Deixando de lado a aposentadoria do Orbital divulgada em 2014, os irmãos Phil e Paul Hartnoll tomaram fôlego para anunciar um novo álbum programado para Setembro (Monsters Exist, o primeiro de inéditas desde a trilha para o filme Pusher, de 2012), lançar há poucos dias o single “Tiny Foldable Cities” e ainda começar uma turnê agora em Maio, com datas para Inglaterra, Irlanda, Rússia, Espanha e Holanda. Nada mau pra quem aparentemente estava de saco cheio de carregar seus teclados obsoletos pra cima e pra baixo. “Tiny Foldable Cities” encaixa-se no perigoso guarda-chuva IDM - eletrônica até a medula - mas dispensa formalmente a pista de dança. A faixa tem um arranjo intrincado de sintetizadores e ao mesmo tempo uma melodia quase assobiável, que se afasta de experimentações estéreis facilmente encontráveis no gênero. Muito apreciável.
Damogen Furies, novo álbum de Squarepusher, divide-se em duas partes: a primeira, harmoniosa e regular, começa com o drum'n'bass na velocidade da luz da faixa de abertura "Stor Eiglass" (com melodia baseada em "Just Like Heaven", do Cure). Fim da primeira parte.
As outras sete faixas compõe a segunda parte. É preciso fôlego. O que vem a seguir é um rolo compressor de cortes secos, rufos impossíveis, claustrofobia e opressão, num tsunami cibernético que deve deixar Mike Paradinas choramingando baixinho assim que ouvir esse álbum. Não é o tipo de disco que eu colocaria num churrasco com amigos.
É desafiador e angustiante acompanhar Damogen Furies faixa por faixa e ouvir Jenkinson esticar os limites de sua música num nível de tensão que beira o surreal. Por vezes as coisas parecem que vão fugir do controle, como na metade final de "Kontenjaz", onde os efeitos vão se sobrepondo de tal maneira que a impressão que se tem é que não vai caber na música, em si. Às vezes Squarepusher tenta nos desorientar, como na introdução cheia de teclados ambient de "Exjag Nives". O que aparenta ser uma delicada faixa de progressive transforma-se rapidamente num dubstep mutante, que vira um breakbeat hardcore de timbres ásperos e viradas de bateria inacreditáveis. Menção honrosa também para o ameaçador riff de "Baltang Arg"- que Jenkinson faz questão de picotar com pouco mais de um minuto, até sobrarem só estilhaços colados quase aleatoriamente sobre a polirritmia indecifrável das baterias. Construir, despedaçar e reconstruir um tema dessa maneira é algo um tanto brutal ou divino; assistir o processo no conforto dos fones de ouvido é fascinante. "Kwang Bass" leva o instrumento oscilante e minimalista do título à um passeio por paragens de drum'n'bass atmosférico e rajadas nervosas de ruído eletrônico e estrondos metálicos. "D Frozen Arc" lacra o disco com mais pistas falsas espalhadas: do clima soturno inicial restam poucos vestígios até o final, numa faixa com andamentos genialmente distribuídos de maneira irregular.
A duração de apenas 44 minutos de Damogen Furies é providencial. Absorver esse disco em doses homeopáticas é fundamental pra perceber que essa é a musica eletrônica mais violentamente sedutora disponível no mercado.
Paterson e seu atual colaborador, Thomas Fehlmann.
Nunca é tarde pra descobrir o The Orb. Cria da mente mucholoca de Duncan Alexander Robert Paterson - Dr. Alex Paterson - e do visionário Jimmy Cauty (The KLF), o projeto apareceu no final dos 80 com um mix de eletrônica, dubismo, psicodelia e ficção científica. Com temas focados num tipo de som que fosse adequado pro descanso pós-gandaia dos ravers, a experiência resultou no surgimento da ambient house.
O CD duplo History of the Future saiu em Outubro e compila boa parte dos singles do Orb pela gravadora Island no disco 1, e remixes no CD 2. Na versão Box Set, são três CDs mais um DVD com apresentações ao vivo, vídeos e parte de um show realizado em 1993, em Copenhagen.
O primeiro single do Orb, "A Huge Ever Growing Pulsating Brain That Rules From The Centre Of The Ultraworld" (com sample de "Loving You", de Minnie Riperton) aparece em duas versões (uma dançável, outra não), e ambas as faixas ganharam um fade out na metade da extensão de suas edições, assim como convenientemente foi feito com a fantástica "Blue Room", que não chega nem perto da duração original. Mesmo com impraticáveis 40 minutos (!), "Blue Room" (com uma impressionante linha de baixo de Jah Wobble) chegou ao número #8 no paradão inglês, em Junho de 1992 e catapultou o álbum U.F.Orb, inacreditavelmente, ao topo da parada, um mês depois. Outros tempos.
