sexta-feira, 31 de maio de 2013

Sexta Feira Bagaceira: The Maxx


The Maxx foi só mais um dos muitos projetos dos belgas Serge Ramaekers e Dominic Sas. Com o estouro da cena new beat no fim dos anos 80, o duo criou o Confetti's - hit de pista na Europa com "The Sound Of C". O mesmo aconteceu com "Cocaine", do Maxx. Embasada em sintetizadores e na repetição do sample "Colombia's Amazon Basin has become a production center for the country's biggest illegal export: Cocaine", o single foi lançado em 1988 e rapidamente virou febre nas danceterias. Num tempo em que a segmentação não chegava nem perto do nível absurdo de hoje (um DJ pra cada subgênero de dance music), "Cocaine" foi comodamente inserida num outro movimento que tomava conta do planeta: a acid house.

Serge Ramaekers conseguiu reconhecimento maior ainda em 1993, com seu remix para "Living On My Own", de Freddie Mercury (quase dois anos depois da morte do cantor), número um em vários países. Também nesse ano e ainda em parceria com Dominic Sas, embarcou no eurodance com o grupo T-Spoon, do lamentável hit "Sex On The Beach".

O que ficou de melhor mesmo da carreira da dupla de produtores foi a batida lenta e os synths pesados de "Cocaine", uma faixa que veio do underground sem rosto da Bélgica pra animar clubes do mundo inteiro.

"Cocaine": the biggest illegal export.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Australiahouse


Mais uma ótima novidade vinda da Austrália: o Adapt or Die é formado por Tony Mitolo (baterista de palco do Empire Of The Sun) e Alex Gooden (engenheiro de som do Pnau). Seu Dream Control EP sai oficialmente neste final de semana, mas o som já se espalha pela rede. "Dream Control" é uma house típica da virada dos 80 pros 90: bassline forte, percussão eletrônica altamente criativa, riff ganchudo de sintetizador e vocais picotados. "Diavola" concentra os efeitos na incrível maquininha Roland TB-303 e tem um sample bem discreto dos teclados de "Pacific State" do 808 State. É como estar numa rave na Inglaterra em 1989. Promete.

Back to the 90's:

quarta-feira, 29 de maio de 2013

OMD no Jools


O OMD tocou ao vivo no Later... with Jools Holland hoje. É a primeira vez da banda no programa (que é apresentado desde 1992, na BBC). Foram três faixas - com a formação original - e uma entrevista. Abaixo, o clássico "Enola Gay", impecável.

Promised You A Miracle


Quem liga pra esse par de vasos aí atrás quando tem essa guria linda cantando no Chvrches?

Buenas, enquanto o álbum não rola, os escoceses soltam mais um single. "Gun" não é tão legal quanto "Now Is Not The Time" do EP Recover, que o trio lançou em Março, mas ainda assim é uma boa canção. Aqui a coisa está mais pra Sandra e Olivia Newton-John do que pra aparente seriedade de Recover.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Old Romantics


Será que ainda falta alguém? O Visage não gravava há 29 anos e, do nada, reaparece em 2013 com disco novo. Primeira reação: desconfiança.


E olha que as coisas não estavam fáceis para o andrógino Steve Strange (voz, maquiagem) nos últimos anos, incluindo aí sua luta contra a dependência de heroína, um colapso nervoso e - fundo do poço - uma condenação à três meses de prisão por furto. Em 2012, Strange apareceu num chat da TV britânica ITV afirmando estar trabalhando com Midge Ure (Ultravox) num novo álbum do Visage. E aí está Hearts And Knives.

A pergunta óbvia é "e presta?". Bom, o Visage sempre foi uma banda de singles. No currículo, os ingleses tem a monumental "Fade To Grey" (1980), um clássico à prova do tempo que tem que estar em qualquer Top 10 Synthpop Songs Of All Times. Depois tem a bonitinha "Mind Of A Toy", e assim, com muita boa vontade, "In The Year 2525" e "The Damned Don't Cry". Seus álbuns anteriores vão ser eternamente ofuscados por "Fade To Grey" - e isso não vai mudar com Hearts And Knives. Mas é um disco decente, menos espalhafatoso e mais sólido do que os outros três que o grupo lançou nos 80.

O fantasma de "Fade To Grey" ainda ronda as composições - é só dar uma ouvida na programação de bateria e nas rajadas de synths de "She's Electric (Coming Around)", mas com faixas como o bom single "Shameless Fashion", o Visage vai se desvencilhando do seu estigma cinza. Com uma vocalista na nova formação (Lauren Duvall), algumas canções lembram os memoráveis duelos de Philip Oakey com Susan Ann Sulley e Joanne Catherall, do Human League ("Hidden Sign", "Dreamer I Know"). Além de Midge Ure, chapas de Steve Strange como o ex-tecladista do Simple Minds Mick MacNeil e o baixista Youth (Killing Joke) participam de Hearts And Knives, preenchendo com sintetizadores épicos faixas como "On We Go", ou fornecendo uma base robusta de quatro cordas, como no baixo disco de "I Am Watching" e no timbre fantástico desse instrumento em "Lost in Static". O comeback do Visage aprovou: Hearts And Knives é sim um bom disco.

Agora só falta o Kajagoogoo voltar. O quê? Eles voltaram? Em 2003? Nãããããooooo!

"Shameless Fashion": bem-vindo de volta, Steve.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Segunda Class: Snoop Lion

 

"Eu sinto que sempre fui rastafari, eu só não tinha o meu terceiro olho aberto". Ah tá. Essa foi a justificativa do rapper Snoop Dogg para sua recente transformação em um servo de Jah.


