pela viagem prog sem sal de "Nozomi", a pretensão barroca de "Eternity" e a trôpega "Sweet Cigarette".

No fim das contas, ignorando algumas faixas (ou tentando ter mais paciência do que eu tive), Voyager é uma boa audição. Seu lado mais experimental soa árido e pedante, não acho que seja a praia de Vitalic. Já quando ele usa o que parece ser uma bela coleção de sintetizadores vintage para compor canções de inegável apelo pop (como "Waiting For The Stars" e "Don't Leave Me Now"), o resultado é altamente positivo. No mínimo, dá pra dizer que Voyager é bem melhor que seu antecessor e, ao menos, não caiu na vala comum EDM.


 


"Waiting For The Stars": nostalgia futurista.

domingo, 16 de abril de 2017

Barão da House


House Music é uma arte destinada ao single.

Sim? Frankie Knuckles, Marshall Jefferson, Larry Heard, Ten City: singles espetaculares, nenhum álbum inesquecível.

Não? Leftfield (Leftism), Daft Punk (Homework), Basement Jaxx (Remedy), Black Box (Dreamland)... há vários exemplos de gente que dedicou o mesmo cuidado ao álbum que dispensou aos 12 polegadas.

Empate técnico.


DJ e produtor de Chicago (espécie de Jardim do Éden da coisa toda), Lee Foss já tem no portfólio uma bela coleção de singles autorais - que ele lança desde 2010. E chega a 2017 disposto a aumentar a porcentagem dos Discos de House Que Valem a Pena Ouvir.

Seu recém lançado álbum de estreia Alchemy (Emerald City Music, 2017) é, numa palavra, primoroso. Parta do princípio que um bom álbum - independente do gênero - é aquele que funciona, também, em casa. No caso de um disco de dance music, que a aplicação não se restrinja somente às pistas de dança. Ponto para Foss. Alchemy rola inteirinho sem ter nada que te faça procurar o botão skip. São 12 canções absolutamente bem feitas, house em essência, mas perfeitamente digeríveis para qualquer apreciador de boa música pop. Mesmo nas faixas que parecem exclusivamente direcionadas para execução entre luzes ofuscantes e volume médio de 110 decibéis (uma boate, por exemplo), há elementos na música que amenizam a experiência para o ouvinte médio. "Deep Congo", a faixa de abertura, é um caso assim. Com uma linha de baixo sintética de fazer tremer a cristaleira e vocais picotados no refrão, há várias camadas de teclados trabalhando no segundo plano que fazem com que as amostras mais ásperas de som acabem harmonizando perfeitamente em conjunto. O mesmo princípio aplica-se às instrumentais "Transit Of Venus" (absolutamente criativa em suas variações de baixo), "Laserdance" (com suas baterias eletrônicas paleolíticas) e ao encerramento "Lake Shore Drive" (camadas sobre camadas de teclados engrenados num estilo mais próximo à Detroit do que Chicago).

O mesmo apuro dedicado em cada hi-hat, em cada timbre de teclado de Alchemy, também é conferido aos vocais e na escolha de quem canta no álbum. De uma nova safra apadrinhada por Foss viceja a impressionante Alex Mills, que participa brilhantemente de "Haunted"; o sempre presente Ali Love (que já gravou várias faixas com Foss, incluindo o projeto Hot Natured, com o outro chefão do selo Hot Creations, Jamie Jones); a doce Camille Safiya (que participa em "The Gift" e na faixa título); Anjulie (na refrescante pop song "Green Light") e Josh Taylor na funky house "Play With Fire".  

Alchemy (como tudo que Lee Foss já pôs as mãos) dispensa formalmente truques e clichês encontráveis facilmente na cena dance mainstream atual - ambiciosa, cheia de vaidade e arrogante como nunca. É um álbum sólido de House Music (merece as maiúsculas) que não despreza o pop, sem pasteurização. Positivamente detalhista, altamente dançável e de uma audição prazerosa do início ao fim.

Enquanto o sofrível Chainsmokers vai pra primeiro na Billboard, Lee Foss, em seu debut, provavelmente cravou o que deve ser o disco de house do ano. Não perca.


"Haunted": só uma das muitas faixas excelentes de Alchemy.

sábado, 15 de abril de 2017

Buscando Ser Stelar


Sei não, mas fiquei com a impressão de que o austríaco Marcus Füreder quer ultrapassar as janelas das casas europeias. Mesmo não frequentando os primeiros lugares das paradas, o pioneirismo de seu projeto Parov Stelar no campo do electro swing / future jazz sempre foi muito bem assimilado pelo público do Velho Mundo, mas no resto do planeta, Füreder provavelmente pode ir à padaria sem ser incomodado. Até então com uma produção cuidadosa e sempre com ótimos vocalistas convidados, seu novo single "State Of The Union" é de um panfletarismo perigoso e musicalmente ordinário, com naipe de metais qualquer nota e estrutura dance bem pop - muito próximo às tentativas recentes de nulidades como (argh) Avicii. Luz amarela acesa.