O veredicto é um só: se você não conhece muito bem o The Orb, History of the Future é absolutamente essencial.
"Blue Room (7" Mix)": boa de pista, boa de fone de ouvido.
O britânico Jonathon Fogel provavelmente nunca ouviu Aphex Twin.
Seu EP mais recente, Matchsticks (que ele assina como Stray), é coisa de quem passa noites em claro com o nariz na frente do notebook fuçando em softwares envenenados pra produzir esse pseudo-drum'n'bass de batidas em convulsão. Em "Dropping Bombs" ele parece querer provar que pode rufar qualquer coisa com velocidade mais absurda possível. Richard David James já fez tudo isso há quase 20 anos, Jonathon, com a diferença de que ele tem um senso melódico invejável, algo totalmente ausente no teu EP. Em "Matchsticks", Stray desacelera e cai no clichezão do vocal com pitch lá no fim da régua. Tsc, tsc. Se depender de artistas com essa aridez musical como a que Stray apresenta, o drum'n'bass está com os dias contados. Sai desse quarto, guri. Vai transar, vai.
Mike Paradinas tem tudo pra se tornar o Kenny G do IDM. Depois de
seis anos sem gravar como U-Ziq, o britânico retoma o projeto com o recém
lançado Chewed Corners.
OK, nem tudo no álbum é essa groselha toda. "Christ Dust", por exemplo, tem um arpejo que aparece como um helicóptero atravessando a música. "Monyth" carrega na tensão, "Tickly Flanks" exagera nos rufos de percussão e "Wipe" tem um synth meio derretido.
Em compensação, "Smooch" é ambient com coros Mellotron, "Houzz 10" é techno diluído e "Feeble Minded" exibe synths que parecem ter saído de um disco do Jean-Michel Jarre de 1984.
Pô, quando os caras curram a eletrônica e entregam uns monstrengos tipo o último do Autechre, nego reclama. Quando o cidadão facilita as coisas pro ouvido, reclama também? Nada disso. Não tô reclamando. Gostei muito de Chewed Corners. Só não espere ouvir algo como o drill'n'bass alucinado de Lunatic Harness (1997), que não vai rolar nesse álbum.
Mike Paradinas vir com um disco tão gostoso de ouvir também é uma forma de esquisitice. "Mountain Island Boner": Paradinas in love.
Dessa vez não deu. Eu que defendi com unhas e dentes o álbum anterior do Autechre (Oversteps, 2010), dessa vez penso em jogar a toalha. O que Oversteps acertou em pelo menos 40% das faixas, o novo álbum do duo britânico ameaça botar a perder.
Exai (o título é a pronúncia em inglês para o numeral romano XI, alusivo ao décimo primeiro disco da banda) é (surpresa!) muito difícil. Bastam os primeiros segundos da faixa de abertura "Fleure" pra perceber que passar duas horas tentando se concentrar no som duro e abrasivo desse álbum é uma tarefa que exige dedicação. "irlite (get 0)", "bladelores" e "cloudline" ultrapassam os dez minutos de duração. "irlite (get 0)" é jazz extraterreno, Herbie Hancock numa jam session direto de Marte. Ela vai razoavelmente até a metade. Mas depois de uma pausa amedrontadora, vira trilha pro David Cronenberg. Há borrões onde deveria estar a percussão, há notas graves de sintetizador planando como aviões da Luftwaffe prontos pra atacar. "bladelores" é um tema menos austero, uma nuvem espessa de timbres atmosféricos conduzida por um beat industrial. "cloudline" é para os fortes. Um exercício glitch denso, arrastado. O entroncamento de batidas desconexas de "prac-f", os timbres de bateria opacos de "vekoS" e a pancadaria de "nodezsh" não deixam dúvidas sobre a criatividade dos programadores Rob Brown e Sean Booth, mas a desconstrução no limite cansa. "deco Loc" me faz lembrar da primeira e única vez que ouvi Tago Mago do Can inteiro. Se tem uma música mais próxima de você, ouvinte médio de eletrônica, ela é "jatevee C". O resto das 16 faixas desse vinil quádruplo (!) que sai no começo de Março é de nada fácil digestão. Se é isso que te atrai, vai com fé.