 Praia, mulheres e maconha: as preferências continuam as mesmas, só mudaram nome (para Snoop Lion) e local (da California pra Jamaica). E olha que uma pá de gente abraçou a ideia. Reincarnated tem doze (!) produtores dividindo a mesa de som (e o beck). Nem por isso saiu um álbum acima de razoável. Diplo meteu a mão em quase todas as faixas, o que sempre é um mau sinal. De admissível, temos o nheco-nheco preguiçoso da abertura "Rebel Way" (com participação de Drake e uma linha de baixo convincente), o bom refrão de "So Long", o dancehall bacana de "Smoke The Weed" (com outro notório apreciador da erva, Collie Budz) e o ritmo totalmente justificado pelo título "Tired Of Running" (com o picareta Akon). E, bom, era isso. O resto chega bem perto de insuportável, especialmente na descontrolada "Get Away", nos teclados irritantes de "Fruit Juice" e no reggae fofinho mirando as paradas de "Ashtrays And Heartbreaks" (Miley Cyrus aparece nessa). Não por acaso, essas três faixas tem produção da dupla Major Lazer / Diplo, ou seja, não tinha a menor chance de dar certo.

Próximo passo: voar pro Rio e cair no funk carioca. Fica até a sugestão pro novo alter ego: MC Cachorrão. Que tal, Snoop?

"Ashtrays And Heartbreaks": o leão e a gatinha.

domingo, 26 de maio de 2013

Westphalia Bambaataa


Maximilian Lenz não nasceu ontem. Está nesse negócio de discotecagem desde 1983, lançou seu primeiro 12" em 1985. Sua técnica de mixagem apurada e suas produções techno prapular o tornaram o mais conhecido e bem-sucedido DJ da Alemanha. 


Agora, apavorante é a moral de WestBam em Götterstrasse, seu décimo primeiro álbum, que saiu no final de Abril. A lista de vocalistas convidados é estelar: Lil Wayne, Iggy Pop, Bernard Sumner, Brian Molko e Kanye West, pra ficar só no primeiro escalão.

 Götterstrasse é econômico nas batidas, um techno que não deixa o pé ir na lata (130 BPM, em média), 4x4 de bumbo pesado onde a única coisa que varia é o som da caixa - um timbre diferente pra cada música. WestBam usa uns ataques fortes de strings, uma orquestra cibernética que garante alguma diversidade às 14 faixas do disco.

Richard Butler (Psychedelic Furs) canta na dramática faixa de abertura (e primeiro single extraído do álbum) "You Need The Drugs", mais adequada pro abatimento de um fim de festa frustrante do que pra euforia do auge da noite. "Iron Music" com a voz grave de Iggy Pop é sombria o bastante pra não virar hit de pista; "She Wants" careceu de um refrão, mas tem os vocais de Bernard Sumner pra garantir que seja reconhecível à distância. "Sick" quase soterra Brian Molko com seu instrumental suntuoso; Kanye West consegue soar tão pedante quanto suas produções recentes na marcial "Radio Siberia" e o vocal elegante de Hugh Cornwell (do seminal grupo punk The Stranglers) soa meio deslocado na base sem graça de "A Night To Remember".

As participações menos badaladas são as melhores de Götterstrasse. Em "To The Middle Of Nowhere", a veterana cantora alemã Inga Humpe encaixou sua voz doce com perfeição às cordas que WestBam adicionou ao tom constante da bateria, num synthpop primoroso (com resultado semelhante na outra música em que Humpe participa, "Gцtterstrasse No. 1"). "Solid Sound" (com o desconhecido Andrew Tyler) é um techno engrenadinho que não faz feio e "We Feel Love" (participação de Afrika Baby Bam do Jungle Brothers) é ordinária, mas a boa linha de baixo, os backing vocais afinadinhos e o infalível panfletarismo paz & amor bastam pra torná-la uma dance track popular no verão do hemisfério norte. Outro bom momento é a lúgubre "Where We're From", que revive o Ultravox com seus sintetizadores ameaçadores, clima desolado e vocais da cantora pop Rockell.

A Deluxe Edition ainda vem com versões dub das faixas, com andamentos diferentes e vozes limadas sem dó.

Chamar esse pessoal todo pra trabalhar em Götterstrasse mostrou reverência ao que WestBam representa, mas foi arriscado. Talvez o DJ e produtor alemão não tenha sabido administrar tanta gente relevante num único trabalho, e a consequência foi um disco morno, com impressão de subaproveitamento. Sintomaticamente, as vozes mais afastadas dos holofotes foram as que mais brilharam em Götterstrasse.

"To The Middle Of Nowhere": sublime.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Sexta Feira Bagaceira: Panjabi MC


Panjabi MC estourou em 2002 com o single "Mundian To Bach Ke": a genial mistura inclui um rap cantado por Labh Janjua, bhangra (uma forma de música e dança originária do Punjab, região norte da Índia e Paquistão) e um sample em rotação mais lenta do baixo do tema d'A Super Máquina. A canção vendeu algo em torno de dez milhões de cópias.


Em 2010, Panjabi (nome verdadeiro Rajinder Singh Rai) lançou o álbum The Raj, uma coleção de 15 canções que trazem a sempre interessante fusão do primeiro com o terceiro mundo, o excitante cruzamento entre a tecnologia e a tradição dos instrumentos típicos (sitar, percussões), a urgência do hip-hop rapeado na velocidade da luz - e que fica mais interessante ainda na língua punjabi. A faixa de abertura do disco, "Moorni", é o melhor cartão de visitas possível. Não precisa entender uma palavra da letra pra se deixar levar pela batida salpicada de baterias eletrônicas, pelo loop de violão e pelos vocais hipnóticos repetindo esse "balle balle" insistentemente (em punjabi, a expressão descreve um sentimento de felicidade). Feliz de quem estiver na pista de dança numa hora dessas.

