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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Retrovisor


Vira e mexe, leio sobre o Meat Beat Manifesto, ouço alguma coisa ou um vídeo vai parar aleatoriamente em algum playlist do Youtube. Ativo desde 1987 e apesar da banda ser considerada uma relevante influência para a cena eletrônica britânica (especialmente o drum'n'bass) do começo dos 90, o som nunca me chamou atenção - ao contrário de pares como Squarepusher, Aphex Twin e μ-Ziq. Com todo respeito, provavelmente porque não mereceu.

Aparentemente, Jack Dangers (cofundador e único membro original remanescente) é quem está tocando sozinho o projeto e em Janeiro, teve disco novo. Impossible Star (capa acima) é o primeiro álbum do MBM em oito anos (saiu pela Flexidisc, uma subdivisão do selo Tino Corp., do próprio Jack) e, estranhamente, parece um passo atrás para uma banda eletrônica que, teoricamente, deveria estar olhando pra frente. São treze faixas que passeiam pelo jungle torto ("Bass Playa"), big beat caótico ("Unique Boutique"), techno sombrio ("The Darkness", "Lurkers", "Synthesizer Teste") e experimentalismo árido ("Liquidators", "Rejector"). Tinha tudo pra ser um trabalho interessantíssimo - se tivesse sido lançado em 1992.

Impossible Star: nenhuma novidade no front.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Melhores do Ano - Músicas (#08: Strong Island)


DJ e produtor britânico, Simon Neale teve seus primeiros hits sob o nome artístico Dave Spoon na segunda metade dos anos 2000 e virou nome forte como remixador (Dizzee Rascal, Pet Shop Boys, Madonna, Calvin Harris e Beyoncé foram alguns nomes retrabalhados por ele). A partir de 2012, Neale assina suas produções como Shadow Child e mais uma batelada de singles e remixes aparecem. Em 2013, lança a primeira compilação reunindo seus principais trabalhos (Collected) e ano passado, a segunda (Connected). É nessa nova coletânea que está a faixa "Things We Do", uma colaboração entre Shadow Child e a vocalista Sherry Davis, num novo projeto chamado Strong Island. A faixa é um lindo pedaço de soul, com os vocais fantásticos de Davis, entrecortado pelo jungle comportado de Child. Um debut memorável.

sábado, 18 de abril de 2015

Técnica & Fúria


Damogen Furies, novo álbum de Squarepusher, divide-se em duas partes: a primeira, harmoniosa e regular, começa com o drum'n'bass na velocidade da luz da faixa de abertura "Stor Eiglass" (com melodia baseada em "Just Like Heaven", do Cure). Fim da primeira parte.
As outras sete faixas compõe a segunda parte. É preciso fôlego. O que vem a seguir é um rolo compressor de cortes secos, rufos impossíveis, claustrofobia e opressão, num tsunami cibernético que deve deixar Mike Paradinas choramingando baixinho assim que ouvir esse álbum. Não é o tipo de disco que eu colocaria num churrasco com amigos.

É desafiador e angustiante acompanhar Damogen Furies faixa por faixa e ouvir Jenkinson esticar os limites de sua música num nível de tensão que beira o surreal. Por vezes as coisas parecem que vão fugir do controle, como na metade final de "Kontenjaz", onde os efeitos vão se sobrepondo de tal maneira que a impressão que se tem é que não vai caber na música, em si. Às vezes Squarepusher tenta nos desorientar, como na introdução cheia de teclados ambient de "Exjag Nives". O que aparenta ser uma delicada faixa de progressive transforma-se rapidamente num dubstep mutante, que vira um breakbeat hardcore de timbres ásperos e viradas de bateria inacreditáveis. Menção honrosa também para o ameaçador riff de "Baltang Arg"- que Jenkinson faz questão de picotar com pouco mais de um minuto, até sobrarem só estilhaços colados quase aleatoriamente sobre a polirritmia indecifrável das baterias. Construir, despedaçar e reconstruir um tema dessa maneira é algo um tanto brutal ou divino; assistir o processo no conforto dos fones de ouvido é fascinante. "Kwang Bass" leva o instrumento oscilante e minimalista do título à um passeio por paragens de drum'n'bass atmosférico e rajadas nervosas de ruído eletrônico e estrondos metálicos. "D Frozen Arc" lacra o disco com mais pistas falsas espalhadas: do clima soturno inicial restam poucos vestígios até o final, numa faixa com andamentos genialmente distribuídos de maneira irregular.