"State Of Union":

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Gretchen


Visitando o Wikipedia de Gretchen, me espantei com um dado: ela vendeu mais de 12 milhões de discos. É mais que o Kid Abelha e Lulu Santos, o dobro de Skank e Titãs. Há de considerar a relevância da informação para a, hummm, "cena pop" brasileira. Ainda mais para uma artista que nem vivia exclusivamente da música. Além de cantora, a carteira de trabalho de Maria Odete Brito de Miranda Marques pode tranquilamente estampar as profissões de atriz, dançarina, youtuber e personalidade da televisão - regulamentadas ou não (Rainha do Bumbum é título, não conta para aposentadoria).

Fato é que Gretchen iniciou, mesmo, como cantora, no grupo vocal feminino As Melindrosas, fazendo versões de cantigas de roda sob bases de disco music. A despeito da ideia insólita, os quatro primeiros álbuns do grupo venderam mais de quatro milhões de cópias, o que chamou a atenção do DJ e produtor argentino radicado no Brasil Mister Sam, que a lançou em carreira solo. O debut da cantora (então com tenros 19 aninhos) foi My Name Is Gretchen (capa acima), de 1978, pop com toques de disco e mambo. No geral é fraquinho, Gretchen mais sussurra do que canta (arrisca uns trinados na tentativa meio glam de "Rock'N Roller"), mas imagino que coisas como "I Love You, Je T'Àime" e "My Name Is Gretchen" devem ter deixado a turma de Ernesto Geisel meio sem saber o que fazer quando ouviu. Canções de gosto duvidoso à parte, "Freak Le Boom Boom" é o grande hit aqui. Levadas de violão e piano irresistíveis, palmas por cima da caixa da bateria, trompete chicano e Gretchen gemendo a letra com trechos em inglês, espanhol e francês. Resultado: o single vendeu mais de cem mil cópias, o álbum My Name Is Gretchen foi parar em 5 milhões e nascia um clássico das pistas (o single saiu em vários países da Europa, inclusive). Fora o que ela deixava a galera da mão direita suando frio cada vez que aparecia na Discoteca do Chacrinha.

"Freak Le Boom Boom":

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Superousado


É um projeto ambicioso: o DJ e produtor alemão Aksel Schaufler (a.k.a. Superpitcher) já tem prontinho seu terceiro álbum, The Golden Ravedays. Acontece que ele vai lança-lo em doses homeopáticas. São 12 discos com duas faixas cada e cada faixa na casa dos dez minutos, disponíveis em vinil e digital, que serão jogados no mercado - um por mês - durante este ano.

Ouvi o primeiro, The Golden Ravedays 1 (os discos saem pela Hippie Dance, selo que Schaufler mantém com o produtor mexicano Rebolledo, ligado à Kompakt) e não achei lá grande coisa. O lado A com "Little Raver" é um negócio meio psicodélico-esquisitinho, dançabilidade zero, vocais chapados e riff de teclado sessentista repetindo-se ad infinitum. Já no B temos "Snow Blind", com seus hipnóticos e quilométricos 14 (!) minutos, onde Superpitcher retoma o 4X4 e sampleia a introdução de uma das pepitas do repertório de Sade, "Immigrant". O sample, aliás, eu caguetei pro Who Sampled e eles aceitaram minha denúncia. A propósito, esse exercício de dedo-durismo acabou sendo também minha primeira contribuição para o site.

"Snow Blind":

terça-feira, 11 de abril de 2017

Artilharia Dub


O reggae, em suas mais variadas formas (dub, dancehall, ragga), sempre esteve presente na maioria dos álbuns do Thievery Corporation. Desde o debut Sounds From The Thievery Hi-Fi (1996), fortemente influenciado pelo dub, passando por referências mais (The Richest Man in Babylon, 2002) ou menos (Saudade, 2014) explícitas, o duo de Washington, D.C. formado por Rob Garza e Eric Hilton explora com maestria e propriedade o legado musical da ilha caribenha.

