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segunda-feira, 1 de maio de 2017

Amnésia Techno


Tive que dar uma fuçada no Youtube pra ver se lembrava de alguma coisa de Undercover, o bem avaliado álbum do produtor canadense radicado na Alemanha Marc Houle, de 2012, já que só tinha a imagem da capa forte na memória (um Abraham Lincoln de riso ameaçador e olhos diabólicos). Em vão. Ouvi algumas músicas, mas nada que estivesse minimamente registrado em algum canto esquecido do meu cérebro.


Seu recente lançamento, Sinister Mind (saiu em Março pela Items & Things, selo germânico que tem Houle como um dos fundadores), vai pelo mesmo caminho. O que não deixa de ser curioso, porque o minimal techno das nove faixas prima, obviamente, pela repetição de riffs, arpejos e loops, o que teoricamente deveria fazer com que a quase exaustiva duração do processo (as faixas tem, em média, seis minutos) deixasse gravada ao menos trechos da música contida aqui. Ouvi Sinister Mind várias vezes e o que ficou está mais associado à minha memória de curto prazo do que qualquer outra coisa, prontinho pra ser esquecido. Não me culpe. O responsável é o próprio Houle e a volatilidade de uma música que vai permanecer nos fones de ouvido dos fãs mais ardorosos do techno autor por algum tempo, é bem provável que seja executada em clubes underground e depois, periga sumir sem deixar vestígios - como aconteceu comigo e Undercover. Se reconheço, por exemplo, “Energy Flash” (Joey Beltram), "LFO" (LFO) e "Nude Photo" (Rythim Is Rythim) já nos primeiros acordes, porque o mesmo não acontece com qualquer coisa de Sinister Mind? Longe de mim querer insinuar que Houle não tem talento, mas se o objetivo de agrupar algumas canções e lançar isso em forma de um álbum não é que o conjunto mereça ser, no mínimo, conservado na lembrança, então o que justifica lançar discos? As tentativas são válidas, OK. O gancho arabesco de sintetizador da abertura "Don't Think of Me" e as oscilações da frase de teclado da irresistivelmente sacolejante "Loafers" são boas investidas, mas são oásis encontrados eventualmente num álbum em que a média é enfadonha: "Failure" justifica o título de uma canção soporífera, "Dark Tom" parece ter teclas apertadas aleatoriamente em meio a espancamentos metálicos de bateria e "Conbular" arrasta-se serpenteando efeitos que voam de um canal para o outro das caixas de som. Uma das poucas que destoam do geral é o encerramento "Paligama" - techno que erige uma ponte imaginária entre Detroit e Berlim, engrenada e hipnótica. O problema é que em quase um hora, pouco mais do que vocais/vocoders assustadores e timbres angustiantes de sintetizador chamam a atenção. Muito pouco.

Sobre Sinister Mind, Houle disse que depois de mais de dez anos fazendo música, sentiu que era um bom momento para parar e avaliar sua jornada musical e que não havia planejado uma trilogia, mas percebeu que tinha tanta coisa para dizer, que limitar a apenas um LP não iria contar a história toda. O primeiro álbum da suposta série, como o título indica, refletiu as tendências mais escuras do seu som, conforme ele mesmo disse. A representação sonora desse propósito deixou a desejar no primeiro volume, mas estou curioso para ouvir os próximos.


"Loafers": oásis.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Melhores de 2016 - Discos (#01: Trentemøller)


"Eu simplesmente amo a ideia de que você pode construir este mundo imaginário com música. Para mim, a música é ficção. Não é apenas algo que existe separadamente da realidade. A ficção é a realidade irreal. Ambos se pertencem e são um só. Eu acho que a ficção e a música podem ser usadas para confrontar e criticar a realidade, mas também para escapar dessa mesma realidade. E essa é a beleza disso."