A duração de apenas 44 minutos de Damogen Furies é providencial. Absorver esse disco em doses homeopáticas é fundamental pra perceber que essa é a musica eletrônica mais violentamente sedutora disponível no mercado.

"Rayc Fire 2": no limite.

domingo, 3 de agosto de 2014

Na Velocidade Do Som


Prolificidade não é uma das características de Rockwell. Ano passado o produtor britânico soltou o single "Detroit", uma peça fundida com pedaços de drum'n'bass e techno que soou desafiadora para os membros inferiores, pela velocidade assustadora. Agora ele aparece com INeedU / 1_2_3_4, nas palavras de Rockwell, "uma mistura estranha de house, drum'n'bass e disco, em 172 BPM". "INeedU" chega com cheiro de coisa nova numa cena em que a originalidade anda em baixa. Mesmo com o pé no fundo do acelerador, os hi-hats sibilantes e as boas rajadas de teclados são estímulo suficiente pra pista. Já no lado B, "1_2_3_4", a coisa sai um pouco do controle. É como se abrisse a tampa do liquidificador no meio do processo de mistura: voam nacos de techno e jungle pra todos os lados.   

"INeedU": pernas pra que te quero.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Segunda Class: Remembrance


De onde saiu o misterioso Remembrance? Que importa. Seu EP Day & Night é um dos lançamentos mais sólidos de drum'n'bass de 2014 - até agora. O lance aqui é exercitar a percepção, não os quadris. Atente para os detalhes que saltam aos ouvidos em faixas como "Instant Dreams": berimbaus preparando o terreno pros subgraves, floreios de guitarra entrelaçando-se aos samples vocais, batida que não segue nenhuma sequência humanamente executável. As guitarras continuam aparecendo, só que distorcidas e perfeitamente encaixadas ao baixo, na frieza do ótimo liquid funk da faixa-título. "After Life" capta um pouco da aura do Photek dos tempos do clássico Modus Operandi, com uma variedade de timbres de bateria invejável. O rigor das programações é quebrado pelos sintetizadores plácidos em segundo plano. "Simplicity" encerra o EP com mais uma sucessão de beats singulares e timbres de teclado esvoaçantes, que se perdem em ecos até ficarem imperceptíveis.

Instrumental e agradabilíssimo de ouvir, Day & Night não é a salvação criativa e absolutamente original do gênero, mas traz consigo batidas sedutoras e timbragens que passam longe do lugar-comum, sempre correndo ao lado das baixas frequências que impulsionam o drum'n'bass. Não perca. 

"Instant Dreams": quebradeira na selva.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Disco Drum'n'Bass do Ano: Rudimental


A foto acima diz muito sobre o meu disco preferido de drum'n'bass em 2013. Tem um pouco de cada gênero dessas prateleiras reviradas em algum sebo pelo quarteto inglês Rudimental em seu debut Home, que saiu em Abril.


E que estreia. Seis singles foram extraídos do disco - que também chegou ao número um na parada inglesa, números que endossam a aceitação do som criado pelo grupo. A mágica aqui consiste na fusão de ritmos e texturas eletrônicas não pasteurizadas com uma vibração de forte apelo emocional - providenciada pelos órgãos Hammond, metais, cordas e, principalmente, por um senhor time de vocalistas convidados. É soul music moderna, embasada no difícil equilíbrio entre instrumentos acústicos (e não em samplers) e programações.

O drum'n'bass aparece em suas várias ramificações, do jungle enlouquecido de "Give You Up" até os beats atmosféricos de "Powerless" (esta com uma magistral sessão de cordas e vocais impressionantes da britânica Becky Hill):



Liquid funk acessível e radiofônico, "Waiting All Night" foi um dos singles número um de Home, no Reino Unido. Mais uma grata surpresa ao microfone, a cantora e compositora Ella Eyre tem apenas 19 anos, mas cantou com o desembaraço de uma Adele num hit com alto potencial de pista e um explosivo arranjo de metais:



A ótima Emeli Sandé canta em duas faixas, no soul pop "Free" e na dramática "More Than Anything", com backing vocals de elevação quase espiritual:



Outro single número um na Inglaterra, a popíssima "Feel The Love" aparece em duas versões na Deluxe Edition de Home: o bom soulful house do mix "Rudimental VIP" e o liquid funk original - que quase se perde entre um riff ordinário de sintetizador e uma batida que lembra um Pendulum genérico. Felizmente, a boa linha de baixo (de quatro cordas, mesmo) e o solo de trompete aliviam um pouco o apelo excessivo da faixa:



Pra quebrar o ritmo incessante das baterias, o Rudimental ainda investe em outras frentes, com resultados convincentes: downtempo regueiro que se transforma em house caribenha na deliciosa "Hide", soul encharcado de órgão Hammond em "Home", o R&B de "Hell Could Freeze", o dub de baixíssimas frequências de "Solo" e a house music elegante de "Baby" e "Spoons".

