domingo, 8 de outubro de 2017

Sofrência


Bem-vindo ao mundo VIP do Chainsmokers: narcisismo, ostentação, hedonismo, famosidades, caras, bocas, poses, tapetes vermelhos... e música ruim. É o vazio existencial traduzido em beats de EDM fuleiro que a dupla americana Andrew Taggart e Alex Pall devolve em forma de canções como "#Selfie", o primeiro hit, de 2014: "Vocês podem me ajudar a escolher um filtro? / Eu não sei se eu deveria escolher o Xxpro ou Valencia / Eu quero parecer bronzeada / O que devo colocar na descrição? / Eu quero que seja algo inteligente / Que tal 'vivendo com minhas vadias, #viver' / Eu só consegui dez likes nos últimos cinco minutos / Você acha que eu deveria apagar? / Deixa eu tirar outra selfie". De uma composição pueril com a nítida intenção de tirar proveito de um termo em voga, o Chainsmokers foi ao encontro de uma geração prontinha pra abraçar, por simples identificação, uma dance track fadada ao sucesso: o single vendeu mais de um milhão de cópias só nos Estados Unidos e o vídeo tem mais de 500 milhões de visualizações no Youtube.


Depois de mais alguns singles e EPs de sucesso e amparada por dígitos acima de seis zeros, a dupla chegou a 2017 com material suficiente para o primeiro álbum, Memories...Do Not Open (saiu em Abril, pela Columbia). Não foi surpresa, portanto, que o disco chegasse no topo do paradão da Billboard. É uma coleção homogênea de dance music de linha de montagem, provavelmente manufaturada com softwares comuns a produtores da mesma estirpe (como Calvin Harris, Avicii e nossa estrela canarinho Alok), porque soa exatamente igual a esse pessoal. Fácil constatar que Memories... atingiu em cheio seu público-alvo, de obcecados por som automotivo (porquê os graves aqui são surreais) até quem acha que a Tomorrowland é, realmente, a Terra dos Sonhos da música para dançar de todo o Universo. O álbum tem metade das faixas narrada (porque "cantar" não é exatamente o verbo aqui) de forma monocórdica e semi rouca por Andrew Taggart e o restante traz gente tão ruim quanto: da insossa Emily Warren (ligada ao selo do picareta Dr. Luke) até o arroz de festa do Coldplay, Chris Martin (na sofrível "Something Just Like This").

Não tem nada, mas nada, minimamente aceitável nesse Memories...Do Not Open e a única boa notícia é que "Honest", single mais recente do duo, alcançou apenas um modesto número 77 no paradão de singles da Billboard, o que diz muito sobre a descartabilidade e a volatilidade do pop de hoje quando a ameaçadora sentença bate à porta: não vendeu, babau. Quem sabe eles somem tão rápido quanto apareceram?

"Something Just Like This": Chris Martin beijando a lona.

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