Fatnotronic é o duo Rodrigo Gorky (Bonde do Rolê) e Philip A. (Killer on The Dancefloor). Discotecagem sem limites, mash-ups e edits pra qualquer pista imbuída de animação é o que a dupla promete.
Seu primeiro trabalho é um edit de "Margarida (Felicidade)", das Harmony Cats - grupo vocal disco feminino formado em São Paulo, ativo entre 1976 e 1986. A hilária capa parodiando o original de 1980 (abaixo), já dá uma ideia do clima.
O original "Felicidad (Margherita)" é cria do produtor italiano Pino Massara (falecido ano passado), e foi gravado também pelo trio Boney M.
Abaixo, o edit do Fatnotronic: uma limada no refrão desnecessário, sintetizadores adicionais, um pouco mais de pressão no bumbo, uma salpicada de percussão e um baixo mais gordinho foram o Botox que essa faixa pedia. Baita sacada.
A Italo-Disco produziu uma tonelada de bons singles, até ser ofuscada pela Italo-House no final dos 80. OK, era tudo muito pop e meloso, mas dessa linha de montagem de hits, saíram coisas memoráveis, como "Mon Amour", creditado a um tal Deblanc.
O single é de 1987, o segundo e último do projeto dos produtores Riccardo Persi e
Maurizio Preti, que se dividiam em dezenas de outros grupos (alguns conhecidos, como o Kano, um dos precursores da cena Italo e Sueño Latino, ambient house carcamana, do hit de mesmo nome, de 1989).
"Mon Amour" peca pela letra ("I need your lovin', Mon Amour / It's magic when you, tell me babe
'Cherie, Je t' aime'"), mas tem a favor uma base muito bem montada de percussão e sintetizadores. A cereja é um incomum violino ajudando na melodia. Foi hit moderado por aqui graças ao selo da Sony Music destinado à dance music no Brasil, o Stiletto, que lançou a faixa em 1990, no volume 3 da série "The Best Of Eurodance".
Reserva supera titular: o Empire Of The Sun é um projeto paralelo que ofuscou as bandas efetivas dos dois integrantes, Luke Steele (The Sleepy Jackson) e Nick Littlemore (Pnau). A união dos australianos rendeu dois álbuns, o bem sucedido Walking on a Dream (2008) e o recém lançado Ice on the Dune.
Se você curtiu o pop de sonhos do primeiro disco, não tem motivos pra
se decepcionar com o segundo. O primeiro single, "Alive", assustou um
pouco - o duo exagerou tanto no clima Caravana da Coragemque parece que são Ewoks nos backing vocals, não um coro de crianças.
Mas Ice on the Dune tem coisas bem melhores que isso. A incrível "Awakening" - com sua síntese Bee Gees/italo disco - por exemplo. É um refrão memorável (cantado com o falsete impressionante de Luke Steele) em cima de uma batida lenta, bleeps eletrônicos e foguetes sintetizados passando de um canal para outro. "I'll Be Around" fica sob as asas da chillwave com sua guitarrinha lânguida e vocais carregados de efeito. "Old Favours" tem um loop meio enjoado, mas com um remix pra aparar os excessos, pode funcionar bem na pista. "Disarm" é outra boa canção pop que merece atenção: capta o Empire Of The Sun flertando mais diretamente com o synthpop, base de boa parte do som do grupo. Finalmente, uma das melhores faixas do álbum, a magnífica "Celebrate", traz três minutos de pop eletrônico dançante, com produção ampla, sintetizadores luxuosos e uma mãozinha de Daniel Johns (Silverchair) na composição.
Sem cabecices, politizações ou experimentalismos, Ice on the Dune é rock eletrônico e dançável sem ranço oitentista, dos melhores da fértil safra australiana recente.
"Awakening": na minha listinha "Melhores Músicas 2013".
Eu ouvia aqueles sintetizadores dramáticos e aquele tom de voz apocalíptico de Ronny Schreinzer
e parecia que a letra tratava de uma hecatombe nuclear, que o
fim estava próximo, que o telefone vermelho iria tocar na mesa do Reagan
e ele ia se dirigir à salinha secreta da Casa Branca e levar sua mão
trêmula ao botão que mandaria uma chuva de ogivas à União Soviética,
terminando de vez com aquela troca de ofensas e piadas de mau gosto com Leonid Brejnev.
Mas não era bem assim. Bastava ver uma foto do Twins e entender o que
dizia a letra de "Face To Face - Heart To Heart" pra sacar que por trás daqueles
ternos com ombreira à lá Didi Mocó, batia um coração despedaçado por um
ex-amor.
Lançado pela dupla alemã em 1982, o single foi sucesso internacional. Synthpop clássico flertando com a ítalo disco, "Face To Face" foi o melhor single do Twins. Quase repetiram a dose com "Ballet Dancer" (lançada um ano depois), que não fez feio, mas sua execução e vendagens expressivas ficaram restritas à Europa.
A partir daí, os gêmeos não conseguiram engatar mais nenhum sucesso, e apesar de sua curta discografia (apenas seis discos lançados, desde 1980), a banda ainda está na ativa.
"Face To Face - Heart To Heart": gancho de sintetizador inesquecível.