Então, o que a competente dupla oferece no seu mais recente lançamento The Temple of I & I (saiu em Fevereiro, pelo selo Eighteenth Street Lounge Music, de propriedade do Thievery) não causa nenhuma surpresa a quem já acompanha o grupo há algum tempo. A diferença é que desta vez temos um disco quase que inteiramente dedicado ao reggae. As duas únicas exceções entre as quinze faixas são "Love Has No Heart" (com um belíssimo arranjo de cordas) e um certo ar nostálgico encharcado de ecos e dos vocais melancólicos de Elin Melgarejo na trip enfumaçada de "Lose to Find". O restante do álbum traz desde a pegada mais roots ("Strike the Root", "Weapons of Distraction", "Drop Your Guns ", "Babylon Falling", com ótimos naipes de metais), passando por reggaes digitais ("Time + Space", "Thief Rockers"), fusões com rap ("Letter to The Editor", "Ghetto Matrix", "Fight to Survive") e faixas que parecem já ter nascidas como clássicos do gênero ("True Sons of Zion", "Road Block"), tudo feito com o esmero característico das produções de Garza e Hilton. The Temple of I & I conta com oito vocalistas convidados, que fornecem uma diversidade estilística às canções equalizada finamente pelo Thievery, garantindo ao trabalho a homogeneidade necessária para que nada soe fora do lugar, mesmo que o downtempo classudo e refinado da dupla reúna tantos elementos diferentes. Fora que é bem provável que eu deva estar completamente por fora do que anda acontecendo ao reggae ultimamente, porque este é, sem dúvida, o melhor disco do gênero que ouço em (muitos) anos.


"True Sons of Zion":

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Fogueirinha


Francamente, achei fraquíssima essa "Fire", nova da Beth Ditto (Gossip). Vi muita gente carimbando a tag "Dance" no single, mas... onde? "Fire" é uma faixa que o Alabama Shakes faria, usando claps na caixa. De qualquer maneira, tô curioso pra ver se o primeiro álbum solo de Ditto, Fake Sugar (que só sai em Junho) vai soar assim, também. Eu espero que não. Prefiro que tenha mais a ver com a excelente "I Wrote That Book" (2011), ali sim uma experiência muito bem sucedida com house da cantora do Arkansas.

"Fire":

domingo, 9 de abril de 2017

Dez Perguntas Para: Marcelo Donolo


No comecinho dos anos 90, o argentino Marcelo Donolo (então tecladista do duo technopop Tek Noir) e o vocalista brasileiro Filippo Crosso - vislumbrando uma hipotética carreira internacional - escolheram os nomes artísticos Mark Rhiley e Phillip Ashley, apostando num possível sucesso além fronteiras de sua recém formada banda, o Tek Noir. Ambições à parte, não foi bem isso que aconteceu. A curta carreira do Tek Noir durou dois discos, Alternative de 1990 e Destination de 1993, e depois disso, nunca mais ouvi falar da dupla Rhiley/Ashley. Felizmente, encontrei Donolo (que está morando nos Estados Unidos) uns meses atrás da única maneira possível disso acontecer: pelo Facebook. Eu estava lendo um post do Front 242 (não por acaso, uma das paixões de Marcelo) e lá estava ele, comentando a respeito. Achei muita coincidência uma pessoa fã do grupo belga com o mesmo nome do cara responsável pelos sintetizadores e programações da nossa (sem medo de errar) melhor banda synthpop. Verifiquei o perfil. O próprio. Pedido de amizade aceito, pedido de entrevista aceito e aí está, com muito orgulho, Marcelo Donolo, do Tek Noir.

1) Como você e o Filippo se conheceram?

Uma amiga minha nos apresentou. O Filippo tocava numa banda cover e fui assistir o ensaio na casa dele depois de ter visto a banda numa festa, o meu "Prom". Eu tinha uma demo muito ruim que tinha feito num sintetizador Ensoniq ESQ1, mas logo compartilhamos ideias sobre o tipo de música que ouvíamos e o tipo que queríamos compor. Uma semana depois, formamos a banda. No próximo fim de semana, fomos assistir O Exterminador do Futuro no cinema - lembra da cena em que o Terminator mata quase todos numa discoteca? A discoteca chamava-se Tech Noir.


2) De onde partiu seu interesse por música e como surgiu a ideia de montar o Tek Noir?

Minha mãe tocava piano e tínhamos um em casa. Cresci ouvindo e tocando música clássica. No começo dos anos 80, ouvi três artistas que me influenciaram muito: O Duran Duran, o Kraftwerk e Jean-Michel Jarre. Logo descobri Human League, Depeche Mode, Pet Shop Boys, Front 242 e Nine Inch Nails. As ideias musicais que formaram o som do Tek Noir vieram, em grande parte, dessas influências.


3) Como foi a produção de Alternative, o primeiro álbum, dividida entre Dino Vicente e Mark Brydon?

Queríamos explorar dois lados da música eletrônica: o lado pop (Tek) e o lado mais experimental, ou "dark" (Noir). O Brydon tomou conta do lado A ("Beat the Rhythm", "Drawings of Sorrow", etc...) e o Dino do lado B ("In the Name of the Father", "Final Fall"). Os dois foram espetaculares e tinham estilos muito diferentes. O Mark preferiu reconstruir o som do Tek de acordo com o seu entendimento do que era o mercado Europeu naquele tempo. O Dino optou por usar o próprio ponto de vista da banda para melhorar a qualidade sonora e a composição, sem influenciar o caráter do nosso trabalho. O resultado foi interessante... o lado A parece muito o estilo do Mark. O lado B, do Tek. Ao fim do dia, acho que o Dino foi muito mais fiel em preservar o som da banda. Tenho tremendo respeito pelo Dino.