A canadense Claire Boucher é jovem, bonita, canta e toca teclados. Mas não pense em La Roux ou Little Boots, sua encarnação artística Grimes está mais pro terreno de Lykke Li e Laurie Anderson. E apesar de seu debut Visions (4AD) soar vanguardista (mas não pretensioso), o disco pode ser igualmente curtido por quem não está nem aí para as possíveis aspirações que vão além da simples distração auditiva por parte do Grimes.
O que acontece no álbum é uma fusão esvoaçante de Enya com Elizabeth Fraser e de synthpop com IDM, que possibilita tanto vôos experimentais sustentados por vocoders ("Eight") quanto funks de plástico como "Colour of Moonlight (Antiochus)" - que renderia um mashup interessante com "When Doves Cry" do Prince. Pra se entregar de cara, basta ouvir o primeiro minuto da sequência de acordes engrenados de baixo sintético da segunda faixa, "Genesis", ou a canção a seguir, "Oblivion". Os vocais delicados e ininteligíveis (aí está mais um elemento a favor dela) de Claire completam o trabalho. O álbum está cheio de batidas criativas ("Visiting Statue"), timbres esquisitos ("Symphonia IX (my wait is u)"), lindas passagens de pop eletrônico/etéreo ("Nightmusic") e mostra, principalmente, que existem muito mais maneiras de cantar do que você imagina. Uma estréia com o pé direito.
Amon Tobin, aquele cara que deixou todo mundo com a mão no queixo com seus dois primeiros discos de jazz eletrônico torto (Bricolage de 1997 e Permutation de 1998); especialista em desconstrução rítmica e em criar batidas tão abrasivas quanto originais, e considerado uma das figuras mais inventivas da música eletrônica atual, está com disco novo. Monthly Joints Series perde em frescor porque aqueles ruídos de furadeira ordenados ritmicamente ("Trickstep") já não impressionam tanto quanto lá no meio dos 90. Mas com um pouco de paciência, dá pra curtir as experimentações de Tobin (carioca de nascimento, radicado em Londres e atualmente no Canadá) com instrumentos de percussão inidentificáveis ("Delpher") ou com o que seria o funk em Saturno, na visão distorcida do artista ("Dualistic"). É bem verdade que ás vezes as coisas saem do controle ("Shut Down") e dá a impressão que o termo "laptop music" foi cunhado pra explicar bobagens como essa.
Em primeiro lugar: esqueça o rótulo IDM que carimba o trabalho do Autechre. A sigla inglesa para Intelligent Dance Music é uma bobagem, porque coloca no mesmo saco artistas como Aphex Twin, LFO, Ulrich Schnauss, Amon Tobin e u-Ziq, e todos tem muito pouco a ver entre si. O que os torna parecidos é um certo gosto pelo experimentalismo eletrônico, mas isso não significa exatamente Dance Music Inteligente, porque a maior parte do material desse pessoal nem é dançável. A dupla britânica Autechre existe desde 1987 e sua extensa discografia ganhou esse ano mais dois discos: o álbum Oversteps lançado em fevereiro (download) e Março (CD/LP) e o EP Move Of Ten disponibilizado para download em Junho e no formato físico em Julho. Rob Brown e Sean Booth são uma usina de idéias, fato comprovado pela diversidade dos experimentos (e principalmente dos acertos) em Oversteps. Eles não facilitam nada a vida do ouvinte, e mesmo assim é difícil não ficar hipnotizado com a batida desorientadora e os timbres subterrâneos de "r ess", ou com o rolo compressor de distorções em "ilanders". Soando como uma banda de jazz eletrônico que constrói, desenvolve, destrói e reconstrói os temas, as faixas de Oversteps apresentam incursões de música ambiental como na chuva de cristais sintetizados de "see on see", ou na impressionante "known(1)": aqui os timbres sugerem uma espécie de koto robótico que ajudam a criar a atmosfera oriental da música, da mesma forma que "O=0" lembra algo como um xilofone cibernético explorado por mãos cheias de chips e placas de circuito. Já o EP Move Of Ten é imediatamente menos acessível que Oversteps e investe pesado em desconstrução rítmica ("Etchogon-S"), techno encorpado ("M62") e faixas sombrias e opressivas; ora carregadas de ruídos inaudíveis como em "Cep puiqMX", ora trazendo um clima de desolação contemplativa ("nth Dafuseder.b"). Só não estranhe os títulos das canções convertidos em códigos indecifráveis pelo Autechre: a qualidade das composições é tão boa que a música realmente dispensa símbolos de identificação imediata, como letras.