Paul Mazzolini nasceu no Líbano, filho de um diplomata italiano e uma cantora americana. Será lembrado pra sempre pelo clássico "I Like Chopin" de 1983, mas seu primeiro single é "Masterpiece", lançado um ano antes. Synthpop classudo, "Masterpiece" ajudou a popularizar a emergente ítalo-disco, gênero que rendeu dezenas de hits até a estagnação, por volta de 1987.
Levei cinco segundos pra entender que o dono da loja de discos que eu frequentava no comecinho dos 90 estava se referindo à Neil Tennant e Chris Lowe.
"_ Curto, claro."
"_ Pois é... esses caras aqui são muito parecidos!"
Ele segurava uma cópia de The Fifth, um título bem original para o quinto álbum do Bad Boys Blue, lançado em Outubro de 1989. Os Bad Boys originais eram o trio Trevor Taylor, Andrew Thomas e John Mclnerney, baseados em Colônia, na Alemanha, por obra do produtor Tony Hendrik, que criou o grupo. Foram bem populares na Europa e relativamente conhecidos na América do Sul. Mas o som não tinha muito a ver com os Pet Shop Boys, como tentava me convencer o dono da loja. E, claro, isso eu só fui discernir anos mais tarde. Em 1990, pra mim, era tudo igual. Na real, a música dos Bads rivalizava mesmo com a eurodisco melosa do Modern Talking, não com a sofisticação rítmico/melódica dos Pet Shop Boys. As letras também deixavam claro o oceano de distância. Repare no refrão de "You're A Woman", primeiro grande hit da banda: "You're a woman i'm a man / This is more than just a game / I can make you feel so right / Be my lady of the night". Era nessa onda aí: totalmente descompromissada. A letrista do projeto, Karin Hartmann (esposa de Hendrik) não queria nem saber o preço do dólar, o negócio dela eram emoções baratas no banco de trás. Outros hits vieram: "(A World Without You) Michelle", "Hungry For Love", "How I Need You", "Come Back And Stay", "I Wanna Hear Your Heartbeat" (essa até ganhou uma lamentável versão aqui no Brasil, pelos gaúchos da banda Barbarella: virou "Só Uma Canção", sente o drama). Dois membros já partiram desta para melhor (Taylor e Thomas) e o britânico John Mclnerney segue gravando e segurando o nome do grupo.
"Kisses And Tears" é o quarto single do trio, lançado em 1986. Não tem o vigor de outras faixas mais conhecidas do grupo, mas passeia com desenvoltura pela ítalo-disco de Savage e Gazebo, com um refrão tristonho e um apelo dançante de movimentos mais lentos. Quem liga para noções como originalidade e inventividade, se a música do Bad Boys Blue é esse bubblegum technopop grudento e divertido?
Como transformar um hit de dez anos atrás numa coisa completamente nova e superior ao original? Pergunte pro Perseus, esse produtor americano que jogou os vocais de "Foolish" (hit da cantora Ashanti de 2002) numa base ítalo-disco lenta, sexy e refrescante como uma brisa de verão. A estação mais quente do ano, aliás, parece servir de inspiração pro excelente Russian Girlfriends EP, lançado no final do ano passado pelo selo French Express. Dos estilhaços de "Set Adrift On Memory Bliss" do PM Dawn na faixa-título ("Russian Girlfriends") aos timbres caribenhos dos teclados e percussão de "Cool Runnings", isto sim deveria ser a trilha pro verão austral no país do arerê. Sonha, Carlinhos.
Sem sono? Seus problemas acabaram. Dá pra garantir ao menos quase duas horas de cochilo sem apelar pros carneirinhos com estes dois lançamentos. In Flagranti e Com Truise estão naquela categoria de nomes relativamente hypados que eu não consigo entender porquê. E pode não parecer, mas são farinha do mesmo saco: seus discos são longas viagens instrumentais e provocam um tédio abissal ao invés de instigar o movimento - o que me parece o propósito de ambos.
A dupla In Flagranti voa acionando o piloto automático nos ares da space disco com Céu de Brigadeiro: sem turbulências, sem emoção e de uma previsibilidade detectável em qualquer radar. Uns samples de vocais sexy aqui, umas percussões interessantes ali, mas tesão que é bom... imagina o Giorgio Moroder num filme pornô ambientado nos anos 70, com aquele bigodão. Tão sensual quanto uma persiana.
Já o Com Truise parece ter tido inspiração mesmo na hora de escolher a alcunha, baseado num jogo de palavras com o nome do marido de Katie Holmes. Seu Galactic Melt é um bolo fatiado em dez pedaços rigorosamente iguais: slow disco instrumental de timbres invariáveis de bateria eletrônica e total carência de ousadia na escolha dos synths. Alguma luz na interessante "Futureworld", ainda assim insuficiente para salvar o disco do marasmo:
In Flagranti e Com Truise: dois nomes para não contar na combalida Dance Music safra 2011.
Le Prix é sueco e lança suas músicas pela americana Girlfriend Records, selo digital independente focado em synthpop amplamente inspirado nos 80 ("que novidade", pensou você). Entendo que esse negócio parece estar em todo lugar atualmente, mas perca mais dois minutos que isso aqui pode ser legal. O EP Eyelash OK saiu agorinha, dia 11 de Março.
A música é toda instrumental, com uma linha de baixo daquelas que parecem ter sido programadas usando os dois dedos indicadores e várias amostras de sintetizadores dançados numa batida disco. E ainda tem um remix muito interessante do Gossip Culture, que engordou o baixo e dedilhou umas guitarras por cima do original.