"Moorni": espetacular.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Feet In Motion


Altos e baixos na terceira compilação que acabou de sair da Get Physical, ótimo selo alemão de eletrônica (capa engraçadinha acima). Focada em deep e tech house, a coletânea abre com o climão dark de "Hands Full Of Black Color" do produtor Bryan Kessler, vira com a parceria entre Manuel "Mantu" Overbeck e Adeline Supreme na batida suingada de "Next Gen" - que é um ótimo contraponto para os vocais sexy, segue com as baterias nervosas de "When It Was Good" (Ioakim Sayz) e emenda um tech house padrão maquinado pela dupla britânica Stereo.type ("Momento"). A primeira boa surpresa é "All Gods Love" de MAD ! Feat. Antranita: ela tem um baixo cavalar totalmente anos 90 e os vocais reverberam como se tivessem sido gravados no banheiro do produtor. Não sei se a Antranita dos créditos é um sample de alguma diva underground ou se os vocais são originais, mas o resultado ficou bonito demais. Depois tem os graves no limite da distorção de Acumen em "Copie Conforme", o baixo elástico de "Get Into The Groove" (nenhum sample de Madonna aqui) de Hector Couto e a dura de cintura "Agent Elastic" do DJ Hal. Outro bom momento é o inacreditável freestyle "Spend The Night" (Palma & Salvatierra), que parece uma gravação feita em algum estúdio na Miami de 1988 (pensa no Noel Pagan gravando house). Get Physical Tracks Volume 3 passa a régua com a esquisitona "Some Sense" de Julio Victoria - com os vocais grandiloquentes de um tal de Steinlausky. A faixa aparenta uma certa falta de harmonia entre a voz de barítono do cantor com os teclados flutuantes e a base houseificada, mas esses elementos que parecem não ter nascido um pro outro acabam por tornar a faixa estranhamente encantadora, além de ser bem sacolejante.

Dá pra comprar separado no Beatport ou optar pelo álbum todo mixado e pagar de Steve Angello enquanto você coloca os fones de ouvido, capricha na cara de concentrado e banca o fodão das viradas na sua festinha descolada. Das dez faixas, metade é jóia (particularmente, as que contém vocais), o resto pode até preencher o requisito "manter os pés em movimento", mas também não tem nada de inesquecível.


"All Gods Love": 1991 é hoje.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Por Dentro Dos Países Baixos


 Solex é o projeto da holandesa Elisabeth Esselink, que ganhou alguma atenção no final dos anos 90 sampleando vinis que encalharam em sua loja em Amsterdam (especialmente com o esquisitão Pick Up, lançado no Brasil pela Trama em 1999).

Sua nova empreitada (já é a sétima), é uma ideia interessante: no verão de 2008, Esselink e o amigo Bart van Poppel percorreram numa lancha rios e lagos que cobrem as doze províncias holandesas para um documentário chamado Solex Ahoy! The Sound Map of the Netherlands. Em cada província um time diferente de músicos foi convidado a subir a bordo, e, no improviso, criar uma homenagem à paisagem da terra de van Gogh. Ao retornar à Amsterdam, Esselink processou o resultado - incluindo conversas, monólogos e sons ambientais - em doze composições, uma para cada província. Acabou virando a trilha sonora do documentário. Entre violões, metais, gansos e acordeons, é um negócio meio blues rural, meio rústico. Mas não malfeito.

Se você acordou com um espírito Urtigão, é o que há.

"Groningen": partiu Holanda.

terça-feira, 21 de maio de 2013

A Encruzilhada


É um dilema que deve acompanhar Andy McCluskey (baixo, vocais) e Paul Humphreys (teclados, vocais) desde o fim dos anos 80, sempre que a dupla senta pra conversar sobre um novo álbum do Orchestral Manoeuvres In The Dark: o que fazer? Chutar o balde, radicalizar, tentar algo fora dos padrões ou jogar pelo regulamento que consagrou o technopop do grupo inglês?  


Em seu décimo segundo álbum de material original, o OMD optou pelas duas vias. Claro que English Electric nem chega perto do harakiri comercial praticado em 1983, quando a banda descobriu o sampler e o levou às últimas consequências no espetacular Dazzle Ships - uma incompreendida colagem de ruído industrial, transmissões radiofônicas, sintetizadores e vocoders, que causou rejeição categórica da crítica e afastou boa parte dos admiradores do bem sucedido disco anterior, Architecture & Morality. Mas este mesmo Dazzle Ships respinga em English Electric em algo além da arte da capa de ambos ter a autoria do gênio Peter Saville: nas vozes sintetizadas e sobrepostas e nos bips eletrônicos de "Please Remain Seated", "Decimal" e "Atomic Ranch", fica bem claro - embora McCluskey afirme que a referência para a estrutura vocal dessas faixas não esteja no próprio OMD, e sim na ópera Einstein on the Beach, de Philip Glass (de 1975). Se o Kraftwerk era assumidamente homenageado pelo OMD em Dazzle Ships (os vocais da faixa "Genetic Engineering" são uma óbvia alusão à "Computer World", dos alemães), em English Electric é "Metroland" que reproduz o arpejo hipnótico de "Europe Endless" e depois repete a dose mais lentamente em "Kissing The Machine" (a robôzinho apaixonada da faixa é Claudia Brücken, vocalista do Propaganda). O outro caminho percorrido pelo OMD leva à canções pop eletrônicas com bons ganchos de sintetizador, onde o afetuoso coração das máquinas bate devagar ("Night Café" e "Stay With Me"), ou acelera com a linha de baixo galopante de "Dresden". O OMD ainda mostra que sabe exatamente em que ano está (aqueles synths derretidos de "The Future Will Be Silent") e encerra o álbum com uma bossa futurista ("Final Song", com sample dos vocais de "Lonely House", da cantora de jazz Abbey Lincoln).

É preguiça mental ficar comparando este trabalho à obras anteriores do próprio OMD, ou à artistas como o Kraftwerk? De certa forma, é. Primeiro, porque McCluskey e Humphreys estão realmente se apoiando em coisas que já fizeram no passado, mas as idéias, hoje, são completamente diferentes. Então não dá pra acusar a banda de cópia ou autoplágio simplesmente por executar sua música da mesma forma que há 30 anos atrás. Ou, como disse Ralf Hütter quando perguntado se ele se sentia confortável pelo mainstream ter adotado seus métodos: "Como poderíamos mudar agora? Gastamos vinte anos neste tipo de trabalho. Não podemos dizer amanhã que o negócio é voltar a usar violões." Sabe tudo.

"Dresden": synthetic pop song.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Segunda Class: Pantha Du Prince & The Bell Laboratory


Depois do aclamado álbum de techno ambiental Black Noise de 2010, o produtor e DJ alemão Pantha du Prince une-se aos noruegueses do The Bell Laboratory para um projeto ambicioso: desenvolver uma sinfonia eletroacústica em uma peça só, com o uso de instrumentos nada comuns - talvez o mais insólito deles, o carrilhão (espécie de teclado percussivo formado por um conjunto de sinos de vários tamanhos, controlados pelas teclas), somados à beats e efeitos sintéticos.   


O resultado é Elements of Light (saiu no final de Janeiro, pela Rough Trade), 44 minutos de eletrônica minimalista e timbres espetaculares vindos da orquestra de sinos. A idéia de Hendrik Weber (nome verdadeiro de Pantha Du Prince) era que a obra funcionasse como um conjunto, sem singles, e ele acabou dividindo o disco em cinco partes, mas com a mixagem eficiente o bastante para que a passagem de faixas torne-se imperceptível. Pra ouvir numa tacada só, e de boca fechada.

"Spectral Split": impressionante.

domingo, 19 de maio de 2013

Interjeições


Reparou como o pessoal anda criativo com nome de banda ultimamente? Quer dizer, não basta mais usar as palavras. Naquela leva recente do gênero morto-vivo witch house, a criatividade não tinha limites. Pronuncie, se for capaz: oOoOO, †††, BL§§D ØU†, , 8:*), gl∆ss †33†h. Nota: as vírgulas e o ponto final não fazem parte da representação gráfica. Estão ali só pra separar os nomes dos grupos mesmo. 


O !!! não tem nada em comum com a eletrônica de temática ocultista dos projetos acima. E o significado preferido para as exclamações é "Chk Chk Chk", embora os integrantes proclamem que qualquer som monossilábico repetido três vezes pode ser aceito pra descrever o nome da banda. Se o !!! conseguisse vender algum CD, ia ser engraçado ver o fã pedindo pro vendedor. Isso porque os californianos acabam de lançar o quinto disco, e até agora, o desempenho comercial deste e dos outros quatro é risível. As tarefas que THR!!!ER (que saiu no final de Abril pela Warp - tradicional gravadora britânica de música eletrônica, lar de gente como Aphex Twin, LFO e Autechre) deve cumprir são manter a visibilidade do Chk Chk Chk pra jogá-lo em festivais mundo afora e, principalmente, fazer você dançar. Acho bobagem ensacar o som do grupo num pacote dance-punk, porque de punk aqui nas nove faixas não tem nem o cheiro, e especialmente porque eles são bons músicos. Ouça THR!!!ER e repare nas linhas de baixo redondinhas, grooveadas, sedutoras, como na preguiçosa "Even When The Water's Cold" ou no single "Slyd". Guitarras serpenteiam pela ótima "One Girl / One Boy" (vocais divididos com a cantora Sonia Moore); saxofones deixam o clima mais safado em "Get That Rhythm Right"; sintetizadores e drum machines tornam os funks eletrônicos "Fine Fine Fine", "Except Death" e "Careful" algo muito próximo ao que o Heaven 17 fazia ao juntar black music e technopop no começo dos anos 80. A única que destoa do conjunto é a 100% indie "Station (Meet Me At The)", a última faixa, que ainda assim não faz feio. Não sei se vender mais discos faz alguma diferença pro !!!, mas THR!!!ER prova com louvor que esses caras mereciam melhor sorte nas paradas. É honesto, divertidíssimo e musicalmente muito competente.

"One Girl / One Boy": summer song.

Romanthony


Sad news: o vocalista, DJ e produtor americano Anthony Moore, conhecido como Romanthony, faleceu dia 07 de Maio. A notícia só veio à público agora, através de sua irmã Mellony em um post no Facebook. Romanthony deixou quatro álbuns e um legado importante para a house music, com produção apurada e vocais distintos. Sua colaboração mais famosa é com o duo Daft Punk no álbum Discovery, onde providenciou os vocais de "One More Time" e "Too Long".

"One More Time": Romanthony e Daft Punk experimentando com o auto-tune.

sábado, 18 de maio de 2013

Tropeçando Nas Próprias Botas

Boots: muita pose, pouco som.
 Don't believe the hype. Era fogo de palha mesmo. Hands (2009), o álbum de estreia de Little Boots, já não tinha sido lá grande coisa - apesar do falatório e paparicação da imprensa inglesa - e esse segundo também não vai mudar muito a situação.

De gestação difícil (foi gravado no longo período 2010-2013), Nocturnes passou pelas mãos de cinco produtores, entre eles Andrew Butler (Hercules and Love Affair) e James Ford (Simian Mobile Disco). Mas nem eles tiraram o disco da condição de pop sem personalidade, repetitivo e monótono. A maioria das dez faixas segue pela trilha electro house, como a lamentável "Broken Record", primeiro single do álbum. Além de uma base manjada e sem graça, a letra é um primor:
"I hear your voice like a broken record / Saying my name every second / Voice like a broken record / In my heart I feel it echo". Com esse talento pra rimar, Victoria Hesketh poderia compor pro One Direction. Os fãs também parecem ter percebido o tropeço de Little Boots (com o perdão do trocadilho intencional): na Inglaterra, Nocturnes vendeu pouco mais de 2,000 cópias na primeira semana após o lançamento.

"Broken Record": o pior refrão do ano.

Soul Colorido


Boa oportunidade de conhecer o soul psicodélico de Shuggie Otis, com um lançamento que ainda respinga do Record Store Day: a coletânea Introducing Shuggie Otis. Se as onças estão circulando livremente pela sua casa, recomendo o vinil 180 gramas que saiu pela Epic, cópias numeradas e edição limitada. Vem com senha pra baixar em MP3 também. Ou, claro, você pode dar um rolê pela rede e topar com o álbum louquinho pra ser ouvido. 


 A compilação inclui gemas como "Aht Uh Mi Hed" (com percussão genial e uma belíssima sessão de cordas) e "Strawberry Letter 23", que virou hit com o Brothers Johnson em 1977 (a versão não escapou dos ouvidos atentos de Quentin Tarantino que a incluiu em seu Jackie Brown vinte anos depois). A única faixa de Otis que chegou perto do sucesso foi "Inspiration Information" de 1974, com desempenho modesto na parada R&B da Billboard. É mais um daqueles casos em que a influência e inspiração para artistas posteriores - além de fonte riquíssima de samples - supera qualquer fracasso comercial. Shuggie ainda está na ativa e finaliza um álbum de inéditas para ser lançado ainda em 2013, chamado Cash Deep.

"Strawberry Letter 23": visões multicoloridas.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Sexta Feira Bagaceira: Ivan


Eu sabia. Em algum lugar no meio dos anos 80 eu molequinho tinha que aguentar o gosto musical da minha irmã mais velha, adolescente. Leia-se uma idolatria que beirava o fanatismo por boy bands do naipe do porto-riquenho Menudo ou nosso genérico Dominó, recém montado pelo empresário, apresentador e picareta Antônio Augusto de Moraes Liberato, o Gugu. O debut do Dominó, autointitulado (assim como os próximos cinco álbuns do grupo, ó a criatividade) veio em 1985, com 10 faixas: todas eram versões em tupiniquês de hits estrangeiros. Importante lembrar que noções como criatividade e originalidade passam completamente em branco por garotas hipnotizadas pelo sex appeal de guris abusando de micoreografias constrangedoras. Microfones em punho e um cuidado especial na dublagem em programas de auditório, renderam à Dominó - o disco - seis singles, e para o grupo, boa exposição na mídia, dor de cabeça para muitos pais e choro descontrolado por parte das pré-púberes. Bom, nada disso importa, na verdade. Fato é que uma faixa desse vinil me chamava atenção, do alto dos meus dez anos de idade. "Parece Até Novela" era diferente. Igual, mas diferente, entende? A temática não fugia da mesma baboseira infanto-juvenil encontrada nas outras nove canções, mas o instrumental era estranho. Eu não conseguia entender bem que som era aquele. Onde estavam as guitarras? Porque o baixo não soava como um baixo? E aquele riff ordinário de acordeom, perdido no meio de tantos violinos? Eram sintetizadores, Carlinhos.



Foi, talvez, meu primeiro contato consciente com teclados e caixas de ritmo (era assim que as drum machines apareciam descritas nos encartes dos álbuns de grupos nacionais da época). Algum tempo depois, minhas suspeitas se confirmaram: aquela melodia e aquela base me pareciam legais demais pra sair da cabeça de um produtor mais preocupado com o número de pessoas a atingir do que com a música em si. A faixa original pertencia a um tal Ivan, nascido em Madri, nome verdadeiro Juan Carlos Ramos Vaquero. Antes de cair no limbo, Ivan estourou em 1984 com o single "Fotonovela": incríveis seis milhões de cópias vendidas, mesmo com letra em espanhol. Synths de inspiração ítalo-disco, roupagem technopop, romantismo de plástico e um mullet invejável fizeram Ivan aparecer em todos os lugares entre 84 e 85. Ganhou um bom troco e hoje mora em Miami. Parece até novela.

"Fotonovela": curti o baixo desse Korg aí.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Mais Do Que Merecido


Domingo à tardinha fui dar um confere na Official Charts Company pra ver em quê os ingleses estavam gastando suas valorizadas libras. Surpresa: estão empregando direitinho os pounds. Paradas de mais vendidos hoje já não são parâmetro pra muita coisa, mas dá pra tirar algumas conclusões sobre como anda o gosto musical de quem ainda compra discos, por exemplo.


 Caroline Esmeralda van der Leeuw nasceu em Amsterdam, tem 32 anos e o lance dela é dar uma tapa no jazz suingado das décadas de 30 e 40, combinando com beats sedutores, samples, instrumentos de verdade e uma senhora simpatia. Seu debut Deleted Scenes from the Cutting Room Floor (2010) já passa de um milhão de cópias vendidas, beliscou Alemanha (# 5) e Reino Unido (# 4) e ficou 77 semanas no Top 10 de seu país natal (Holanda), a maior parte delas em primeiro lugar. The Shocking Miss Emerald, o segundo disco, acabou de sair. Foi direto pro primeiro lugar na Inglaterra. O que tem de tão especial? Ora, Caro Emerald tira gêneros como o ragtime e o tango do formol e os funde com eletrônica e um irresistível apelo pop para atualizar seu jazz para as massas - nada muito diferente da tecla em que o austríaco Marcus Füreder vem batendo desde que começou a gravar como Parov Stelar, no começo deste século. Mas Caro é o rosto que o nu jazz merecia. Além de ótima cantora e compositora - o que elimina qualquer possibilidade de acusação do tipo "aproveitadora sem talento" - ela provou ser possível unir gêneros tão díspares, fazendo música boa e tornando isso vendável.

"Tangled Up": Carlos Gardel ficaria orgulhoso. 

 

Segundo susto do domingo: Alison Moyet com álbum novo, estreando em quinto lugar na parada inglesa - melhor posição dela desde 1987. Eu tinha ouvido o disco pela primeira vez no dia anterior, e fiquei curioso sobre o desempenho comercial dele. Seis anos sem gravar, e Moyet vem com The Minutes (gravado entre 2011 e 2013), um disco pop, sólido, atual. Alison é soul puro, descende de uma nobre linhagem de cantoras como Dusty Springfield, mas em The Minutes ela soube modernizar seu som sem pasteurizá-lo e não há aqui qualquer resquício saudosista de seu passado com o furacão Yazoo: Alison e o produtor e compositor Guy Sigsworth (Seal, Björk, Madonna, Alanis Morissette e mais uma pá de gente legal no currículo) trabalharam com timbres, efeitos e texturas eletrônicas totalmente 2013, mas com o vocal emotivo de Moyet em primeiro plano. É uma adaptação difícil, mas The Minutes não soa gratuito nesse sentido e arrisca com andamentos incomuns ("Changeling"), rufos sintéticos entre redemoinhos de sintetizadores impressionantes ("Apple Kisses", "Rung By The Tide"), baladas sombrias ("A Place To Stay"), pop dançante (a linda abertura "Horizon Flame") e remixável ("Right As Rain"). Com tantos acertos e faixas no mesmo nível do ótimo primeiro single "When I Was Your Girl", dá até pra perdoar a bobinha "Love Reign Supreme". Que disco, amigos, que disco. Agora, legal mesmo seria ver Alison Moyet sendo (re)descoberta pela geração que tem em Adele uma diva soul sem par no pop atual. 

"When I Was Your Girl": Alison e sua filha Caitlin.

domingo, 12 de maio de 2013

Comatose


Entrar no mundo de Kavinsky é como assistir uma temporada inteira de Miami Vice em VHS: pode distrair por um tempo e soar nostálgico (para o bem e para o mal), mas a falta de variedade vai te fazer olhar com mais carinho para produções atuais que não buscam só no passado sua fonte de inspiração. 


Não por acaso, o francês Vincent Belorgey cita a famosa série policial dos 80 como uma das influências presentes em seu debut OutRun (lançado em Fevereiro). Segundo Kavinsky, o disco é baseado na história de um jovem que bate sua Ferrari Testarossa em 1986 e reaparece como um zumbi que produz música eletrônica em 2006 (vai vendo). Daí tantas referências congeladas no tempo: sintetizadores Yamaha DX7, video games, filmes trash de terror (na linha nudez por qualquer motivo, sangue jorrando por todos os lados e humor grosseiro). É só dar uma olhada nos títulos das canções que eles explicam o conceito: "Rampage", "Deadcruiser", "First Blood", "Testarossa Autodrive"... O som é obviamente retrô, com teclados suntuosos (arpejos e timbres de guitarras heavy metal farofa onipresentes) e batidas que buscam a simplificação da forma - no esquema bumbo-caixa, bumbo-caixa, bumbo-caixa. Tem jogadas interessantes, como unir essa noção toda com o hip-hop do rapper Havoc (em "Suburbia"), ou cair em tentação e cometer uma bela canção pop ("Nightcall", com vocais da brasileira Lovefoxxx e produção de Guy-Manuel de Homem-Christo). E para os caçadores de samples, "Grand Canyon" chupa parte dos synths do clássico Italo Disco "Ikeya Seki", do projeto milanês Kano. Pelas idéias que variam minimamente durante os 44 minutos do álbum, OutRun cansa um pouco. Mas não deixa de ser divertido.

"Deadcruiser": é nessa onda aí.

sábado, 11 de maio de 2013

Soothing Dancers


Fãs fundamentalistas podem fazer beicinho que não adianta. Há uma verdade incontestável na carreira do Depeche Mode: boa parte da sua popularidade é baseada sim no material dançável da banda. Mesmo que Alan Wilder tenha declarado à época do lançamento do polêmico single "Blasphemous Rumours" (1984) que o grupo "não fazia mais música simplesmente para dançar", o Depeche empilhou hits de pista nos seus mais de trinta anos de atividades. Tanto que dois anos depois, a Sire - gravadora responsável pelo catálogo do grupo nos Estados Unidos na ocasião - optou por promover "But Not Tonight" (mais pop e dançante) como primeiro single de Black Celebration, ao invés de "Stripped", o que mostrou-se uma decisão duplamente errada: além de desagradar a banda, o single foi um fracasso. Corta pra 2013: ficou perguntando onde está aquele Depeche fornecedor de combustível para as danceterias em Delta Machine (álbum mais recente, lançado em Março)? Bom, a resposta vem em forma de remixes oficiais e fresquinhos, que começam a brotar.


