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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Too Much Love



Brandon Flowers é um cara do bem. Demais. Família. Polido, educado, certinho. Seu bom mocismo chega a ser irritante. Até aí, nada demais. Mas, cacete, se o cara é um junkie suicida e esquisitão, incomoda. Se é um indivíduo de boa, normal e tranquilão (nem sei definir isso de ser normal exatamente, mas digamos que é um cidadão que não rasga nota de 100 dólares), incomoda também? Ah, dá um tempo. Deixa o Flores. Certo, e o que isso tem a ver com a música? Eis o ponto: tudo. As chances de suas composições refletirem essa falta de atitude toda (ia escrever bundamolice, mas achei meio pesado) são altas. Não para minha surpresa, é exatamente isso que acontece em The Desired Effect, seu recém lançado segundo álbum. Insosso, piegas e, pra ficar numa expressão super na moda (não vai faltar gente pra dizer), é "muito amor" (argh).

Ah, OK. Ele é um artista pop. Não precisa expressar sua indignação com a crise migratória do Mediterrâneo e o consequente êxodo africano em direção à Europa em condições sub-humanas, que tem tomado os noticiários recentemente. Até porque, poderia soar falso e oportunista, hm? Quem precisa de outro Bono Vox? Então, a temática do Flores é mais leve, positiva, sonhadora e, verdade seja dita, utópica. Artisticamente, ele rivaliza hoje com o picolé de chuchu em que se transformou Chris Martin, do Coldplay. Assim como Martin, Flowers reveste sua música com pinceladas de rock alternativo, synthpop e new wave, o que deixa tudo com uma cara moderna e certa aura de credibilidade. Conversa. Brandon teve a manha de surrupiar o clássico technopop "Smalltown Boy" do Bronski Beat pra servir de base pra sua "I Can Change" (a alardeada participação de Neil Tennant nessa faixa restringiu-se a uma frase) e mesmo com gente como Bruce Hornsby e Carlos Alomar nos créditos, o máximo da ousadia limitou-se à levada electro-caribenha do single "Still Want You". De resto, auto tune emotivo tipo Owl City na cafona "Lonely Town", rockabilly eletrônico com cheiro de picaretagem à Jeff Lynne em "Diggin' Up The Heart", instrumentais inofensivos, coros fofinhos, metais suntuosos, arranjos melosos...  

A impressão que tenho é que Flowers gravou esse disco no meio de uma plantação de girassóis, sempre ao nascer do sol, olhando pro horizonte e estufando o peito enquanto despejava as palavras de ordem que formam este pequeno manual de autoajuda de 40 minutos: "follow your dreams", "it's gonna be alright", "dreams come true", etc... É só um disco pop, eu sei, mas tem aquele sorrisinho desconectado do mundo real que insiste em aparecer nas dez faixas. Não tem audácia, é musicalmente datado e as letras - entre banais e indiferentes - não ajudam em nada. Lair Ribeiro deve estar orgulhoso.

"I Can Change": roubar não é pecado.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Killing The Killers

 
Eu nunca entendi muito bem o significado da expressão "coxinha". "Fulano é coxinha", "são um bando de coxinhas", etc... Parece que a pecha tem mais de um sentido, mas acho que tem mais a ver com o cidadão que é comportadinho, certinho, chatinho. Mais ou menos como o Killers 2012.


Battle Born, o quarto e recém lançado álbum da banda, é exatamente assim. Um som extremamente trabalhado, polido, esforçado. Há um tratado de não-agressão no disco. Nada aqui incomoda, tudo flui com um positivismo a um passo do irritante. Chavões são distribuídos à rodo, os sintetizadores são exagerados, a música é grandiloqüente e épica e os refrãos miram os estádios por onde a banda deve passar com a próxima tour. Não admira que Battle Born soe assim, com gente como Steve Lillywhite (Rolling Stones), Stuart Price (Madonna) e Daniel Lanois (U2) na produção. The Killers virou a banda que a mamãe quer pra genro, o branco que a família merece. E ainda assim, uma boa banda. Qual o pecado em ser um cara comum? Brandon Flowers é meio caretão, suas letras ficam naquele lenga-lenga de "c'mon baby, the stars are shining", mas isso combina com a imagem de bons moços e com o som quase inofensivo do quarteto. Battle Born é curtível, sim. Tanto quanto um álbum do U2 seria em 1987 - com o messianismo em estado febril de Bono e tudo. Brandon Flowers parece saber exatamente onde atingir seus fãs com canções emotivas como "Be Still", que certamente vai figurar rapidinho entre as favoritas dos seus admiradores. A gente já viu esse filme várias vezes. Foi assim com o 10cc, com o Hootie and The Blowfish e, ops, olha o Killers se infiltrando no grupo aí. Nada a reclamar. Viva os coxinhas.
 
"Runaways": "...the stars are shining".