Assim o produtor dinamarquês Anders Trentemøller definiu Fixion, quarto álbum de sua carreira iniciada há pouco mais de dez anos com o impressionante debut The Last Resort, de 2006. Se na sua estreia Trentemøller já exibia uma paleta de cores granulado-escurecidas espalhadas pelo seu downtempo minimal, em Fixion a monocromia toma conta das telas. O darkismo à que o autor submete suas composições revela um elo perdido entre Faith, do The Cure (1981) e o último álbum do Röyksopp, The Inevitable End, de 2014 (que a cantora Robyn sentenciou como "triste, mas não frio"). Fixion, porém, é tudo isso. Triste, frio, nublado, denso. Ondas geladas de sintetizadores castigam canções como a abertura "One Eye Open" (emoldurando os ótimos vocais da também dinamarquesa Marie Fisker); andando lado a lado com os tons menores da guitarra em "Never Fade" e finalmente surgindo ameaçadores na angustiante "Sinus". No ótimo single "River In Me" (com vocais de Jehnny Beth, do Savages), baixo e bateriam duelam entre si enquanto os teclados aparecem mais discretos com um riff de sopro encaixando-se na melodia, mas o estado de ansiedade criado pelos synths volta com força na faixa seguinte, a lúgubre "Phoenicia". O clima de isolamento, intenso e pessoal, ronda a maioria do disco e atinge níveis de beleza e encantamento sublimes, em faixas como a instrumental e hipnótica "November" e a etérea "Where The Shadows Fall". A sufocante "Spinning" (mais uma vez com vocais de Marie Fisker - que sugerem uma Elizabeth Fraser nórdica) aumenta a sensação de afastamento; resultado duplicado pela percussão eletrônica lenta e ritualesca e a profusão de timbres de tonalidade cinzenta dos sintetizadores - os mesmos que acompanham Jehnny Beth no pós-punk "Complicated", sua última aparição no álbum.

Fixion é um disco de eletrônica visceral aparentemente menos complexo musicalmente que seus lançamentos anteriores, mas que, por outro lado, facilitam a vida de Trentemøller no palco - e isso tem se mostrado extremamente positivo em sua turnê recente, com shows lotados pela Europa - em que reproduzir o rock gótico imaginado e concebido pelo produtor no álbum torna-se uma tarefa menos árdua e mais natural. Fixion, o disco e a tour, são vencedores. E evidenciam que Trentemøller, entregue sem medo à experimentação e simultaneamente ao tino pop, é um dos grandes músicos/produtores da atualidade. 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

I Can't Dance


Toby Tobias e Ricardo Villalobos: dois produtores respeitados no universo dos beats que lançaram singles novos nas últimas semanas. Nenhum me entusiasmou.

O britânico Tobias soltou agora em Junho All Rising, house-disco padrão com uma linha de baixo desengonçada e vocais picotados pelo sampler. Médio.



Já o chileno Villalobos continua sua cruzada minimal techno com o bocejante Who Are We? EP. Percussão esparsa e experimentos vocais no segundo plano em "Buffalo Demon", longas divagações do conterrâneo Jorge González na pedante "Who Are You?". Depois de ouvir essa, lembrei da Betty Boo e sua "Hey DJ! (I Can't Dance To That Music You're Playing)".

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Em Círculos


O The Field já teve - pra mim, bem claro - momentos de magia concentrada e hipnose pura. A saber, em dois de seus quatro álbuns: From Here We Go Sublime (o debut, de 2007) e a consolidação com o terceiro disco Looping State of Mind, de 2011. Mas acho que agora deu. Disposto a levar minimalismo, drone, compressão, samples e loops às últimas consequências, o sueco Axel Willner fez do seu novo disco Cupid's Head, uma ode à chatice. E haja boa vontade pra atravessar seis looooongas faixas em que o techno do The Field anda cambaleante e em círculos o tempo todo. É de ficar tonto.


Estranhamente, são faixas de bumbo inalteradamente reto (com exceção ao exercício vocal fim da linha de "No. No..."), mas o impacto que elas causam é algo que não supera a vontade de levantar do sofá. Stephen Hawking definiria como "o triunfo da inércia sobre a cinemática".

Tô realmente curioso pra ler uma resenha de alguém que manje do riscado - porque minha opinião é superficial e talvez imediatista - e que se disponha a defender Cupid's Head com argumentos convincentes. Eu não consegui ouvir inteiro duas vezes.

Como não deu pra embedar, dá pra ouvir a faixa título e também primeiro single "Cupid's Head", lá na página da Kompakt no Soundcloud.

Update: a Kompakt liberou o áudio de "Cupid's Head" no Youtube:

domingo, 24 de junho de 2012

Doze do Four


Acabou de sair single novo do Four Tet, projeto eletrônico-cabeçudo do britânico Kieran Hebden.