"Oficiais" por que você sabe que o Depeche atrai uma cambada de aventureiros que se metem à remixadores com seus softwares envenenados e idéias manjadas, a cada lançamento. Centenas de remixes fuleiros aparecem todo dia na rede, então nada mais justo do que deixar o próprio grupo escolher quem vai meter a mão na sua obra e botar isso no mercado com uma embalagem mais atraente (e ainda ganhar algum trocado com o negócio). O CD maxi-single de "Soothe My Soul" vem com seis versões da canção. E já começa mal. Então o Depeche é extremamente cuidadoso com o repertório atual, busca uma (difícil) fusão - que seja convincente - de blues com eletrônica e entrega uma faixa pro greco-sueco Steve Angello, um dos maiores picaretas da dance music atual? Angello, além da música puramente comercial e ordinária que faz com o seu Swedish House Mafia (junto com Axwell e Sebastian Ingrosso), ainda comete - suprema vergonha! - uns DJ sets onde finge mixar, com aquela cara de pau de quem está muito feliz com as moedas tilintando na bilheteria, acredite. Bem, ele divide a mesa de som com o respeitável Jacques Lu Cont (Stuart Price), e fica bem claro onde cada um trabalhou: Stuart segura o ímpeto farofeiro de Angello até chegar perto dos dois últimos minutos do remix, mas depois não tem jeito, a canção transforma-se numa electro house exagerada e medíocre. Tom Furse (baixo e sintetizadores do The Horrors) aproveita somente o refrão da letra e incorpora alguns teclados à melodia, sem alterar o andamento original. O guitarrista Billy Gibbons (ZZ Top) sacou o espírito e injetou riffs blueseiros, num trabalho em conjunto com o produtor Joe Hardy, que limpou os timbres de bateria. A melhor idéia do jovem francês Joris Delacroix foi transformar Martin Gore num cantor de blues dos anos 30, em sua versão tech house apenas eficiente. Bryan Black (Black Asteroid) subverte "Soothe My Soul" e apaga tudo até restar apenas os vocais; o resto é preenchido por um baixo furioso, ruído e distorção. O alemão Gregor Tresher arrisca e se dá bem com sua boa reinvenção de bateria, uma linha de baixo criativa e sintetizadores bem ao gosto do Depeche. As interpretações de Tresher e da dupla Gibbons / Hardy acabam sendo as únicas dignas de nota nesse segundo single de Delta Machine. Acho que o Depeche precisa escolher melhor os artistas a quem vai confiar suas composições.

"Soothe My Soul (Gregor Tresher Soothed Remix)": um dos poucos acertos.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Sexta Feira Bagaceira: Dr. Alban


"Hip-hop reggae inna dance hall style". Pronto, numa frase extraída de um dos maiores hits daquele fantástico 1991, o nigeriano Alban Uzoma Nwapa definia seu som. 


Na verdade, "No Coke" foi lançada em Novembro de 1990, mas na era pré-Internet, as coisas aconteciam no seu tempo. Na pista que eu frequentava, ela tocou durante o ano inteiro e, lembro bem, era uma comoção aos primeiros acordes do baixo. Foi bem nas paradas européias, especialmente no país que Alban adotou aos 23 anos para estudar Odontologia (daí o Dr., sacou?), a Suécia (primeiro lugar). O som não era exatamente novidade, mas a pegada pop de "No Coke" facilitou as coisas pra quem não era chegado no raggamuffin' cru e seco de Cutty Ranks, por exemplo, e talvez sem querer, Dr. Alban (junto com Shabba Ranks) estava ajudando a popularizar um gênero que vinha borbulhando desde o meio dos anos 80, quando os estúdios jamaicanos descobriram o sampler e por consequência, timbres impensáveis até então para o contra-baixo. E o que salta aos ouvidos em "No Coke" - além do óbvio manifesto anti-drogas da letra ("Cocain will blow your brain / And ecstasy / Will mash your life"), é a frequência subterrânea de sua linha de baixo, lapidada ao extremo pelo genial e saudoso Denniz Pop (que pouco depois produziu Ace of Base, Backstreet Boys, Britney Spears, N'Sync e Rick Astley, entre outros). Alguém anotou a placa?

"No Coke": pra testar a qualidade dos alto-falantes.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Step By Step


Estranho esse fenômeno: o dubstep nasceu na Inglaterra, chegou ao mainstream americano com o californiano Skrillex na linha de frente e agora discos ingleses parecem uma cópia da cópia...


O britânico Gary McCann está nessa onda desde 2003, já lançou uma lista telefônica de singles, remixou gente do primeiro escalão (Depeche Mode), gente metida a besta (30 Seconds To Mars, Swedish House Mafia) e promessas que não saíram do papel (Miike Snow). Seu recém-lançado segundo álbum Alpha Omega lembra demais as produções de Skrillex, em vários momentos. Na fusão de gosto duvidoso com as baterias e guitarras heavy metal ("War", com Keith Flint nos vocais) e na aproximação com o reggae (na razoável "Let The Rush Kick In"), fica bem evidente. A faixa-título com seu clima sombrio e coral celestial cria uma boa espectativa já na abertura, mas ao longo do disco, Caspa vai mostrando um ecletismo um tanto vazio que não tira seu som do lugar-comum. Ele vai atirando para todos os lados, com canções que não ficam nada a dever ao trance mais fuleiro de um Armin van Buuren ("If They Knew What I Know"), rave feelings com os pianos ítalo de "Reach For The Sky", eletrônica estéril na horrenda "Techno Terry" e ainda mira o Top 10 com os sintetizadores mansinhos e os vocais pop de Ayah Marar na melosa "One By One". Se depender dele, o dubstep caminha firme rumo à estagnação.

"Alpha Omega": solene.

terça-feira, 7 de maio de 2013

(The Rest Of) New Order


 Pra mim, o New Order morreu mesmo quando decidiu retornar aos palcos em 2011 sem Peter Hook.