4) Para os shows da época, quais equipamentos vocês dispunham? 

Dois ESQ1 da Ensoniq, um DAT da Sony, a bateria TR-505 da Roland e um computador com Cakewalk. Os dois discos do Tek Noir foram feitos no ESQ1. Adorava esse sintetizador.


5) O debut Alternative tem um status cult hoje, você tem ideia de quantas cópias o álbum vendeu e o que poderia ter sido feito para que ele tivesse realmente estourado, considerando seu potencial?

Muito legal ter esse status cult! Acho que vendeu umas 75,000 cópias. O problema da Stiletto foi que não tinham paciência nem experiência ou tampouco sabiam como promover uma banda e os canais de distribuição eram poucos e novos na época. Faltou infraestrutura. A maioria das cidades onde o Tek tocou não tinham discos nas lojas. Nossos "managers" não tinham nenhuma estratégia. Os shows eram uma maneira deles ganharem dinheiro. Não tinham nenhum interesse no futuro da banda. Realmente uma pena.

Alternative, inteiro no Youtube:



6) O que você, avaliando hoje, faria diferente sobre Alternative?

O Dino devia de ter produzido o disco inteiro. "Beat the Rhythm", "Talk of Desire", e a "Drawings of Sorrow" eram muito mais interessantes antes da produção do Mark. Eu teria incluído mais uma faixa, a "Is This Devotion", que tínhamos em demo. Adorava aquela música, para sempre perdida... não sei onde foi parar o K7.

"Falling In My Arms", do segundo (e último) álbum, Destination (1993):



7) O segundo e último álbum, Destination, tinha planos de ser lançado pela Stiletto (que já havia encerrado atividades quando o disco foi lançado, em 1993)? Como foi o processo de produção/lançamento/distribuição desse álbum pelo selo Dance Xplosion e porque o Tek Noir acabou logo em seguida?

Eu já estava cansado das dificuldades de trabalhar com a gravadora e comecei a trabalhar numa empresa. Casei pouco depois de terminar o Destination e decidimos terminar o Tek. O Filippo conseguiu produzir o Destination pela Dance Xplosion, mas eu já estava nos EUA quando começaram uma pequena tour com outro tecladista amigo nosso.

"The Whole Of The World":


8) Tu tens ideia de como repercutiu o trabalho do Tek Noir fora do país? Teve notícia de algum hit em alguma rádio ou parada estrangeira? Quais países vocês se apresentaram na época?

Tocamos numa rádio em New York e a banda tocou no rádio na Argentina e no Peru. Não fizemos nenhum show fora do país.

9) Existe alguma possibilidade do Tek Noir voltar, para algo como uma série de shows comemorativos, reedição de seus dois álbuns, alguma coisa do tipo?

Eu faria um terceiro disco e uma mini tour, com certeza. Numa época, tentei convencer o Filippo de compor algo juntos, mas não deu certo. Fiz vários projetos solo depois de um tempo... o Khommand 45 e o ALTERSTÆT, que está no iTunes, Amazon, etc... Hoje em dia seria super fácil produzir um disco e distribuí-lo. Que tal a gente convence-lo?

"Serenity", do projeto solo de Marcelo, ALTERSTÆT:


10) O que tu tens ouvido e o que não sai do seu fone de ouvido nunca? Quais são suas músicas preferidas, eternas e atuais?

Legal essa pergunta! 

Eternas:
 
1. "Enjoy the Silence" e "World in My Eyes" - Depeche Mode
2. "Don't Crash" e "Headhunter" - Front 242
3. "Blue Monday" e "1963" - New Order
4. "It's a Sin"e "West End Girls" - Pet Shop Boys
5. "Seventh Stranger" e "Save a Prayer" - Duran Duran
6. "The Man Machine" e "Radioactivity" - Kraftwerk
7. "Oxygen" e "Zoolook" - Jean-Michel Jarre
8. "Coolesville" - Laurie Anderson
9. "Falling in My Arms"e "Twixt Land and Sea" - Tek Noir ;)
10. "Frozen" e "Bedtime Story" - Madonna
11. "Lack of Sense" - Tribantura  

Atualmente: 

1. "The Dictator Decides" - Pet Shop Boys
2. "Serenity" - ALTERSTÆT :)
3. "Where's The Revolution?" - Depeche Mode
4. "Oxygen 3"- Jean-Michel Jarre
5. "Kill Your Darlings" - Mesh
6. "Judge of My Domain" - Covenant
7. "Amor Fati" - Washed Out
8. "All is Full of Love" - Björk

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