 

Jupiters / Ocoras veio nesse belo doze polegadas aí acima e demonstra que o Four Tet continua com sua tarefa de entortar a eletrônica pra fazer seu som soar o menos óbvio possível. "Jupiters" abre com dois minutos de cascatas de sintetizadores preparando o terreno para a percussão aquosa e bumbos de afinação grave que vem a seguir. Já "Ocoras" é mais simpática à pista de dança, com seus teclados narcóticos e inversamente proporcionais à excitação que o groove minimal causa nas pernas. Só não chama isso de IDM que eu saio da sala.

"Ocoras": Four Tet fugindo dos clichês.

terça-feira, 13 de março de 2012

Dupla Dinâmica



Comecei a desconfiar que aquela história de "dois gênios não cabem na mesma lâmpada" pode ser verdadeira depois de ouvir Ssss, o álbum que marca a volta da parceria entre Vince Clarke e Martin Gore com o projeto criativamente chamado de VCMG. Erasure e Depeche Mode tomaram caminhos bem distintos em suas respectivas trajetórias, mas era de se esperar que pouca coisa da sonoridade das duas bandas respingasse nesse trabalho. E assim foi. Ssss é um álbum techno, minimalista, frio e que se auto-explica em todo seu distanciamento a partir do momento em que se descobre que Clarke e Gore o compuseram trocando e-mails. 


Vince há tempos perdeu aquela vibe disco/cabaré que pontuava alguns de seus hits mais famosos ("Love To Hate You", "Drama", "Stop!") e a falta de comunicação com a pista faz diferença na hora de produzir música pra ela. Isso talvez explique o fato da dupla optar por um disco de minimal techno com um delay de pelo menos oito anos pós-estouro do gênero. Ssss é duro de cintura e despreza a melodia em favor de beats ininterruptos, faixas longas, efeitos e repetição. Honestamente, eu esperava que a colisão entre Martin e Vince trinta anos depois do afastamente musical de ambos rendesse algo mais mundano - onde alguns dos temas preferidos de Gore (luxúria, amor, relações, pecado) estivessem inseridos de alguma forma numa música capaz de instigar os quadris e a libido - tudo sustentado pelas mãos pacientes e pelo cérebro analógico de Clarke ("_ Não tenho muita habilidade para teclados... tenho que apertar uma tecla de cada vez", disse ele no começo dos 90). Acho que não foi bem isso que aconteceu, porque Ssss não é a minha idéia de música ideal para animar uma noite com sorrisos no rosto e diversão sem fim, mesmo que o disco coubesse no catálogo da Kompakt.

"Spock": fogo brando para as pistas.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Em Círculos


Axel Willner, o produtor sueco por trás do bigode e do pseudônimo The Field é minimalista até nas capas de seus álbuns: a arte de seu terceiro disco (Looping State Of Mind, sai oficialmente em Outubro pela alemã Kompakt), é igualzinha a de seus antecessores Yesterday And Today (2009) e From Here We Go Sublime (2007).


A despeito de sua escassa variedade temática na escolha das embalagens, Willner sabe apertar os botões certos no conteúdo. Com sete longas faixas, seu modus operandi - que o título já entrega de cara - consiste em construir um tema principal e repeti-lo ao infinito; adicionando elementos aos poucos e crescendo devagar com BPMs contidos até chegar num estado de quase transgressão física, como na faixa de abertura "Is This Power", por exemplo: levam quase cinco minutos para a nuvem de sintetizadores se dissipar e a música ganhar uma amostra de guitarra desolada que percorre dois minutos de calmaria, até um rufo de caixa recolocar tudo no caminho de novo. "It's Up There" segue na mesma direção com beats engrenados e teclados hipnóticos, enquanto "Burned Out" tira o pé do acelerador transformando-se numa faixa ambient emoldurada por sons de guitarra evervescentes e vozes etéreas. O álbum tem bumbos macios, linhas de baixo fluidas e a maioria dos registros aqui evocam uma espécie de paisagismo sonoro a partir de edificações lineares - exceto pelas duas últimas faixas, onde o ritmo é quebrado em favor de duas canções que abusam dos loops, mas abrem mão da batida 4x4. Looping State Of Mind pode até tocar em pistas muito específicas, mas nem sei se a tag dance music é capaz de ser um dos rótulos desse disco. Talvez "Arpeggiated Love" com seus quase 11 minutos de techno espacial seja a que mais se aproxime em intensidade de ter suas notas iluminadas por estroboscópicas, mas no geral a intenção é prender pela mente, não pelos pés. E o The Field consegue.

"Is This Power": life is a loop.