 Lost Sirens, lançado no começo do ano, não deixa de ser um álbum de inéditas - pela contagem da discografia, seria o nono - mas ao mesmo tempo não passa de um disco de sobras de Waiting for the Sirens' Call, lançado em 2005. Das oito faixas, a única exceção é "I Told You So", que já havia aparecido em forma de dancehall cibernético no disco anterior, mas que aqui é embalada por cítaras e bateria tribal na versão "Crazy World Mix". No geral, é um álbum tão mediano quanto foi o New Order dos anos 2000, com teclados e programações sem muita imaginação e canções pop apenas OK. Tem uma pegadinha roqueira em "Californian Grass" e "Hellbent", mas dance alternativa demais pra virar hit de pista ("Shake It Up", "Sugarcane"). Os momentos que compensam estão na levada típicamente New Order da bela "I'll Stay With You" e na invernal "Recoil". E já que a banda teve a cara de pau de fazer shows sem Hook (OK, alguns foram por uma causa pretensamente beneficente), que pelo menos tenha a decência de não lançar mais nenhum material inédito usando o nome New Order sem o baixista original, sob o risco de virar autoparódia. 

"I'll Stay With You": aquele baixo palhetado...

domingo, 5 de maio de 2013

Sem Negociação

 
Um dos poucos exemplares do gênero synthpop no Brasil, o Chanceller dá de ombros para as armadilhas do showbiz brasílio. Em seu novo álbum SynthElectroBass, o projeto idealizado por Luciano Cardozo não faz concessões para se adequar ao mercado, não busca nenhum tipo de solução fácil para amaciar seu som e mantém-se fiel à cartilha sintética pregada em seu debut Painted In Black.

Então tome vocais trevosos, sintetizadores em convulsão ("Fist Of An Anger"), distorção ("Sorry Chaos") e ruído sintético ("Dommenation"). Os ataques só cessam em pausas experimentais, como nos timbres mutantes dos teclados de "Open Window" ou em andamentos quase fúnebres ("Goes To Ride", "Alone"). Nas doze faixas (uma instrumental), ainda tem espaço para Luciano cantar como um robôzinho do mal em "The Sidious" (com synths parecidos com os de "It's No Good" do Depeche Mode) e aderir ao auto-tune em "Too Small (Heartless)" - o que no technopop acaba deixando tudo com cara de Owl City. O disco foi lançado oficialmente dia 27 de Abril, num show no Teatro Universitário de Curitiba e está disponível em CD/DVD e no iTunes. Na agenda, datas pelo resto do país e final do ano, Chile e Argentina.

"Too Small (Heartless)":

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Sexta Feira Bagaceira: Kris Kross


Coisas do pop: da noite pro dia o single "Jump" da dupla infanto-juvenil Kris Kross foi como um míssil pro primeiro lugar do Billboard Hot 100 em Fevereiro de 1992, ficando lá por oito semanas e resultando em mais de quatro milhões de cópias vendidas. A faixa foi montada com samples de três clássicos da black music: a batida de "Impeach the President" do Honey Drippers, um synth de "Funky Worm" do Ohio Players e um recorte do baixo de "I Want You Back" do Jackson 5, habilmente manipulados por Jermaine Dupri - multiplatinado produtor que trabalhou com quase todo mundo que importa no R&B americano dos anos 90 e 2000. "Jump" foi um mega-hit de rádio, pistas e MTV, onde o duo Chris "Mac Daddy" Kelly e Chris "Daddy Mac" Smith criou a peculiar identidade visual das roupas largas e soltas e das calças usadas de trás pra frente. A nota triste fica por conta do rapper Chris Kelly, que agora vai rimar com Tupac Shakur e Notorious B.I.G., num outro plano: ele foi encontrado na última quarta feira inconsciente em sua casa em Atlanta, e veio a falecer logo após ser encaminhado ao hospital. Suspeita de overdose de drogas. Coisas do pop.

"Jump": irresistível.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

As Dores Do Mundo


Se você nunca ouviu falar, vale a pena conhecer: o sueco Jäje Johanson apareceu no meio dos 90 com um punhado de canções dolorosamente românticas envoltas num adverso clima em preto e branco; nublado, desesperançado. Não é à toa que Jay-Jay aparece na capa de seu terceiro disco (Poison, 2000) com um corvo ao seu lado. Seu vocal límpido inclina-se para o jazz no fundo do poço de Bing Crosby, elegante, mas à centímetros da suntuosidade ("So Tell The Girls That I Am Back In Town"). Felizmente, ele nunca ultrapassou essa linha. Não que eu tenha ouvido. Best of 1996-2013 cobre os singles do cantor, do início da carreira até agora. Na coletânea, percebe-se que Johanson fica à vontade em meio à rocks sujinhos e distorcidos ("Keep It A Secret"), house ("Because Of You"), jazz ("Dilemma") e pop ("Paris"), mas é a tag trip-hop que mais carimbou seu trabalho (a melhor da leva é a sensacional corta-pulsos "Believe In Us"). O saldo positivo é que suas canções tem a mesma intensidade e carga emocional, esteja ele acompanhado apenas de um piano (como na linda "On The Other Side") ou da complexidade das batidas do drum'n'bass ("She's Mine But I'm Not Hers"). Não perca.

"Believe In Us": fossa nova.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Fantasma Guarani


Ghosts Of Paraguay é o britânico David Templeman. Músico autodidata, David produziu drum'n'bass sob nomes como Altya e Pistol Kisser, até cansar da mesmice da cena e dar uma pausa de um ano na carreira. Decidiu retomar as atividades quando encontrou o som que procurava: o dubstep. Nascia então o Ghosts Of Paraguay (nenhum significado que não seja apenas "foneticamente bonito", segundo David) e o seu álbum de estréia, o ótimo Silent Souls, saiu em 2011. 


Seu novo EP é o climático Into The Light, dubstep mais pro downtempo etéreo de Burial do que pros graves absurdos de Benga, como prova a faixa de abertura "Deep Six". Com duas excelentes vocalistas convidadas (Krizia Bassanini e Bridget Insinna), Into The Light tem quatro faixas com baterias reduzidas à fragmentos percussivos ("Bitter End", "Mirrors"), pianos delicados e baixos desafiando o limite das baixas frequências. Vale conhecer.

"Deep Six": sublime.