O Rudimental consegue com seu álbum de estreia um feito perseguido à exaustão: ser muito bem sucedido artística e comercialmente, focado num gênero que não é pop por excelência, como o drum'n'bass.

Com uma produção esmerada, arranjos brilhantes e vocais de tirar o fôlego, Home não é só o melhor disco de drum'n'bass de 2013, é um dos melhores discos lançados nesse ano.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Muito Bom Pra Ser Verdade


Finalmente caiu a ficha. O Rapture nunca passou de uma bandinha mediana - alguém resolveu carimbar disco-punk na testa deles - e vá lá que eles tenham no portfólio faixas interessantes como "House Of Jealous Lovers" (2002), mas levanta a mão quem acha que Luke Jenner canta bem. Com seu timbre anasalado - algo entre Pato Donald/Bart Simpson - Jenner era a pedra no sapato, a batata quente na boca, a... bom, você entendeu. Com ele, curtir o Rapture era tarefa ingrata. Pois bem, no seu novo álbum, 2000Hz, alguém teve a abençoada ideia de sugerir que ele se afastasse do microfone. Foi o que aconteceu. E uma nova banda surgiu. Mais eletrônica, diversificada, suingada, viajandona, e muito, mas muito mais dançante.


Bom, isso seria bom demais pra ser verdade. O Rapture, aquela banda nova-iorquina, não mudou nada, não que eu saiba. Luke Jenner deve estar armando outro álbum, sucessor do tenebroso In the Grace of Your Love, de 2011.

O The Rapture em questão é o inglês Stuart Lynch. Seu quarto álbum, 2000Hz, saiu no meio do ano e é o resultado da dedicação solitária deste tecladista, engenheiro de gravação e produtor, no estúdio. E apesar de trabalhar sozinho, o disco soa como uma coleção de faixas de quem anda interagindo muito com pessoas de gostos bem diferentes. É um grande barato que andava meio esquecido: gravar faixas de gêneros que são como óleo e água, mas fazem todo sentido num mesmo disco de eletrônica.

Nessa babel estilística, há desde o trance nível Tiësto - você decide se isso é bom ou ruim - em "Feel What You Feel" e "The Never Man", até o jungle mais casca-grossa (na definitivamente enlouquecida "2000hz"). No meio disso, bleeps de techno retrô ("Cobwebs & Clowns"), texturas ambient ("Listen", "Smoke & Mirrors") e breakbeat/industrial sujinho ("Theme From Silicon Dust"). Ocasionais guitarras, percussão ("The Maybe Man") e baixo ("In My Sight") temperam o molho sintético de Lynch.

2000Hz não é nada original, mas diz aí, qual foi o último disco de eletrônica realmente inovador que você ouviu? Sem forçar muito a barra, é um rolê interessante por ritmos e timbres desiguais, mas que aparecem bem amarrados nas onze faixas. O mais curioso dessa história é que Stuart Lynch cometeu um álbum de eletrônica em 2013 que não soa atual, e a dúvida que fica é se isso foi intencional ou não. Pode ser um atrativo a mais pra ouvir o disco.

2000Hz, o álbum: só o gostinho.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Marky 4.0


Dias atrás o paulistano Marco Antonio Silva - o DJ Marky - completou 40 anos de idade (e 23 de cabine). Pra relembrar sua trajetória, Marky mixou 78 faixas clássicas do seu case. Tem desde o soul/funk dos comecinho de carreira, passa por house e techno e chega no hardcore techno do início dos 90. O mix ameaça sair dos trilhos nesse ponto, porque a desconstrução rítmica é tamanha nesse período, que algumas músicas simplesmente não cumprem o principal objetivo de uma dance track: ser dançável. No finalzinho, Marky acerta a mão e faz um mini set de drum'n'bass (Omni Trio, E-Z Rollers, LTJ Bukem, Random Movement, Calibre), gênero adotado pelo DJ e que o levou ao estrelato. Vale ouvir: